DIGA-ME QUAIS ESPORTES PRATICAS E TE DIREI QUEM ÉS!

A identidade esportiva dos brasileiros está passando por uma reconstrução. A maneira como nos relacionamos com o esporte foi ampliada, tornou-se mais rica, complexa e incorporou formas diferentes de protagonismo que hoje ultrapassam a esfera da prática e do consumo. Diversidade, personalização e colaboração são apenas algumas das cores desse novo retrato desportista no país, no qual fãs, heróis e mitos alternam posições no topo do pódio.

Uma pelada com os amigos para socializar, uma corrida no parque para elevar o bem-estar ou mesmo uma partida de queimada para ocupar espaços públicos das cidades. Em suas variadas manifestações, o esporte tornou-se muito mais do que somente a expressão das potencialidades físicas e mentais humanas. Por meio dele nos inserimos em grupos sociais, expressamos nossos valores pessoais, buscamos entretenimento e saúde e nos inspiramos para outras áreas da vida. Para muitos, esporte é vida e, para além da dimensão da prática, a escolha do esporte é parte integrante do processo de formação da identidade pessoal e das relações humanas.

Atire a primeira bola quem não se identifica com os seguintes aspectos atribuídos aos esportes:

Reencontrei o grupo dos amigos da adolescência no WhatsApp. A gente não se via há muito tempo. Cada um torce pra um time e a gente fica ali, fazendo piadinha uns com os outros e retomando os velhos tempos.”
JORGE, 42 ANOS, COMERCIANTE E TORCEDOR

Tem três coisas do rúgbi que todo mundo deveria aplicar na vida, coisas que a gente vê no campo: a humildade, a determinação e a raça. Essas coisas não são somente tática, não é minha técnica que vai mudar, isso faz parte da nossa maneira de ser.”

GABRIEL, 31 ANOS, ADVOGADO E PRATICANTE DE RÚGBI

Gosto de ver os jogos de vôlei na televisão, jogos da seleção brasileira. Mas também gosto de acompanhar o Brasil jogando em qualquer esporte: no vôlei, no futebol, na ginástica olímpica…”.

ELISABETH, 27 ANOS, DECORADORA E TORCEDORA

Para mim, esporte é um parque de diversão.”

JONAS, 19 ANOS, ESTAGIÁRIO E SKATISTA

A minha turma de ciclismo tem grupo no Facebook e no WhatsApp. Compartilhamos os trajetos feitos e nos desafiamos, isso é muito estimulante!”

LUIS, 39 ANOS, MÉDICO E CICLISTA

Para um determinado perfil de pessoas, é difícil se descrever sem falar de suas atividades físicas: o esporte constitui uma das partes mais importantes de como definem suas personalidades. Nestes casos, o corpo em movimento funciona como um veículo de percepção, performance e forma de se apresentar no mundo. A paixão por modalidades esportivas ultrapassa a ótica da mera diversão e do lazer para se encaixar na composição identitária do indivíduo e da sua postura diante da vida.

Eu não me imagino participando das Olimpíadas ou sendo uma jogadora profissional, mas o vôlei é a minha ponte para conquistar outros sonhos: estudar fora do país, conseguir uma bolsa e tudo mais.”

GABRIELA, 16 ANOS, ESTUDANTE

Mas em que momento a atividade esportiva se insere na vida das pessoas?

E de que forma essa relação evolui ao longo do tempo?

Da infância à terceira idade, a relação das pessoas com os esportes é marcada por momentos-chave que indicam não apenas um crescente acúmulo de vivências e experiências esportivas, mas também fases tão diversas quanto os valores pessoais que elas espelham, construindo um tipo de MAPA DE FORMAÇÃO DA IDENTIDADE ESPORTIVA:

Até 11 anos

Relação com o esporte
Relação com os valores positivos do esporte como um todo

IDENTIDADE COLETIVA
Esporte inclui a criança em uma nova esfera social

12-20 anos

Relação com as modalidades
Fase de descobertas e experimentações

IDENTIDADE INDIVIDUAL
Os valores individuais de cada modalidade começam a gerar identificação e ajudam os jovens a se expressarem

20-30 anos

Esporte ganha fortes concorrentes
A vida ganha novas dimensões e o esporte perde espaço

IDENTIDADE INDIVIDUAL + REFORÇO COLETIVO
Novos grupos sociais podem trazer novos hábitos, mas a frequência de prática/ acompanhamento tende a ser menor

30-40 anos

Reencontro com o esporte
Retorno do esporte à rotina

IDENTIDADE INDIVIDUAL
Consolidação da identidade esportiva

+40 anos

Relação qualificada com o esporte
O esporte como um catalisador social e de aprimoramento da rotina

REFORÇO DA IDENTIDADE COLETIVA/ SOCIAL
Além de trazer um ganho ligado à saúde, o esporte funciona como um grande vínculo de socialização

Em cada fase da vida, esse processo de formação de identidade passa por percursos e cenários únicos de contato com os esportes, que são introduzidos numa ampla gama de contextos.

O processo de descoberta do esporte costuma ser uma experiência individual peculiar e fora de padrões. Cada pessoa descobre e experimenta a prática esportiva de acordo com um conjunto de variáveis particulares e significativas às suas vidas. De maneira geral, esse primeiro contato com o esporte se dá a partir de alguns caminhos, motivações, escolhas e percepções que operam como portas de entrada:

Meu corpo, minha medalha

Cada corpo é único como uma espécie de “senha” que diferencia cada indivíduo, como suas impressões digitais – tão únicas também são as nossas motivações para manter a saúde física e mental. Nesse sentido, o apelo funcional do esporte – seja no exercício ou nos cuidados com a alimentação – marca o discurso e a forma com que as pessoas percebem o corpo e reagem em suas vontades únicas de modificá-lo.

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Família, meu pódio

É inegável que existem inúmeras relações fundamentais para a construção de um ambiente familiar em que se possa atender aos interesses e às necessidades vinculados ao esporte. Entretanto, as redes familiares não obedecem mais a uma ordem cronológica ou hierárquica; as redes se expandiram e se tornaram mais sinceras e íntimas: todos os integrantes familiares são influenciadores e influenciados.

Amigos, minha torcida

A influência das amizades muitas vezes pode substituir o lugar da família, no contexto de influência sobre a escolha ou participação nos esportes. A busca por pertencer e reconhecer em um grupo social os códigos que nos representam também exercem papel fundamental na formação da nossa identidade esportiva. As redes sociais contribuem para potencializar essa relação, em especial entre os mais jovens.

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Escolas e Clube

Quem não se lembra das histórias sobre as aulas de educação física? Não é novidade que a escola tem um papel fundamental na construção dos laços de crianças e adolescentes com os esportes, mas são nos clubes de lazer onde aparecem as opções de descobertas e experimentações das diferentes modalidades. Nos clubes, atualmente, existe um movimento de ampliação das modalidades e uma diminuição do limite entre as identidades de gênero.

Seguidores

Nas timelines, tudo vira pauta! Cada vez mais os interesses e gostos pautam e são pautados pelas redes sociais. Quando o assunto é esporte, não poderia ser diferente. Os convites para eventos e as postagens de amigos e familiares, as ações de marketing das marcas, o posicionamento de atletas e celebridades despertam o interesse virtual e disparam um processo de busca por mais informações.

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Mídias

Há uma percepção clara do papel da mídia no despertar do interesse pelo esporte: quanto maior for a exposição, maior será a probabilidade de criar novos consumidores – e quando a influência vai além da visibilidade, a mídia também traz conhecimento sobre a modalidade e o impacto é ainda maior.

Espaços esportivos

A relação mais próxima das pessoas com os espaços urbanos acentua esse processo de descoberta de novos esportes e a proximidade com espaços físicos voltados à prática esportiva também ajuda a despertar o interesse e a curiosidade. Ocupações, competições em praças públicas e parques se tornaram palcos para eventos das novas gerações.

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Ídolos-ídolos

Em nossas pesquisas, a existência de grandes ídolos foi frequentemente citada como uma espécie de isca para aumentar o interesse por determinado esporte. Quando esses ídolos são nacionais, a influência é ainda maior. Contudo, o perfil e o tipo de relação com esses ídolos mudam ao longo do tempo. Cresce também o nível de exigência e tolerância sobre o comportamento, gosto e postura ética desses ídolos.

A SOCIEDADE BRASILEIRA, EM CONSONÂNCIA COM O RESTANTE DO MUNDO, PASSA POR TRANSIÇÕES EM VÁRIOS ÂMBITOS, ASSIM COMO OS ESPORTES E A MANEIRA COMO SÃO ENCARADOS.

Nos últimos anos, as bases estruturantes da sociedade (família, religião e política, entre outras) passaram por fortes questionamentos coletivos, especialmente no que se refere às instâncias de poder, e os impactos desse processo também são visíveis na visão que o brasileiro passou a ter sobre os esportes. Tudo isso não somente afeta a maneira como o esporte é pensado, praticado e consumido, como também provoca uma série de quebras paradigmáticas externas que o afetam diretamente – sejam elas rupturas no conceito de família, nas hierarquias de influência sobre os gostos pessoais, nas ressignificações do que é tido como apropriado para cada idade ou, ainda, na própria imagem do futebol brasileiro.

Sabemos que o esporte representa um importante vínculo familiar, contudo, com as transformações nas famílias contemporâneas, a influência no que se refere a gostos por determinadas modalidades também deixou de ser linear (pai—filho) e se ampliou para uma troca mais rica e complexa. Hoje, irmãos mais velhos influenciam pais, irmãos mais novos influenciam irmãos mais velhos, netos influenciam avós, assim em diante – surgem outros atores e configurações e, nesse contexto, o esporte desempenha novos papéis.

A exceção desse comportamento disruptivo parece ser o futebol, que ainda segue o modelo tradicional no qual o pai é influenciador das escolhas esportivas do filho ou da torcida por determinado time – embora aqui também coexista um novo cenário não normativo, em que as figuras paternas influenciam suas filhas a gostarem de determinado esporte, a despeito dos padrões socialmente aceitos.

Por outro lado, se antes brincar e jogar eram coisas do universo infantil, agora com o universo da gamificação, o uso de elementos de jogos para engajar pessoas para atingir um objetivo, principalmente em ambientes corporativos onde atuam profissionalmente os pais, os universos lúdico e da fantasia passaram a permear a forma com a qual adultos e crianças se conectam com o mundo, os espaços e os esportes. Antes, as crianças precisavam se adaptar aos esportes feitos para o mundo adulto. Hoje, esses limites estão muito mais tênues e todos podem compartilhar essas experiências juntos, isso é algo que permite uma percepção maior de liberdade e de possibilidades.

Mas quais são os novos valores que influenciam e reivindicam uma postura inédita sobre a maneira como percebemos e nos sentimos representados no esporte?

Na atual cultura em transformação, emergem novos códigos culturais do esporte, como:

Há espaço para outros esportes e mais inclusão — a identidade até então se atrelava à nacionalidade e ao gênero: ser brasileiro = gostar de futebol; ser homem = gostar de futebol.

Há mais liberdade para escolher esportes que mais se conectam com os valores ou buscas pessoais.

As pessoas tornam-se mais ativas no consumo e na disseminação das modalidades com que simpatizam e as representam.

Cada um pode escolher com quais dimensões de cada esporte quer se relacionar. A prática é só uma destas dimensões.

A verdade é que não há mais uma única identidade esportiva brasileira. A pluralidade surge no momento em que as pessoas, antes consumidoras, tornam-se as protagonistas e se compreendem como figuras heroicas reais e possíveis nos cenários dos esportes de suas preferências. Eleger essa representatividade se tornou uma ação de orgulho e paixão para aqueles que, por meio do esporte, buscam libertação e realização de seus sonhos. Se não no futebol, paixão nacional por excelência, quem sabe por meio da ginástica olímpica, do polo aquático ou da equitação – ou dos esportes paraolímpicos. O que vale é a postura de inclusão, democratização e sinceridade trazida pelos porta-vozes das inúmeras modalidades esportivas possíveis e em constante reinvenção. E essa é a semente que origina a visão desconstruída dos ídolos do esporte.

Ambientados em um contexto de multiplicidade de formas de expressão, os brasileiros reinventam sua relação com os esportes e seus ídolos a partir da combinação de características que marcam o pensamento contemporâneo – fluido, digital, íntimo e diverso. Surge uma história complexa e polifônica, narrada por vozes e núcleos reais e dinâmicos em que fãs e ídolos reconstroem suas trocas e relações. Essa é a origem da revolução entre o público e seus ídolos.

No imaginário popular, atletas compartilham valores similares aos dos heróis mitológicos: confronto, luta, ascensão e domínio são elementos que, conjugados, se traduzem em vitórias perfeitas capazes de comover multidões.

No esporte-espetáculo, os espectadores se emocionam com as histórias dos atletas de sucesso enquanto consomem ideias e produtos que, de certa forma, os conduzem ao sentimento de pertencimento a essas conquistas. Hoje, no entanto, isso não basta. A glória do esporte ecoa por meio de diversas vozes e a partir de núcleos variados. A glorificação dos ídolos do passado e um novo olhar para os ídolos do presente estão ressignificando o conceito do herói.

O ídolo sempre teve um papel importante como porta-voz fortalecedor dos laços afetivos das pessoas com os esportes. Porém, a real significância do ídolo está no papel que desempenha em nossas jornadas e aspirações pessoais. Dedicar-se a um herói do esporte sempre funcionou como uma maneira de conectar-se a um ideal maior, de enxergar o atleta como projeção de tudo aquilo que gostaríamos de ser e alcançar.

A relação de idolatria nos esportes não se limita somente aos atletas, mas é notada diretamente no conceito de time. Quando o assunto é futebol, o time do coração é a figura mais importante do esporte. É em função do time que o torcedor se sacrifica, se emociona e torce – muitas vezes com mais intensidade do que torce por seus atletas, pois o propósito é percebido como maior e de grande impacto. É comum que os times de muitos esportes coletivos ganhem força em modalidades não tão consolidadas no Brasil por chamarem a atenção a sua capacidade de reunir pessoas, como acontece com o rúgbi e o futebol americano.

OS ESPELHOS DE ADMIRAÇÃO REFLETEM MUDANÇAS SOBRE COMO ENXERGAMOS OS NOSSOS ÍDOLOS

O ato de transformar-se em herói inevitavelmente envolve sacrifícios, renúncias, desprendimentos e muito esforço – como uma analogia das transformações para a vida adulta ao que passamos para nos transformarmos em adultos. Mas, o que será que existe dentro das pessoas, que impele essa necessidade de reconsiderar a visão sobre o herói?

Fato é que se inicia um processo interno de reconstrução da relação com o “ídolo”. A busca arquetípica por uma referência no esporte continua, mas é reconfigurada e passa por uma readequação pessoal. Assim, identificamos as cinco principais mudanças na forma de admirar o ídolo contemporâneo:

Com as redes sociais e os games, os atletas admirados estão cada vez mais próximos e no controle dos fãs.

O herói não existe sozinho; há uma quantidade de figuras arquetípicas que os brasileiros buscam no esporte. A história não é somente contada pelos vencedores: excluídos sociais e “perdedores” também ganham espaço na narrativa.

Conhecer o herói somente nos momentos de vitória ou na hora em que atua não é mais suficiente para envolver e cativar o fã. As pessoas querem em tempo real acompanhar a história, as pequenas conquistas e os deslizes que acontecem no caminho.

A autenticidade do humano real é mais interessante do que o estereótipo planejado. Mergulhar nas questões e nos desafios internos dos heróis é mais importante do que superar recordes e marcas do esporte. Entender a interação e a relação do herói com sua equipe transfere a emoção de torcer por todo o time.

Invisível a tudo isso está um interesse: emocionar-se intensamente, por meio do ídolo criar momentos marcantes que vão ajudar a contar uma história própria. A dimensão do espetáculo garante uma conexão, mesmo que momentânea, a uma esfera “divina”.

Acompanhar a trajetória do herói e percebê-lo como integrante de sua vida é o que gera conexão real e representante das qualidades ou defeitos dos fãs.

O coração do fã é possivelmente o bem mais precioso quando pensamos em capacidade de conexão e engajamento com o esporte. O espectador engajado é a principal força motora no consumo das diferentes modalidades esportivas.

Por muito tempo, os ídolos e as suas trajetórias baseadas nas histórias de superação, conquistas e ascensão social eram suficientes para engajar o torcedor e envolvê-lo nas vidas que eram contadas na mídia.

Essa relação, porém, passa atualmente por uma inversão: o ídolo já não mais se encontra isolado num olimpo, pois a lógica se horizontalizou:

Esse novo eixo diz respeito às relações que se constroem muitas vezes a partir de exemplos de vida que fogem, novamente, da lógica do evento como catalisador da admiração, mas que se baseiam em histórias que emocionam por diferentes visões de heroísmo e de garra na vida. No lugar do mero endeusamento, surge a empatia e a identificação.

Em plena fase de ressignificação da nossa identidade esportiva – até então, limitada a aspectos como origem, idade, gênero e classe – os papéis se ampliam numa história cada vez mais complexa e pautada por núcleos diversos. É a partir da mudança na simbologia do herói que se altera um dos alicerces mais fundamentais na conexão com o fã. A chave de inspiração está muito mais na relação entre admiradores e admirados, o brasileiro passa a ver no esporte uma possibilidade de expressar e reforçar a imagem que tem de si mesmo. Na outra ponta, o herói não tem mais como foco ser representante máximo do esporte em si, mas em atuar como ponte entre o mundo esportivo e o universo do cotidiano do fã. Nessa jogada, o esporte reinventado ganha novas dimensões de atração e engajamento.

Estamos todos no pódio.