Diálogo:
Conexão que atravessa bolhas

Um estudo sobre a qualidade da comunicação nos relacionamentos humanos contemporâneos

POR

1.
Equilíbrio da Gangorra


2.
Desejo de Surdez


3.
Outro, esse sujeito frustrante


4.
Há tanta vida lá fora


5.
Torna-te quem és


6.
Esferas de conexão

Estabelecer diálogo é fundamental para a conexão real. Dialogar é abrir espaço para o outro, deixar que pessoas diferentes adentrem nosso território. É também explorar o território alheio. Na teoria parece fácil. Mas quais são as barreiras que precisamos vencer para abrir espaços fora das nossas bolhas? Como gerar conexões significativas em nossas relações? Este estudo se baseia nos conhecimentos e insights compartilhados pela plataforma GENTE e propõe analisar as potências capazes de transformar a forma como dialogamos – não só uns com os outros, mas com o mundo à nossa volta.

1. Equilíbrio da Gangorra

Vivemos atualmente em meio a um paradoxo. As fronteiras que nos separavam globalmente praticamente não existem mais e os elementos culturais e sociais que nos definiam como nações estão cada vez mais difusos. Individualmente, porém, estamos cercados por muros de vidro: vemos o outro, conseguimos até reconhecê-lo, mas estamos perdendo a capacidade de escutá-lo e também de fazê-lo ouvir a nossa mensagem.

As opções de comunicação são múltiplas, os espaços virtuais apresentam inúmeras oportunidades de interação, e, ainda assim, nossas conexões estão mais dispersas, frágeis e rasas.

Estabelecemos afetos a partir de identificações superficiais e, apoiados pelo distanciamento que a tecnologia nos oferece, "editamos" nossas relações, removendo a parte difícil delas. Acessamos o outro e permitimos seu acesso a nós através de filtros.

Nesse sentido, o diálogo é uma ferramenta essencial de reconexão. Mas como promover a conversa honesta, real e profunda? Como exercitar a liberdade de ser quem se é e dar espaço para que o outro seja ele mesmo?

parece fácil,
mas não é

Se o conceito de igualdade permeia os ideais de justiça em uma sociedade, quando falamos em diálogo, a simetria representa um aspecto fundamental. Sem ela, o diálogo não acontece.

Seja qual for o vínculo – afetivo, social ou profissional –, a troca verdadeira só é possível entre iguais. Pense em uma gangorra: se um lado estiver em cima e o outro embaixo, os interlocutores enxergam, falam e escutam sob perspectivas desiguais.

Para haver equilíbrio, as cabeças precisam estar alinhadas:
o diálogo só existe com simetria.

Isso não implica, claro, em insubordinação ou desobediência quando falamos de relações hierárquicas sociais (como entre pais e filhos) e profissionais (entre chefes e funcionários). A expressão “de igual para igual”, nesse sentido, não diz respeito a horizontalizar hierarquias ou equivaler saberes, mas a exercitar a fala e a escuta.

Simetria é olhar para o outro como um semelhante.

Assimetria gera relações superficiais: ficamos cheios de si, mas vazios do outro.

Só conseguimos treinar essas habilidades quando respeitamos quem está à nossa frente como um semelhante, um sujeito com repertório próprio, opiniões, vontades e aspirações que não valem mais ou menos do que as nossas.

Observar as crianças é um importante exercício de escuta. Aqui, a simetria está justamente em compreendê-las como sujeitos autônomos e concluir que seus desejos, demandas e opiniões são tão importantes quanto os dos adultos.

falar +
fazer-se entender +
escutar +
compreender a demanda do outro +
negociar +

Da mesma forma, considerando que a cultura de uma criança reflete sua interpretação da cultura de seus referenciais (pais, tios, irmãos, professores), olhá-las de perto e entender como se relacionam é uma forma de remeter à nossa própria capacidade de falar, escutar, entender a demanda do outro e, quando necessário, negociar. Essa ação pode ser entendida como a fronteira final do diálogo.

colaboração
é a chave para o entendimento

Precisamos uns dos outros. A necessidade de pertencimento está no código ancestral. A sobrevivência como espécie depende da união. Ao trazer essa ideia para a contemporaneidade, podemos afirmar que praticar a escuta é confirmar nossa interdependência. E o entendimento de que todos somos importantes é o caminho para que as trocas aconteçam de forma mais natural e aberta. É a chave para a colaboração.

colaborar nada mais é do que
exercitar a empatia e dar lugar ao outro.

No entanto, é neste ponto – de negociar uma resolução dentro de um diálogo – que encontramos uma nova e importante barreira. No exercício da escuta ativa, por mais bem-intencionados e dedicados que sejamos, nem sempre percebemos que não estamos ouvindo o outro pelo outro, mas pela nossa própria perspectiva.

Quantas vezes não começamos a formular uma resposta na nossa cabeça antes mesmo de o nosso interlocutor terminar de falar?

Para o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, a compreensão é o raro resultado da comunicação. Para dissecar sua teoria, o intelectual recorre à etimologia dessa estimada palavra, do latim compreendere: juntar todos os elementos da explicação. Ou seja, compreender é considerar os diversos elementos de uma explicação. E a escuta ativa é nosso acesso à compreensão.

Nesse sentido, Morin fala precisamente sobre a importância de deixar o nosso interlocutor transparecer na conversa por si mesmo. Só assim poderemos compreendê-lo de verdade, ir além da própria explicação e pararmos de nos iludir em relação à escuta.

Segundo o filósofo, esse movimento é crucial para que a comunicação humana realmente se estabeleça. Em linhas gerais, escutar ativamente é um trabalho que exige desapego, despir-se de si, da pesada manta de opiniões, certezas e verdades absolutas, para permitir ao outro expor suas próprias questões e opiniões – que podemos descobrir que são diferentes das nossas. E tudo bem! Abrir-se ao diferente é função primordial da escuta.

Só existe diversidade de verdade se todos temos voz igual.

Marcus Faustini, escritor

2. desejo de surdez

Quando afirmamos que a igualdade é fundamental à justiça social, não estamos nos referindo a uma estrutura homogênea, mas ao equilíbrio de reconhecimento, visibilidade e direitos entre pessoas, englobando, neste conceito, a diversidade.

Mas, se na defesa teórica, ampliamos a discussão sobre a importância de equidade étnico-racial, de gênero, religião e afetos, incluindo os direitos LGBTQIA+, na prática, estamos conseguindo exercitar a abertura ao diferente?

Estamos conseguindo tratar
o outro como igual, mas
reconhecemos e respeitamos
sua diferença?

diálogo só existe com
a inclusão do outro por inteiro!

Um problema bastante atual que enfrentamos no diálogo é a universalização de experiências individuais.

O que serve a mim deve servir a todos; o que não serve a mim, não serve a mais ninguém.

O cidadão que só se desloca com seu carro e não entende a necessidade de ciclovias e faixas exclusivas de ônibus nos centros urbanos; o branco de classe média que enxerga o sistema de cotas nas universidades como um privilégio a estudantes negros ou de baixa renda e que fere seus direitos; o homem que acha que "o mundo está ficando cada vez mais chato" com a criação de leis como a de importunação sexual, que criminaliza o assédio praticado nas ruas.

Essa universalização pode acontecer em diversas outras esferas, mais subjetivas do que as exemplificadas acima. Agindo assim, invadimos o espaço do outro e tiramos dele o direito de falar por si próprio, a partir de seu repertório e de suas experiências. Emergem, nesse contexto, discussões sobre protagonismo, capacidade de escuta e lugar de fala. Estes tópicos são frequentemente debatidos pela filósofa e feminista Djamila Ribeiro, que diz:

O ‘lugar de fala’ incomoda muitas vezes as pessoas brancas porque elas não querem se entender também como específicas, falando de um lugar. Elas querem dizer ‘Eu posso falar sobre tudo, eu sou universal e você que é o específico’.

Compreender o lugar de fala muitas vezes implica ampliar visões individuais sobre o que significa assumir determinadas narrativas em disputa, a partir de quais pontos de vista uma história é contada e como as diferenças socioculturais configuram esse embate.

escuta colonizadora
vertical e autoritária

x

escuta transformativa
horizontal e inclusiva

Segundo Christian Dunker, psicanalista e professor titular de Psicologia da Universidade de São Paulo, migrar de uma "escuta colonizadora", modelo falacioso em que se ouve o outro a partir da própria perspectiva, para a "escuta transformativa", que inclui o outro como relevante, necessário e pertencente, é operar um movimento contra-narcísico. De acordo com o psicanalista, vivemos atualmente em uma cultura de indiferença e de hiperindividualização, na qual o outro, quanto mais diferente, mais invisível será para nós. Ambiente muito favorável para o que Dunker define como "desejo de surdez", que, dentro de um contexto de engrandecimento do eu, permite que nos apoiemos em nossas certezas, fechando-nos a outras estruturas de pensamento.

Rita Brant, especialista em mediação de conflitos, afirma que, ao escutar o outro, é possível ampliar as possibilidades de existência, porque damos ao outro a oportunidade de ele ser quem, de fato, é.

3. o outro, esse sujeito frustrante

Para além do nosso desejo de surdez, lidamos com o fato de o outro nem sempre responder da forma que desejamos. É quando o conflito se torna inevitável. Uma difícil, porém necessária, conexão com a realidade é entender que formar vínculos passa por aceitar que o outro não é acessível a nós como imaginamos, ou como gostaríamos, que ele fosse. Ao negarmos isso, a tendência é nos fecharmos ainda mais em bolhas que confirmem nossas certezas e nos fazem acreditar que o diferente é errado.

Essa teoria endossa discursos que repudiam o diverso. Nesse contexto, a depreciação do outro funciona como uma validação de si próprio. No universo virtual, o cenário é intensificado: os algoritmos das redes sociais nos permitem, basicamente, falar apenas para quem quer nos ouvir. Essa concordância seletiva gera uma percepção falsa e perigosa de que estamos sempre com a razão. Quanto maior o número de likes, mais forte será a crença de que qualquer opinião divergente deverá ser aniquilada.

E mesmo o diálogo entre aqueles que se reconhecem pela concordância no desprezo pelo próximo corre o risco de sucumbir à superficialidade. Já que o discurso que exclui o outro é raso e pouco crítico, as relações estabelecidas a partir dele também têm essas características, uma vez que são formadas por pessoas que não conseguem praticar a escuta.

Os efeitos disso são monólogos em formato de textões em redes sociais, comentários ignorados ou apagados, conversas que se tornam discussões que, por sua vez, viram brigas que resultam em blocks, aumentando ainda mais o repúdio pelo que é diferente e a certeza acerca das nossas verdades. Para quebrar esse esquema vicioso, precisamos, como nos ensina a consultora de negócios e palestrante Margaret Heffernan, “de parceiros que não sejam câmaras de eco”.

o outro no
mundo corporativo

No contexto corporativo, essa ideia não é apenas conceitual – ela mexe diretamente no cerne dos negócios. Dados do mercado comprovam que a diversidade pode tornar as empresas mais rentáveis. Segundo pesquisas realizadas pela consultoria McKinsey Global:

Para cada 10% de aumento na diversidade racial e étnica dos executivos seniores, o lucro aumentou 0,8%. Why diversity matters, 2015

A diversidade como alavanca de performance, 2017 As empresas que apostam na diversidade de gênero entre seus executivos estão 21% mais propensas a ter lucratividade acima da média.

Empresas com ao menos uma mulher na linha de comando podem aumentar a margem de lucro em até 47%. Why women matter, a Latin America perspective, 2015

A diversidade como alavanca de performance, 2017 Equipes executivas com maior diversidade racial têm probabilidade 33% mais alta de superar a concorrência em lucratividade.

Quando uma marca promove igualdade de gêneros, 48% dos homens e mulheres afirmaram se sentir mais fiéis à marca. Facebook IQ, Gender Representation in Ads

Abrir espaço para a diversidade significa enxergar histórias de pessoas que nunca são contadas porque o diferente nunca foi aceito. A inclusão é fundamental para desenvolvermos empatia, compaixão e respeito, reconstruindo nossas conexões e nos enriquecendo com sensibilidade para escutar o outro, mexer nas nossas próprias convicções e encontrar o equilíbrio fino que nos permitirá também nos tornar protagonistas da nossa própria fala.

diversidade
é não universalizar
experiências
individuais.

diversidade é aceitar que o mundo é maior.

muito maior
do que você.

4. há tanta vida lá fora

Nunca fomos tão expostos...

Nunca demos tanta atenção à vida alheia...

Nunca estivemos tanto em contato uns com os outros...

essas afirmativas nunca
foram tão frágeis!

Afinal, o quanto de nós mesmos estamos revelando?

O quanto conhecemos do outro?

E, mais importante, o quanto as minhas conexões são francas e verdadeiras?

diálogos só existem
com pessoas reais!

Claro, é sedutor culpar a tecnologia por transformar radicalmente as nossas relações, a nossa forma de se apresentar no mundo e por criar uma realidade que anda em uma velocidade muito mais rápida do que somos humanamente capazes de acompanhar. Mas é bom lembrar que a tecnologia (ainda) está a serviço da humanidade. Cumpre nossas demandas. Não à toa, cada vez mais nos desobriga a calibrar uma de nossas habilidades mais fundamentais, que é a comunicação.

O uso exagerado do seu “Zap” não é um problema.
É um sintoma.

Não é nosso relógio interno que precisa se ajustar ao tempo do mundo; nós é que temos que aprender a definir a que servimos. O que realmente merece nosso tempo, atenção, energia, afeto? Essa noção demanda voltarmos algumas casas no jogo e recomeçarmos; mais seletivos com as informações que consumimos e o tipo de relação que queremos cultivar.

Pedimos mais, mas, fundamentalmente,
queremos (ou damos conta de) menos.

Este problema impacta a nossa capacidade de compreensão, que é empobrecida, assim como as nossas trocas.

Um exemplo mais extremo disso já está se tornando realidade. No Japão, a empresa Line lançou recentemente a Gatebox, que poderia ser uma assistente virtual como já conhecemos (nos moldes do Amazon Echo ou Google Home), não fosse por sua interface, dotada de inteligência artificial e projeção holográfica. É uma personagem chamada Azuma Hikari, que tem uma personalidade carinhosa e pode se comportar como namorada do usuário.

Sem dúvida, a Gatebox responde a uma demanda crescente no Japão, um dos países que registra os maiores índices de solidão. No fim de 2018, em uma cerimônia que custou cerca de 70 mil reais, um japonês de 35 anos se casou com sua assistente virtual.

Não é apenas a dificuldade de estabelecer uma relação com outro ser humano que chama atenção nesses casos, mas a preferência por relações mais previsíveis e menos complexas, nas quais é possível praticamente controlar a reação do outro e não correr o risco de se decepcionar.

No mesmo Japão das namoradas virtuais, mais de 500 mil jovens vivem completamente isolados socialmente. Conhecidas como hikikomori, essas pessoas podem passar anos sem sequer sair de casa, apenas conectadas à internet. Apesar de o Japão deter os maiores números de jovens com esse perfil, o problema já atinge outros países da Ásia e de outros continentes, destacando, ainda, as pesquisas sobre o assunto que apontam a influência da tecnologia moderna no isolamento. Em uma espécie de espelho paradoxal, no entanto, estamos também sobrecarregados uns dos outros.

Barganhamos nossa verdade,
nossa inteireza,
nosso direito de sermos nós mesmos
por likes.

Trocamos relações mais profundas e legítimas por conexões sem incômodos, mais superficiais e baseadas em supostas identificações. Supostas porque não necessariamente nos representam, mas àquilo que gostaríamos que os outros achassem de nós. Se esse raciocínio parece muito radical, avalie seus contatos nas redes sociais e questione: quantas dessas pessoas realmente me conhecem?

Como resume o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman:

Relações virtuais são equipadas com a tecla ‘delete’ e com ‘antispam’, mecanismos que nos protegem das consequências incômodas (e sobretudo dispendiosas em termos de tempo) das interações mais profundas.

5. torna-te quem és

A hiperconexão e a hiperexposição trouxeram o distanciamento das nossas próprias emoções e da nossa essência. Mesmo com a alta rotação de informações, a sensação é que vivemos um momento de grande vazio. Desaprendemos, nas camadas mais profundas, a falar, a ouvir e até a sentir. Quando o que está dentro de nós não encontra saída (não é elaborado, processado, botado para fora), desencadeiam-se os sintomas da grande doença dos nossos tempos: a depressão. Angústia, solidão (mesmo quando estamos cercados de gente), melancolia, ansiedade, exaustão física e mental são alguns deles.

diálogo só existe com
a inclusão de si mesmo por inteiro

Temos medo de mergulhar em relações verdadeiras, aquelas que acontecem no olho no olho, no toque, a portas fechadas, sem câmeras para registrar. Faz sentido, já que temos medo de mergulhar em nós mesmos.

Se não dialogamos com nós mesmos,
como poderemos dialogar com o outro?

Talvez o gran finale inevitável da vida – a morte – nos leve, em diferentes medidas, ao velho questionamento: afinal, o que estamos fazendo aqui? Dentro dessa estrutura macro, somando ainda os problemas contemporâneos que discutimos amplamente neste estudo, está cada vez mais difícil identificar o que realmente nos preenche, o que nos move, o que nos dá vontade de levantar da cama todos os dias.

Não é à toa que muita gente vai parar em divãs de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas com queixas inespecíficas. Pessoas com vidas aparentemente perfeitas sofrem de uma angústia que não pode ser nomeada. Em linhas gerais, isso significa que, para entendermos o que nos move, precisamos descobrir quem somos e o que nos motiva.

eu,
sujeito oculto

A frase “Torna-te quem tu és”, do poeta grego Píndaro, foi amplamente explorada ao longo da história. Permeada por diversas teorias, principalmente pelo filósofo alemão Nietzsche, a afirmação diz respeito a reconhecer e nos apropriar das potências que nos constituem. Na leitura do filósofo francês Gilles Deleuze, "tornar-se aquilo que se é" é missão de uma vida inteira.

Encontrar a própria voz, habitar o próprio corpo e se constituir como sujeito é uma das tarefas mais difíceis e mais fundamentais que temos a cumprir.

A busca pelo autoconhecimento não é onda contemporânea. Desde os tempos remotos o homem corre atrás de ferramentas para se entender. Mas, nestes tempos de soluções rápidas e descartáveis, as ofertas de autoajuda também arriscam cair em um mergulho raso. Nessa busca por um ideal de felicidade inalcançável, com regras generalistas de como ser, agir e pensar, estamos fadados à frustração e nos desconectamos ainda mais de nós mesmos, tentando bloquear as emoções que consideramos inadequadas. Desaprendemos a lidar com a dor como parte do processo de uma série de acontecimentos inevitáveis à vida e buscamos anestesias que nos distanciem ainda mais da nossa essência.

quem não sabe de si,
teme

Entendemos o vazio como espaços em branco que precisamos ocupar continuamente, lutando contra um suposto desperdício de tempo. Cada vez mais, momentos de ócio são encarados como tédio e, logo, intoleráveis. Em 1989, durante uma entrevista, a escritora Hilda Hilst declarou:

O homem inventou esse aparelho que coloca no ouvido e não 'se ouve' mais. Antes dava pra ficar andando na rua e pensando. Agora, todo mundo tem tamanho pavor de pensar que já usa um aparelho para que afogue tudo o que se ousar pensar. É um tipo de civilização em que a pessoa tem medo de se escutar o tempo todo.

77%
dos ouvintes de podcast fazem isso porque podem realizar outras atividades enquanto escutam.
Fonte: PodPesquisa, ABPOD e CBN 2018

É fundamental olhar para o ócio – ou o tédio – como um aliado, não um vilão; como um lugar especial em que podemos processar nossas vivências, nossos sentimentos e emoções, cuidar de nós mesmos de uma forma mais ampla e desautomatizada e, principalmente, descobrir o que nos traz sentido, achar o caminho para a vida que realmente queremos ter. Dar espaço ao tédio é permitir-se ouvir a si mesmo. Como ensina o filósofo alemão Walter Benjamin:

"O tédio é o pássaro do sonho que
choca os ovos da experiência."

Claro, é preciso coragem para encarar nossas sombras e derrubar o bloqueio que nos protege das emoções mais difíceis. Esse é o caminho para vivermos de uma forma mais plena e profunda, aceitando as dores e descobrindo por nós mesmos quem somos.

Aprender a elaborar o que passa por nós é fundamental neste processo. Segundo Tiago Corbisier Matheus, o que é elaborativo permite uma construção maior. Ele diz: "Às vezes [o episódio] é só catártico, expiativo, e você não elabora o conteúdo. Aconteceu, pronto, acabou, apaziguei. Mas, como não elaborei, não tenho uma integração entre os aspectos bons e ruins. O que é ponderação, o que é meu, o que é do outro? Essa articulação não existe, então vira uma coisa cíclica. E eu continuo no mesmo lugar."

Para Marshall B. Rosenberg, psicólogo americano, já falecido, criador da comunicação não violenta, entender nossos sentimentos nos possibilita desenvolver um vocabulário que nos permite nomear ou identificar de forma clara e específica nossas necessidades. Isso propicia que o outro se conecte conosco de uma forma muito mais qualitativa e profunda. Para Marshall, quanto mais diretamente conseguirmos ligar nossos sentimentos às nossas necessidades e, portanto, explicá-las, mais fácil será para os outros valorizá-las, compreendê-las e reagir compassivamente.

Portanto, nessa tarefa de se construir sujeito, ganhamos a oportunidade de nos apresentar ao outro como realmente somos. Como conclui Tiago:

Nesse mar de impotência, se mostrar pelo menos um pouco real já é um sinal da busca por espaços de identidade.

6. esferas de conexão

Será que tudo o que falamos até aqui vale para todos os tipos de conexões? Para além das relações cotidianas, de pessoa para pessoa, as possibilidades de conexão por meio da simetria, do acolhimento das diferenças, da valorização do encontro e da autenticidade também se realizam em outras esferas de relacionamento.

chefe x equipe

Nas relações em equipes de trabalho, prestar atenção ao que a outra pessoa está falando e levar em conta a opinião dela em processos decisórios é uma forma de estabelecer a simetria. Busque a compreensão de que as pessoas com quem se dialoga têm um repertório e uma vivência completamente diferentes. Estar aberto a isso pode mudar posicionamentos e ideias preconcebidas. Compartilhar um pouco do próprio mundo e assimilar as contribuições desse outro universo são atitudes que podem fazer a diferença para conseguir que as pessoas sejam genuínas e abertas sobre quem são e o que pensam.

veículo x audiência

Quando se pensa na relação entre um veículo de comunicação e sua audiência, a simetria também pode ocorrer. Se você se coloca no mesmo nível e busca entender a quem se dirige sua comunicação, é possível criar uma conexão forte. Da mesma forma, integrar o diferente é uma forma de ampliar o entendimento sobre o seu público, assim como fortalecer os pontos de conexão. E mostrar quem está por trás da tela, das palavras e das campanhas, ou seja, ser transparente sobre o aspecto humano, pode gerar a empatia e o engajamento entre quem produz e quem consome esses conteúdos.

marca/
produto/
serviço
x consumidores

No contexto das relações comerciais, colocar-se no mesmo nível dos consumidores e valorizar o conhecimento e a contribuição externa é um caminho para a simetria. A Vodafone, multinacional de telefonia móvel, entendeu a importância da participação e do diálogo aberto solicitou a ajuda dos seus clientes para identificar corretamente a pronúncia de vias e logradouros cujos nomes são conhecidos apenas por comunidades locais, aprimorando serviços de geolocalização e colaborando para preservar a cultura Maori por meio da pronúncia correta das palavras.

Por outro lado, desprender-se de visões estereotipadas sobre quem entra em contato com a marca e realmente entender quem as pessoas são de maneira mais profunda é um modo de abraçar as diferenças. O Centro de Rehabilitación Visual Integral da Colômbia divulgou uma campanha sobre a participação de pessoas com deficiência visual em processos de recrutamento “cego”, contribuindo para construção de relações igualitárias e livres de estereótipos.

Criar canais para conversar e interagir, além disso, é uma possibilidade de abrir-se aos encontros e daí extrair resultados inesperados. A Suécia, buscando mostrar ao mundo a valorização da liberdade total de expressão no país, disponibilizou um número de telefone para que qualquer pessoa do mundo inteiro pudesse falar diretamente com algum cidadão sueco, do Primeiro Ministro até uma pessoa comum em sua residência.

Para uma marca, produto ou serviço ser autêntico, cabe não somente demonstrar que há rostos humanos, criatividade e até mesmo imperfeições por trás do aspecto frio e distante dos negócios. A IKEA, multinacional do ramo de móveis e acessórios domésticos, trouxe ao seu público a história por trás de uma de suas cadeiras mais famosas, revelando o aspecto humano por trás do universo meramente material.

Não é tarefa fácil estabelecer o diálogo de forma construtiva, rica, que respeite e reconheça os sujeitos que ali estão e que tenha potência de criar laços fortes e profundos. O diálogo não representa, por si só, a resposta para as mazelas do mundo moderno. Mas é pelo diálogo que devemos partir e onde podemos começar a treinar a ver o outro como igual e respeitar suas diferenças, enfrentar nossas próprias resistências e ter paciência com as alheias, estreitar as distâncias emocionais e usar a tecnologia para fortalecer e compartilhar (não segregar e separar). O diálogo faz com que consigamos nos apresentar por inteiro, em nossa própria realidade.


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Fonte: Inesplorato, 2019.