Assim como um ímã, o espaço online atrai atenções e interesses diversos em períodos eleitorais. Embora as campanhas políticas que utilizam dados dos eleitores não sejam exatamente uma novidade, o fenômeno das fake news (“notícias falsas”, em português) demonstra que, nessa segunda década do século XXI, a divulgação de conteúdos de veracidade duvidosa ou falsa é capaz de mobilizar e manipular o público em torno de publicidade política direcionada.

Nos últimos três anos fake news tem se tornado um termo cada vez mais popular, sendo adotado até mesmo em português e chegando a ser escolhido como a palavra do ano pelo dicionário Collins em 2017. No Brasil, a sua utilização tem crescido de modo exponencial, conforme dados divulgados pelo Google Trends.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump chegou a reclamar para si a criação do termo fake news, ainda que, neste caso, isso tenha ocorrido menos para nomear as notícias notadamente falsas do que para colocar em dúvida a credibilidade e menosprezar o trabalho da imprensa tradicional, como o jornal The New York Times e a rede de televisão CNN.

No entanto, embora Trump tenha sido um dos grandes responsáveis por sua popularização, a expressão em si não é nenhuma novidade. Segundo o dicionário Merriam-Webster, já no final do século XIX é possível localizar o uso da expressão fake news.

Por se tratar de um conteúdo não fiel à realidade, é comum que as fake news sejam confundidas com outros gêneros textuais. Sátiras ou paródias, por exemplo, utilizam o humor baseado em fatos reais sem compromisso irrestrito com a verdade. As fake news, por sua vez, atendem a outros interesses. Nesse sentido, é possível traçar um paralelo mais direto das notícias falsas com as chamadas publicações clickbait (caça-cliques), ou seja, conteúdo com chamadas sensacionalistas e vazios cujo fim é atrair tráfego digital por meio da indignação ou reação emocional mais exacerbada quanto ao fato exposto.

Assim, os conteúdos das fake news no geral possuem uma redação:

  • Apelativa
  • Sensacionalista
  • Carregada de adjetivos
  • Chamativa

Além disso, as fake news se tornaram um negócio que mobiliza valores expressivos em termos de renda publicitária:

R$ 150 MIL É A RECEITA PUBLICITÁRIA MENSAL APROXIMADA DE ALGUNS PORTAIS DE FAKE NEWS DO PAÍS

Fonte: Folha de São Paulo (2017)

Além do incentivo financeiro, esses recursos são muitas vezes utilizados para dar suporte, credibilidade ou alterar a narrativa de uma história, gerar ruído na informação e desacreditar fontes e pessoas, podendo até mesmo interferir nos processos decisórios de uma sociedade democrática.

Um exemplo foi a disputa presidencial norte-americana de 2016, que ainda gera debates sobre até que ponto as fake news influenciaram o resultado a favor de Donald Trump. Pesquisas apontaram que, à medida que a eleição se aproximava, o envolvimento com conteúdos falsos divulgados no Facebook disparou e ultrapassou o conteúdo das principais fontes de notícia confiáveis nos Estados Unidos.

Embora apenas cerca de 10% dos eleitores fossem consumidores de notícias falsas, este número pode mascarar a possibilidade de que elas tenham decidido a eleição. Na lógica do complexo processo eleitoral estadunidense, Trump venceu graças a 78 mil votos (populares), que lhe valeram a totalidade dos votos no colégio eleitoral em três estados. Isso equivale a 0,006% do eleitorado americano, mas foi o suficiente, visto que é a soma dos votos dos colégios eleitorais – e não do voto popular – que acaba decidindo. Por isso, as manobras de descrédito à oponente Hillary Clinton podem sim ter enfraquecido sua candidatura, ainda que tenha ganhado no voto popular por uma ampla margem.  

Porém, não é desconsiderado o potencial de disseminação dessas notícias e os danos que elas podem causar na qualidade do debate político – uma discussão em pauta no atual processo eleitoral brasileiro.

Mas as fake news não estão sozinhas nesse novo vocabulário contemporâneo. Outro termo que se popularizou foi o post-truth (“pós-verdade”, em português), alavancado pela sua utilização nas campanhas do plebiscito do Brexit, no Reino Unido, e da já citada eleição nos Estados Unidos, ambas marcadas pelo volume de notícias falsas nas mídias sociais e de mentiras por candidatos ou figuras importantes nas respectivas campanhas.

Um exemplo de post-truth foi a informação disseminada na campanha pelo Brexit de que a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia custava 350 milhões de libras por semana aos cofres públicos e que o dinheiro – após a eventual saída do bloco – seria destinado ao serviço público de saúde.

ALCANCE DAS FAKE NEWS

Segundo o “Relatório da Segurança Digital no Brasil”, desenvolvido pelo DFNDR LAB, laboratório especializado em segurança digital, as notícias falsas somam 7% entre os mais de 120,7 milhões de links maliciosos identificados no primeiro semestre de 2018. No segundo trimestre do ano houve um aumento de +51,7% em relação ao primeiro trimestre.

O uso de plataformas de dark social – interações sociais que não podem ser monitoradas por ferramentas tradicionais é outro grande problema. No estudo, aponta-se que 95,7% das notícias falsas detectadas circularam no WhatsApp. Nesse sentido, de acordo com Eugênio Bucci, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP):

O FATOR HUMANO É O QUE FAZ TODA A DIFERENÇA NA VELOCIDADE E NO VOLUME DE TRANSMISSÃO DAS FAKE NEWS.

Para mensurar o alcance desse fenômeno, a Digitalks e o Opinion Box realizaram uma pesquisa com 2.016 entrevistados mostrando a relação dos brasileiros com as fake news. O levantamento mostra que a internet tem destaque como fonte de informação:

76%

76% DO PÚBLICO ENTREVISTADO BUSCA INFORMAÇÕES EM SITES, BLOGS E PORTAIS.

74%

74% DOS ENTREVISTADOS SE INFORMA PELAS REDES SOCIAIS.

37%

37% DOS PARTICIPANTES JÁ COMPARTILHARAM ALGO MESMO DEPOIS DE DESCOBRIR SER FAKE NEWS.

70%

APESAR DISSO, 70% DIZEM NÃO COMPARTILHAR NA INTERNET NOTÍCIAS QUE NÃO LERAM ATÉ O FIM.

24%

APENAS 24% DAS PESSOAS ACREDITAM QUE AS INFORMAÇÕES QUE CIRCULAM NAS REDES SOCIAIS SÃO CONFIÁVEIS.

No Brasil, as informações falsas não afetam somente o espaço político, mas geram problemas também em áreas como:

  • Saúde pública
  • Nutrição
  • Vacinação
  • Mercado de capitais

Os métodos dos disseminadores de notícias falsas estão cada vez mais sofisticados. Em contrapartida, as plataformas de conteúdo estão procurando formas de combatê-las.

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco ganhou grande repercussão na internet, principalmente nas redes sociais. No entanto, boa parte dos conteúdos que tratavam do assunto eram fake news. Na época, uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo com 2.520 participantes apontou que, entre os respondentes que receberam boatos sobre a morte da vereadora:

51%

51% LERAM NO GRUPO DA FAMÍLIA DO WhatsApp.

32%

32% NOS GRUPOS DE AMIGOS.

9%

9% NOS GRUPOS DE COLEGAS DE TRABALHO E MENSAGENS DIRETAS.

No fim de 2017, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um conselho consultivo sobre Internet e Eleição, focado na identificação e no combate de notícias falsas. No contexto das eleições gerais de 2018, o TSE convocou os partidos a assinarem um termo de compromisso para o enfrentamento da manipulação de notícias que visa interferir nas disputas eleitorais. Ainda assim, fica evidente que ninguém estava suficientemente preparado para o que estava por vir, visto que tais ações paliativas não aplacaram a rapidez e a força de disseminação de notícias falsas, tampouco sua influência sobre as escolhas do eleitorado. Nesse contexto,

36%

36% DOS BRASILEIROS CONSIDERAM QUE AS MÍDIAS SOCIAIS TERIAM MUITA INFLUÊNCIA NO PROCESSO ELEITORAL.

56%

E 56% ACHARAM QUE ELAS TERIAM APENAS "ALGUM" POTENCIAL.

Fonte: Pesquisa Ibope (junho de 2018).

Segundo o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da Universidade de São Paulo, em entrevista com o cientista político Pablo Ortellado ao Estadão, 12 milhões de pessoas compartilharam fake news sobre política em junho de 2017 no Brasil. O dado é resultado de um monitoramento com 500 páginas digitais de conteúdo político falso ou distorcido realizado naquele mês. Já um estudo da Fundação Getúlio Vargas, “Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil”, mostra que robôs ou bots com textos programados são os geradores de 20% dos debates em apoio de candidatos no Twitter.

Já as iniciativas de combate às fake news começam a surgir em diversas frentes. A Universidade Federal de Minas Gerais, por exemplo, desenvolveu um serviço digital batizado de “Eleições sem Fake” para detectar notícias falsas e comportamentos maldosos em rede sociais durante o período de eleição.

Por sua vez, o Comitê Gestor da Internet no Brasil fez um guia denominado “Internet, Democracia e Eleições” focado em combater a desinformação e a disseminação de notícias falsas no processo eleitoral. O Conselho tem como representantes a Justiça Eleitoral, o Governo Federal, o Exército e entidades da sociedade civil. Um dos objetivos da iniciativa é montar um projeto de lei específico para combater as notícias falsas.

No Congresso Nacional também tramitam projetos de lei tratando de fake news, e entre as medidas propostas estão a criminalização da criação e difusão desse conteúdo e a obrigação das plataformas de retirar mensagens falsas sob pena de multas.

CHECAGEM DE NOTÍCIAS E PLATAFORMAS DIGITAIS

Com o avanço das fake news, a checagem de fatos (ou fact checking) tornou-se popular como a principal alternativa de combate à prática de divulgação de conteúdos falsos e maliciosos. Essa checagem envolve o uso de metodologias utilizadas por veículos jornalísticos focados na apuração das informações, confiabilidade das fontes e avaliação de veracidade.

Em 2003, a entidade norte-americana Annenberg Public Policy Center criou a primeira agência de checagem de dados, a FactCheck.org. No Brasil, as primeiras plataformas foram o Mentirômetro e o Promessômetro da Folha de São Paulo, em 2010, ambas voltadas ao período eleitoral.

Nas eleições de 2014 surgiu o blog Preto no Branco, do jornal O Globo, e o Truco, da Agência Pública. Em 7 de julho de 2015, também durante as eleições, surge o Aos Fatos, primeira plataforma brasileira a checar sistematicamente o discurso público. Atualmente outras plataformas como Lupa, Fake ou Fato e Projeto Comprova também engrossam o arsenal de meios de combate às fake news no contexto brasileiro.

Por ser um dos principais locais de disseminação de notícias falsas, as plataformas de redes sociais estão sendo cada vez mais acusadas e cobradas por serem coniventes com a divulgação de fake news. Como resultado da pressão de diversos setores da sociedade por mais transparência e controle, atualmente todas elas estão criando medidas para combater e diminuir o impacto desse fenômeno de alcance global. Entre as plataformas mais populares no país, Facebook e WhatsApp adotaram suas próprias medidas contra as fake news.

Entre outras iniciativas, o Facebook lançou no Brasil seu programa de verificação de notícias em parceria com as plataformas de checagem Aos Fatos e Agência Lupa, as duas formadas por equipes jornalísticas independentes. A plataforma também tornou possível aos usuários classificar o conteúdo como “falso” para que, por meio de uma análise posterior, ele possa ser classificado de acordo com níveis distintos de veracidade.

No caso do WhatsApp, a rede social mais popular do país com 200 milhões de usuários, as ações para “combater a desinformação no Brasil” envolvem desde remoção de contas falsas, trabalho conjunto com agências de checagem de notícias e colaboração com as autoridades, entre outras. Em uma pesquisa realizada pelo aplicativo junto ao Datafolha em dezembro de 2016, mostrou-se que 35% das pessoas usam a plataforma como fonte de notícias. Por outro lado, relatório divulgado este ano pela Segurança Digital do Brasil mostrou que 95,7% das fake news são divulgadas na plataforma.

O CONTRA-ATAQUE NAS MÍDIAS TRADICIONAIS

Em meio aos diferentes caminhos da notícia, as mídias tradicionais, como rádio e TV, especialmente os telejornais, conquistaram uma distinção valiosa como balizadoras da veracidade da notícia. Considera-se que esses veículos não produzem notícias falsas, pois a credibilidade é a essência do seu negócio. Nesse sentido, o enfrentamento das fake news ocorre através de ações que buscam corroborar essa percepção geral, tais como: 

 FATO OU FAKE

O grupo Globo desenvolveu um espaço para receber dúvidas e divulgar pareceres de veracidade a respeito de conteúdos duvidosos divulgados nas redes ou indicados por usuários. Um grupo de jornalistas apura os conteúdos e os classifica como:

“FATO”: quando o conteúdo é totalmente verídico;
“NÃO É BEM ASSIM”: quando é parcialmente verdadeiro e exige esclarecimentos;
“FAKE”: quando não possui dados comprovados.

Em paralelo, o projeto também lançou um bot no Facebook para ajudar a desmistificar os conteúdos duvidosos.

 PROJETO COMPROVA

Vinte e quatro meios de comunicação brasileiros, como Bandnews, Canal Futura, Correio do Povo, EXAME, Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, Jornal do Comércio, Metro Brasil, Nexo Jornal, O Estado de São Paulo, Poder360, Revista Piauí, Rádio Bandeirantes, SBT, UOL, Veja e a Agence France-Presse no Brasil, criaram o projeto Comprova com o objetivo de “descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas durante a campanha presidencial de 2018”. Através de uma conta especial no WhatsApp, o Comprova receberá de usuários informações consideradas suspeitas para checagem de sua veracidade.

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