Transitar entre noções particulares de gênero e desconstruir padrões sociais são marcas da contemporaneidade que dialogam com interpretações ancestrais de feminino e masculino e a ideia de fluidez entre elas. Essa reapropriação de conceitos tem sido potencializada pelo mundo digital e o acesso a referências e culturas diversas. Para a geração gender-fluid, a identificação com diferentes gêneros ultrapassa a lógica binária e independe de definições centradas nos órgãos genitais.

“Gender fluid” é uma identidade de gênero marcada pela capacidade de fluir e não se limitar por permanências, e pode ou não ter relação com orientação sexual. Uma pessoa gender fluid pode, a qualquer momento, identificar-se como homem, mulher, neutra ou qualquer outra identidade não binária, ou alguma combinação de identidades. Seu gênero também pode variar de forma aleatória ou em resposta a diferentes circunstâncias.

12%

dos millennials se identificam como transgêneros ou não conformes de gênero

Fonte: GLAAD, 2017

Entre

0,05% e 1,7%

da população nasce com traços intersexuais (anatomia reprodutiva ou sexual que não se enquadra nas definições típicas masculinas ou femininas) e pode se identificar como não binária ou de gênero queer

Fonte: Nações Unidas, 2017

Simplesmente ver mais pessoas não conformes e fluidas de gênero e ouvir suas histórias tem ajudado os millennials a entender suas próprias identidades, ainda que, no caso do Brasil, permaneçam fora das estatísticas. O Censo do IBGE considera o gênero como equivalente ao sexo (homem e mulher), desconsiderando as demais possibilidades de identidade de gênero.

No entanto, se a fluidez é a marca das identidades contemporâneas, não se pode dizer que este debate tenha surgido agora. Embora a ideia de que há mais do que apenas homens e mulheres no mundo possa parecer nova para muitas pessoas, a não conformidade de gênero não é uma criação do século 21.

Exemplos de pessoas que desafiam convenções tradicionais de gênero existem entre culturas e períodos históricos diferentes. Há as Hijras da Índia, os antigos egípcios que trocavam o gênero das mulheres para entrar na vida após a morte, e até um terceiro gênero retratado na arte italiana do século XVIII, para citar alguns. Ligadas a isso, concepções de gêneros não binários observadas em alguns povos indígenas se conectam à atual discussão sobre fluidez de gênero entre as possibilidades de ser e estar no mundo.

Fluidez ancestral


Mais do que um comportamento atual passageiro, o trânsito entre gêneros é parte da  construção das identidades humanas em diversas partes do mundo. Nesse sentido, os “dois espíritos” (também conhecidos como "espíritos duplos") são nativos norte-americanos que vivem de acordo com papéis de gênero variados – de 3 a 5 – encontrados entre muitas tribos ameríndias nos Estados Unidos e no Canadá. Isso inclui tanto vestir-se como executar funções de ambos os gêneros. 

O termo é recente e foi cunhado no início dos anos 1990 em uma reunião de líderes LGBTQ+ indígenas para substituir o termo francês “berdache” usado de forma depreciativa para descrever qualquer indígena que não caísse na compreensão judaico-cristã de homem ou mulher. Por serem pessoas com qualidades masculinas e femininas, elas são vistas como condutoras entre o mundo físico e espiritual, e colocadas em posições de poder em suas comunidades. O feminino e o masculino como energias intercambiáveis.

A diversidade dos papéis de gênero também esteve historicamente presente no Brasil. Segundo o antropólogo e historiador Luiz Mott, entre os nativos Guaicuru, pertencentes à nação Guarani, existiam índios que, além de se travestirem, eram totalmente identificados com o estilo de vida do sexo oposto, fugindo ao enquadramento colonial do que seriam os papéis de gênero de homens e mulheres. 

Assim, os papéis sociais de alguns povos originários já apontavam para uma construção fluida de gênero, embora este conceito tenha sido elaborado muito tempo depois nos estudos sobre o tema na década de 1980. A diversidade de papéis e identidades dos indivíduos, embora ainda esbarre em preconceitos e desconhecimento, é um dos caminhos para se compreender como o feminino e o masculino podem fluir como energias que atravessam épocas e culturas diferentes.

Transitar entre noções particulares de gênero e desconstruir padrões sociais são marcas da contemporaneidade que dialogam com interpretações ancestrais de feminino e masculino e a ideia de fluidez entre elas. Essa reapropriação de conceitos tem sido potencializada pelo mundo digital e o acesso a referências e culturas diversas. Para a geração gender-fluid, a identificação com diferentes gêneros ultrapassa a lógica binária e independe de definições centradas nos órgãos genitais.

“Gender fluid” é uma identidade de gênero marcada pela capacidade de fluir e não se limitar por permanências, e pode ou não ter relação com orientação sexual. Uma pessoa gender fluid pode, a qualquer momento, identificar-se como homem, mulher, neutra ou qualquer outra identidade não binária, ou alguma combinação de identidades. Seu gênero também pode variar de forma aleatória ou em resposta a diferentes circunstâncias.

12%

dos millennials se identificam como transgêneros ou não conformes de gênero

Fonte: GLAAD, 2017

Entre

0,05% e 1,7%

da população nasce com traços intersexuais (anatomia reprodutiva ou sexual que não se enquadra nas definições típicas masculinas ou femininas) e pode se identificar como não binária ou de gênero queer

Fonte: Nações Unidas, 2017

Simplesmente ver mais pessoas não conformes e fluidas de gênero e ouvir suas histórias tem ajudado os millennials a entender suas próprias identidades, ainda que, no caso do Brasil, permaneçam fora das estatísticas. O Censo do IBGE considera o gênero como equivalente ao sexo (homem e mulher), desconsiderando as demais possibilidades de identidade de gênero.

No entanto, se a fluidez é a marca das identidades contemporâneas, não se pode dizer que este debate tenha surgido agora. Embora a ideia de que há mais do que apenas homens e mulheres no mundo possa parecer nova para muitas pessoas, a não conformidade de gênero não é uma criação do século 21.

Exemplos de pessoas que desafiam convenções tradicionais de gênero existem entre culturas e períodos históricos diferentes. Há as Hijras da Índia, os antigos egípcios que trocavam o gênero das mulheres para entrar na vida após a morte, e até um terceiro gênero retratado na arte italiana do século XVIII, para citar alguns. Ligadas a isso, concepções de gêneros não binários observadas em alguns povos indígenas se conectam à atual discussão sobre fluidez de gênero entre as possibilidades de ser e estar no mundo.

Fluidez ancestral


Mais do que um comportamento atual passageiro, o trânsito entre gêneros é parte da  construção das identidades humanas em diversas partes do mundo. Nesse sentido, os “dois espíritos” (também conhecidos como "espíritos duplos") são nativos norte-americanos que vivem de acordo com papéis de gênero variados – de 3 a 5 – encontrados entre muitas tribos ameríndias nos Estados Unidos e no Canadá. Isso inclui tanto vestir-se como executar funções de ambos os gêneros. 

O termo é recente e foi cunhado no início dos anos 1990 em uma reunião de líderes LGBTQ+ indígenas para substituir o termo francês “berdache” usado de forma depreciativa para descrever qualquer indígena que não caísse na compreensão judaico-cristã de homem ou mulher. Por serem pessoas com qualidades masculinas e femininas, elas são vistas como condutoras entre o mundo físico e espiritual, e colocadas em posições de poder em suas comunidades. O feminino e o masculino como energias intercambiáveis.

A diversidade dos papéis de gênero também esteve historicamente presente no Brasil. Segundo o antropólogo e historiador Luiz Mott, entre os nativos Guaicuru, pertencentes à nação Guarani, existiam índios que, além de se travestirem, eram totalmente identificados com o estilo de vida do sexo oposto, fugindo ao enquadramento colonial do que seriam os papéis de gênero de homens e mulheres. 

Assim, os papéis sociais de alguns povos originários já apontavam para uma construção fluida de gênero, embora este conceito tenha sido elaborado muito tempo depois nos estudos sobre o tema na década de 1980. A diversidade de papéis e identidades dos indivíduos, embora ainda esbarre em preconceitos e desconhecimento, é um dos caminhos para se compreender como o feminino e o masculino podem fluir como energias que atravessam épocas e culturas diferentes.

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