A simbiose entre a televisão e o digital tem contribuído para forçar os limites da inclusão dos idosos na era tecnológica. Para os jovens adultos e os nativos digitais, dividir a atenção entre telas não é novidade, mas para a terceira idade a lógica do consumo de conteúdos simultâneos tem representado uma mudança de hábitos e a possibilidade de acessar novos conteúdos sem abandonar a programação tradicional da TV.

O público mais velho (de 60 anos em diante) que cresceu em uma idade pré-digital tradicionalmente consome mais TV. Inevitavelmente, os idosos também começaram a se tornar usuários de tecnologia, em um número que está aumentando constantemente. Dados recentes demonstram que, em decorrência da segmentação e dos interesses diversos, o público idoso tem se aproximado dos conteúdos on-line como mais uma opção de entretenimento e informação, contrariando o senso comum de que são tecnofóbicos e inaptos a lidar com os dispositivos digitais.

Embora as pessoas mais velhas apresentem mais dificuldades em dividir sua atenção entre várias tarefas, acompanhar o telejornal e a novela ou escolher um filme na televisão enquanto se assiste a um tutorial ou se escuta uma playlist no celular são exemplos de novos hábitos que começam a ser percebidos.

A TV e o acesso para os idosos

De acordo com uma pesquisa do Escritório de Comunicações do Reino Unido, um número crescente de idosos, incluindo os muito velhos, está consumindo TV via streaming, sem abandonar por completo o papel de telespectador da programação da TV tradicional. Trata-se de um público que, na média, conta com uma renda maior e mais estabilizada e com maior poder de compra.

1 em cada 10

pessoas com 75 anos ou mais utiliza serviços como DVRs e plataformas de streaming para acompanhar seus programas favoritos.

21%

do público de 55-64 anos e

11%

daqueles com mais de 75 anos consomem filmes programas de TV via streaming semanalmente.

29%

do público entre 55 e 64 anos e

9%

dos maiores de 75 anos frequentemente assistem a vídeos em sites como o YouTube.

2/3

dos idosos usam a web para acessar o clima e notícias.

57%

compram online.

44%

buscam informações sobre comida e culinária.

43%

usam para jogar.

Quase metade

utiliza a internet para verificar cupons, ofertas diárias e descontos.

Fonte: Adults’ Media Use and Attitudes Report, 2016.

Por outro lado, nos Estados Unidos, as pessoas mais velhas estão assistindo a muito mais televisão. Em 2017, o americano médio com mais de 65 anos passava cerca de quatro horas e 20 minutos assistindo à TV todos os dias. Este é um aumento de quase 30 minutos desde 2003, o primeiro ano em que o governo começou a coletar estatísticas sobre a televisão. Atualmente, a televisão tradicional atinge apenas 77% dos adultos de 18 a 34 anos por semana, em comparação com mais de 90% dos adultos mais velhos.

Um estudo recente descobriu que adultos entre os 18 e os 34 anos que vivem na sua própria casa com família recém-formada assistem a três horas e quinze minutos de TV todos os dias. Isso são 45 minutos a mais do que “adultos dependentes”, ou aqueles que ainda moram com seus pais. 

Como os perfis demográficos mais antigos sempre assistiram a mais televisão, há a chance de que os adultos de 18 a 34 anos sigam as gerações anteriores e assistam a mais televisão à medida que envelhecem – especialmente com a crescente popularização da TV por streaming ou on demand.

No Brasil

No Brasil, de acordo com levantamento da pesquisa de Tecnologia da Informação e da Comunicação, do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o uso de internet para consumo de filmes, séries e outros programas cresceu. 

Entre as pessoas que usam a internet para assistir a vídeos, houve um crescimento de 75,6% para 81,8% entre 2016 e 2017, relacionado principalmente à popularização dos canais de streaming como YouTube e Netflix e dos serviços on demand dos canais de TV. E quando o enfoque é o uso da internet, o maior crescimento foi observado justamente entre os maiores de 60 anos – aumento de 25,9% entre 2016 e 2017. Ainda de acordo com a pesquisa, é interessante observar que também houve um crescimento no consumo de internet por meio de smart TV, de 11% para 17%.

Atenção especial

No entanto, apesar do crescente número de idosos em contato com dispositivos e acervos on-line, a barreira digital entre adultos mais velhos e pessoas mais jovens ainda existe. Os adultos mais velhos usam significativamente menos aplicativos digitais e passam menos tempo on-line do que os adultos mais jovens. Os benefícios da inclusão digital, contudo, são evidentes. Quando treinados no uso de redes sociais e tecnologias como Skype e e-mail, pessoas mais idosas apresentam melhor desempenho cognitivo e uma melhora nos níveis de saúde.

Sob esse aspecto, abraçar a era digital está relacionado a muitos benefícios, assim como a diversos desafios para uma geração sênior. As pessoas mais velhas geralmente lidam com desafios físicos, como deficiência visual ou auditiva, bem como com falta de compreensão ou familiaridade com a tecnologia.

Entre os idosos, o uso de laptops e tablets, segundo estudos, é mais popular, o que faz sentido quando se considera a diferença no tamanho da tela em comparação a um telefone celular, que geralmente tem tela menor e menus complexos que podem ser mais difíceis de navegar. 

A partir dos 40 anos, aproximadamente, a lente do olho começa a endurecer, causando uma condição chamada “presbiopia”. Esta é uma parte normal do envelhecimento que torna cada vez mais difícil a leitura de textos pequenos e próximos.

Além disso, usar telas sensíveis ao toque pode ser natural o suficiente para uma criança, mas não necessariamente para uma pessoa mais velha - os nervos do dedo se tornam menos sensíveis com a idade, o que significa que o “toque” das pessoas mais velhas pode ser muito mais pesado.

Ainda assim, abraçar a tecnologia permite que os idosos se integrem ao universo digital e às novas e variadas formas de consumo de TV disponíveis atualmente, misturando novos e velhos jeitos de assistir a seus conteúdos favoritos. Desenvolver novas tecnologias e recursos para a ampla inclusão desse público permanece um desafio em aberto.

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