Ao longo do tempo, as diferentes concepções de infância se encadeiam para culminar em uma visão cada vez mais autêntica e voltada à vivência das crianças no momento presente. Neste cenário, os adultos reveem seus papéis no processo educativo e procuram meios para instigar mais autonomia, liberdade e criatividade. Esse processo ainda em curso configura uma conquista, não somente das crianças, mas de toda a sociedade. Entretanto, antes de apresentarmos uma visão de futuro, falaremos um pouco sobre o passado. Você já se perguntou sobre como chegamos à visão atual sobre a infância? De que forma podemos valorizar mais as crianças para que se tornem livres, criativas e independentes?

Falar sobre infância é falar sobre o tempo. Ao longo da História, o olhar adulto sobre esse período da vida marcou diferentes pontos de vista sobre o papel da criança na sociedade, os quais culminaram na moderna concepção de infância. Nesse processo, cresce o interesse em estimular a vivência dos anos de infância como maneira de garantir mais autonomia e protagonismo, mas como em todo processo evolutivo, ainda há muito a conquistar e o papel dos adultos se revela essencial para esse avanço.

Hoje temos uma ideia do que é a infância, mas ela nem sempre foi assim. O próprio conceito ainda está engatinhando; estudos sobre o tema são relativamente recentes, surgem em meados do século XX, a partir da década de 1960/70, junto com as discussões identitárias e de direitos humanos. Para entender melhor como evoluímos para o conceito moderno de infâncias, é importante considerar o background histórico por trás dessa fase da vida.

Na Idade Média, o conceito formal de infância não existia. Durante a maior parte desse período, crianças e adultos compartilhavam os mesmos lugares, situações e tarefas. Não havendo distinções, tampouco uma visão elaborada dessa fase da vida, as crianças se vestiam como adultos e a vida sexual começava a partir dos 7, 8 anos de idade. Crianças eram entendidas como "mini-adultos".

No século XVII, um olhar um pouco diferente começa a se desenvolver sobre aquele pequeno ser que é mais fraco e que fala e se porta de modo distinto. Essas particularidades dos pequenos apontam para um novo conceito, segundo o qual a criança era vista como um sub-ser fraco – que precisava, portanto, ser protegido do mundo adulto – e irracional – necessitando de disciplina para conseguir viver em sociedade.

Já no século XVIII, uma nova camada é adicionada ao conceito: a da inocência, baseada no tripé heteronomia, dependência e obediência. Heteronomia é o contrário de autonomia; é a ideia de que a criança está constantemente submetida à autorização do adulto. Por sua vez, a dependência tem a ver com a ideia de que a criança precisa ter suas atividades do dia a dia geridas ou reguladas por um adulto. Por fim, por meio do vínculo de dependência, surge a obediência, ou seja, a ideia de que a criança deve obedecer ao adulto. A ideia da criança inocente é tão socialmente aceita que tem reflexo, por exemplo, no mundo das artes, no momento em que os iluministas começam a representar em suas obras a criança como uma figura imaculada.

Mais tarde, no século XIX, o sociólogo francês Émile Durkheim adiciona outros conceitos, como a disciplina, segundo a qual é ensinado à criança que nem sempre ela pode fazer o que quer e que, por isso, é preciso esforço para viver em sociedade. Por outro lado, o conceito de abnegação representa a ideia de que em determinados momentos a criança terá que abrir mão de suas vontades por uma imposição moral.

Tudo isso fundamenta, em suma, a visão pré-moderna de infância. Mesmo com o distanciamento histórico, é possível notar traços fortes dessas camadas de conceitos na forma como passamos a enxergar a infância no mundo atual. É a partir dos anos de 1960 e 70, na onda de transformações do pós-guerra, que as crianças ganham protagonismo e passam a ser objeto de estudo nas ciências humanas.

Conceito pré-moderno de infância

Idade Média

Não criança
Mini-adulto

 

SEC XVII

Sub-ser
Fraco - Proteção
Irracional - Disciplina

 

SEC XVIII

Inocente
Heteronomia
Dependência
Obediência

 

SEC XIX

Moral
Disciplina
Abnegação
Autonomia da Vontade

Na vivência da infância, a interação das crianças com os adultos ocorre em duas esferas importantes: a família e a escola. Contudo, em ambos os ambientes o tempo de ser criança é colocado em xeque – a preparação para o futuro muitas vezes se sobrepõe ao aproveitamento do momento presente.

A escola, da maneira como conhecemos, forma-se a partir dos conceitos pré-modernos de infância: um lugar moralizante e de disciplina onde existe um adulto, detentor de autoridade, que possui o papel de ensinar a criança a agir no mundo. A estrutura que é criada na escola reproduz, também, o ambiente de trabalho e se baseia na lógica do mundo adulto. O sentido do que é ensinado à criança importa menos no tempo presente do que sua utilidade em algum momento da vida adulta. Dessa forma, a lógica do tempo em relação ao cotidiano é uma lógica do tempo futuro: na escola, a criança não está desenvolvendo habilidades para lidar com o mundo como ele se apresenta agora, mas sim competências para a lógica do adulto que ela se tornará para poder atuar em sociedade.

De outro lado, a família, como unidade fundamental que constitui a sociedade, também divide com o ambiente escolar um papel relevante na preparação da criança para a vida que ela terá adiante. A família pré-moderna contava com papeis, posições e interações bem definidas e socialmente aceitas, que se organizavam segundo uma hierarquia na qual o pai representava a autoridade máxima. Todas as características pré-modernas da subordinação da infância em relação ao mundo adulto são observadas dentro da estrutura familiar. A família pré-moderna carrega valores como a disciplina, o controle, a obediência e a não contestação, pois deles dependiam a boa vida em sociedade.

Assim, esse tipo de tratamento, por parte da família e da escola, gerava crianças passivas, que aceitavam o que lhes era dado como verdade e que precisavam de autoridade para agir no mundo. Ao chegar à maioridade, elas reproduziam esse mesmo padrão de comportamento, ou seja, tornaram-se fáceis de lidar no ambiente de trabalho.

No Brasil, a Constituição de 1917 garantia a família por meio do matrimônio. O direito matrimonial centrava o poder na figura do “pai de família”, o “provedor”. Dessa maneira, tudo o que envolvia relações de poder dizia respeito ao pai – sob essa lógica, até mesmo um abuso, uma violência ou qualquer comportamento desrespeitoso seria problema de cunho exclusivamente familiar.

Apenas com a promulgação da Constituição de 1988 é que ocorre uma mudança nessa concepção. Pela primeira vez na história legal do Brasil, as relações interpessoais e o afeto gerado por essas relações ganham respaldo legal. Segundo uma visão eudemonista (em que a felicidade é premissa e fundamento da vida moral), a família passa, então, a ser garantida pelo afeto e não mais pelo matrimônio. A mudança legal que substitui o paradigma da hierarquia pelo paradigma do afeto reflete a mudança ocorrida na relação de poder dentro da família, a qual se torna mais horizontal e baseada em trocas mais significativas. Nesse novo cenário, a criança não precisa mais amar o pai simplesmente porque ele manda nela, mas sim pelo amor e carinho expressos na relação familiar.

Já nos tempos atuais, a pluralidade de conformações familiares fez com que as famílias nucleares e moralizadoras, formadas a partir do matrimônio e das uniões estáveis, dessem lugar a vários outros tipos de família, algumas mais rígidas e hierárquicas e outras mais modernas, horizontais e colaborativas.

O resultado das transformações sociais ocorridas na sociedade contemporânea respinga na forma como encaramos a infância. Valores da modernidade observados na esfera do trabalho, da educação e dos relacionamentos humanos em geral permeiam o viés pelo qual se enxerga o papel das crianças: liberdade, igualdade/horizontalidade, autonomia, conexões acionadas por interesse e destino autodeterminado são índices desses novos tempos.

Toda essa combinação deu origem à imagem de uma criança mais questionadora e confortável em expressar suas opiniões. Pela autonomia e independência própria do seu tempo e da sua idade, ela já cresce em um ambiente em que o questionamento do mundo ao redor é não apenas instigado, mas valorizado e apoiado pela sociedade.

Desde cedo, isso influencia a maneira como a criança interage com o mundo e desenvolve conhecimento. Teorias modernas reconhecem o papel de agência das crianças, segundo o qual instrutores atuam como facilitadores e a aprendizagem se torna uma experiência ativa. Nesse sentido, certas tendências e reflexões apontam para tipos de brincadeiras verdadeiramente significativas e ferramentas para educar com liberdade e de forma construtiva, sem perder a diversão:

A brincadeira é uma forma de se relacionar com o mundo. Por meio das brincadeiras, a criança se desenvolve juntando o que vem de fora com o que está dentro. No entanto, as brincadeiras podem também carregar estereótipos, preconceitos, e outras predeterminações, pois a criança busca uma significação através de exemplos que vêm de fora, do mundo adulto. A aprendizagem significativa (meaningful learning) ocorre justamente por meio do estímulo às atividades em que a criança utiliza sua criatividade e cria suas próprias regras ativamente.

Na nova educação pautada na liberdade do aluno, o professor não está mais em uma posição superior, uma vez que a lógica da imposição da ação pelo professor é substituída pela lógica do tempo presente. Essa visão subjetiva da criança, junto com seus interesses no aqui e agora, irá fazer com que ela ativamente busque se relacionar com o mundo ao redor, tornando o processo de aprendizagem muito mais forte e intenso. A aprendizagem, é uma experiência ativa. O adulto atua como ponte para a construção do conhecimento, levando em conta os sentimentos, os interesses, as situações que a criança enfrenta em seu dia a dia. Esse processo constrói sentido para as crianças, enraizando a aprendizagem através da experiência e da memória afetiva. Por essa lógica, brincar pode ser uma forma de meaningful learning, fazendo com que essa ponte seja construída através dessas relações significativas. O resultado desse tipo de educação são alunos mais articulados com senso crítico e valores de colaboração.

O humor é uma das formas de acionar essas relações significativas, na medida em que pode funcionar como uma experiência afetiva tanto individual quanto coletiva; quando pensado para a família, por exemplo, o humor pode ser vivenciado numa experiência de diversão e de reforço de laços. Assim como nas brincadeiras, o humor carrega moral e demanda atenção, pois pode conter críticas e julgamentos de valor. Piadas que alimentam aspectos como desigualdades, violência, desrespeito e estereótipos devem ser evitadas.

Ninguém mais vive sem tecnologia. A criança, como um ser de seu tempo, não foge à regra. Contudo, no debate teórico a respeito dessa imersão, existem hoje duas correntes bastante distintas: há teóricos que dizem que a tecnologia é boa, na medida em que empodera e ensina as crianças; por outro lado, outros apontam para os sinais de alerta, como o acesso fácil a conteúdos impróprios. Neste ponto, fica evidente a evolução histórica em relação ao que se julga apropriado para as crianças – como vimos, na Idade Média as crianças tinham acesso irrestrito ao mundo dos adultos, algo impensável no mundo atual. Essa discussão em relação ao acesso, porém, fica em segundo plano, pois é fato: a tecnologia já é algo dado e com o qual as crianças já têm uma intimidade muito natural. A questão é como os adultos podem buscar compreender os pontos positivos e negativos para mediar essa relação e ensinar as crianças a ter senso crítico diante daquilo a que são expostas, tornando essa também uma experiência de meaningful learning.

Competição precoce versus inicialização descompromissada: nessa disputa, o esporte deve ser, acima de qualquer coisa, um fim em si mesmo. O esporte coletivo exerce fascínio nas crianças justamente pelo prazer na atividade coletiva, e não pela competição. No entanto, na especialização precoce, despreza-se a riqueza das práticas lúdicas em favor da preparação de futuros atletas, novamente prezando pela lógica pré-moderna de educar para o futuro. O esporte deve ser uma oportunidade de brincar e descobrir o mundo, e não uma entrada precoce na vida adulta. Para tanto, o enfoque sobre os aspectos positivos do esporte devem contemplar:

  • Desenvolvimento de forma integral
  • Motricidade, afetividade, sociabilidade e inteligência
  • Aspectos sociais (estabelecer relações com as pessoas e com o mundo)
  • Aspectos filosóficos (questionar e compreender o mundo)
  • Aspectos intelectuais (auxiliar no desenvolvimento cognitivo)
  • Expressão corporal

Os conceitos e estudos sobre infância estão engatinhando, quem sabe ainda levarão algum tempo para aprender os primeiros passos sozinhos. Nesse exercício de observar a formação do indivíduo, compreende-se que tudo é complexo e existem inúmeras variáveis que geram oportunidade de ressignificar as experiências a que foram expostos desde os primeiros anos de vida, no meio familiar ou nas interações com o mundo, intermediadas pelas brincadeiras, atividades esportivas ou tecnologia corrente à época. Atualmente, a independência e a autonomia das crianças está em pauta e é objetivo de interesse de pais, avós, professores, psicanalistas e estudiosos, nesse contexto de uma infância moderna e sem barreiras, que se nutre continuamente por imaginação e criatividade.