Entre os maiores temores da humanidade certamente está a incerteza sobre o porvir. Expressões populares como “o amanhã a Deus pertence” não dão conta de acalmar a imaginação alimentada pelo noticiário: nos últimos anos, o medo do futuro aparece como uma das principais inseguranças dos brasileiros diante da inconstância política e econômica pela qual passa o país.

Nos Estados Unidos, de acordo com uma pesquisa de 2017, os maiores medos da população – colapso econômico, outra guerra mundial, não ter dinheiro suficiente para o futuro, entre outros – são todas preocupações projetadas sobre o futuro.

Mas será que criar futuros catastróficos pode, na verdade, ajudar a lidar melhor com o presente?
De acordo com as lições das narrativas distópicas, a resposta é sim.

Distopia significa uma representação ou descrição de uma organização social futura marcada por extrema opressão, desespero ou privação em que as forças sociais negativas têm supremacia. O conceito se popularizou no século XX em resposta a eventos como a Primeira Guerra Mundial, segundo o estudioso literário Gregory Claeys. O termo utopia, por oposição, é usado para descrever sociedades imaginárias perfeitas.

A distopia é, antes de qualquer coisa, uma utopia que deu errado, ou uma utopia que funciona apenas para um segmento particular da sociedade. Utopistas acreditam no progresso; distópicos não. Eles combatem esse argumento em visões conflitantes do futuro – os utópicos oferecendo promessas e os distópicos emitindo advertências.

handmaid

Hoje em dia, porém, as profecias distópicas não parecem mais algo tão distante no horizonte e o espaço entre elas e a realidade está encolhendo rapidamente, envolvendo temas como a desigualdade radical e o discurso autoritário até a mudança climática irreversível e o avanço sem precedentes na tecnologia.

Isso significa que não é mais exatamente o futuro que preocupa, mas os resultados das ações e perspectivas atuais, o que tem se refletido no interesse crescente pelas possibilidades de destino representadas pela ficção distópica.

Narrativas distópicas

A linha entre entretenimento e realidade se tornou um ponto de alarme tanto na literatura como nas obras audiovisuais distópicas, sendo ao mesmo tempo uma das explicações para a crescente popularidade do gênero no Brasil e no mundo.


Segundo Margaret Atwood, autora de
The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), livro de 1985 transformado em premiada série televisiva em 2017, a distopia é uma característica da sociedade do século XXI cuja função é alertar, mas também lembrar que as coisas sempre podem ser piores.

Durante a Marcha das Mulheres em Washington para protestar contra a posse do presidente Donald Trump em 2017, Atwood recebeu uma série de notificações em suas redes sociais com imagens de manifestantes segurando cartazes que faziam referência à sua obra. "Torne Margaret Atwood Ficção Novamente!", dizia um dos cartazes. "The Handmaid’s Tale” não é um manual de instruções!", afirmava outro.

Mas nada disso é exatamente novo. Na literatura, a maioria dos romances distópicos foi escrita no século XX, entre eles, os clássicos “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley (1932), e “1984”, de George Orwell (1949).

Da mesma forma, o cinema levou às telas diversas interpretações de sociedades distópicas, incluindo desde “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick (1971), baseado no livro homônimo de Anthony Burgess, até os blockbusters de Arnold Schwarzenegger, como “O Vingador do Futuro” (1990) e “O Exterminador do Futuro” (1984).

Assim, a distopia ocupou todos os meios narrativos populares, desde longas-metragens até romances de jovens adultos. Mas rara, até recentemente, era a série de TV distópica. Atualmente, com o boom de consumo de séries nas plataformas digitais, essas histórias tomam variadas formas, desde as ameaças do avanço tecnológico na série Black Mirror até a extinção humana via proliferação de zumbis em The Walking Dead passando pelo controle reprodutivo das mulheres via fundamentalismo religioso retratado em The Handmaid’s Tale ou, ainda, a interpretação radical da meritocracia na série brasileira Supermax.

Segundo a escritora e ativista Walidah Imarisha, em sua análise sobre o poder da ficção científica, este é o único gênero literário que permite às pessoas questionar, problematizar e reconceber tudo de uma só vez no momento presente. A ficção científica permitiria imaginar possibilidades fora do que existe hoje – e é justamente aí que residiria o seu poder visionário capaz de imaginar o impossível para que seja viável efetivamente construí-lo (no caso das utopias) – ou evitá-lo (no caso das distopias).

1516

O termo “utopia” é cunhado pelo escritor britânico Thomas More (1478-1535)

1868

O filósofo e economista britânico John Stuart Mill (1806-1873) utiliza pela primeira vez a palavra “distopia” em um debate parlamentar, referindo-se a um “lugar infeliz”

1895

Publicação de “A Máquina do Tempo”, H. G. Wells

Século XX

A distopia ganha popularidade devido ao clima social e político predominante. Durante as tensões do pós-guerra, visões terríveis do futuro não eram difíceis de imaginar.

1932

Publicação de “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley

1949

Publicação de “1984”, George Orwell

1971

Estreia de “Laranja Mecânica” (filme), Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess de 1962

1985

Publicação de “The Handmaid’s Tale”, Margaret Atwood

Décadas de 1980 e 90

A distopia se infiltra na cultura pop e astros como Arnold Schwarzenegger se transforma no herói das histórias distópicas em filmes como “O Vingador do Futuro” e “O Exterminador do Futuro”

1999

A virada do milênio, marcada pelas previsões apocalípticas de Nostradamus, marca a imaginação coletiva nas confabulações e incertezas sobre o futuro

Décadas de 2000 e 2010

O fenômeno de popularidade de séries como The Walking DeadBlack Mirror e The Handmaid’s Tale e de livros e filmes como a franquia Jogos Vorazes reaviva a discussão sobre distopias e alcança novos públicos e debates. Por aqui, séries como Supermax oferecem uma visão distópica à brasileira

Entender os problemas do presente bem o suficiente para projetar um futuro ainda mais terrível leva tempo, assim como a assimilação reflexiva do público. É provavelmente por isso que há certo conforto estranho em consumir histórias distópicas. Elas são lembretes, apesar de refletirem um futuro terrível, de que nunca é tarde demais, que não estamos tão longe e que podemos reverter o mecanismo que torna nossos medos reais.

leia-mais-azul
medo

 

MEDO

Novas formas e expressões do medo na contemporaneidade refletem inquietações derivadas da interação entre os mundos real e virtual.

Paixão em Séries

 

PAIXÃO EM SÉRIES

Já sabemos que as séries se tornaram um poderoso fenômeno cultural que mobiliza milhões de espectadores – como este fenômeno se intensificou nos últimos anos e qual o impacto na vida dos brasileiros?