Sentir medo é uma constante na vida de qualquer pessoa. Estimulado por diversos gatilhos e contextos, esse sentimento permeia atitudes e comportamentos voltados à sobrevivência e à sensação de segurança diante de ameaças à vida. Os medos mudam e refletem ansiedades e dilemas de cada época. Hoje, novos medos entram em cena e colocam em jogo questões de identidade pessoal, validação da autoestima e controle sobre a veracidade dos fatos. Mas como definir o medo? Como o medo se manifesta hoje em dia? E o que o brasileiro mais teme na atualidade?

Em um estudo da agência FCB realizado em 2017 em parceira com o Coletivo Tsuru e a Quantas, constatou-se que, embora a parcela destemida seja maior, o medo está, sim, presente na vida das pessoas – cerca de ¼ da população está declaradamente com medo. É uma realidade, porém não significa que as pessoas pensam no medo a todo momento. Não é um sentimento constante.

Para pesquisar uma das emoções humanas mais difíceis de lidar, o estudo contou com a colaboração de especialistas e com 2.088 entrevistas on-line realizadas com a população das classes ABC, com 13 anos de idade ou mais, com acesso à internet, em todo o país.

NÍVEL DE MEDO NA POPULAÇÃO HOJE

(Estimulada e única, em %)

grafico-medo

P10. Numa escala de 1 a 5, onde 1 quer dizer "sou uma pessoa que não tem medos" e 5 quer dizer "sou uma pessoa com muitos medos", como você se autoavalia? (EST/RU) // P11. O que te deu medo recentemente? (ESPONTÂNEA, RM)

O medo sempre foi um sentimento presente. Ele é parte integral de nossa existência e garantiu nossa sobrevivência como espécie. Sim, já tivemos medo da peste, de monstros marinhos, e de não ganhar o reino dos céus. Esses medos, por mais fantasiosos que fossem, eram mais concretos e visíveis.

Obras de Hieronymus Bosch, pintor e gravador holandês dos séculos XV e XVI.

Obras de Hieronymus Bosch, pintor e gravador holandês dos séculos XV e XVI.

Se a caracterização visual do medo pode assumir diversas facetas, das mais sutis às mais grotescas, os significados atribuídos à palavra também abrangem essa pluralidade de percepções. A ideia de medo pode assumir um significado mais próximo do receio e da precaução (o medo de tomar manga com leite) ou até mesmo do asco ou pavor (o medo de se deparar com um inseto ou uma situação de perigo iminente). Seja qual for a sensação despertada, o medo provoca inquietação.

grafico-me-do

Ser humano implica sentir medo

Se o medo é uma emoção inerente ao ser humano, isso significa que ele pode ou não ser ativado. Sendo assim, surge a questão: o que tem provocado medo no brasileiro?

Em um estudo da agência FCB realizado em 2017 em parceira com o Coletivo Tsuru e a Quantas, constatou-se que, embora a parcela destemida seja maior, o medo está, sim, presente na vida das pessoas – cerca de ¼ da população está declaradamente com medo.

Para pesquisar uma das emoções humanas mais difíceis de lidar, o estudo contou com a colaboração de especialistas e com 2.088 entrevistas on-line realizadas com a população das classes ABC, com 13 anos de idade ou mais, com acesso à internet, em todo o país.

NÍVEL DE MEDO NA POPULAÇÃO HOJE

(Estimulada e única, em %)

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P10. Numa escala de 1 a 5, onde 1 quer dizer "sou uma pessoa que não tem medos" e 5 quer dizer "sou uma pessoa com muitos medos", como você se autoavalia? (EST/RU) // P11. O que te deu medo recentemente? (ESPONTÂNEA, RM)

O medo sempre foi um sentimento presente. Ele é parte integral de nossa existência e garantiu nossa sobrevivência como espécie. Sim, já tivemos medo da peste, de monstros marinhos, e de não ganhar o reino dos céus. Esses medos, por mais fantasiosos que fossem, eram mais concretos e visíveis.

Obras de Hieronymus Bosch, pintor e gravador holandês dos séculos XV e XVI.

Obras de Hieronymus Bosch, pintor e gravador holandês dos séculos XV e XVI.

Se a caracterização visual do medo pode assumir diversas facetas, das mais sutis às mais grotescas, os significados atribuídos à palavra também abrangem essa pluralidade de percepções. A ideia de medo pode assumir um significado mais próximo do receio e da precaução (o medo de tomar manga com leite) ou até mesmo do asco ou pavor (o medo de se deparar com um inseto ou uma situação de perigo iminente). Seja qual for a sensação despertada, o medo provoca inquietação.

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Ser humano implica sentir medo

Se o medo é uma emoção inerente ao ser humano, isso significa que ele pode ou não ser ativado. Sendo assim, surge a questão: o que tem provocado medo no brasileiro?

O mistério da existência humana (o clássico universal “de onde viemos e para onde vamos”) representa uma grande janela aberta para o desconhecido. Diante disso, a partir do momento em que temos a consciência da nossa existência, temos a clareza da nossa finitude. Temos medo de tudo que possa nos desconstruir física, moral ou emocionalmente. A morte é o medo essencial de todo ser humano e delimita a nossa condição primordial.

“Sou paranoica com o fato de que um dia simplesmente não vou mais existir, de morrer. As coisas perdem totalmente o sentido pra mim quando penso que estou aqui pra nada.”

(Entrevistada)

Se a morte é o epicentro dos medos humanos, a partir dela se desdobram outras camadas de temores que indicam como os medos são organizados em grandes blocos. Nestes, existem os medos contextuais e os primordiais.

Entre os contextuais, eles podem adentrar os campos da violência (guerra, sequestro, doenças, etc.), do social (discriminação, bullying, falar em público, etc.) e do individual (mudar de carreira, fracasso, velhice, etc.).

Já em relação aos medos primordiais, eles se agrupam em ameaça aos filhos (morte ou doença) e ancestral (altura, escuridão, bichos, etc.).

O QUE DESPERTA O MEDO

graficos-morte

Nesse espectro de medos, faltam aqueles relacionados à época em que vivemos. Estes escapam à lógica do medo da morte e avançam para meandros distintos.

Nossos medos hoje são outros.

medo2

Boa parte de nossas vidas, até mesmo nossa identidade, é moldada por nossa vida on-line. Não poderia ser diferente com nossos medos atuais. Nesse contexto, intensificamos os temores de sempre e ganhamos novos medos e sensações que ainda nem conseguimos nomear direito. São os medos da vida urbano-digital.

Você, por acaso, coloca uma fita adesiva cobrindo a câmera do seu computador? Fica exasperado ao ser inundado por notícias diárias sobre aquecimento global, corrupção, misoginia, intolerância, negação da ciência, surgimento das corporações-estado? Tem a desconfortável sensação de que todo mundo leva uma vida maravilhosa – viajando para lugares incríveis, indo nos melhores restaurantes – menos você?

Se sua resposta for positiva para pelo menos uma das perguntas acima, então você é mais um do crescente número de pessoas que sofrem com os medos contemporâneos.

“Dê um monstro a uma população com medo, para que ela o despedace, e você está livre para fazer o que quiser. Mas hoje há uma diferença com relação a outras experiências ocorridas na história: a internet. A disseminação do medo e do ódio é muito mais rápida e eficiente, assim como a fabricação de monstros para serem destroçados."

Eliane Brum (El País, 30/10/2017)

A característica insidiosa do medo contemporâneo é que ele é fluido, etéreo, e evolui como uma consequência inesperada do crescimento da internet e das redes sociais. Como toda tecnologia, elas podem ser usadas como ferramentas de iluminação ou de opressão. As pessoas podem fazer um passeio virtual pelo Museu do Louvre, sentados confortavelmente na poltrona de suas casas, ou fazer um comentário maldoso nas redes sociais sobre a aparência de alguém. As redes funcionam como caixas acústicas reverberando para o mundo inteiro tudo o que é bom e ruim daquilo que acontece em nosso dia a dia.

Mas é na faceta menos óbvia que as redes sociais aparecem de forma mais ardilosa, ao estabelecer padrões irreais, tanto de comportamento como de beleza, com a qual comparamos nossa existência ordinária. A sensação de inadequação e fracasso é quase inevitável.

Paul Bloom e Matthew Jordan, da Universidade Yale, em artigo recente, citam um conceito inicialmente formulado pelo filósofo inglês Derek Parfit: a ideia de que somos todos “torturadores inofensivos”. Os pesquisadores contam um experimento hipotético, em que alguém estranho está preso a uma máquina, sentindo um leve choque, quase imperceptível. Na máquina existe um botão. Se você girar o botão levemente, o estranho sofrerá um leve aumento do choque, mas tão pequeno que ele nem perceberá. Você dá o leve giro no botão e segue em frente. Em seguida, centenas de outros repetem o mesmo leve giro até que finalmente o estranho está gritando de dor. O efeito individual de cada giro no botão passa quase despercebido, e seguimos adiante sem achar que causamos muito sofrimento, mas o efeito coletivo das ações é terrível.

A analogia não poderia ser mais apropriada, com um pequeno reparo. Somos todos, na realidade, ao mesmo tempo, vítimas e algozes: a cada like, a cada compartilhamento, inocentemente alimentamos nossos egos e nossos medos. Como já antecipara profeticamente Augusto dos Anjos (1884-1914) em seu poema “Versos Íntimos”, “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

O mistério da existência humana (o clássico universal “de onde viemos e para onde vamos”) representa uma grande janela aberta para o desconhecido. Diante disso, a partir do momento em que temos a consciência da nossa existência, temos a clareza da nossa finitude. Temos medo de tudo que possa nos desconstruir física, moral ou emocionalmente. A morte é o medo essencial de todo ser humano e delimita a nossa condição primordial.

“Sou paranoica com o fato de que um dia simplesmente não vou mais existir, de morrer. As coisas perdem totalmente o sentido pra mim quando penso que estou aqui pra nada.”

(Entrevistada)

Se a morte é o epicentro dos medos humanos, a partir dela se desdobram outras camadas de temores que indicam como os medos são organizados em grandes blocos. Nestes, existem os medos contextuais e os primordiais.

Entre os contextuais, eles podem adentrar os campos da violência (guerra, sequestro, doenças, etc.), do social (discriminação, bullying, falar em público, etc.) e do individual (mudar de carreira, fracasso, velhice, etc.).

Já em relação aos medos primordiais, eles se agrupam em ameaça aos filhos (morte ou doença) e ancestral (altura, escuridão, bichos, etc.).

O QUE DESPERTA O MEDO

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Nesse espectro de medos, faltam aqueles relacionados à época em que vivemos. Estes escapam à lógica do medo da morte e avançam para meandros distintos.

Nossos medos hoje são outros.

medo2

Boa parte de nossas vidas, até mesmo nossa identidade, é moldada por nossa vida on-line. Não poderia ser diferente com nossos medos atuais. Nesse contexto, intensificamos os temores de sempre e ganhamos novos medos e sensações que ainda nem conseguimos nomear direito. São os medos da vida urbano-digital.

Você, por acaso, coloca uma fita adesiva cobrindo a câmera do seu computador? Fica exasperado ao ser inundado por notícias diárias sobre aquecimento global, corrupção, misoginia, intolerância, negação da ciência, surgimento das corporações-estado? Tem a desconfortável sensação de que todo mundo leva uma vida maravilhosa – viajando para lugares incríveis, indo nos melhores restaurantes – menos você?

Se sua resposta for positiva para pelo menos uma das perguntas acima, então você é mais um do crescente número de pessoas que sofrem com os medos contemporâneos.

“Dê um monstro a uma população com medo, para que ela o despedace, e você está livre para fazer o que quiser. Mas hoje há uma diferença com relação a outras experiências ocorridas na história: a internet. A disseminação do medo e do ódio é muito mais rápida e eficiente, assim como a fabricação de monstros para serem destroçados."

Eliane Brum (El País, 30/10/2017)

A característica insidiosa do medo contemporâneo é que ele é fluido, etéreo, e evolui como uma consequência inesperada do crescimento da internet e das redes sociais. Como toda tecnologia, elas podem ser usadas como ferramentas de iluminação ou de opressão. As pessoas podem fazer um passeio virtual pelo Museu do Louvre, sentados confortavelmente na poltrona de suas casas, ou fazer um comentário maldoso nas redes sociais sobre a aparência de alguém. As redes funcionam como caixas acústicas reverberando para o mundo inteiro tudo o que é bom e ruim daquilo que acontece em nosso dia a dia.

Mas é na faceta menos óbvia que as redes sociais aparecem de forma mais ardilosa, ao estabelecer padrões irreais, tanto de comportamento como de beleza, com a qual comparamos nossa existência ordinária. A sensação de inadequação e fracasso é quase inevitável.

Paul Bloom e Matthew Jordan, da Universidade Yale, em artigo recente, citam um conceito inicialmente formulado pelo filósofo inglês Derek Parfit: a ideia de que somos todos “torturadores inofensivos”. Os pesquisadores contam um experimento hipotético, em que alguém estranho está preso a uma máquina, sentindo um leve choque, quase imperceptível. Na máquina existe um botão. Se você girar o botão levemente, o estranho sofrerá um leve aumento do choque, mas tão pequeno que ele nem perceberá. Você dá o leve giro no botão e segue em frente. Em seguida, centenas de outros repetem o mesmo leve giro até que finalmente o estranho está gritando de dor. O efeito individual de cada giro no botão passa quase despercebido, e seguimos adiante sem achar que causamos muito sofrimento, mas o efeito coletivo das ações é terrível.

A analogia não poderia ser mais apropriada, com um pequeno reparo. Somos todos, na realidade, ao mesmo tempo, vítimas e algozes: a cada like, a cada compartilhamento, inocentemente alimentamos nossos egos e nossos medos. Como já antecipara profeticamente Augusto dos Anjos (1884-1914) em seu poema “Versos Íntimos”, “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

Os novos medos que nos apavoram na contemporaneidade são a expressão mais sombria de fenômenos socioculturais em curso em todo o mundo. Diante deles, o indivíduo, muitas vezes perplexo pelas lacunas na compreensão e na busca por saídas, é inundado por informações e estímulos próprios da sociedade do espetáculo, da era do acesso irrestrito a quaisquer conteúdos e da queda das instituições observada em diversas esferas da sociedade.

Em nossa pesquisa, identificamos três principais blocos que suportam as sensações e expressões dos medos da NUVEM relacionados ao existir no mundo atual:

graficos-18

SCREEN SOCIETY

A SCREEN SOCIETY reflete a chamada sociedade do espetáculo, das telas, a qual promove e dá espaço a uma nova configuração social e cultural que nos expõe o tempo todo. Privacidade e intimidade tornam-se conceitos flexíveis; com o smartphone sempre à mão, tudo é passível de ser registrado, compartilhado e avaliado.

Vivemos inundados por informação, constantemente julgando e nos sujeitando aos julgamentos dos outros. Essa exposição, como resultado, evidencia nossas inseguranças e nossos medos – o julgamento alheio, ser o que se é, falhar na frente dos outros.

Um exemplo de medo da SCREEN SOCIETY tem a ver justamente com a artificialidade imposta pela vida em rede. A incessante busca pela aparência de perfeição o tempo todo pressiona as pessoas a não poderem ser o que elas realmente são.

(“Série sarcástica mostra as ‘mentiras’ que se escondem nas fotos das redes sociais” – Hypeness, 2015)

OS MEDOS DA SCREEN SOCIETY

Hiperexposição e hipermonitoramento (glass cage)

Não pode ser o que se é (artificialidade)

Obrigação de mostrar o lado luz sempre (poliana 2.0)

Tudo é amplificado (magnifying glass)

INFO COSMOS

A amplitude do acesso à informação toma a forma de um dos medos da sociedade atual. Aqui, o sentimento é gerado pela angústia do excesso de possibilidades e, ao mesmo tempo, de desconhecimento. O ritmo acelerado da vida cotidiana e o acesso 24h a todos os tipos de conteúdo deixam as pessoas ansiosas e angustiadas diante da constatação evidente de que não há mais tempo para absorver e ter opinião crítica sobre tudo. Da mesma forma, não há mais tempo para adaptar-se a novas situações.

Um dos medos desse grupo é justamente o BLUR – “não enxergar o realmente importante”:

info

OS MEDOS DO INFO COSMOS

Não sei como, mas pode acontecer (scientific room)

Eu sei como, mas não pode acontecer (fantasy room)

Não enxergar o realmente importante (blur)

Não ter respiro (overloaded)

JELLY STRUCTURE

Hoje, as grandes instituições estão em transformação e sob ferrenho escrutínio da sociedade. Nosso mundo se fragmentou e se tornou mais fluido. Com isso, surge a sensação de incerteza e a falta de uma referência concreta que cause identificação ou mesmo oposição. Tudo é possível e nada é certo. Este é o terreno perfeito para a inquietação nesse mundo da pós-verdades e fake news.

A sensação de ser manipulado o tempo todo é um dos medos dentro desse grupo. A ameaça dos trolls e bots às democracias e aos processos eleitorais, por exemplo, evidenciam essa ameaça sempre à espreita.

jelly

OS MEDOS DA JELLY STRUCTURE

Perder o referencial (mind breaker)

Ser manipulado o tempo todo (puppet life)

Não ter nada para acreditar (crise de confiança)

Ser responsável por tudo (culpocêntrico)

Não ter saída (dead end)

Os novos medos que nos apavoram na contemporaneidade são a expressão mais sombria de fenômenos socioculturais em curso em todo o mundo. Diante deles, o indivíduo, muitas vezes perplexo pelas lacunas na compreensão e na busca por saídas, é inundado por informações e estímulos próprios da sociedade do espetáculo, da era do acesso irrestrito a quaisquer conteúdos e da queda das instituições observada em diversas esferas da sociedade.

Em nossa pesquisa, identificamos três principais blocos que suportam as sensações e expressões dos medos da NUVEM relacionados ao existir no mundo atual:

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SCREEN SOCIETY

A SCREEN SOCIETY reflete a chamada sociedade do espetáculo, das telas, a qual promove e dá espaço a uma nova configuração social e cultural que nos expõe o tempo todo. Privacidade e intimidade tornam-se conceitos flexíveis; com o smartphone sempre à mão, tudo é passível de ser registrado, compartilhado e avaliado.

Vivemos inundados por informação, constantemente julgando e nos sujeitando aos julgamentos dos outros. Essa exposição, como resultado, evidencia nossas inseguranças e nossos medos – o julgamento alheio, ser o que se é, falhar na frente dos outros.

Um exemplo de medo da SCREEN SOCIETY tem a ver justamente com a artificialidade imposta pela vida em rede. A incessante busca pela aparência de perfeição o tempo todo pressiona as pessoas a não poderem ser o que elas realmente são.

(“Série sarcástica mostra as ‘mentiras’ que se escondem nas fotos das redes sociais” – Hypeness, 2015)

OS MEDOS DA SCREEN SOCIETY

Hiperexposição e hipermonitoramento (glass cage)

Não pode ser o que se é (artificialidade)

Obrigação de mostrar o lado luz sempre (poliana 2.0)

Tudo é amplificado (magnifying glass)

INFO COSMOS

A amplitude do acesso à informação toma a forma de um dos medos da sociedade atual. Aqui, o sentimento é gerado pela angústia do excesso de possibilidades e, ao mesmo tempo, de desconhecimento. O ritmo acelerado da vida cotidiana e o acesso 24h a todos os tipos de conteúdo deixam as pessoas ansiosas e angustiadas diante da constatação evidente de que não há mais tempo para absorver e ter opinião crítica sobre tudo. Da mesma forma, não há mais tempo para adaptar-se a novas situações.

Um dos medos desse grupo é justamente o BLUR – “não enxergar o realmente importante”:

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OS MEDOS DO INFO COSMOS

Não sei como, mas pode acontecer (scientific room)

Eu sei como, mas não pode acontecer (fantasy room)

Não enxergar o realmente importante (blur)

Não ter respiro (overloaded)

JELLY STRUCTURE

Hoje, as grandes instituições estão em transformação e sob ferrenho escrutínio da sociedade. Nosso mundo se fragmentou e se tornou mais fluido. Com isso, surge a sensação de incerteza e a falta de uma referência concreta que cause identificação ou mesmo oposição. Tudo é possível e nada é certo. Este é o terreno perfeito para a inquietação nesse mundo da pós-verdades e fake news.

A sensação de ser manipulado o tempo todo é um dos medos dentro desse grupo. A ameaça dos trolls e bots às democracias e aos processos eleitorais, por exemplo, evidenciam essa ameaça sempre à espreita.

jelly

OS MEDOS DA JELLY STRUCTURE

Perder o referencial (mind breaker)

Ser manipulado o tempo todo (puppet life)

Não ter nada para acreditar (crise de confiança)

Ser responsável por tudo (culpocêntrico)

Não ter saída (dead end)

Para além dos medos derivados da grande questão da morte, agregam-se outros, nascidos mais recentemente, com os quais precisamos lidar para viver em sociedade.

OS 48 MEDOS QUE PAIRAM SOBRE NÓS

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graficos-09

Todo mundo tem vários medos, mas a intensidade de cada um é diferente. Quem tem filhos coloca a ameaça ao filho no topo. Depois vem a violência, que é vivenciada no dia a dia. Em seguida os medos individuais, em especial o medo do fracasso e de enfrentar o novo.

graficos-11

OS MAIORES MEDOS DA POPULAÇÃO

graficos-12

O fracasso hoje é simbólico, ou seja, não pode ser necessariamente identificado ou constatado por questões práticas como não alcançar um determinado objetivo no trabalho ou na escola. A “nuvem” cria padrões e expectativas impossíveis. É muita perfeição para qualquer pessoa e o sentimento de fracasso está sempre à espreita.

De modo complementar, a sensação de realização passa necessariamente por uma validação social. Dessa mesma forma, a “nuvem” nos coloca frente a infinitas novas situações a todo o momento, reiniciando a todo o momento esse ciclo de enfrentamento do fracasso, da validação e da novidade.

fracasso

Percebemos também que os medos da “nuvem” requalificam os medos de sempre. De acordo com os entrevistados, 95% das pessoas sofrem em algum nível com o medo urbano digital. Esse medo contagioso e às vezes até difícil de nomear impacta todos os medos humanos que estamos acostumados a sentir. Essa “nuvem” requalifica a atmosfera de medo que estamos vivendo.

Por outro lado, os medos não atuam de forma individualizada. São múltiplos. Atuam juntos se multiplicando e se retroalimentando.

graficos-15

Frente a esse turbilhão, as formas de lidar com o medo são variáveis. Pela via da fuga, busca-se ignorar medo e encontrar um refúgio que possa oferecer proteção e respostas, como é o caso da religião. Pela via emocional, a reação diante do medo pode ser a paralisia, tornar-se estático e impassível diante daquilo que causa o amedrontamento. Já pelo caminho da elaboração, os medos são expressos, vocalizados por meio de processos de racionalização e compartilhamento, como os processos terapêuticos. Nessa trajetória contínua de racionalização, chegamos, por fim, à via do sentimento, em que o medo é enfrentado através dos estímulos à criatividade e à sagacidade.

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Para além dos medos derivados da grande questão da morte, agregam-se outros, nascidos mais recentemente, com os quais precisamos lidar para viver em sociedade.

OS 48 MEDOS QUE PAIRAM SOBRE NÓS

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Todo mundo tem vários medos, mas a intensidade de cada um é diferente. Quem tem filhos coloca a ameaça ao filho no topo. Depois vem a violência, que é vivenciada no dia a dia. Em seguida os medos individuais, em especial o medo do fracasso e de enfrentar o novo.

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OS MAIORES MEDOS DA POPULAÇÃO

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O fracasso hoje é simbólico, ou seja, não pode ser necessariamente identificado ou constatado por questões práticas como não alcançar um determinado objetivo no trabalho ou na escola. A “nuvem” cria padrões e expectativas impossíveis. É muita perfeição para qualquer pessoa e o sentimento de fracasso está sempre à espreita.

De modo complementar, a sensação de realização passa necessariamente por uma validação social. Dessa mesma forma, a “nuvem” nos coloca frente a infinitas novas situações a todo o momento, reiniciando a todo o momento esse ciclo de enfrentamento do fracasso, da validação e da novidade.

fracasso

Percebemos também que os medos da “nuvem” requalificam os medos de sempre. De acordo com os entrevistados, 95% das pessoas sofrem em algum nível com o medo urbano digital. Esse medo contagioso e às vezes até difícil de nomear impacta todos os medos humanos que estamos acostumados a sentir. Essa “nuvem” requalifica a atmosfera de medo que estamos vivendo.

Por outro lado, os medos não atuam de forma individualizada. São múltiplos. Atuam juntos se multiplicando e se retroalimentando.

graficos-15

Frente a esse turbilhão, as formas de lidar com o medo são variáveis. Pela via da fuga, busca-se ignorar medo e encontrar um refúgio que possa oferecer proteção e respostas, como é o caso da religião. Pela via emocional, a reação diante do medo pode ser a paralisia, tornar-se estático e impassível diante daquilo que causa o amedrontamento. Já pelo caminho da elaboração, os medos são expressos, vocalizados por meio de processos de racionalização e compartilhamento, como os processos terapêuticos. Nessa trajetória contínua de racionalização, chegamos, por fim, à via do sentimento, em que o medo é enfrentado através dos estímulos à criatividade e à sagacidade.

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Vivemos tempos incertos. O sentimento do medo, em suas novas manifestações geradas pela “nuvem”, deve estar cada vez mais presente em nossas vidas de agora em diante, juntamente com aqueles com os quais lidamos praticamente desde ao nascer. Embora o medo possa pautar a forma como as pessoas vivem, por outro lado é exatamente essa uma das forças de aprendizado humano. A gente se ferramenta para viver com esses medos, ao invés de nos tornarmos pessoas medrosas.

A evolução da sociedade e o desenvolvimento tecnológico concorrem para a criação de medos que adentram por brechas cotidianas. De uma forma ou de outra, o medo é apenas uma das emoções do amplo arsenal de que dispomos para sobreviver no mundo. Todas as outras estão aí para nos ajudar a vencê-lo.

FONTE:
Estudo da agência FCB realizado em 2017 em parceira com o Coletivo Tsuru e a Quantas