Há quem diga que “para bom entendedor, meia palavra basta”. Será mesmo? Nunca tivemos ao nosso dispor tantas ferramentas diferentes para nos comunicarmos com os outros, de forma rápida e fácil, como atualmente. Um emoji, uma imagem e algumas palavras já nos dão a sensação de que a outra pessoa está na mesma frequência de pensamento que a nossa. Vivemos a chamada “Era da Comunicação”. Contudo, não é preciso ir muito longe para nos darmos conta de que não escapamos da Torre de Babel. Basta olharmos os grupos de WhatsApp, principalmente os de familiares, para percebermos que, apesar dos avanços tecnológicos, estamos bem longe de nos entendermos melhor.

De olho nos movimentos atuais da sociedade, propusemo-nos a desvendar as raízes de nossos desentendimentos contemporâneos, investigar a qualidade de nossas trocas e o resultado disso tudo na forma como enxergamos o mundo. De que maneira o jeito que nos comunicamos e nos informamos hoje constroem ou distorcem a realidade? O que as nossas conversas revelam sobre nós? Até que ponto podemos culpar a tecnologia pelo azedamento de nossas relações? Essas são algumas das ~tretas~ que este estudo explorou e que nos levam a compreender a natureza dos vínculos que criamos com os outros nesse “telefone sem fio” diário.

Para entendermos as raízes de nossos desentendimentos, é importante compreendermos o papel que a comunicação tem em nossas vidas. Para tanto, acompanhe esta situação hipotética:

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Imagine que você dormiu em sua casa, mas acordou em outro lugar. Ao despertar, percebe que está em uma sala vazia com apenas uma porta. O que você faz? Muito provavelmente a sua curiosidade o levará a abrir a porta, não é mesmo?

Agora imagine um bebê que dormiu em um lugar, mas acordou em uma sala com apenas uma porta, contudo, sem saber o que é uma porta. O que esse bebê faz? É possível que ele fique um tanto quanto perdido em como agir ou demore um pouco para descobrir as possibilidades que uma porta oferece.

Saber que uma porta é uma porta muda tudo. Saber que uma porta é uma porta dá sentido à nossa existência em uma sala em que só existe uma porta. O ser humano é um ser simbólico. Nesse sentido, é na construção de signos, assim como na troca de seus significados, que a vida humana ganha sentido. Para que não sejamos bebês presos em uma sala, sem saber que é possível sair dela, comunicamo-nos por meio da linguagem. É ela que abre a porta de nossa percepção, atribuindo significado às coisas. Sendo assim:

“A linguagem é a forma mais humana de apreensão do mundo”

(Leila Longo, Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ)

Nos animais, a possibilidade de simbolizar é praticamente inexistente. Eles percorrem o curso da vida seguindo seus instintos. Os animais vivem apenas o momento presente, não elaborando sobre passado ou futuro, pois para existir passado e futuro é preciso haver sentido. Tampouco têm consciência da morte. Já nós, seres humanos, sabendo que um dia iremos morrer, questionamo-nos em relação ao sentido de nossa existência. Pensamos a nossa vida quase como um projeto em que uma parte já foi feita e a outra ainda está por fazer.

Nossos movimentos em busca desse sentido, da realização dessa parte que falta, acontecem na troca com outro, na experiência compartilhada de mundo, na comunicação e em seu possível resultado: a compreensão. Dessa maneira, a linguagem não deixa de ser um artifício cuja intenção é nos fazer esquecer a solidão e a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte, como bem definiu o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser.

Se a comunicação é esse conduíte de signos que se coloca entre o eu e o outro, ela é capaz de construir tanto laços quanto muros.

 

Isso porque a comunicação depende do outro e ele não é acessível a nós como imaginamos que seja.

 

Enquanto a comunicação animal é binária e fechada, a nossa é ambígua, aberta e criativa. Geralmente nos apegamos à ideia de uma comunicação que dá 100% certo quando nos atentamos apenas ao envio e recebimento de mensagens. Quando falamos com alguém, lemos uma notícia ou assistimos a um vídeo, é comum sentirmos que entendemos e compreendemos 100% os signos com os quais estamos em contato, que o conteúdo emitido ou recebido chega de forma “completa e inteira” na outra ponta. Contudo, essa ideia de eficácia não é real.

 

Na verdade, todo exercício comunicacional é falível por pressuposto.

 

Não costumamos pensar sobre isso, mas as falhas de comunicação não são exceção, mas sim a regra. Ler, ouvir, falar e assistir são partes de uma rede muito mais complexa e, nesse sentido, vivemos iludidos, acreditando em uma realidade de plena compreensão. Tomar consciência disso é o primeiro passo para tornar a comunicação mais fluida. Sendo assim, para ajudar nesse exercício, este estudo jogou luz sobre cinco ilusões que permeiam a nossa vida cotidiana e impactam de forma decisiva a experiência compartilhada de vida. São elas:

ILUSÃO DE COMPREENSÃO

ILUSÃO DE ESCUTA

ILUSÃO DE TRIBO

ILUSÃO DE CONTEXTO

ILUSÃO DE ISENÇÃO

Em tempos nos quais nunca se discutiu tanto as habilidades necessárias para vivermos melhor em sociedade, o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin advoga a favor da inserção do tema “compreensão” em programas educacionais. Para ele, a compreensão é o raro resultado da comunicação.

Ao lado de matérias de extrema importância como matemática e história, o pensador chama atenção para esse elemento fundamental às relações humanas, mas que anda em falta. Um problema que começa na família, em que os filhos não compreendem seus pais e esses tampouco entendem seus filhos. Um mal-estar que também se perpetua por outras instâncias, como a escola, o trabalho e os relacionamentos afetivos, de onde decorre a importância de seu ensino.

Mas, afinal, o que significa “compreender”? Para responder, Morin lança mão da etimologia da palavra, que vem do latim compreendere, que significa: colocar junto todos os elementos de explicação. Em outras palavras, compreender é não considerar somente um elemento de explicação, mas diversos. A forma como isso se dá no cérebro é bastante interessante. O psicólogo israelense e ganhador do Prêmio Nobel Daniel Kahneman explica bem o processo de nosso sistema cognitivo que, segundo ele, é comandado por dois sistemas:

  • Rápido
  • Automático
  • Pouco ou nenhum esforço/reflexão
  • Devagar
  • Senso crítico
  • Concentração e foco
  • Preguiçoso

SISTEMA 1

O Sistema 1 processa as informações de forma rápida, automática e é usado em atividades mentais em que se é exigido pouco ou nenhum esforço para compreensão. Ele controla situações de baixa complexidade ou que já dominamos bem (como dirigir até o trabalho), e em que a rapidez de resposta é essencial, como desviar de um carro em nossa direção ou mesmo ler palavras grandes em cartazes.

SISTEMA 2

Já o Sistema 2 opera de forma mais devagar. Ele é exigido em atividades mentais mais laboriosas, em que o senso crítico e a ponderação precisam ser convocados, o que o torna às vezes um tanto preguiçoso. O Sistema 2 demanda foco e concentração para ser utilizado. Estacionar em uma vaga apertada, preencher o formulário de imposto de renda ou mesmo verificar a validação de um argumento lógico complexo são algumas das situações em que o Sistema 2 é escalado.

Quando pensamos em nós mesmos, identificamo-nos com o Sistema 2, o eu consciente, raciocinador e ponderado. Embora o Sistema 2 acredite estar onde a ação e a maioria das decisões acontecem, é o automático Sistema 1 o protagonista de nossas vidas. Até aí nenhum problema, se não estivéssemos recrutando, cada vez mais, o Sistema 1 naquilo que deveria ser processado pelo Sistema 2.

Para entendermos a dimensão desse problema é preciso levar em conta uma das principais habilidades do Sistema 1: a enorme capacidade de criar associações automáticas. Para mostrar na prática, Kahneman costuma convidar as pessoas a observarem suas reações diante da junção das seguintes palavras:


Que sensações essas palavras juntas lhe causam? A maioria das pessoas experimenta uma temporária aversão a bananas quando leem essas palavras unidas. Embora não tenham nenhuma relação explícita, é inevitável que nosso cérebro crie uma ponte entre elas de modo a criar sentido e coerência no contexto. Essa capacidade associativa é de grande valia em situações como a aproximação de um carro em nossa direção versus a possibilidade de um acidente. No entanto, na compreensão do funcionamento do mundo ao nosso redor, isso pode ser perigoso.

Ao ler rapidamente manchetes em um jornal ou posts nas redes sociais é comum que o Sistema 1 crie automaticamente uma sinergia entre eles. Segundo Kahneman,

O mote do Sistema 1 é “o que você vê é tudo que existe”.

Como Edgar Morin diz, compreender implica juntar todos os elementos de explicação e não se deter apenas aos pontos que estão ali. Para análises mais complexas, a utilização do Sistema 1 não é adequada.

O problema contemporâneo é o crescente uso do Sistema 1 para o que cabe ao Sistema 2.

Cada vez tiramos conclusões precipitadas diante dos elementos que nos são apresentados, refletindo muito pouco sobre o que está ao redor. É nesse contexto de baixa ponderação e confiança cega que as fake news tendem a prosperar.

Essa atmosfera de pouca reflexão acontece porque estamos exaustos. Segundo Jonathan Crary, professor de Arte Moderna e Teoria da Arte na Universidade de Columbia e autor do livro “24/7 – Capitalismo e os Fins do Sono”, o atual sistema econômico mundial nos impõe progressivamente um ritmo de vida sem pausas, calcado na lógica de produtividade. Tornar nossas horas as mais úteis possíveis é o grande imperativo contemporâneo.

Desde a invenção da luz elétrica, nosso “dia” foi ampliado, aumentando as exigências em relação à nossa capacidade produtiva e nosso corpo. Cada vez mais são raros os momentos significativos da existência humana que não tenham sido apropriados pelo tempo de trabalho ou consumo, seja de produtos, serviços ou conteúdos. Para Crary, o sono seria a última fronteira a ser conquistada, um espaço de tempo a ser transformado em algo rentável.

Um intervalo de inatividade a ser monetizado pela “economia da atenção”, uma vez que coloca obstáculos ao paradigma da conexão permanente e consumo incessante.

Dentro dessa concepção é importante estar sempre em movimento, mudando, fazendo algo – é isso que confere prestígio, em oposição à estabilidade, que é muitas vezes sinônimo de inação.

Não à toa dormimos cada vez menos:

60%

dos brasileiros dormem entre 4 e 6 horas

Mais de

80%

gostaria de dormir mais de 7 horas

Fonte: Pesquisa realizada pela Academia Brasileira de Neurologia (2017).

Já outra pesquisa feita pela Universidade de Michigan mostra que esse resultado é ainda mais desanimador se compararmos com outras nações. O Brasil está entre os 3 países onde as pessoas dormem menos no mundo.

Manter um estado contínuo de prontidão mental debilita nosso sistema cognitivo, afetando nossas capacidades perceptivas. Nesse sentido, estamos sobrecarregando o Sistema 2 e convocando muito mais o Sistema 1 do que deveríamos.

Essa sobrecarga, por sua vez, impacta a forma como consumimos filmes, notícias, artigos, livros e vídeos. Acabamos optando com mais frequência por conteúdos de menor densidade e menor exigência de envolvimento, nos moldes do “Pop” e “Brega”.

Entenda melhor essas terminologias a seguir.

OS FORMATOS DE CONTEÚDO QUE ENQUADRAM A COMPREENSÃO

Com inspiração nos trabalhos de diversos pesquisadores dos setores da música e cultura pop, como Simon Reynolds e John Seabrook, é possível analisar o ecossistema de conteúdos pelo nível de densidade e grau de envolvimento e cognição exigidos.

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OS CONTEÚDOS BREGA

 Aqui o termo “Brega” é inspirado no gênero musical brega, estilo de música romântica popular que possui letras que exageram na dramaticidade das emoções. É importante não confundir com a noção pejorativa de “brega”, que remete a algo cafona e de mau gosto.

 Assim como o estilo musical, o formato Brega é o exagero do simples. Ele não exige muito trabalho cognitivo, não possui muitas camadas de significados, é literal, entrega sua mensagem pronta. Por ser extremamente simples e com alto apelo emocional, esse formato tende a ser facilmente difundido e rapidamente absorvido. Contudo, o Brega não é muito democrático, podendo afastar algumas pessoas por apostar, muitas vezes, em uma simplificação que beira a ingenuidade.

No campo musical, muitos expoentes do sertanejo encarnam bem essa lógica. Não por acaso, o tema mais explorado e de maior sucesso desse ritmo é um sentimento da “sofrência”: a saudade.

Já na arena informacional, iniciativas e discursos que procuram reduzir temas complexos a soluções simplistas bebem da fonte do Brega. Um bom exemplo disso é esta matéria da revista Veja, que aborda a construção do muro na fronteira mexicana como medida de refrear a imigração e o narcotráfico nos Estados Unidos. Aliás, o presidente Donald Trump parece ser pródigo na cartilha do Brega. Seus discursos costumam ser bastante inflamados, recheados de frases de efeito que convocam as pessoas a tirarem conclusões sem muita reflexão.

OS CONTEÚDOS POP

São os mais inclusivos de todos e, como o próprio nome já sugere, conseguem se conectar com diferentes tipos de pessoas por serem de fácil assimilação. Na produção dos conteúdos Pop há uma grande pressão pelo novo, de modo a alcançar o próximo hit que contagiará as rodas de conversas por semanas. Nesse sentido, a volatilidade é alta e por isso, geralmente, as pessoas se enjoam rápido e partem logo em busca do próximo “chiclete”. O Pop tem muitas vezes um caráter meteórico.

No campo da música, as produções de Pharrell Williams são exemplos emblemáticos do Pop. Quem não se lembra de cantar e dançar “Happy” até a exaustão?

Já no universo informacional, as matérias da Revista Time seguem bem essa lógica. A capa “Me Me Me Generation” (2013), por exemplo, gerou grande repercussão por retratar as características dos jovens intitulados “Millennials”, influenciando pessoas e negócios do mundo inteiro a respeito desse público. O título da matéria incorpora bem as características do formato Pop, pois é bastante atraente e de fácil recordação, uma vez que remete tanto a uma tendência individualista deste grupo até uma possível postura mimada.

Outro bom exemplo de conteúdo Pop é o filme Espanglês (Spanglish). Estrelado por Adam Sandler, o filme aborda a questão da imigração mexicana para os EUA sob uma perspectiva que gera alguma reflexão, mas ainda assim, é de fácil assimilação. Comprimir camadas de significados de uma só vez é uma das principais potências desse formato.

OS CONTEÚDOS INDIE

O Indie é o mais livre e autoral de todos, apostando fortemente na experimentação. Com veia vanguardista, esse formato costuma quebrar as regras do contexto em que se insere, por isso é comum surpreender ou até mesmo chocar quem tem contato com esse tipo de conteúdo. O Indie tende a se difundir com mais facilidade em meios cosmopolitas, pois necessita de muitas influências para manter o frescor da novidade.

As produções desse formato costumam virar referência para expoentes do Pop, que acabam democratizando todo o experimentalismo do Indie. O lendário álbum “Bad” (1987) de Michael Jackson, por exemplo, foi também inspirado em samples e coreografias de artistas de rua do ascendente hip hop da época. O rei do pop sabia como ninguém traduzir a ousadia do Indie para as massas.

Já no cenário musical brasileiro, a banda paulistana Metá Metá é uma boa representante desse formato. Com misturas de afrobeat e jazz, o grupo é conhecido por sua sonoridade cheia de flexibilidade e improvisação, aspecto que a banda faz questão de manter em seus shows.

No campo informacional, por sua vez, a ÉNóis Conteúdo tem o Indie em sua essência. Misto de agência de notícias independente e escola de jornalismo, a ÉNois se define como um “laboratório cuja meta de audiência é causar”. As pautas escritas por jovens da periferia têm o intuito de ascender debates em torno de assuntos que passam despercebidos pela mídia tradicional.

OS CONTEÚDOS ERUDITOS

O Erudito é o mais complexo e profundo de todos os formatos. Em função de sua sofisticação, exige grande participação da audiência para ser entendido e devidamente absorvido, portanto não se propaga com tanta facilidade.

Na cena musical, o instrumentista de jazz Miles Davis foi um típico seguidor da dinâmica do Erudito. Com melodias elaboradas, seu som pode parecer um tanto caótico e difícil de apreciar para não iniciados no jazz, contudo é justamente essa a ideia: convidar as pessoas a ouvirem mais de uma vez para começarem a “entender” a proposta. Não à toa, suas composições são consideradas obras-primas até hoje.

Já no universo da informação, matérias como as do jornal francês Le Monde Diplomatique também convocam as pessoas a uma maturação lenta, exigindo dos leitores um maior envolvimento e repertório. Esta manchete, por exemplo, já traz conceitos robustos, como “mentalidade colonial”, para abordar a questão da imigração aos EUA. É o típico artigo em que a leitura dinâmica inviabiliza o real entendimento.

Desse modo, não é de se espantar que os conteúdos Brega e Pop ganhem tamanha expressão na era 24/7. Quem nunca ouviu a frase: “só quero chegar em casa, desligar a cabeça e assistir a alguma coisa”? Quem nunca teve essa sensação?

Pois bem, não há nada de errado em querer descansar a cabeça depois de um dia duro de trabalho.

O problema é dependermos exclusivamente desses tipos de conteúdos para formarmos a nossa visão de mundo.

A partir de um repertório muito simples estamos criando a ilusão de compreender um mundo cada vez mais complexo.

Nesse processo, não só a nossa compreensão empobrece, mas também as nossas conversas. Equilibrar a dieta informacional, assim como encarar o que é complexo com o nível de envolvimento que é preciso são questões intimamente ligadas às habilidades comunicacionais que nem sempre nos damos conta.

COMO PODEMOS AJUDAR NESSE PROCESSO?


Da perspectiva de quem produz conteúdo há a oportunidade de mais do que informar, ajudar as pessoas a compreenderem com mais profundidade o contexto em que estão inseridas. Nesse sentido é preciso pensar no papel das marcas e formadores de opinião na geração da não compreensão.

No mundo alimentício isso é ainda mais alarmante, pois todos estão pagando um preço muito alto em função do desencontro de informações. Adotar uma postura e visão sistêmicas em relação aos próprios processos, assim como comunicar isso às pessoas pode ajudá-las a convocar mais o Sistema 2 em suas escolhas.

A Organic Valley, uma das maiores cooperativas de laticínios independentes dos EUA, por exemplo, busca mudar o cenário de desinformação no universo alimentício. O vídeo a seguir apresenta, de forma Pop e didática, os caminhos que a marca vem trilhando.

Quando discute a compreensão, Edgar Morin vai além da visão geral de todos os pontos de uma ideia. O intelectual postula sobre a importância de deixar que o outro com quem conversamos se revele. Para isso, é necessário que se abdique de si por um momento e reconheça de verdade a outra pessoa que está ali, de modo a não nos iludirmos em relação à escuta. Para ele, esse movimento é crucial para que a comunicação humana realmente se estabeleça.

O ponto é que nem sempre nos damos conta de que não estamos, de fato, ouvindo o outro. Como Jonathan Crary bem lembra, o regime 24/7 também colabora para minar a paciência e a deferência individuais, elementos essenciais para qualquer forma de democracia direta. Ter calma e atenção para ouvir os outros, assim como esperar que chegue a sua vez de falar, são hábitos que caem cada vez mais em desuso.

O mais comum é pensarmos na réplica antes mesmo que nosso interlocutor acabe de formular seu pensamento, como mostra a websérie “Fala que eu (não) te escuto”, do humorista e escritor Cláudio Thebas. Seja em seus livros, peças de teatro ou palestras,

Thebas procura relembrar, de forma provocativa, o papel da escuta na construção dos laços humanos. Em um vídeo do TEDx Jardim Botânico, o humorista afirma que escutar não deixa de ser uma forma de atribuir significado ao que está ao nosso redor. Nesse sentido, escutar o outro é fazer com que ele se sinta importante e pertencente.

Em outras palavras, escutar é reafirmar a nossa interdependência.

“É meu papel lembrar que o porteiro tem nome e que é gente, assim como vocês são”, dispara Thebas para a plateia do TEDx, convidando as pessoas a ligarem suas antenas internas.

Não praticar a escuta ativa é comprometer o fluxo de comunicação e, em última instância, inibir a criação de relacionamentos mais profundos. Isso porque a não escuta parte geralmente de pressupostos e julgamentos, o que dificulta a abertura real para o que o outro nos diz.

Pode parecer estranho, mas há indivíduos que passam quase a vida inteira tentando estabelecer uma sintonia afetiva com outras pessoas que supostamente teriam alguma intimidade. A cantora americana de country Reba McIntire, por exemplo, escreveu uma música após a morte do pai e lhe deu o título de “The greatest man I never knew”. Ao compor essa canção ela certamente deu voz ao sentimento de muitas outras pessoas que também enfrentam dificuldades em estabelecer a conexão emocional que gostariam de ter com seus pais.

Escutar ativamente cria a compreensão verdadeira, permite entender, em alguma medida, os processos mentais do outro e suas necessidades afetivas, que nem sempre são as mesmas que as nossas.

Dentro dessa lógica, a perda da habilidade de escuta é preocupante, pois ela é o nosso acesso à compreensão.

Para além do regime 24/7 que abala o cuidado e a atenção para com o outro, há mais alguns elementos que ajudam a atrofiar essa habilidade tão cara ao ser humano. Segundo Christian Dunker, psicanalista e professor titular de Psicologia da Universidade de São Paulo,

as culturas de indiferença e hiperindividualização somadas a uma pobre formação para o debate no país contribuem para alimentar o nosso “desejo de surdez”.

Faltam-nos experiências que mostrem que as diferenças são, de fato, relevantes. Por essa perspectiva, é muito fácil aderir à “escuta colonizadora”, um modelo enganoso de audição, em que se ouve o outro a partir da própria posição e dos próprios valores e interesses. Nesse sentido, constrói-se uma ideia de que uma das pontas é a autoridade, detentora da “verdade e do saber”, e a outra, um mero repositório, perpetuando-se assim relações de poder verticais. Migrar da “escuta colonizadora” para a “escuta transformativa”, diz Dunker, é operar um movimento contra-narcísico, reconhecer que o outro é o outro e que, portanto, não é possível saber o que está em sua mente.

“Escutar é renunciar à telepatia”

(Christian Dunker)

Outro aspecto importante da escuta, que frequentemente é esquecido, é a fala. Em debates reais e conversas significativas a fala serve à escuta. Dentro dessa lógica, para além de deixar que o outro se revele, é essencial que se tenha em mente os pontos de partida de quem está em conversação.

Um dos principais elementos de conflito e equívoco da atualidade é a universalização de experiências individuais.

Ao fazermos isso, invadimos o espaço de fala do outro, pois falamos por ele a partir de nosso ponto de vista. Acreditar, por exemplo, que vagões de trens destinados a mulheres é algo desnecessário por nunca ter sido molestada é desconsiderar o lugar de fala de 5,2 milhões de mulheres que vivenciaram essa situação. É não escutar o medo de 68% das brasileiras, universalizando a própria experiência. Sendo assim, é preciso reconhecer os limites do nosso lugar de fala, dando voz ao outro e ao coletivo.

VIÉS DE CONFIRMAÇÃO E A RECUSA À ESCUTA

Abrir-se a visões contrárias às nossas é função da escuta, contudo, como Christian Dunker afirma, em uma cultura de hiperindividualização é o nosso “desejo de surdez” que sofre uma hipertrofia. Temos aí o contexto ideal para fazer com que o nosso “viés de confirmação” prospere com mais facilidade.

Nós, humanos, fomos “programados” para encontrar padrões. O “viés de confirmação” é um dos atalhos que usamos para dar coesão ao mundo, essa tendência cognitiva que faz com que nós tenhamos mais propensão de lembrar, pesquisar informações ou interpretar fatos de maneira que eles confirmem nossas crenças ou hipóteses. Dentro de um contexto de engrandecimento do eu, ficamos menos abertos a outras estruturas de pensamento, chafurdando em nossas frágeis certezas e nos padrões que elaboramos.

O viés de confirmação é também um dos pilares de sustentação das notícias falsas. Aproveita-se de uma propensão à concordância com tal fato para propagar determinadas ideias mentirosas.

De forma semelhante, esse contexto de hiperindividualização aprofunda o que os psicólogos chamam de “Efeito Halo”. Esse viés consiste na generalização equivocada emitida a partir de uma só característica, qualidade, objeto ou pessoa, ou seja, quando previamente julgamos, e a partir disto generalizamos outras características. Acontece quando ao gostarmos (ou desgostarmos) de uma pessoa acabamos por atribuir outras características positivas (ou negativas) não observáveis a ela.

Um exemplo emblemático e preocupante é o que descobriu Roger Stone, consultor político e lobista americano. Stone foi a principal cabeça por trás da estratégia da campanha eleitoral de Donald Trump e é conhecido nos Estados Unidos por seguir a filosofia do “vale tudo” em eleições. Foi durante a sua infância nos anos 60, quando Richard Nixon e John F. Kennedy concorriam à presidência dos EUA, que o lobista se deu conta do poder do “Efeito Halo” sobre as pessoas. Em entrevistas, ele conta que seus pais, apesar de republicanos, estavam propensos na época a votar no democrata Kennedy, pois seu cabelo era mais bonito do que o de Nixon. Stone jura que nunca usou esse aprendizado em suas estratégias políticas, mas há controvérsias…

Em tempos de polêmica no meio político envolvendo mineração e análise de dados de usuários na internet, é impossível não refletir sobre os rumos que a não escuta tem nos levado. Todo esse contexto de hiperindividualização somado ao desejo de surdez e vieses supracitados formam o caldeirão ideal para os algoritmos nos fecharem ainda mais em nossas bolhas.

No fim das contas, quando postamos nas redes sociais, criamos uma ideia de quem é a nossa audiência e as redes nos fazem acreditar que estamos certos em relação a essa percepção, uma vez que o conteúdo tende a ser distribuído entre pessoas que pensam como nós.

Dessa forma, estabelecemos monólogos, diminuindo a nossa capacidade para o debate e para ouvir o outro de verdade. Perdemos muito nesse tipo de relação, pois reconhecer a presença do outro e dar espaço para sua existência cria oportunidades de evolução em nossa existência compartilhada. Conforme a consultora de negócios e palestrante Margaret Heffernan nos lembra: seja na vida pessoal ou profissional, “precisamos de parceiros que não sejam câmaras de eco”.

COMO PODEMOS AJUDAR NESSE PROCESSO?


Hoje a exposição a críticas é maior e nenhuma instituição está a salvo. Quebrar o “desejo de surdez” nesse contexto se torna ainda mais desafiador, o que implica em criar um terreno favorável para a prática da escuta ativa e a cultura do debate. Nesse sentido, há quatro caminhos promissores que podem nos inspirar nesse processo:

1) DESARMAR E ENTENDER
2) RECONSTRUIR JUNTO
3) ESTABELECER PONTES
4) DESENVOLVER RELACIONAMENTOS

1) DESARMAR E ENTENDER

Em momentos de recebimento de críticas é importante ter sensibilidade para entender o contexto e o ponto de vista do outro sem cair em pressuposições. Compreender sua perspectiva e o que levou a pensar daquele jeito pode ajudar a formular argumentos para desarmar o interlocutor, trazendo a conversa para uma arena mais respeitosa.

Foi exatamente essa a abordagem que a comediante americana Sarah Silverman adotou com um de seus seguidores ao receber uma ofensa sexista em seu Twitter.

2) RECONSTRUIR JUNTO

Diante de críticas há sempre quem escolha revidar, ignorar ou olhar para dentro para melhorar. A rede de pizzarias Domino’s seguiu o terceiro caminho diante o bombardeio de avaliações negativas frente seus produtos. Ao fazer da escuta real, por anos, sua plataforma de marca, a Domino’s reconstruiu sua imagem junto aos consumidores.

3) ESTABELECER PONTES

Para além de ouvir os consumidores, há oportunidade de marcas ajudarem na abertura da escuta ao diferente. Uma inspiração é o que a Vodafone da Romênia fez ao transformar a tecnologia em um elo de integração entre a tradição da parte rural e a modernidade do meio urbano do país.

4) DESENVOLVER RELACIONAMENTOS

Cada vez mais conversaremos com empresas através de bots. Segundo a consultoria Gartner, até 2020 estima-se que 85% dos serviços de atendimento ao cliente serão realizados por meio do ambiente virtual, o que tornará o relacionamento através de bots ainda mais presente. Apesar dos avanços tecnológicos e dos ganhos de escala estamos alimentando, cada vez mais, uma cultura de não escuta. Dentro desse cenário, a escuta ativa e a criação de um contato pessoal e emocional serão diferenciais de marca.

A Zappos, e-commerce de calçados e vestuário, é uma empresa reconhecida por essa abordagem humana no atendimento aos clientes. Seu diferencial está justamente na escuta atenta de seus consumidores.

Vale lembrar que apostar em uma abordagem humana não quer dizer deixar de lado a tecnologia. A Mattersight, por exemplo, é uma empresa de Chicago que tira o máximo da união entre máquinas e humanos.

No Brasil e em outros lugares do mundo prevalece a ideia de que nossas relações e conversas estão tomadas pela polarização. Nesse sentido, as pessoas vêm assumindo uma postura belicosa, calcada no imaginário do “nós versus eles”. A partir dessa lógica, parece que estamos vivendo em equipes que estão o tempo todo em duelo.

Como seres sociais que somos, a formação de grupos faz parte de nossa natureza. A construção de vínculos e a capacidade de cooperação são essenciais para a nossa existência e sobrevivência. Todavia, nem todo encontro de semelhantes permite a formação de laços reais e de grupos consistentes e cooperativos. O clima de polarização vem nos iludindo justamente a respeito da qualidade dos vínculos e “tribos” que criamos.

Para entendermos melhor esse contexto é preciso ter em mente que hoje vem se formando basicamente dois tipos de grupos.

O primeiro deles é estruturado a partir da pluralidade de elementos e da oportunidade de trocas entre eles. Já o segundo se forma a partir da semelhança e da concordância sobre algo. Grupos que admitem a presença do outro e reconhecem a alteridade só conseguem existir e se sustentar a partir da escuta ativa. Já os grupos que se formam na semelhança nascem da eliminação do outro, da busca por confirmação e da fuga do confronto.

Para qualquer tipo de grupo, a comunicação é o caminho para o estabelecimento de vínculos, sejam eles reais ou não. Nesse sentido, o discurso de ódio é um tipo de comunicação que está bastante em xeque na atualidade e que nasce justamente da lógica de formação do primeiro grupo citado. Essa forma de comunicação é um dos meios mais potentes para a criação da Ilusão de Tribo.

Tendo em vista as polêmicas em torno dos limites entre discurso de ódio e liberdade de expressão, o advogado norte-americano Charles R Lawrence III afirma que palavras

que são projetadas para substituir a comunicação pela violência e medo não merecem proteção constitucional. Não discutir tais palavras só dá mais força a elas, o que torna esse debate urgente no mundo.

Dentro desse espectro, é possível definir o discurso de ódio como a “emissão de signos que incitam a discriminação, hostilidade, perseguição, violência a uma ou mais pessoas em função de uma ou mais características”. Em suma, esse tipo de discurso fere o outro por diminuí-lo justamente por ser quem ele é, atingindo o âmago de sua identidade.

Em um país de passado escravocrata como o Brasil, não é de se espantar, por exemplo, que o racismo esteja no topo das expressões de ódio. Segundo a Safernet, ONG que atua na defesa dos direitos humanos na internet no país, 63% das denúncias recebidas em 2017 se referiam a crimes de ódio. Quase um terço destas denúncias estavam associadas a racismo. Intolerância religiosa, neonazismo, xenofobia e homofobia vinham logo em seguida.

Essa insuportabilidade à diferença, segundo a filósofa Márcia Tiburi, é marcada pela superficialidade, pela falta de embasamento e por ressentimento. Quem pratica o discurso de ódio abomina quem demonstra saber algo capaz de abalar suas crenças, daí o impulso na anulação do outro pelo ato comunicacional.

Essa tentativa de anulação desemboca, por sua vez, na busca da atenção para o eu. A cultura da hiperindividualização leva as pessoas a acreditarem que podem tudo, que o mundo está em suas mãos, basta ter vontade de “fazer acontecer”, mas isso não é inteiramente uma verdade.

Do ressentimento da não realização daquilo que se acredita ser um direito vem o desejo de aniquilar o outro, de culpá-lo pelo fracasso no alcance dessa potência. O outro é o seu bode expiatório para as mazelas do sistema que esse indivíduo não enxerga. O adepto do discurso de ódio enxerga sua individualidade na humilhação do outro. Desrespeitar o outro lhe dá a sensação de poder que ele acredita que deveria ter, mas não tem. Como bem define Tiburi, o lema desse sujeito passa a ser:

"Humilho, logo existo"

Esse tipo de discurso de desprezo pelo outro se prolifera na animosidade e tem efeito de manada. Ele aproxima os ressentidos e é na concordância entre eles que esse grupo se empodera. Uma vez que o discurso de ódio é superficial e pouco crítico, assim também são as relações que se estabelecem a partir dele. O grupo que se forma por meio da desumanização da outra pessoa não pratica a troca, tampouco a escuta. O que acontece é apenas o encontro de percepções infundadas da realidade. O discurso de ódio dá a sensação aos indivíduos de que jogam no mesmo time contra o odiado.

O slogan da campanha de Trump, “Make America Great Again”, por exemplo, conseguiu captar e se beneficiar muito bem do clima de ressentimento que se instalou nos Estados Unidos. Frustrados em relação à promessa do “sonho americano”, muitos cidadãos viram nas medidas anti-imigratórias do candidato, assim como em seu discurso, uma solução para o desemprego crescente e um espaço para canalização de seus desapontamentos.

No combate a esse tipo de discurso de fundo odiento, dois caminhos importantes são apontados. O primeiro deles é o da regulamentação, ou seja, a separação mais clara entre discurso de ódio e liberdade de expressão como sugere Lawrence III. Outro caminho é aprendermos a humanizar o outro. Segundo Martin Buber, filósofo e pedagogo, austríaco e naturalizado israelita:

"Tendemos a diminuir o ódio a partir do momento que vemos o outro por inteiro, com características que respeitamos e outras que não admiramos".

Fica claro que, por conta do anonimato e da distância física, as redes sociais deram outro alcance ao fenômeno do discurso de ódio. Encontrar maneiras de humanizar o outro também nesse meio é fundamental para se avançar nessa questão, uma vez que a internet se tornou uma grande plataforma para a proliferação da intolerância.

COMO PODEMOS AJUDAR NESSE PROCESSO?


Da perspectiva mercadológica é papel das marcas difundir signos que ajudem a desconstruir preconceitos, quebrando a mencionada lógica do “nós versus eles”. Produzir contra-narrativas para o discurso de ódio pode ser uma aposta interessante. A palavra de ordem é humanizar.

Uma inspiração é a campanha da Refugees Welcome, ONG internacional que promove a integração de refugiados pelo mundo. A organização soube alimentar aqueles que buscavam conteúdos para fortalecer a visão de mundo de seus “grupos” com conteúdos humanizadores do “grupo rival”.

Outro caminho é não reforçar opressões que só estimulam a cultura de ódio. A cerveja mexicana Tecate, por exemplo, dá pequenos passos no sentido de desassociar do conceito de masculinidade as ideias de violência e agressividade.

É inegável que a multiplicação de meios aumentou a nossa capacidade comunicacional. Contudo, engana-se quem acredita que a nossa capacidade de compreensão também se ampliou com o desenvolvimento de novos mediadores para as trocas humanas. Segundo Norval Baitello, Doutor em Comunicação pela Universidade de Berlim, é impossível que um emissor chegue “completo” ao receptor por meio de uma mensagem. Nesse sentido, estamos iludidos quando acreditamos que a comunicação flui bem em qualquer canal, independente dos temas tratados.

O WhatsApp, por exemplo, é um dos meios favoritos dos brasileiros para se comunicar, mas apesar de ser muito potente, esse canal também é muitas vezes um território de loucos. Um exemplo emblemático é a conversa a seguir sobre uma simples encomenda de bolo. Esse papo circulou bastante na internet por representar bem o “telefone sem fio” que enfrentamos diariamente ao tentarmos nos fazer compreender.

O que seria uma rápida encomenda de bolo virou um complicado jogo de adivinhação. Provavelmente essa conversa teria outro desfecho se as pessoas se conhecessem ou mesmo tivessem feito a negociação por outros meios. Em outras palavras, tudo seria diferente se elas compartilhassem de um mesmo contexto.

Por definição, o contexto consiste no conjunto de circunstâncias em que se produz uma mensagem e que permitem sua correta compreensão.

A facilidade de acesso a múltiplos meios nos seduz, levando-nos a crer que podemos ter a mesma conversa, nos mesmos moldes, nos mais diferentes contextos e – mesmo assim – ainda sermos plenamente compreendidos. Ledo engano. Assim, para tomarmos consciência em relação à Ilusão de Contexto é preciso termos em mente que há quatro elementos fundamentais que interferem na correta compreensão das mensagens que passamos. São eles:

  1. Quem está participando da conversa?
  2. Qual é o assunto?
  3. Em que momento?
  4. Qual é a distância física entre os participantes da conversa?

1. QUEM ESTÁ PARTICIPANDO DA CONVERSA?

O grau de afinidade entre emissor e receptor desempenha um papel importante na construção do contexto. Para além do impacto na escuta, o “Efeito Halo” é um daqueles vieses, como já vimos anteriormente, que nos deixa mais ou menos inclinados a entender as reais intenções do outro. Como Edgar Morin nos lembra, para chegar à compreensão não dá para se abster do componente afetivo.

 

2. QUAL É O ASSUNTO?

O nível de familiaridade que as partes têm com um assunto influencia bastante o engajamento com a comunicação. Uma conversa, por exemplo, sobre a cotação da saca de 60kg de café em novembro de 2016 pode soar um tanto monótona e desinteressante para muitas pessoas, fazendo com que elas não se relacionem com o assunto. Contudo, a Psicologia tem apontado a necessidade de familiaridade como um dos fatores primordiais na geração de contexto e, por consequência, na captação do interesse. Ser intrigante e complexo, mas ao ponto de não ser totalmente incompreensível e inacessível, é a difícil química que acende a faísca da nossa curiosidade sobre um determinado assunto. Quer ver isso na prática? Pois bem, leia o poema a seguir:

tanto atrevimento contra os homens
com uma garganta tão grande
separada por centenas de anos
cheios de desgraça: o sangrento
fluxo. levado por um ataque de loucura
propenso a comer carne humana
e medido, no devido tempo,
por naturalistas

Pareceu estranho? Agora, leia-o novamente sabendo que versa sobre “tubarões brancos”. Esse poema ficou mais compreensível, não? Veja só, você acaba de passar, em certa medida, por um dos interessantes experimentos que Paul Silvia, Doutor em Psicologia pela Universidade da Carolina do Norte, relata em seu livro “Exploring the Psychology of Interest”.

Ao estudar a cognição, mais especificamente o que desperta o interesse humano, Silvia se debruçou sobre inúmeros experimentos, entre eles o do “tubarão branco”. Esse estudo contou basicamente com dois grupos de pessoas em que ambos foram convidados a ler o poema acima. A conclusão você já deve saber: o grupo que foi informado sobre o tema “tubarão branco” se engajou muito mais com o poema do que o grupo que só recebeu as instruções para lê-lo.

Esse experimento ilustra muito bem a Ilusão de Contexto em que caímos diariamente ao nos comunicarmos. Em uma conversa é muito fácil nos esquecermos de dar os subsídios, ou seja, o “tubarão branco”, para que o outro compartilhe do mesmo contexto que nós, facilitando sua capacidade de se relacionar com o que será dito. Na situação da encomenda do bolo mostrada, por exemplo, a foto da Pequena Sereia teria sido o “tubarão branco” perfeito para fazer a comunicação fluir melhor.

3. EM QUE MOMENTO?

Nunca tivemos tantos meios capazes de transmitir o que pensamos a qualquer hora. Contudo, frequentemente esquecemos que esses pensamentos em formato de mensagens chegam na vida dos outros em momentos que fogem do controle de todos. Eles podem chegar em um momento de trabalho, no meio de uma briga de casal ou até mesmo quando a outra ponta está no banheiro. A ocasião em que a mensagem é recebida, desconectada das intencionalidades da conversa, impacta o contexto, podendo levar a comunicação para lugares indesejados.

Uma pesquisa israelense, por exemplo, analisou 1.112 decisões de juízes, de modo a descobrir os períodos em que eles eram mais lenientes com presos que pleiteavam a liberdade condicional. O resultado foi surpreendente: a probabilidade de conseguir uma decisão favorável era de cerca 65% maior perto das refeições. Isto é: logo depois do café da manhã os julgamentos pró-presos alcançavam um pico, contudo, caíam ao longo da manhã até o horário do almoço, momento em que atingiam um novo aumento favorável. Se a fome é realmente implacável, entender o momento certo é decisivo para a compreensão.

 

4. QUAL É A DISTÂNCIA FÍSICA ENTRE OS PARTICIPANTES DA CONVERSA?

Por fim, porém não mesmo importante, está a distância entre as pessoas. Iludidos, nós esquecemos que a comunicação vai muito além da linguagem verbal. Quando nos comunicamos presencialmente temos a linguagem corporal, o tom de voz e até mesmos os silêncios como recursos para nos comunicarmos e compreendermos o outro. O rosto tanto passa aquilo que nós não queremos passar, como aquilo que queremos, mas não sabemos se de fato passa. Ele é a nossa sinceridade e a nossa mentira. Como o jornalista, sociólogo e professor da ECA-SP, Ciro Marcondes Filho, diz:

“A face é um mapa cheio de labirintos e de coisas acontecendo. Ela reflete o estado da alma e as dificuldades da comunicação”

Desse modo, o rosto não deixa de ser um mapa, pois nos permite entender as intenções do outro. Em termos biológicos, é um gatilho para guiar os nossos neurônios-espelho, também conhecidos popularmente como os “neurônios da empatia” ou os “neurônios do bocejo”. Em suma, os neurônios-espelho são aqueles responsáveis por imitar o comportamento de outro ser humano como se aquele que estivesse observando também praticasse a ação. É exatamente por isso que eles têm tanta importância para o comportamento social do ser humano.

Contudo, quanto mais mediadores colocamos entre nós, menos recursos temos para ler as pessoas com quem comunicamos, como mostra a situação a seguir:

Quem nunca teve receio de pedir algo ao chefe? Para evitar os desconfortos inerentes ao confronto direto e contornar a “cultura do medo” das empresas, hoje temos muitos recursos ao nosso dispor. A questão que fica é: e se eles estivessem cara a cara, a conversa seria diferente?

É possível que outros desfechos fossem desenhados. Pedro poderia encontrar outras formas de abordar a chefe, rompendo com algumas das formalidades que o papel de funcionário impõe. Por sua vez, a chefe Débora teria oportunidade de ler outros sinais vindos desse pedido que a permitiriam refletir sobre os benefícios de uma folga, algo que seria saudável para a relação de todos.

Pelo contexto com limitada oferta de signos nessa comunicação, a conversa que tiveram, embora muito engraçada, limitou-se a responder à imagem que cada um fazia do outro, ao papel que cada um tem nessa estrutura hierárquica. Uma imagem estática, uma fotografia pouco fiel ao que corresponde a uma pessoa de verdade. Um script extremamente controlado e que dá pouco espaço para a modificação de relações de poder. Essa situação tragicômica ilustra um movimento recorrente em nossas relações na atualidade:

Quando nos abstemos do cara a cara, substituímos as conversas humanas por conversas com as imagens que fazemos delas.

Fazemos isso, pois os mediadores eletrônicos nos dão a sensação de maior controle sobre as nossas conversas. Como o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman resume: "relações virtuais são equipadas com a tecla ‘delete’ e com ‘antispam’, mecanismos que nos protegem das consequências incômodas (e sobretudo dispendiosas em termos de tempo) das interações mais profundas”.

Na era 24/7, em que estamos exaustos, a virtualidade aparenta ser menos desgastante, mais rápida e fácil para lidar com temas complexos. A questão é que o mundo está cada vez mais intrincado e precisamos falar de temas complexos quase que diariamente.

Segundo Bar-Yam, Doutor em Física pelo MIT, a sociedade humana vem constantemente aumentando de complexidade há milênios. No início, vivíamos em grupos de no máximo algumas dezenas de pessoas, e cada grupo era basicamente isolado dos outros. A complexidade da sociedade era mínima. Diante disso, nossas estruturas de controle eram bem simples. Hoje essas estruturas se sofisticaram.

Dentro dessa perspectiva, é impossível se comunicar de forma simples, rasa e superficial sobre assuntos complexos. Substituir a comunicação cara a cara pelo online é uma das maneiras que encontramos para não gastar tanta energia.

Nesse movimento para lidar com a complexidade procuramos driblar os “infernos do offline”. Estar online permite o gerenciamento das relações de forma a propiciar um aumento de ganhos em menor tempo, gastamos menos energia colocando em segundo plano os possíveis desprazeres inerentes ao contato presencial. É possível apresentar o “eu” como queremos ser, com mais precisão do que no offline. Criamos assim um jogo de imagens, reflexo daquilo que se pensa ser bom aos olhos dos outros, o que “eu” gostaria que o outro notasse de “mim”.

Outra gratificação proporcionada é a concentração de nossa atenção onde quer que desejamos. Ganhamos mais controle sobre a duração das conversas. Nesse sentido, da mesma maneira em que um contato foi efetuado, ele pode ser desfeito em frações de segundos, sem qualquer cerimônia. Não é preciso assumir compromissos, sustentar posições, enfrentar as relações sociais e as exigências do contato, no tempo e no espaço social. Enfim, é possível encurtar a complexidade de muitas conversas, uma vez que é mais fácil fugir de tudo isso quando a tecnologia permite.

No entanto, nem tudo são flores. Ao fugirmos do inferno offline, acabamos caindo no “inferno do online”. Não estar “conectado”, perder o contato e não receber atualizações e curtidas nas redes fazem parte desse inferno. Como a psicanalista Teresa Pinheiro afirma: “hoje não basta existir. É preciso confirmar a nossa existência através dos likes das redes sociais”. Passar despercebido e ser ignorado é um martírio. A necessidade de superexposição produz novas formas de solidão e um inferno também bem difícil de enfrentar. Não à toa, despontam no horizonte dos sintomas modernos, tendências comportamentais como “FOMO” e “JOMO”, que nada mais são do que reações psíquicas ao “inferno online”.

O ponto problemático é que entre um inferno e outro estamos colocando em risco as nossas relações, tanto com os outros quanto às conosco. Segundo Sheryl Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT, usamos nossas conversas para aprender a conversar com nós mesmos.

Evadir-se de um papo pode comprometer a nossa habilidade de autorreflexão.

Estamos desenvolvendo tecnologias que nos oferecem a ilusão de companheirismo sem as exigências da amizade.

 

É preciso ter em mente que as relações humanas são ricas, confusas e exigentes, portanto é necessário desconfiar quando nos oferecem soluções simplórias para questões complexas.

COMO PODEMOS AJUDAR NESSE PROCESSO?


Se uma forma de nos desiludirmos é buscar relações mais humanas face a face, as marcas devem buscar entender o que de fato as tornam “mais humanas”, quais os seus propósitos e como podem estreitar os laços com as pessoas de forma relevante. Em um mundo cada vez mais fragmentado e com mais mediações, as pessoas têm valorizado um tipo de interação mais verdadeira, que faz diferença real em suas vidas.

Produzir conteúdos que exponham o empobrecimento das conversas ou mesmo mostrar o quanto é fácil cair nas armadilhas dos pressupostos são formas não só de ajudar os indivíduos a tomarem consciência sobre a Ilusão de Contexto, mas também uma maneira de estabelecer uma conexão mais profunda com as pessoas.

Uma boa inspiração é a marca francesa Michel et Augustin, que faz questão de carregar em seu DNA o valor do contato olho no olho. Criada em 2005 pelos amigos de escola Michel de Rovira e Augustin Marmont, mesmo diante do crescimento, a empresa procura preservar o calor humano ao investir na figura dos fundadores como garotos-propaganda de suas ações, assim como adotar o costume de abrir sua fábrica para visitação e happy hour toda semana.

Outra inspiração é a Nescafé, que aposta em ser uma ponte para a esquecida conexão face a face entre vizinhos.

Está claro até aqui que somos animais verbais, portanto permitimos que a nossa realidade seja moldada por palavras e os significados que damos a elas. No entanto, nem sempre racionalizamos sobre essa dinâmica e constante criação de sentido. Em nosso dia a dia não costumamos lembrar que palavras determinam lugares, movimentam pessoas, formam imagens e condicionam identidades. Dentro dessa lógica não nos damos conta de que estamos iludidos quando aceitamos a ideia de neutralidade. Não percebemos as influências exercidas sobre nós e o impacto que exercemos sobre os outros a partir das palavras que usamos.

Stephanie Ross, Doutora em Filosofia pela Harvard, desenvolve seus estudos justamente a partir da problematização de palavras que parecem inócuas em nosso cotidiano. Ela diz que palavras que as pessoas usam para se referir a nós podem criar o que é conhecido como “identificação metafórica”.

Ross afirma que, quando uma mulher, por exemplo, é repetidamente chamada por um termo como “baby”, a “identificação metafórica” gradualmente ocorre, e ela começa a achar que tem características de um bebê. Embora “baby” seja um apelido carinhoso nos Estados Unidos, essa palavra está também associada a atributos infantis como “dependência” e “impotência”, algo bem complicado para o empoderamento feminino.

As palavras que usam para se referir a nós acabam informando a maneira como entendemos a nós mesmos, uma vez que a forma como nos vemos é, em grande parte, formada por aquilo que acreditamos que os outros pensam sobre nós. Nesse sentido, tendemos a agir de acordo com as expectativas que achamos que os outros têm de nós. Pode parecer um conceito radical, mas a “identificação metafórica” não é algo que acontece de forma consciente, mas insidiosa, corroendo a nossa autopercepção. Iludidos com a ideia de isenção quando nos comunicamos não percebemos esse impacto.

Antes de nos lançarmos em argumentos nas linhas do “mundo está muito chato” e “agora não posso falar mais nada”, é preciso ter em mente que um signo não existe sozinho e isolado no mundo. A significação é um fenômeno vivo, mutável e compartilhado, o que quer dizer que os sentidos e as intenções que o locutor elaborou nem sempre chegam da forma imaginada ao público. Segundo o filósofo da linguagem austríaco Ludwig Wittgenstein, relacionamo-nos com as palavras por familiaridade e não por uma definição fixa e rígida. Aprendemos seus significados ouvindo os membros da nossa comunidade linguística e cultural usando-as. O vocábulo “jogo”, por

exemplo, pode ser entendido por todos que dominam a língua portuguesa. Porém, a imagem e a ideia que formamos em nossas mentes sobre jogos nunca serão completamente acessadas e compreendidas para além de nós mesmos.

Como mencionamos anteriormente, o outro não é acessível a nós como imaginamos que seja. E acredite: não há problemas nisso. O mundo funciona assim. Só não funciona da maneira que imaginamos: que a linguagem não importa ou não tem peso na experiência dos outros.

É claro que estar sempre alerta ao que falamos é difícil, mas se abrir para repensar o uso das palavras é se desiludir da isenção e se importar com o impacto que se tem no outro. Por que continuar a usar, por exemplo, a expressão racista “denegrir” se essa palavra impacta o outro e naturaliza opressões?

Indo além, existem palavras que usamos para um sentido que reconhecemos, mas que podem ser mais amplas e positivas. Se o processo de significação é aberto e passível de ser transformado, podemos trabalhar para fazer novos usos dos signos e mudar a forma como pessoas se identificam e reconhecem seu lugar no mundo.

COMO PODEMOS AJUDAR NESSE PROCESSO?


Da perspectiva das marcas, é preciso prestar atenção nas palavras que são difundidas, pois elas podem reforçar opressões inconscientemente. Mais do que isso: é papel das instituições chamar a atenção para o significado que certas palavras podem ter.

Um exemplo inspirador é a campanha “Ban Bossy” liderada Sheryl Sandberg, executiva do Facebook, e a cantora Beyoncé, cujo intuito era começar um movimento contra os estereótipos e a carga negativa do uso da palavra “mandona” em situações em que as mulheres assumem a dianteira de um grupo.

É importante ressaltar que o uso cuidadoso das palavras vale tanto para comunicações quanto para a forma como produtos e categorias são expostos. O que o termo “creme anti-idade”, por exemplo, comunica? Uma negação do avanço da idade ou acolhimento da experiência de vida? A Avon procurou justamente colocar essa questão em xeque neste vídeo.

Outra marca que soube ampliar os sentidos de uma palavra – e de quebra, da própria categoria – foi a empresa de vestuário esportivo Lululemon. Ao fugir dos estereótipos da yoga e explorar seus benefícios de forma mais ampla, a Lululemon consegue se conectar e abocanhar um público bem maior do que os praticantes tradicionais. O signo “yoga” ganha outros contornos, o que torna essa prática muito mais acessível para aqueles que não dominam a “linguagem” do meio.

É importante termos em mente que a escrita não é boa nem ruim para a comunicação, tampouco a tecnologia que lhe dá outro alcance. O que na verdade nos falta é equilíbrio no uso de cada meio, assumirmos que a comunicação não é fácil e exige empenho. E mais importante de tudo: o diálogo é a forma mais elevada e transformativa de comunicação e não o monólogo. Por fim, voltando à questão colocada na introdução:

O bom entendedor é aquele que sabe que a meia palavra basta, quando ela encontra a outra metade no outro.

BIBLIOGRAFIA:

LITERATURA
• 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary
• Rápido e Devagar: duas formas de pensar, Daniel Kahneman
• Até que ponto de fato nos comunicamos, Ciro Marcondes Filho
• O Mundo Codificado, Vilém Flusser
• Os meios da Incomunicação, (organizadores) Norval Baitello Junior,
Malena Segura Contrera e José Eugenio de O. Menezes
• Como conversar com fascistas, Marcia Tiburi
• Linguagem e Psicanálise, Leila Longo
• A Teoria Geral dos Signos: como as linguagens significam as coisas, Lucia Santaella
• Comunicação eficaz: os labirintos da comunicação, Xavier Guix
• How to do things with words, John L. Austin
• Comunicação Não-Violenta, Marshall B. Rosemberg
• Mal-estar, sofrimento e sintoma, Christian Dunker
• Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação, Joel Birman
• Exploring the Psychology of Interest, Paul J. Silvia
• Os sete saberes necessários à educação do futuro, Edgar Morin
• As Consequências da modernidade, Anthony Giddens
• The Song Machine: Inside the Hit Factory, John Seabrook
• Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past, Simon Reynolds
• How Music Works, David Byrne
• Almanaque da Música Brega, Antônio Carlos Cabrera
• O que é lugar de fala? Djamila Ribeiro
• Time Warped: Unlocking the Mysteries of Time, Claudia Hammond
• O Filtro Invisível, Eli Pariser
• Artigo acadêmico “Incompreensão online: comunicação, alteridade e ódio no Twitter”,
Dimas A. Künch e Emanuel Novaes Colombari
• Artigo acadêmico “Entre paredes virtuais: as consequências pessoais de relacionamentos
mediados em redes sociais”, Elen Cristina Pedrosa e Homero Nunes Pereira.

AUDIOVISUAL
• Documentário Get Me Roger Stone (Netflix)
• Documentário Bad 25, Spike Lee
• Documentário Too Old To Be New Too New To Be Classic, Max Joseph
• Websérie (Youtube) “Fala que eu (não) te escuto”, Cláudio Thebas
• Vídeo Casa do Saber (Youtube) “Como aprender a escutar o outro”, Christian Dunker
• Palestra TEDx Jardim Botânico “Fala que eu (não) te escuto - Cláudio Thebas
• Palestra TED “ Ouse discordar”, Margaret Heffernan
• Palestra TED - “Connected, but alone?”, Sherry Turkle
• Vídeo Café Filosófico CPFL- “Narcisismo e Depressão: o olhar do outro define quem sou eu”,
Teresa Pinheiro
• Vídeo (Youtube) Language & Meaning: Crash Course Philosophy #26
• Vídeo (Youtube) How Words Can Harm: Crash Course Philosophy #28
• Vídeo (Youtube) School of Life - Ludwig Wittgenstein
• Vídeo PBS The Brain with David Eagleman

FONTE:
Inesplorato, 2018