Não é novidade que memes são muito amados pela websfera brasileira. Eles estão sempre por aí em rede, se multiplicando de forma quase despretensiosa no timing em que as coisas acontecem. Tente pensar nos últimos acontecimentos nacionais ou internacionais que você acompanhou da sua tela. Faça uma busca imaginária pela sua nuvem, o que você postou, leu, compartilhou?

É bem provável que no meio de uma miscelânea informacional, cheia de fragmentos  de opiniões, notícias e links, você também se depare com uma série de memes. E, quanto mais jovem, maior a chance que isso aconteça com você.

O meme é a expressão máxima da convergência, onde todas as fronteiras da nossa vida estão meio borradas.

Não existe mais divisão entre casa e trabalho, lazer e profissão, fato e opinião. Fica mais difícil escolher em que acreditar em meio à tanta informação, e o meme nos ajuda oferecendo uma narrativa simples, rápida e que está de acordo com o que acreditamos.

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Se por um lado a notícia jornalística demanda algum método, título ou forma de apuração, neste novo formato qualquer fato ou opinião vira uma narrativa sedutora que pode ser lida e compreendida em poucos segundos.

Esse tipo de conteúdo impressiona pela capacidade de viralização. Um meme polêmico tem métricas de causar inveja em qualquer equipe de marketing porque é capaz de algo que nós brasileiros amamos: transforma tudo em uma história. Isso desperta a sensação de que somos parte dos acontecimentos, e de que não estamos sozinhos em nossos conflitos e opiniões.

Hoje não acompanhamos apenas as tomadas de decisão dos políticos, mas também as repercussões que elas causam entre as pessoas. A pós-notícia causa tanto (ou mais) frisson que a notícia em si. Não basta saber qual foi o último pronunciamento do presidente, nós queremos acompanhar todo buzz que ele tá causando. É por isso que não resistimos aos memes. Nesse mundo de fluxo informacional intenso, eles nos dão um termômetro dos sentimentos alheios e traduzem o que estamos sentindo e não conseguimos verbalizar.

Entre os brasileiros:

Os memes e a política estarão cada vez mais juntos e misturados, afinal, o jogo político é feito por disputa de narrativas.

Existem memes que ajudam a expressar indignação ou revolta, outros servem para provocar e questionar quem pensa diferente de você, e ainda encontramos aqueles que fazem todo mundo rir e pensar que, no final das contas, estamos todos juntos no mesmo barco. Basta um frame bem enquadrado em um grupo de WhatsApp para que alguém se transforme em mocinho ou vilão, mito ou justiceiro.  Isso desperta em nós gatilhos que vão muito além da razão.

Como qualquer linguagem, os memes podem tanto criar pontes quanto construir muros entre pessoas, ideologias e bolhas cibernéticas. É preciso sair desse debate que coloca esse conteúdo como algo bom ou mau para a democracia, e entender que estamos lidando como  uma ferramenta de expressão que veio pra ficar. O meme não é a causa de nada, e sim um sintoma desse mundo fragmentado e hiperconectado, onde nenhum assunto pode ser tratado dentro de uma caixinha.

Cabe a nós, internautas, escolher entre usar o potencial memético para criar mais diálogos e menos duelos. A única certeza que temos é que, não importa de que forma sejam usados, não tem mais volta: os memes vieram para ficar.

Marina Roale é especialista em análise e coordenadora do estudo “In meme we trust”. Todos os dados apresentados nesse texto foram retirados da pesquisa publicada aqui na Plataforma Gente em parceria com a Consumoteca.

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IN MEME WE TRUST

A cultura dos memes ultrapassa os limites do humor e passa a pautar as complexidades da nossa comunicação com o mundo.

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FAKE NEWS EM DISPUTA

A crescente disseminação de notícias falsas esquenta o debate sobre o alcance e a influência das fake news nos processos decisórios.