Em 2006, mais precisamente em 10 de março de 2006, eu tive um AVC que paralisou todo o lado direito do meu corpo. Desaprendi tudo: andar, me equilibrar, realizar as mais simples ações que precisassem de coordenação motora fina. Escrever, nem pensar – eu não aguentava nem o peso do braço, quanto mais o da caneta! Também comprometeu gravemente a fala e a deglutição. Enfim, por um tempo, me tornei um ser "babante". Éca!

Quando aconteceu, eram 2h40 da manhã e eu estava realizando um trabalho de dois dias sobre planejamento estratégico para a área financeira da Peugeot-Citroen em um hotel em Atibaia. O AVC aconteceu na madrugada do primeiro para o segundo dia. Até hoje, quando passo por esse hotel, me dá um calafrio.

Como 50% do grupo de gestores era brasileiro e os outros 50% argentinos, eu estava fazendo tudo em português e espanhol, dependendo de quem interagia comigo. Acho que isso acelerou o processo que estava levando três dias pra acontecer. Mas eu não me dei conta de que era um AVC, assim, logo de cara.

Eu vinha de três dias seguidos de uma dor de cabeça que nada resolvia e alguém da Peugeot-Citroen me disse que poderia ser sinusite, o que era bem plausível. Então fui até a farmácia, comprei um remédio, tomei e esperei.

Quando o “negócio” começou – me refiro às tremedeiras, tonturas, zonzeiras – fiquei encantada.

Vou fazer um rápido parênteses aqui. Você sabia que AVC dá barato? Pois é, dá. Uma tonturinha gostosa… A gente percebe as coisas se apagando aqui fora e isso é quase surreal. Mas tá tudo igualzinho na mente, porque, você sabe, né? Cérebro é uma coisa, mente é outra. E, por Deus, como um AVC deixa isso claro! O corpo, que depende do cérebro, para de funcionar mas a mente continua a mesmíssima. É isso que causa tanta angústia na gente! As pessoas não sabem que lá dentro do “bestunto" – como dizia a Emília do Monteiro Lobato – tudo continua igual!

Então o que acontecia aqui fora? As pessoas me tratavam como débil mental – ai que nervoso que me dava! Eu não estava débil no mental, só no motor! Mas, o fato é que eu não me dei conta, assim de cara, que era um AVC porque achei que o remédio para sinusite tinha causado vaso dilatação e que eu estava hiperventilando, por isso a tremedeira. Era muito parecido com o que acontecia comigo, na adolescência, sempre que eu tomava Aerolin pra falta de ar.

Hoje em dia, quando trabalho com Diversidade & Inclusão (D&I) – o amor da minha vida profissional –, tento explicar algo que parece óbvio, mas não é: a mobilidade reduzida de um PcD não interfere em suas capacidades intelectuais.

Veja, o cérebro tem três processos absolutamente inexoráveis, automáticos e estruturais: ele generaliza, omite e, consequentemente, distorce a realidade. Esses processos nos fazem enxergar o mundo e lidar com as situações por meio de vieses inconscientes, também conhecidos pela nomenclatura em inglês Unconscious Bias.

O que são vieses inconscientes?

São preferências que ficam escondidas no inconsciente e que influenciam atitudes, percepções, julgamentos e ações das pessoas sem que elas percebam que estão dando vantagem para um determinado aspecto.

É inevitável que nos questionemos a respeito da forma como tomamos decisões. Assumir que todas as decisões que fazemos são as mais acertadas e pelas razões corretas seria bastante reducionista com relação à realidade.

O viés implícito, ou inconsciente, pode se revelar de maneira insidiosa em várias situações cotidianas como, por exemplo, durante o favorecimento implícito de raça e gênero na contratação de alguém.

A perspectiva de que existem vieses inconscientes que podem nos guiar no processo decisório evidencia que é possível evitar escolhas que nos façam permanecer com o mesmo padrão já vigente na sociedade.

Fonte: Trechos extraídos do estudo “Vieses inconscientes, equidade de gênero e o mundo corporativo”, fruto da oficina Vieses Inconscientes, co-realizada pelo Insper, Movimento Mulher 360, PwC e ONY Mulheres no dia 3 de junho de 2016 com a presença de cerca de 60 pessoas representando 31 diferentes organizações, dentre elas 22 grandes empresas.

No livro "Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas", o físico Leonard Mlodinow explica que o sistema nervoso, como um todo, recebe cerca de 11 milhões de bits de informação por segundo, mas só “entrega” 40 bits à consciência.

Aqui não importa o número aqui, pois ele não tem rigor científico. Ninguém sabe mesmo o que é 1 bit de informação por segundo, em termos de cérebro. É um potencial de ação do neurônio? É uma sinapse? É um conjunto específico delas, uma cadeia neural? Não se sabe. Pior ainda, a gente não faz a mínima ideia do que seja consciência, como se forma e onde fica! Mais loucos ainda são os artigos que leio falando de cérebro, cérebro, cérebro do primeiro ao penúltimo parágrafo e, no último, a conclusão: é mente! Eu hein? Gente estranha… Eles nunca tiveram um AVC!

Enfim, pense na proporção entre o que chega até nós e de quanto disso temos consciência: é isso que importa. E o que chega pra consciência é mesmo muito pouco!

Então, o cérebro faz isso: generaliza, omite e distorce. Aliás, vamos combinar? Se generaliza, necessariamente já omitiu e, se omitiu/generalizou, já distorceu. Não dá para separar muito as coisas.

Por que o cérebro faz isso? Para que a gente possa ter foco, oras!

Já pensou se o cérebro não omitisse o supérfluo, tipo os ruídos do ambiente? Como colocaríamos foco na tarefa que estamos realizando? No que estamos lendo ou estudando? O perigo é quando o cérebro generaliza conceitos e estereótipos. Ele faz isso: não olha para um(a) cadeirante e pensa "hum, essa pessoa não usa as pernas para se locomover… as pernas não “funcionam”… mas tudo bem porque o trabalho é intelectual mesmo." Aliás, pense na produtividade de um mensageiro cadeirante! Pensar nessas coisas minimiza um pouco o risco de exclusão, né?

Claro que estou sendo simplista aqui. A exclusão abrange muitos outros aspectos, tem toda a questão dos 187 vieses cognitivos e tal. Mas esse é um aspecto super importante!

Meu desejo é que as pessoas parem de generalizar. Afinal, deficiência todo mundo tem alguma, mas isso não nos torna ineficientes. Cada pessoa é muito maior do que a deficiência que tem, seja ela qual for. Um PcD não É deficiente, ele só TEM uma deficiência específica. E a diferença entre ele e os não-PcDs é que a dele a gente enxerga, se é que você me entende...

Em 2006, mais precisamente em 10 de março de 2006, eu tive um AVC que paralisou todo o lado direito do meu corpo. Desaprendi tudo: andar, me equilibrar, realizar as mais simples ações que precisassem de coordenação motora fina. Escrever, nem pensar – eu não aguentava nem o peso do braço, quanto mais o da caneta! Também comprometeu gravemente a fala e a deglutição. Enfim, por um tempo, me tornei um ser "babante". Éca!

Quando aconteceu, eram 2h40 da manhã e eu estava realizando um trabalho de dois dias sobre planejamento estratégico para a área financeira da Peugeot-Citroen em um hotel em Atibaia. O AVC aconteceu na madrugada do primeiro para o segundo dia. Até hoje, quando passo por esse hotel, me dá um calafrio.

Como 50% do grupo de gestores era brasileiro e os outros 50% argentinos, eu estava fazendo tudo em português e espanhol, dependendo de quem interagia comigo. Acho que isso acelerou o processo que estava levando três dias pra acontecer. Mas eu não me dei conta de que era um AVC, assim, logo de cara.

Eu vinha de três dias seguidos de uma dor de cabeça que nada resolvia e alguém da Peugeot-Citroen me disse que poderia ser sinusite, o que era bem plausível. Então fui até a farmácia, comprei um remédio, tomei e esperei.

Quando o “negócio” começou – me refiro às tremedeiras, tonturas, zonzeiras – fiquei encantada.

Vou fazer um rápido parênteses aqui. Você sabia que AVC dá barato? Pois é, dá. Uma tonturinha gostosa… A gente percebe as coisas se apagando aqui fora e isso é quase surreal. Mas tá tudo igualzinho na mente, porque, você sabe, né? Cérebro é uma coisa, mente é outra. E, por Deus, como um AVC deixa isso claro! O corpo, que depende do cérebro, para de funcionar mas a mente continua a mesmíssima. É isso que causa tanta angústia na gente! As pessoas não sabem que lá dentro do “bestunto" – como dizia a Emília do Monteiro Lobato – tudo continua igual!

Então o que acontecia aqui fora? As pessoas me tratavam como débil mental – ai que nervoso que me dava! Eu não estava débil no mental, só no motor! Mas, o fato é que eu não me dei conta, assim de cara, que era um AVC porque achei que o remédio para sinusite tinha causado vaso dilatação e que eu estava hiperventilando, por isso a tremedeira. Era muito parecido com o que acontecia comigo, na adolescência, sempre que eu tomava Aerolin pra falta de ar.

Hoje em dia, quando trabalho com Diversidade & Inclusão (D&I) – o amor da minha vida profissional –, tento explicar algo que parece óbvio, mas não é: a mobilidade reduzida de um PcD não interfere em suas capacidades intelectuais.

Veja, o cérebro tem três processos absolutamente inexoráveis, automáticos e estruturais: ele generaliza, omite e, consequentemente, distorce a realidade. Esses processos nos fazem enxergar o mundo e lidar com as situações por meio de vieses inconscientes, também conhecidos pela nomenclatura em inglês Unconscious Bias.

O que são vieses inconscientes?

São preferências que ficam escondidas no inconsciente e que influenciam atitudes, percepções, julgamentos e ações das pessoas sem que elas percebam que estão dando vantagem para um determinado aspecto.

É inevitável que nos questionemos a respeito da forma como tomamos decisões. Assumir que todas as decisões que fazemos são as mais acertadas e pelas razões corretas seria bastante reducionista com relação à realidade.

O viés implícito, ou inconsciente, pode se revelar de maneira insidiosa em várias situações cotidianas como, por exemplo, durante o favorecimento implícito de raça e gênero na contratação de alguém.

A perspectiva de que existem vieses inconscientes que podem nos guiar no processo decisório evidencia que é possível evitar escolhas que nos façam permanecer com o mesmo padrão já vigente na sociedade.

Fonte: Trechos extraídos do estudo “Vieses inconscientes, equidade de gênero e o mundo corporativo”, fruto da oficina Vieses Inconscientes, co-realizada pelo Insper, Movimento Mulher 360, PwC e ONY Mulheres no dia 3 de junho de 2016 com a presença de cerca de 60 pessoas representando 31 diferentes organizações, dentre elas 22 grandes empresas.

No livro "Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas", o físico Leonard Mlodinow explica que o sistema nervoso, como um todo, recebe cerca de 11 milhões de bits de informação por segundo, mas só “entrega” 40 bits à consciência.

Aqui não importa o número, pois ele não tem rigor científico. Ninguém sabe mesmo o que é 1 bit de informação por segundo, em termos de cérebro. Pior ainda, a gente não faz a mínima ideia do que seja consciência, como se forma e onde fica! Mais loucos ainda são os artigos que leio falando de cérebro, cérebro, cérebro do primeiro ao penúltimo parágrafo e, no último, a conclusão: é mente! Eu hein? Gente estranha… Eles nunca tiveram um AVC!

Enfim, pense na proporção entre o que chega até nós e de quanto disso temos consciência: é isso que importa. E o que chega pra consciência é mesmo muito pouco!

Então, o cérebro faz isso: generaliza, omite e distorce. Aliás, vamos combinar? Se generaliza, necessariamente já omitiu e, se omitiu/generalizou, já distorceu. Não dá para separar muito as coisas.

Por que o cérebro faz isso? Para que a gente possa ter foco, oras!

Já pensou se o cérebro não omitisse o supérfluo, tipo os ruídos do ambiente? Como colocaríamos foco na tarefa que estamos realizando? No que estamos lendo ou estudando? O perigo é quando o cérebro generaliza conceitos e estereótipos. Ele faz isso: não olha para um(a) cadeirante e pensa "hum, essa pessoa não usa as pernas para se locomover… as pernas não “funcionam”… mas tudo bem porque o trabalho é intelectual mesmo." Aliás, pense na produtividade de um mensageiro cadeirante! Pensar nessas coisas minimiza um pouco o risco de exclusão, né?

Claro que estou sendo simplista aqui. A exclusão abrange muitos outros aspectos, tem toda a questão dos 187 vieses cognitivos e tal. Mas esse é um aspecto super importante!

Meu desejo é que as pessoas parem de generalizar. Afinal, deficiência todo mundo tem alguma, mas isso não nos torna ineficientes. Cada pessoa é muito maior do que a deficiência que tem, seja ela qual for. Um PcD não É deficiente, ele só TEM uma deficiência específica. E a diferença entre ele e os não-PcDs é que a dele a gente enxerga, se é que você me entende...

Arte: Gabriela Costa /  Imagens: iStock by Getty Images / Texto: Ines Cozzo – Psicóloga

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