A política do futuro está nas periferias. Diante da atual crise política – representativa e institucional – enfrentada em todo o mundo neste tumultuado início de século XXI, florescem novas práticas políticas a partir da emancipação de sujeitos periféricos. Esse deslocamento lança luz sobre novos pontos de vista e práticas que enfocam formas de atuação capazes de reinventar as formas tradicionais de fazer política.

Com o objetivo de dar visibilidade aos fenômenos observados nas periferias do Brasil, o Instituto Update, uma organização sem fins lucrativos que estuda e fomenta práticas de inovação política na América Latina, produziu o estudo Emergência Política – Periferias. Elaborado com base em encontros e entrevistas conduzidas nas periferias de cinco cidades brasileiras em 2018, buscou revelar as perspectivas de cidadãos e ativistas que estão aprofundando a democracia a partir de uma diversidade de territórios, necessidades e contextos.

Periferias, favelas, aglomerados e quebradas. As percepções e nomeações utilizadas para definir os territórios marginalizados das cidades estão carregadas de estigmatizações e reducionismos que negam aos territórios periféricos uma identidade própria, fazendo com que orbitem em torno dos padrões estabelecidos pelas regiões centrais – de maioria branca e economicamente privilegiada. Assim, às periferias foi relegado o papel de luta, resistência e mobilização por melhores condições de vida.

Os cidadãos periféricos, porém, contornam as segregações impostas pelo desequilíbrio social ao intercambiarem vivências e experiências circulando pela cidade em razão de trabalho ou estudos. Esse mesmo movimento estimula o desenvolvimento de uma prática política descentralizada voltada a novos modos de constituir a cidadania.

Ao não acessarem ou serem excluídas dos processos decisórios e da formulação de políticas públicas, as populações periféricas têm sua legitimidade ignorada como parte do tecido social das cidades. Como resultado, suas demandas e características sociais são ignoradas ou negligenciadas, resultando tanto em uma visão deturpada e negativa dessa parcela da população como em uma incompreensão do que seriam as políticas públicas prioritárias e inovadoras dentro das especificidades desses territórios.

AS PERIFERIAS SÃO TERRITÓRIOS LEGÍTIMOS DA CIDADE

A formação política observada a partir das periferias ocupou diferentes espaços, propostas e iniciativas ao longo das últimas décadas buscando mediar diferentes necessidades e interesses dos sujeitos políticos periféricos.

Na década de 1980, os espaços que buscavam transformar a realidade nas periferias eram essencialmente as igrejas, as agremiações nas escolas, os sindicatos e as formações ligadas a partidos políticos. A partir da década seguinte, as organizações não governamentais (ONG) passaram a representar os principais ambientes de formação política.

Já nos últimos anos, essa atuação passou a tomar outras formas condizentes com as modificações sociais, culturais e econômicas observadas nas cidades. Coletivos e redes de atuação comunitária emergiram como organismos dinâmicos voltados a novas formas de ser e ocupar espaços na sociedade, principalmente na luta pelo direito à educação.

O despertar e a mobilização do ser político a partir das periferias dizem respeito a características como pluralidade e diversidade – de perfis, de necessidades, de contextos – o que se reflete, também, na linguagem. Nesse sentido, a pesquisa batiza estes novos sujeitos políticos como fazedores. No mesmo campo semântico, os realizadores e os tecedores também refletem comportamentos que buscam reconstruir o tecido social a partir da emancipação cidadã, da coletividade e da experimentação de novas práticas políticas.

A PLURALIDADE DAS PERIFERIAS ENGLOBA IDENTIDADES COLETIVAS QUE DÃO A ESSAS PESSOAS UM LUGAR E UM PONTO DE VISTA DE LUTA NO MUNDO A PARTIR DE SUAS PRÓPRIAS CARACTERÍSTICAS.

O SER POLÍTICO A PARTIR DAS PERIFERIAS

A formação política dos fazedores decorre de seu próprio meio, sob influência das dinâmicas sociais e culturais em suas práticas, frequentemente mesclando identidade individual e coletiva. Não obstante, mudanças comportamentais e tecnológicas e a intersecção de pautas também colaboram para uma redefinição do papel dos sujeitos políticos periféricos.

Essa transformação se origina em diferentes focos de atuação e engajamento de acordo com processos e contextos específicos de despertar e mobilização do ser político a partir das periferias.

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A DOR E O MOVIMENTO COMO RESPOSTA

A violência, o racismo e o sexismo perpetrados pelo aval ou pela negligência das próprias instituições de poder são assim vivenciados pelos indivíduos políticos periféricos por meio da dor. Essa dor advém, entre outros fatores, da atuação das forças de segurança do Estado, da falta de políticas habitacionais e de saneamento, da falta de acesso à educação e à saúde e das violações dos direitos humanos universalmente reconhecidos. Como forma de combate, os sujeitos políticos se voltam a estratégias não só de sobrevivência, mas de ampliação de redes, repertório e conexões e emergem como figuras de liderança capitaneando os movimentos de mudança.

OS DESLOCAMENTOS

Ao se deslocarem de seus territórios físicos de origem, em razão de trabalho ou estudos, os sujeitos periféricos se tornam cientes das desigualdades, que se mostram mais aparentes justamente pelo contraste. Ao circular por diferentes espaços, torna-se evidente o desequilíbrio no acesso a bens e serviços e a conclusão de que às periferias não sobra quase nada. Este mesmo ir e vir provoca, também, uma solidão da inserção, visto que essas pessoas passam a não se reconhecer totalmente nem nos territórios de origem, tampouco nos novos espaços de circulação. Dessa forma, o choque de contextos é capaz de tornar o fazedor alguém que, por meio de seus esforços, transpõe para o seu próprio território os direitos experimentados nos ambientes não periféricos em que circula.

O MENTOR

A interação com uma figura reconhecida e validada como mentora (um professor, um líder religioso, um educador ou mesmo um artista) pode colaborar para fomentar uma visão crítica e realizadora nos fazedores. Embora possa assumir papéis e profissões diferentes, mentor é alguém que, na relação com o sujeito periférico, estabelece uma relação de confiança mútua voltada à troca de experiências e aprendizados e ampliação do arsenal de competências para atuação política. Essa dinâmica faz com que o fazedor se nutra dos insumos necessários para construir um caminho próprio de atuação – a partir do território e para o território.

OS COLETIVOS E AS REDES

É na prática dos coletivos e das redes que emerge uma nova possibilidade de atuação para os fazedores. Temas de interesse diversos funcionam como núcleos em torno dos quais as pessoas investigam, produzem conhecimento ou ação – às vezes de forma temporária. Justamente por seu caráter plural e orgânico, os coletivos e as redes permitem que as pessoas circulem e passem a integrar dois ou mais grupos, a depender de sua área de interesse e atuação nos territórios. Nesse contexto, os fazedores acabam recebendo uma formação política pluralizada que os incentiva a se comprometerem, compreenderem e se identificarem com pautas raciais e de gênero, por exemplo. De acordo com a pesquisa do Instituto Update, é nesses espaços que a incidência política direta se mostra mais frutífera, viabilizando os caminhos para a nova política emergente das periferias.

AS ONGs

As organizações não governamentais representam um dos mais tradicionais espaços formadores de sujeitos políticos nas periferias, especialmente a partir dos anos de 1990. Algumas delas ainda funcionam como espaços de formulação e prática da cidadania, alimentando os moradores com informações que os colocam na rota de busca de seus direitos básicos, além de atuar no apoio e na proteção dos territórios. Consequentemente, os fazedores que têm nas ONGs seu espaço principal de atuação se orientam pela lógica de formulação e execução de projetos, aproveitando-se do amplo conhecimento da dinâmica social dos seus bairros e circulação privilegiada pelos espaços.

Ao atuarem nas lacunas deixadas pelo poder governamental, os cidadãos periféricos arregaçam as mangas para fazer valer a Constituição Federal ao mesmo tempo em que equilibram o atendimento às urgências da vida cotidiana em grandes laboratórios de soluções e propostas para atacar os problemas socioeconômicos do país. É daí que surgem, então, os chamados Laboratórios de Direitos Constitucionais. Esses laboratórios atuam em frentes contínuas e paralelas que lidam com questões que vão desde a violação de direitos à formulação de uma agenda nacional, por exemplo. São assim chamados por serem espaços de elaboração e prática e as soluções aí encontradas se ramificam com vistas a se perpetuarem no tempo e se expandirem nos territórios.

A pesquisa identificou 5 principais laboratórios que buscam garantir:

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Fonte: “Emergência Política Periferias”, Instituto Update (2018).

É nas periferias, portanto, que estes agentes buscam efetivar direitos estruturantes por meio de práticas culturais e sociais. Buscando contornar o problema da falta de acesso às políticas públicas com soluções que reflitam e sejam coerentes com o dinamismo da realidade periférica, os fazedores se tornam agentes que, ao ocupar espaços de poder, buscam garantir o direito à existência para a coletividade.

Ao ser eleita vereadora, Marielle Franco atuava em nome da garantia de direitos pelo Estado à população periférica.

Ao ser eleita vereadora, Marielle Franco atuava em nome da garantia de direitos pelo Estado à população periférica.

POLÍTICA: MODO DE FAZER

Com o objetivo de difundir os achados dessa investigação, a série Política: Modo de Fazer, produzida em parceria entre o Instituto Update e a GloboNews, conta histórias encontradas durante o processo de campo do estudo Emergência Política - Periferias.

Exibida em quatro episódios, a série deu voz a fazedores dessas novas práticas de cinco periferias do país em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Recife. Veja:

Foram ouvidos jovens periféricos na faixa de 20 a 30 anos, todos com educação formal conquistada ou por bolsa, cotas ou por programas como o Fies e ProUni. Esses jovens, em sua maioria, optaram por seguir morando nas suas quebradas, comunidades e favelas para levar e multiplicar seus saberes.

Segundo Cristina Aragão, que se juntou à cineasta Yasmin Thayná para dirigir e roteirizar a série,

“ACREDITA-SE QUE AÇÕES COLETIVAS E ORGANIZADAS PODEM INFLUENCIAS AS POLÍTICAS PÚBLICAS. É POSSÍVEL OBSERVAR QUE, APESAR DE AS INICIATIVAS NÃO TEREM TIDO UM RECORTE DE GÊNERO, AS MULHERES JOVENS E PERIFÉRICAS ESTÃO TENDO NO AMBIENTE CONTEMPORÂNEO BRASILEIRO UM PAPEL DE FORTE PROTAGONISMO".

De um universo de 400 iniciativas, 100 foram pré-selecionadas para serem apresentadas à GloboNews. Destas, as seguintes foram exibidas ao longo dos episódios:

 

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Um laboratório de narrativas e de pesquisas no Complexo da Maré, um dos territórios mais conflagrados do Rio de Janeiro.

 

JOVEM DE EXPRESSÃO

Um projeto na cidade-satélite da Ceilândia, Distrito Federal, onde um grupo de psicólogas da periferia organiza terapias comunitárias em praça pública para acolher jovens. A região é uma das mais violentas do DF. A terapia já apresenta bons resultados: crescimento de autonomia e autoconfiança desses jovens.

 

REDE UMUNNA

Composta por mulheres de SP e Rio, a rede organiza encontros para ministrar conversas sobre política. Elas acreditam que multiplicando saberes mostram que o ato político não é um bicho de sete cabeças. Ao contrário. Todo cidadão está apto a práticas políticas.

 

Além disso, de Belo Horizonte foram apresentados os casos do projeto Fa.vela de empreendedorismo e capacitação, e a assessoria Popular Maria Felipa, que orienta mulheres em situação de cárcere nos trâmites legais.

Em São Paulo a equipe foi ao bairro de Perus ouvir seis jovens que compõem o coletivo Nós, Mulheres da Periferia. Unidas, elas estão traçando reportagens e narrativas para ajudar a melhorar as políticas públicas e levar às mídias conteúdos positivos.

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Compreender a emergência e a inovação política para redução das desigualdades a partir das periferias significa ampliar a dimensão e o conhecimento dos caminhos para atualizar a política e aprofundar a democracia. A participação cidadã e engajada na prática política é capaz de transformar realidades. Para saber mais, explore o projeto Emergência Política e assista aos episódios da série Política: Modo de Fazer.

Colaborou: Cristina Aragão, jornalista e comentarista de cultura do Jornal das 18h da GloboNews. Em 2018 codirigiu com a cineasta Yasmin Thainá a série de 4 episódios "Política: modo de fazer", exibido em setembro no canal, onde ingressou em 2001 como roteirista e editora do Arquivo N.

Fonte: “Emergência Política Periferias”, Instituto Update (2018).

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