A música eletrônica agora cabe literalmente na palma da mão. Ao possibilitar uma rota acessível para a produção de música eletrônica ou apenas o uso facilitado e descompromissado entre aficionados, os sintetizadores portáteis estão ajudando a popularizar esse instrumento e ampliar as possibilidades criativas de músicos profissionais e amadores.

Nos anos 2000, o som dos sintetizadores analógicos e digitais voltou à moda. Na alvorada da era digital, os grandes aparelhos que marcaram a música eletrônica nas décadas anteriores passaram a assumir formatos menores e mais amigáveis. Com a acessibilidade e democratização da tecnologia, as pessoas começam a se interessar por formas mais divertidas e empolgantes de fazer música eletrônica por conta própria.


Novos sintetizadores, baterias eletrônicas e sequenciadores, além de mixers, amplificadores, gravadores de múltiplas faixas e outros aparatos começaram a emergir da indústria de tecnologia, todos com o toque contemporâneo baseado na tendência de consumo do “quanto menor, melhor”, tanto no tamanho quanto no custo. Um dos efeitos imediatos desse acesso foi a crescente incorporação de sonoridades eletrônicas a diversos outros estilos musicais, dando origem a combinações que cairiam no gosto popular.

No Brasil, o próprio funk carioca é marcado pela experimentação com sintetizadores e samplers. O MPC (sigla de Music Production Center), originalmente criado nos anos 80 para ser uma ferramenta de criação em estúdio, acabou se tornando um dos pilares do hip-hop e, por aqui, do funk, por suas diversas possibilidades de gravação, armazenamento e manipulação de sons. Graças à curiosidade e à criatividade dos DJs e produtores, o MPC ganhou o status de instrumento, como uma banda de bolso orientada por batidas sintetizadas, e passou a ser usado como percussão eletrônica nos bailes funk.


Além das experimentações nos bailes, artistas populares passaram a utilizar aplicativos emuladores de batidas eletrônicas nas fórmulas dos hits de sucesso, aproximando estilos. A própria batida de 130BPM, clássica do funk carioca, foi modificada para 150BPM, mais próxima do EDM (sigla em inglês para Música Eletrônica Dançante [Eletronic Dance Music]).

O bregafunk produzido no Norte e no Nordeste do país também incorporou os sons eletrônicos sintetizados:

Em muitos aspectos, a proliferação dos sintetizadores portáteis diz mais respeito a como a tecnologia se encaixa na produção musical como uma atividade social humana, e menos sobre a tecnologia em si. Com um aparelho desses na mão, qualquer usuário interessado pode aprender a sequenciá-lo e compor suas próprias melodias, geralmente composições improvisadas e experimentais.

Tornar os sintetizadores cada vez menores tem uma possível relação com a tendência da tecnologia de criar e oferecer produtos cada vez menores, o que, por sua vez, pode ter relação com a necessidade do ser humano de carregar consigo seus pertences, o que certamente acabaria estendendo ao consumo e à produção de música.

De fato, olhando para o desenvolvimento histórico do sintetizador, o objetivo da portabilidade faz com que a invenção do sintetizador de bolso pareça menos uma surpresa e mais uma inevitabilidade: em 1957 foi construído o RCA Music Synthesizer, primeiro sistema de sintetizador desenvolvido pela RCA Company nos Estados Unidos, utilizado apenas em laboratório devido ao tamanho e às horas de trabalho exigidas para criação de sons.

Atualmente o hardware dos sintetizadores é menor, mais barato e mais flexível do que antes. Um exemplo é a linha Pocket Operator (PO), cujo nome faz referência aos pais da música eletrônica, inclui um sintetizador de bateria, um sintetizador de linha de baixo e um sintetizador de melodia. Cada um é feito de pouco mais que alguns circuitos e papelão, do tamanho de uma calculadora de bolso, fazendo com que tocar um sintetizador seja muito mais parecido com jogar um videogame portátil.


FAÇA VOCÊ MESMO - E TOQUE!

O sintetizador como o conhecemos surgiu 1964 com a invenção dos sistemas modulares Moog por Robert Moog e Herbert Deutsch, permitindo a comercialização, porém a um custo muito elevado. A popularidade do sintetizador ocorreria a partir de meados da década de 1960, atingindo um novo apogeu em anos recentes.

Assim, esse crescente interesse do público pelos sintetizadores portáteis também tem instigado as pessoas a aprenderem a montar seus próprios instrumentos de forma autônoma, barata e divertida. Kits DIY (do it yourself, ou faça você mesmo) de sintetizadores oferecem a possibilidade de montagem pelo próprio usuário, assim como a oportunidade de tocar um instrumento construído por ele mesmo.

Com isso, a escala desses sintetizadores reduz a barreira de contato com o hardware eletrônico, tornando-o mais popular, e, por sua vez, estimula a experimentação lúdica de várias maneiras, distinta daquela que ocorre com sintetizadores “profissionais” em tamanho convencional. 

A real importância do sintetizador de bolso, portanto, talvez não seja simplesmente uma questão de sonoridade, mas como ele pode levar as pessoas a redefinirem o significado da musicalidade no século XXI.

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