O mundo mudou, assim como a maneira como as pessoas se relacionam com a música e os meios que a levam até elas. A balança entre motivações de consumo, liberdade de escolha e oferta de canais e plataformas é constante no jogo entre as indústrias fonográfica e tecnológica, ambas buscando atingir o público por caminhos nem sempre coincidentes. Mas onde ficam os ouvintes no meio disso tudo? De que forma essa dinâmica alterou nossa percepção sobre o consumo de música e os próprios artistas? E para onde estamos nos encaminhando nesse compasso entre o humano e o tecnológico?

Do rádio ao walkman, passando pelos players digitais até a lógica atual dos algoritmos – nossa conexão com a música e os meios que nos conectam aos artistas assumem diferentes formas ao longo do tempo. Atualmente, a quantidade de canais que estimulam nossos laços com a música é tão variada quanto os artistas e estilos musicais existentes.
Ao longo dos últimos anos foi possível observar duas dimensões principais de relacionamento com a música:

A dimensão comportamental está ligada ao aspecto humano, ou seja, a toda busca identitária e de conexões sociais que a música possibilita. Atitudes, posicionamentos, amizades e discursos, entre outros.

Dimensão comportamental – É a música encarada como ferramenta individual e coletiva para existência e coexistência no mundo.

Já a dimensão funcional engloba a tecnologia que viabiliza o acesso e torna possíveis novos meios de audição e apreciação musical. Nesse sentido, a música sempre ocupou um importante papel social como companhia perfeita para embalar momentos, festas, filmes e celebrações. Apesar das mudanças de formato ao longo dos anos, a necessidade de música nunca diminuiu.

Dimensão funcional – É a música como formato e trilha para todos os momentos.

Beyoncé

Música é mais do que ouço. Quando me conecto com algo, imediatamente vejo uma série de imagens que estão atreladas a sentimentos ou emoções, a uma memória da infância, pensamentos sobre a vida, sonhos ou fantasias. Todos estão conectados à música.

Foto Beyoncé: media.gq.com

Essas duas dimensões, contudo, não permanecem estáticas no tempo e no espaço.

Pelo contrário: ao longo dos séculos XX e XXI tem-se observado transformações nessa ciranda entre músicas, artistas, formatos e plataformas. Há novos caminhos em potencial. Tais momentos carregam a marca do tempo e dos avanços culturais e tecnológicos que o acompanham. De uma forma ou de outra, a música está sempre presente.

linhadotempomusica

Do rádio ao walkman, passando pelos players digitais até a lógica atual dos algoritmos – nossa conexão com a música e os meios que nos conectam aos artistas assumem diferentes formas ao longo do tempo. Atualmente, a quantidade de canais que estimulam nossos laços com a música é tão variada quanto os artistas e estilos musicais existentes.
Ao longo dos últimos anos foi possível observar duas dimensões principais de relacionamento com a música:

A dimensão comportamental está ligada ao aspecto humano, ou seja, a toda busca identitária e de conexões sociais que a música possibilita. Atitudes, posicionamentos, amizades e discursos, entre outros.

Dimensão comportamental – É a música encarada como ferramenta individual e coletiva para existência e coexistência no mundo.

Já a dimensão funcional engloba a tecnologia que viabiliza o acesso e torna possíveis novos meios de audição e apreciação musical. Nesse sentido, a música sempre ocupou um importante papel social como companhia perfeita para embalar momentos, festas, filmes e celebrações. Apesar das mudanças de formato ao longo dos anos, a necessidade de música nunca diminuiu.

Dimensão funcional – É a música como formato e trilha para todos os momentos.

"Música é mais do que ouço. Quando me conecto com algo, imediatamente vejo uma série de imagens que estão atreladas a sentimentos ou emoções, a uma memória da infância, pensamentos sobre a vida, sonhos ou fantasias. Todos estão conectados à música." BEYONCÉ

Foto Beyoncé: media.gq.com

Essas duas dimensões, contudo, não permanecem estáticas no tempo e no espaço.

Pelo contrário: ao longo dos séculos XX e XXI tem-se observado transformações nessa ciranda entre músicas, artistas, formatos e plataformas. Há novos caminhos em potencial. Tais momentos carregam a marca do tempo e dos avanços culturais e tecnológicos que o acompanham. De uma forma ou de outra, a música está sempre presente.

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Houve um momento na história, entre 1940 e 1990, em que a alma da música manteve relação direta com a adoração aos artistas. As vozes por trás das canções ultrapassavam letras e notas e alcançavam a dimensão comportamental e humana por meio da ligação entre música, estilo de vida, imagem e moda. Essa conjunção fez com que discurso e estética andassem juntos, formando fortes ferramentas de construção individual e social.

A conexão humana é gerada em relações de ordens distintas: seja pela figura do artista como semideus ou como representante próximo de uma mesma realidade social.

Na dimensão funcional das máquinas, nesse período o foco estava mais no aumento da quantidade de música disponível do que na qualidade oferecida, ou seja, os formatos começam a priorizar mais o alcance e o aumento das bibliotecas do que a qualidade final da música. As empresas de tecnologia e os formatos em que as canções chegavam até o público permaneciam, contudo, como vozes de apoio, sem o protagonismo que viria a seguir.

Em retrospecto, essa foi a era das gravadoras: elas ocupavam a posição suprema na cadeia da indústria musical, regulando desde a promoção dos artistas até a seleção do que as pessoas deveriam ouvir.

ERA DAS GRAVADORAS

Dimensão comportamental: Humana

Gravadoras
Artistas

Dimensão funcional: Máquina

EMPRESAS DE TECNOLOGIA
FORMATOS

Havia, portanto, certo equilíbrio entre a indústria musical e fonográfica e a indústria tecnológica. Esta última caminhava para aumentar as suas possibilidades, mas ainda sem assumir a dianteira do processo de escolha: a escassez de oferta vinda das gravadoras permitia que cada pessoa escolhesse o que quisesse, com base nos seus próprios gostos e critérios.

No final dos anos de 1990 e chegando à virada do milênio, o mundo já se encontrava na rota da revolução tecnológica que transformaria os hábitos de consumo para sempre. A função da música, neste momento, é eclipsada pelo deslumbramento digital.

Essa é a era da internet, e a virada do jogo é abrangente e irreversível: a dimensão funcional da máquina conquista proeminência e no campo da música, ela se torna uma commodity, avaliada também pelos serviços em que é consumida.

Nesse período, os serviços de oferta de música digital são avaliados por critérios como quantidade de faixas e possibilidades de escuta, às vezes acima da própria qualidade do áudio, da fase dos downloads ilegais que chacoalharam a indústria fonográfica até chegar ao boom atual dos serviços de streaming.

Manuela, 28 | Redatora

Em 2013 alguns especialistas falavam que no futuro só existiria um player de streaming de música. Hoje, quase 5 anos depois, parece que é o oposto do que eles falaram, porque a Amazon não vai largar o osso facilmente, muito menos a Apple, a Deezer, o Spotify, pois são empresas que já estão consolidadas no mercado e vão lutar por esse espaço.

Por outro lado, os impactos da expansão digital permearam também a dimensão comportamental e humana na medida em que as mídias sociais aproximaram os artistas e seu público de seguidores. Este é um cenário em que o estilo de vida ocupa os holofotes e se torna mais relevante até mesmo do que o discurso, as atitudes e as letras das músicas – uma grande virada em relação ao momento histórico anterior.

Nessa nova configuração, os fãs se interessam mais em saber sobre como o artista vive e os detalhes da sua rotina do que o que ele pensa e seus posicionamentos. A adoração, antes direcionada ao artista como indivíduo, mistura-se agora com a ilusão de proximidade e cria-se, assim, uma veneração pela vida íntima do artista, que se torna mais celebridade do que músico em si.

Protagonismo das plataformas, listas e algoritmos

Se no aspecto comportamental os artistas passam a ser consumidos na esfera da vida privada, outra transformação ocorre na própria possibilidade de escolha do público. Sai de cena a autonomia de construção do próprio repertório para dar lugar à escolha nas mãos dos algoritmos. Com base na abundância de possibilidades nos catálogos dos serviços de streaming e nas pistas dos possíveis gostos dos usuários, uma nova forma de consumo se descortinou.

Nesse contexto, tanto os artistas e álbuns, como as gravadoras e selos, perdem a relevância, que passou a ser, principalmente, das plataformas. Claro, há exceções, e ainda coexiste a supremacia estrategicamente construída de alguns artistas em detrimento de outros, como é o caso do rapper Drake.

Drake é o primeiro artista a superar 50 bilhões de streams

Foto Drake: blogTO

Muito tem se falado sobre a atuação do rapper canadense no cenário musical, colocando-se em xeque questões como qualidade, autoria e marketing. Fato é que, boa ou ruim, de certa forma sua estratégia tem funcionado nos últimos anos, fazendo com que ele esteja nos topos dos recordes musicais.

Gabriela, 33 | Designer

Toda playlist da home do Spotify ou do Deezer tem uma música do Drake. Não à toa o cara vende, é um ícone. Incomoda um pouco essa forçação de barra que o algoritmo tem.

Essa é a era da internet, em que a dimensão comportamental e humana dá um passo para trás para que as empresas de tecnologia e as plataformas conquistem os ouvintes.

Dimensão comportamental: Humana

Gravadoras
Artistas

Dimensão funcional: Máquina

EMPRESAS DE TECNOLOGIA
FORMATOS

Atualmente, a tentativa de compreender e articular as transformações observadas no momento presente convive com a expectativa do que acontecerá no futuro próximo.

Agora, a função e a alma da música têm como pano de fundo a naturalidade digital. A hipertecnologia se infiltra de modo natural e assimilado no dia a dia, fazendo com que, por exemplo, as pessoas se distanciem da própria escolha dos conteúdos que consomem: filmes, séries, vídeos, canais – e principalmente música.

As plataformas passaram a escolher pelas pessoas, antecipando desejos e oferecendo aquilo que elas “podem" querer. Os serviços passam a preencher os espaços e as funções, ativando o que as pessoas querem para cada momento.

São passatempos perfeitos.

SPOTIFY
DEEZER
NETFLIX
YOUTUBE
AMAZON PRIME
APPLE MUSIC
SOUNDCLOUD

Em contrapartida, a infinidade de conteúdos disponibilizada por essas plataformas gerou formas de consumo baseadas em inúmeras lógicas, mas aumentando a distância da obra em si. Naturalmente, surgem, então, inquietações que levam uma parcela do público a questionar:

Mas afinal, o que estou consumindo?


Quais os valores da música que escuto?


O que diz a letra? É sobre o quê?


Tal artista tem um lifestyle muito aspiracional, mas qual o posicionamento dele em tempos conturbados?


Estou escutando músicas machistas, racistas, homofóbicas sem perceber?

As pessoas estão se dando conta de que todas as facilidades que a internet e as plataformas digitais trouxeram para o consumo estão sendo encaradas com muito deslumbre.

Cautelosas, estão dando um passo para trás e questionando a validade de deixar a máquina tomar decisões por elas, afastando-as do que de fato elas projetam e desejam para si mesmas aqui e agora. Afinal, essas supostas “escolhas” estão sendo tomadas com base em deduções de gostos e rastros passados.

Filipe, 30 | Jornalista

Então tá todo mundo meio doente por esse negócio de timeline, Facebook, a gente já sabe o caminho que vai ter, o Instagram que hoje talvez seja a principal rede que tenha pra você se informar, mas também você não sabe muito bem onde vai levar... Sinto a necessidade de dar um pouco a volta no que o algoritmo e a timeline falam porque em cima disso você está esquecendo um monte de microcenários e artistas da cena independente.

Se a premissa, então, é que as pessoas estão aprendendo a lidar melhor com a máquina, elas mudam a sua relação com a tecnologia e inauguram uma nova era onde, por um lado, as pessoas integram mais conscientemente as tecnologias às suas vidas e, por outro, a tecnologia passa a ser mais humanizada.

hiper

Dessa simbiose nasce a fusão das dimensões humana e tecnológica de consumo da música, transformando-as em uma só camada, mais equilibrada e harmônica. O consumo de música entra numa nova era em que a tecnologia condiciona as pessoas, assim como as pessoas condicionam a tecnologia.

Com as ajuda dos algoritmos e baseada numa abundância de possibilidades, o poder da escolha está nas mãos dos ouvintes. Se a relação com os artistas mudou e se tornou mais horizontal, da mesma forma surgem novos aspectos de acesso à música:

1
ATIVO: mais humano

2
PASSIVO: mais máquina

É uma posição ativa de liberdade de escolha aliada à passividade cômoda da tecnologia. Cabe a cada um achar equilíbrios possíveis em meio a uma única certeza: de um jeito ou de outro, a música sempre chegará a quem tem que chegar.