A segmentação das pessoas de acordo com a geração à qual pertencem se tornou uma chave de diferenciação e de demarcação de individualidades. O debate teórico em torno desse tema originou nomenclaturas e teorias que, na prática, dizem respeito à constante tentativa humana de entender a complexidade do mundo. No cenário brasileiro, a vivência de determinados momentos históricos ajuda a compreender, no fluxo do tempo, características em comum que unem as pessoas em seus perfis geracionais. Como esse debate chegou até aqui? De que forma podemos compreender o presente analisando as gerações passadas? E a qual geração você pertence?

“Ah, eles são de outra geração!” — Quantas vezes nos deparamos com declarações como esta, que diferenciam e destacam características de pessoas nascidas em épocas distintas? Com a rapidez das transformações históricas, sociais e culturais em andamento no mundo, é comum que as pessoas recorram à marcação geracional para tentar organizar e atribuir algum sentido à complexidade dos acontecimentos à sua volta.

Mas de onde surge o interesse por este tema? Seja para refletir sobre as relações entre pais e filhos, promover melhores relacionamentos com colegas de trabalho, compreender o comportamento dos adolescentes ou, ainda, produzir conteúdo compatível com gostos, hábitos e comportamentos de cada grupo, a identificação e nomeação das gerações parece criar vias simples de compreensão daquilo que é novo. Para além da ordem dos relacionamentos, a lógica do mercado também se aprofunda na pesquisa sobre gerações – a cada dia novas tentativas de entender os consumidores, cada vez mais complexos em suas identidades, ocupam os meios especializados.

Por sua vez, falar sobre gerações significa potencializar negócios e lucratividade. Esse entendimento funciona como uma ferramenta extremamente atraente para pessoas e empresas que querem vender seus produtos para certo público-alvo. Elaborar estratégias que falem diretamente aos corações e mentes de gerações distintas pode ser a diferença na hora de lançar (ou relançar) um produto no mercado.

Contudo, o senso comum não dá conta de aprofundar a análise geracional e muitas vezes parte de falsos pressupostos ou de uma única variável para aglutinar as pessoas numa determinada "caixinha", criando uma falsa homogeneidade. Por essa perspectiva, pertencer a uma geração equivale a estar em um grupo que têm ideias e atitudes em comum, uma vez que seus membros nasceram na mesma época – ou seja, a união de pessoas em um mesmo grupo, por meio da utilização de uma única variável: o tempo de nascimento.

Por essa lógica, Jean Wyllys, Beyoncé, Tim Cook e Ayrton Senna seriam símbolos da mesma geração, certo?

As gerações costumam ser nomeadas quando alguém, ao analisar um período histórico, destaca alguma característica que é facilmente identificável quando se discute aquela época ou as pessoas que viveram naquele período. Nessa tentativa, nem todos os nomes “vingam”. Outros, porém, ficam cravados de maneira mais forte no imaginário social, justamente por abarcarem de forma sucinta e imediata o que distingue uma geração da outra – seja ao utilizar alusões a acontecimentos históricos ou a ordem das letras do alfabeto.

Se o senso comum simplifica a ideia de geração e os nomes dados a cada uma delas por si só não explicam ou aprofundam todos os aspectos envolvidos nesse conceito, no debate acadêmico as coisas ficam ainda mais complexas.

A premissa de que é possível identificar comportamentos humanos muito distintos entre grupos de pessoas que nasceram na mesma época é basicamente falsa para o pensamento sociológico, por exemplo, e as discussões em torno da questão não marcam o pensamento clássico da sociologia. Isso porque...

GERAÇÃO É ALGO NOVO.

Podemos tomar como ponto de partida o século XIX. Isso porque o conceito de geração, atrelado a um grupo, é recente na história da humanidade. Até 1850, “geração” era somente concebida de maneira genealógica, ou seja, de pais para filhos.

Somente no século XIX é que o conceito passa a ser associado a um grupo de pessoas que nascem em um determinado momento histórico. Nesse contexto, duas frentes teóricas promovem essa associação e suscitam o grande debate: o Positivismo, de Augusto Comte, e o Historicismo, de Wilhelm Dilthey.

SÉC XIX: 1798-1857

POSITIVISMO

Auguste Comte

- Filósofo francês
- Um dos fundadores da sociologia
- Reforma Intelectual
- Ciências exatas como resposta
- Visão linear da história (estamos sempre progredindo)
- Transformar sociologia em ciência
- Sucessão de gerações (a cada 30 anos uma geração seria suplantada por outra)

SÉC XIX: 1833-1911

HISTORICISMO

- Não busca leis universais, valoriza o particular (cada sociedade tem suas diferenças, a singularidade, o específico)
- Experiência compartilhada da história por um determinado grupo de pessoas
- Qualitativo e não quantitativo
- Tempo Natural é diferente do Tempo Humano (construído socialmente)
- Nova geração = grupo de pessoas que compartilham mesmo momento histórico

As duas vertentes convergiram para assimilações distintas. De forma geral, o mundo acadêmico abraçou o Historicismo; já a abordagem Positivista tornou-se mais popular e até hoje embasa o senso comum.

As visões científicas, contudo, estão em constante evolução e novas perspectivas surgem para complementar as análises históricas. Nesse sentido, Karl Mannheim foi além e problematizou a ideia de “geração” a partir de três variáveis de análise:

SÉC XIX: 1893-1947

Karl Mannheim


Sociólogo húngaro, famoso pela sociologia do “conhecimento”

POSIÇÃO GERACIONAL
Determina a possibilidade de um grupo de pessoas vivenciar experiências de forma comum e conjunta. Definem a posição geracional: localização temporal, geográfica e de classe social.

CONEXÃO GERACIONAL
É o elo que se estabelece entre um grupo de pessoas e o momento histórico em andamento (vivência dos mesmos eventos e experiências no mesmo local, tempo e classe). Um novo momento histórico nasce se novos eventos históricos caducarem o anterior.

UNIDADE GERACIONAL
Unidades geracionais são variações no campo ideológico (partidos políticos, coletivos, grupos ativistas, ONGs, entre outros). Representam discrepâncias que acontecem dentro do mesmo período histórico, são contrastantes e só podem ser compreendidas quando em confronto.

Sob outra perspectiva, nesse caldeirão de teorias que nos ajudam a compreender as interações entre os indivíduos de uma geração e entre as demais gerações possíveis, Philip Abrams direciona o seu olhar para o indivíduo e sua relação com três variáveis: identidade, privilégios e tempo de vida individual.

4 CONCEITOS PARA ENTENDER ABRAMS

1.

INDIVÍDUO
Aquele que é livre para conduzir sua própria vida a partir de seus próprios interesses. O indivíduo é filho da Modernidade. Antes, as pessoas não conduziam suas vidas a partir de interesses próprios, pois a noção de individualidade simplesmente não existia. Este é um conceito que começou a ser elaborado no fim do século XVIII e que permanece em constante desenvolvimento.

2.

IDENTIDADE
É a elaboração do indivíduo sobre quem ele é ou quer ser. Antes, as pessoas herdavam a definição de quem eram e de quem podiam ser. A partir da individualidade, torna-se uma responsabilidade, uma tarefa diária a elaboração e a manutenção da ideia de “quem sou? o que quero ser?”.

3.

PRIVILÉGIOS
Vantagens que certas pessoas têm em relação a outras frente às possibilidades de escolha. Certas pessoas têm vantagens no jogo social e podem "ser mais indivíduos" do que outras, por serem livres e praticarem a liberdade de escolha sobre o que querem de suas vidas.

4.

TEMPO DE VIDA INDIVIDUAL
O tempo de vida individual é a narrativa biográfica do indivíduo e um produto do processo histórico (portanto, variável). Atualmente este tempo é pré-organizado pela sociedade em um modelo ideal de fases da vida. Essas fases foram concebidas a partir da premissa do sistema capitalista de produtividade e ainda pelo processo de elaboração e realização da individualidade.

DA CRIANÇA,
ESPERA-SE O BRINCAR!

Preparo para produtividade futura;

Formação da individualidade pela mediação parental.

DO JOVEM, O EXPERIMENTAR, O DESFRUTAR E O REVOLUCIONAR!

Experimentação para produtividade futura;

Individualidade na potência máxima.

DO ADULTO, RESPONSABILIDADES!

Produtividade;

Individualidade oprimida por responsabilidades.

DO IDOSO,
SABEDORIA E DESFRUTE!

Improdutividade;

Individualidade reconquistada.

É importante ressaltar que as fases da vida não correspondem necessariamente à idade das pessoas, mas sim à relação delas com as variáveis de privilégio atribuídas e esperadas em cada uma das etapas. De acordo com os privilégios, o tempo individual será vivenciado de forma diferente. Fases da vida são idealizações e expectativas; privilegiados são aqueles que conseguem viver o ideal. Assim, as variáveis de privilégio definem vivências múltiplas do momento histórico atual.

Esquematizando todas as variáveis desse percurso teórico, chegamos à seguinte fórmula:

A partir da construção desse mosaico teórico sobre o tema, é possível desenharmos um retrato geracional da população brasileira que vivenciou a fase histórica recente de estabilização política e econômica do país.

BRASIL, MOSTRA

As divisões de geração mundialmente adotadas tomam por base acontecimentos direta ou indiretamente ligados a uma cultura estrangeira. Entretanto, na tentativa de analisar o contexto nacional, podemos partir de alguns dos referenciais teóricos anteriores e do contexto histórico recente do país para desenhar posições geracionais que indicam a experiência dos privilégios e a construção de identidades.

O processo histórico em andamento no Brasil foi marcado por acontecimentos que influenciaram as vidas das gerações nascidas em cada período. Diferenciar os momentos históricos nos permite entender o momento presente e, consequentemente, o perfil das pessoas nascidas no período em questão.

DITADURA

(1964-1984)

REDEMOCRATIZAÇÃO

(1984-1994)

ESTABILIZAÇÃO

(1994-2015)

Em cada um desses períodos, os privilégios experimentados são condicionados por divisões de classe, raça e gênero. Isso significa que a maioria das pessoas não vive o momento histórico de forma idealizada. No Brasil atual, por exemplo, homens brancos têm mais chance de viver todas as fases ideais da vida, enquanto mulheres negras têm menos chances de viver a juventude e a velhice. Grande parte da população brasileira não terá, portanto, interações com o processo histórico a partir de um viés ideal.

Dessa forma, no que se refere ao período de Estabilização, considerando-se um recorte temporal que se inicia a partir de meados dos anos 90, chegamos a quatro posições geracionais, definidas com base em variáveis como localização temporal, geográfica e de classe, indicando a força com que o senso de individualidade e de identidade em cada grupo se desenvolveu.

Essas características indicam que o saldo que ficará para a história é o aumento do estímulo e potencialização da individualidade no Brasil, um processo fomentado a partir das condições históricas observadas. Apesar das discrepâncias e independentemente das classes sociais, as pessoas que partilharam a vivência desse momento buscam e valorizam, assim, fatores como CONTROLE, REPRESENTATIVIDADE, PROTAGONISMO e PARTICIPAÇÃO na construção de sua identidade, qualquer que seja o contexto de vida. A autonomia de decisões e escolhas é o denominador comum almejado pelas PESSOAS neste Brasil que se descortina.

Saber a qual geração pertencemos funciona como uma bússola que aponta de onde viemos e aonde estamos nos encaminhando. Ultrapassar o senso comum e chegar à formação de um retrato geracional coerente implica em sobrepor camadas de significado que juntas integram o processo de criação das identidades. Afinal, nós somos e construímos a nossa própria geração.