Em 1999, durante a comemoração do pênalti que decidiu a Copa do Mundo de Futebol Feminino nos Estados Unidos, Brandi Chastain, jogadora da seleção da casa, deslizou de joelhos no gramado e arrancou sua camiseta, um gesto comum entre jogadores homens que, naquele contexto, gerou controvérsia e críticas sobre a participação das mulheres no futebol e nos esportes em geral.

Duas décadas depois, o mundo mudou o bastante para aquela polêmica perder sentido e ceder lugar a transformações e pioneirismos dentro e fora dos gramados. A Copa 2019, que reúne 24 seleções femininas na disputa pelo campeonato mundial, representa mais um divisor de águas colocando em pauta temas como o crescente interesse das mulheres pelo futebol, além de envolver marcas e organizações no compromisso com a equidade de gênero e a diversidade.

O campeonato, que termina em 7 de julho na França, tem sido marcado por diversas novidades, da ampla transmissão televisiva, do uniforme exclusivo, do álbum de figurinhas ao engajamento dos torcedores. Segundo a Federação Internacional de Futebol (FIFA), mais de 720 mil ingressos foram vendidos, e o prestígio do público também é sentido mesmo longe dos campos. No caso do Brasil, a onda de apoio à seleção brasileira, especialmente dos torcedores, representa uma novidade bem-vinda para a geração de mulheres cujo legado foi atrair holofotes à modalidade.

Ettie, mascote da Copa do Mundo de Futebol Feminino

Este ano marca os 40 anos desde que a prática do futebol feminino foi liberada por lei no Brasil – o Decreto-Lei 3199, do governo de Getúlio Vargas, proibia desde 1941 a "prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina". Na contramão desse retrocesso, emerge um cenário de participação crescente das mulheres no futebol, como a exigência de que todos os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro se enquadrem no Licenciamento de Clubes da Confederação Brasileira de Futebol e, por obrigação, mantenham um time de futebol feminino, tanto adulto como de base.

Ações inclusivas como essa também têm respaldo no fato de que as mulheres estão, de fato, envolvidas com o futebol – seja na posição de atletas ou torcedoras. Segundo pesquisas, além da diversidade de esportes pelos quais as mulheres estão interessadas em todo o mundo, uma das principais mudanças é o aumento da porcentagem de mulheres que assistem a futebol, o que tem sido impulsionado por grandes transformações sociais e culturais e a crescente participação das mulheres no esporte.

% de mulheres que assistem a esportes específicos na TV às vezes ou regularmente durante as respectivas temporadas de torneios
espectadoras de futebol por modalidade

Fonte: “Mulheres e Esporte”, Repucom (2015).

 

Já uma pesquisa realizada na última edição da Copa do Mundo Feminina, em 2015, apontou que o tempo médio de consumo das transmissões dos jogos entre a população geral aumentou em 51%. Considerando-se o consumo apenas entre as mulheres, a variação foi de 30%. 

Por trás desses dados, há uma transformação que diz respeito à forma como a sociedade tem encarado a participação das mulheres no futebol como algo natural e valorizado, ou seja, uma quebra de paradigma que distancia as jogadoras de hoje de episódios como aquele vivido por Brandi Chastain em 1999.

Na primeira convenção de futebol feminino da FIFA, Fatma Samoura, Secretária Geral da organização, ressaltou a importância da Copa do Mundo Feminina, defendendo em seu discurso de abertura a presença das mulheres no mundo do futebol e em todos os aspectos da vida. “As mulheres são metade da população mundial e ainda assim nossas vozes nem sempre são ouvidas… temos filhos, estudamos, trabalhamos, mas nosso trabalho duro muitas vezes não é reconhecido nem valorizado”, explicou ela.

futebol

"Isso não é mais só sobre o futebol feminino. Isso é sobre nós, mulheres, deixarmos uma pegada. Nós contamos com o apoio de vocês para mudar a mentalidade, para que no futuro o futebol feminino seja simplesmente conhecido como futebol."

Fatma Samoura

 

No Brasil, diversas ações já apontam para uma maior abertura das marcas e do público pelo interesse pelo futebol feminino impulsionado pela Copa. Um dos exemplos é a campanha “Com Você Eu Jogo Melhor”, do Grupo Boticário, que visa estimular todos os colaboradores da empresa a assistir aos jogos da Seleção Feminina na Copa do Mundo de Futebol Feminino

Mesmo fora do contexto da Copa, essa ação pontual ecoa diversas outras promovidas por grandes marcas que integram os planos de ação da campanha Aliança Sem Estereótipo, da ONU Mulheres, que em última instância visa promover igualdade de gênero na publicidade.

A Copa 2019 também gerou contexto para a primeira campanha publicitária com foco apenas nas jogadoras do time brasileiro. Em tom de provocação, a peça afirma que, em 2018, no ano da Copa do Mundo masculina, nenhum rosto feminino retratou o futebol do país, lançando o desafio para que outras marcas também prestigiem as atletas brasileiras.

Atendendo ao apelo, marcas como O Boticário, DMCard, GOL e Lay’s e a agência Almap BBDO alinharam-se no apoio à modalidade e à visibilidade do futebol feminino, e os valores obtidos com a utilização das imagens da campanha, que exibem as jogadoras simulando propagandas de diferentes produtos, serão divididos entre as atletas e o projeto Joga Miga, que visa construir uma rede nacional de mulheres interessadas em jogar futebol.

O efeito de campanhas inclusivas como esta geram resultados positivos abrangentes. De acordo com a campanha da ONU Mulheres, hoje, 64% de todos os gastos globais dos consumidores são controlados por mulheres, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. E elas são responsáveis por 70% das decisões de compra. Uma pesquisa realizada pela Association of National Advertisers (ANA), com sede nos EUA, revelou que marcas que entregam anúncios progressistas, livres de preconceitos de gênero, estão associadas a maior intenção de compra por mais de 25% entre todos os consumidores e 45% entre as mulheres.

Vale lembrar que, embora o mundial feminino de futebol exista desde 1991, a transmissão das partidas é algo mais recente. Diante disso, é coerente que a Copa do Mundo Feminina de Futebol ultrapasse barreiras e o interesse e a repercussão mobilizem o público - todas as partidas estão sendo transmitidas ao vivo na TV fechada e todos os jogos da seleção feminina brasileira têm sido exibidos na TV aberta pela Rede Globo pela primeira vez na história

Já do lado da torcida, a vibração é evidente: a empolgação clássica do brasileiro com a Copa também está presente nos olhos grudados nas partidas do futebol feminino – e do jeito que o brasileiro gosta. Em várias cidades pelo país, empresas têm liberado seus funcionários ou disponibilizado televisores para a transmissão dos jogos. 

Os bares, por sua vez, também aproveitam a comoção. Assim como acontece em todas as Copas masculinas, os estabelecimentos estão fazendo promoções especiais e exibindo os jogos em telões para atrair torcedores e torcedoras. A campanha Jogue Como Uma Garota mapeou 22 bares com proprietárias mulheres, em 13 estados, que transmitem os jogos ao vivo com o objetivo de engajar ainda mais a torcida brasileira.

Mesmo com tantos avanços, olhar para o passado é necessário. A exposição "Contra-Ataque! As mulheres do futebol", no Museu do Futebol, em São Paulo, funciona como um manifesto a favor da igualdade de gêneros em campo. Em cartaz até o dia 20 de outubro, a mostra exibe como a nossa história com o futebol feminino já vem de longa data – e com muitos entraves no caminho.

Em 1999, durante a comemoração do pênalti que decidiu a Copa do Mundo de Futebol Feminino nos Estados Unidos, Brandi Chastain, jogadora da seleção da casa, deslizou de joelhos no gramado e arrancou sua camiseta, um gesto comum entre jogadores homens que, naquele contexto, gerou controvérsia e críticas sobre a participação das mulheres no futebol e nos esportes em geral.

Duas décadas depois, o mundo mudou o bastante para aquela polêmica perder sentido e ceder lugar a transformações e pioneirismos dentro e fora dos gramados. A Copa 2019, que reúne 24 seleções femininas na disputa pelo campeonato mundial, representa mais um divisor de águas colocando em pauta temas como o crescente interesse das mulheres pelo futebol, além de envolver marcas e organizações no compromisso com a equidade de gênero e a diversidade.

O campeonato, que termina em 7 de julho na França, tem sido marcado por diversas novidades, da transmissão televisiva inédita e do uniforme exclusivo ao álbum de figurinhas e ao engajamento dos torcedores. Segundo a Federação Internacional de Futebol (FIFA), mais de 720 mil ingressos foram vendidos, e o prestígio do público também é sentido mesmo longe dos campos. No caso do Brasil, a onda de apoio à seleção brasileira, especialmente dos torcedores, representa uma novidade bem-vinda para a geração de mulheres cujo legado foi atrair holofotes à modalidade.

Ettie, mascote da Copa do Mundo de Futebol Feminino

Este ano marca os 40 anos desde que a prática do futebol feminino foi liberada por lei no Brasil – o Decreto-Lei 3199, do governo de Getúlio Vargas, proibia desde 1941 a "prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina". Na contramão desse retrocesso, emerge um cenário de participação crescente das mulheres no futebol, como a exigência de que todos os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro se enquadrem no Licenciamento de Clubes da Confederação Brasileira de Futebol e, por obrigação, mantenham um time de futebol feminino, tanto adulto como de base.

Ações inclusivas como essa também têm respaldo no fato de que as mulheres estão, de fato, envolvidas com o futebol – seja na posição de atletas ou torcedoras. Segundo pesquisas, além da diversidade de esportes pelos quais as mulheres estão interessadas em todo o mundo, uma das principais mudanças é o aumento da porcentagem de mulheres que assistem a futebol, o que tem sido impulsionado por grandes transformações sociais e culturais e a crescente participação das mulheres no esporte.

% de mulheres que assistem a esportes específicos na TV às vezes ou regularmente durante as respectivas temporadas de torneios
espectadoras de futebol por modalidade

Fonte: “Mulheres e Esporte”, Repucom (2015).

 

Já uma pesquisa realizada na última edição da Copa do Mundo Feminina, em 2015, apontou que o tempo médio de consumo das transmissões dos jogos entre a população geral aumentou em 51%. Considerando-se o consumo apenas entre as mulheres, a variação foi de 30%. 

Por trás desses dados, há uma transformação que diz respeito à forma como a sociedade tem encarado a participação das mulheres no futebol como algo natural e valorizado, ou seja, uma quebra de paradigma que distancia as jogadoras de hoje de episódios como aquele vivido por Brandi Chastain em 1999.

Na primeira convenção de futebol feminino da FIFA, Fatma Samoura, Secretária Geral da organização, ressaltou a importância da Copa do Mundo Feminina, defendendo em seu discurso de abertura a presença das mulheres no mundo do futebol e em todos os aspectos da vida. “As mulheres são metade da população mundial e ainda assim nossas vozes nem sempre são ouvidas… temos filhos, estudamos, trabalhamos, mas nosso trabalho duro muitas vezes não é reconhecido nem valorizado”, explicou ela.

futebol

"Isso não é mais só sobre o futebol feminino. Isso é sobre nós, mulheres, deixarmos uma pegada. Nós contamos com o apoio de vocês para mudar a mentalidade, para que no futuro o futebol feminino seja simplesmente conhecido como futebol."

Fatma Samoura

 

 

No Brasil, diversas ações já apontam para uma maior abertura das marcas e do público pelo interesse pelo futebol feminino impulsionado pela Copa. Um dos exemplos é a campanha “Com Você Eu Jogo Melhor”, do Grupo Boticário, que visa estimular todos os colaboradores da empresa a assistir aos jogos da Seleção Feminina na Copa do Mundo de Futebol Feminino

Mesmo fora do contexto da Copa, essa ação pontual ecoa diversas outras promovidas por grandes marcas que integram os planos de ação da campanha Aliança Sem Estereótipo, da ONU Mulheres, que em última instância visa promover igualdade de gênero na publicidade.

A Copa 2019 também gerou contexto para a primeira campanha publicitária com foco apenas nas jogadoras do time brasileiro. Em tom de provocação, a peça afirma que, em 2018, no ano da Copa do Mundo masculina, nenhum rosto feminino retratou o futebol do país, lançando o desafio para que outras marcas também prestigiem as atletas brasileiras.

Atendendo ao apelo, marcas como O Boticário, DMCard, GOL e Lay’s e a agência Almap BBDO alinharam-se no apoio à modalidade e à visibilidade do futebol feminino, e os valores obtidos com a utilização das imagens da campanha, que exibem as jogadoras simulando propagandas de diferentes produtos, serão divididos entre as atletas e o projeto Joga Miga, que visa construir uma rede nacional de mulheres interessadas em jogar futebol.

O efeito de campanhas inclusivas como esta geram resultados positivos abrangentes. De acordo com a campanha da ONU Mulheres, hoje, 64% de todos os gastos globais dos consumidores são controlados por mulheres, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. E elas são responsáveis por 70% das decisões de compra. Uma pesquisa realizada pela Association of National Advertisers (ANA), com sede nos EUA, revelou que marcas que entregam anúncios progressistas, livres de preconceitos de gênero, estão associadas a maior intenção de compra por mais de 25% entre todos os consumidores e 45% entre as mulheres.

Diante disso, é coerente que a Copa do Mundo Feminina de Futebol ultrapasse barreiras e o interesse e a repercussão mobilizem a mídia - de forma que todas as partidas estejam sendo transmitidas ao vivo na TV fechada e todos os jogos da seleção feminina brasileira tenham sido exibidos na TV aberta pela Rede Globo pela primeira vez na história

Vale lembrar que, embora o mundial feminino de futebol exista desde 1991, a transmissão das partidas é algo mais recente. Em 2015, na última edição da Copa de Futebol Feminino, a exibição parcial do torneio ficou a cargo somente da SporTV e da TV Brasil, limitada aos jogos da seleção brasileira.

Já do lado da torcida, a vibração é evidente: a empolgação clássica do brasileiro com a Copa também está presente nos olhos grudados nas partidas do futebol feminino – e do jeito que o brasileiro gosta. Em várias cidades pelo país, empresas têm liberado seus funcionários ou disponibilizado televisores para a transmissão dos jogos. 

Os bares, por sua vez, também aproveitam a comoção. Assim como acontece em todas as Copas masculinas, os estabelecimentos estão fazendo promoções especiais e exibindo os jogos em telões para atrair torcedores e torcedoras. A campanha Jogue Como Uma Garota mapeou 22 bares com proprietárias mulheres, em 13 estados, que transmitem os jogos ao vivo com o objetivo de engajar ainda mais a torcida brasileira.

Mesmo com tantos avanços, olhar para o passado é necessário. A exposição "Contra-Ataque! As mulheres do futebol", no Museu do Futebol, em São Paulo, funciona como um manifesto a favor da igualdade de gêneros em campo. Em cartaz até o dia 20 de outubro, a mostra exibe como a nossa história com o futebol feminino já vem de longa data – e com muitos entraves no caminho.

leia-mais-azul
img-esporte

A NOVA CARA DOS ESPORTES

A identidade esportiva brasileira se desconstrói para revelar novas interatividades e protagonismos.

Crédito: iStock-1087549622 South_agency

MULHERES NO FUTEBOL
Um minidocumentário reforça o debate sobre a presença das mulheres em um ambiente, até então, considerado machista: o futebol.