Você coloca uma fita adesiva cobrindo a câmera do seu computador? Fica exasperado ao ser inundado por notícias diárias sobre aquecimento global, corrupção, misoginia, intolerância, negação da ciência, surgimento das corporações-estado? Tem a desconfortável sensação de que todo mundo leva uma vida maravilhosa – viajando para lugares incríveis, indo nos melhores restaurantes – menos você?

Se sua resposta for positiva para pelo menos uma das perguntas acima, então você é mais um do crescente número de pessoas que sofrem com os medos contemporâneos.

O medo sempre foi um sentimento presente. Ele é parte integral de nossa existência e garantiu nossa sobrevivência como espécie. Nunca, entretanto, ele infiltrou-se tanto em nossas vidas e adquiriu uma forma difusa e mutante quanto agora. Sim, já tivemos medo da peste, de monstros marinhos e de não ganhar o reino dos céus. Esses medos, por mais fantasiosos que fossem, eram mais concretos e visíveis, como atestam algumas das obras de Hieronymus Bosch.

 

Hieronymus Bosch
Netherlandish, c. 1450 - 1516
Death and the Miser
c. 1485/1490
oil on panel

Recorte de "Death and the Miser" | Hieronymus Bosch, c. 1485/1490 (National Gallery of Art)

A característica insidiosa dos medos contemporâneos é que eles são fluidos, etéreos e evoluem como uma consequência inesperada do crescimento da internet e das redes sociais – que, como toda tecnologia, podem ser usadas como ferramentas de iluminação ou de opressão. As pessoas podem fazer um passeio virtual pelo Museu do Louvre sentadas confortavelmente na poltrona de suas casas ou fazer um comentário maldoso nas redes sociais sobre a aparência de alguém. As redes funcionam como caixas acústicas, reverberando para o mundo inteiro tudo o que é bom e ruim daquilo que acontece em nosso dia a dia.

Mas é numa faceta menos óbvia que as redes sociais aparecem de forma mais ardilosa, ao estabelecer padrões irreais tanto de comportamento quanto de beleza, com os quais comparamos nossa existência ordinária. A sensação de inadequação e fracasso é quase inevitável.

Paul Bloom e Matthew Jordan, da Universidade Yale, em artigo recente, citam um conceito inicialmente formulado pelo filósofo inglês Derek Parfit: a ideia de que somos todos “torturadores inofensivos”. Contam um experimento hipotético em que um estranho está preso a uma máquina, sentindo um leve choque, quase imperceptível. Na máquina existe um botão. Se você girar o botão levemente, o estranho sofrerá um leve aumento do choque, mas tão pequeno que ele nem perceberá. Você dá o leve giro no botão e segue em frente. Em seguida, centenas de outros vão repetindo o mesmo leve giro até que finalmente o estranho está gritando de dor. O efeito individual de cada giro no botão passa quase despercebido, e seguimos adiante sem achar que causamos muito sofrimento, mas o efeito coletivo das ações é terrível.

A analogia não poderia ser mais apropriada, com um pequeno reparo: somos todos, na realidade, ao mesmo tempo, vítimas e algozes - a cada like, a cada compartilhamento, inocentemente alimentamos nossos egos e nossos medos.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Nelson Kuniyoshi | Planejamento / FCB Brasil
Profissional com mais de 20 anos de experiência na área de Planejamento Estratégico de Comunicação. Foi Diretor de Planejamento em agências no Brasil e na Ásia, como Y&R, JWT, e BBDO-Tokyo. É um dos sócio-fundadores do Grupo de Planejamento (GP). Atualmente é responsável pelo Culture Lab da FCB, um núcleo do Planejamento que estuda a intersecção de Tendências, Cultura, e Comportamento.

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Novas formas e expressões do medo na contemporaneidade refletem inquietações derivadas da interação entre os mundos real e virtual.