Cada pessoa tem o seu Segundo Mundo, o mundo dos segredos, essencial para que possamos editar nossas personalidades e a forma como nos apresentamos ao mundo. O Segundo Mundo dos homens remonta à construção, presente desde a infância, de uma noção socialmente compartilhada de virilidade. Herdada de gerações anteriores, contudo, essa ideia passa atualmente por um processo de questionamento e ressignificação, afetando diversos tabus da identidade masculina.

Segundo a socióloga Claudine Haroche, em um artigo para o terceiro volume de “História da Virilidade”, para a nossa sociedade os homens devem não só ser fortes, mas também “se mostrar fortes”. Para ela, “os homens temem, acima de tudo, serem descobertos na sua vulnerabilidade”.

Contudo, os papéis de gênero, em transformação desde a década de 1960 do século passado, influenciam decisivamente a forma como o indivíduo lida com seus segredos (e com os do outro). Do ponto de vista feminino, tivemos um avanço, dentro do mercado de trocas simbólicas, sobre capitais tradicionalmente ligados à masculinidade, como o capital financeiro, o intelectual e o cultural. Do ponto de vista masculino, houve uma desvalorização do capital viril tradicional, que hoje se encontra num processo de ressignificação.

Eis um novo significado para o capital viril tradicional!

Os novos tempos já não abraçam a ideia clássica do machão. Permanece, entretanto, como elemento constituidor da masculinidade, a noção de que “homem que é homem aguenta”. Como um antigo soldado espartano, o homem de transição mantém uma postura de laconismo no universo íntimo, isto é, de silêncio. Aguentar uma enfermidade por muito tempo antes de admiti-la e ir ao médico, por exemplo. Ele ainda se sente impelido a se adequar a vários papéis para ser considerado um “homem de verdade”.

Os papéis e seus segredos

simbolo-provedor

SIMBÓLICO PROVEDOR

É pelo trabalho e por sua capacidade de prover que, tradicionalmente, um homem se faz homem. O universo do trabalho o define totalmente enquanto indivíduo. Sua valoração depende dos sucessos e fracassos laborais. Como o peso de prover recai sobre ele, mesmo que não goste do que faz, o homem transicional, ainda muito ligado ao paradigma de gênero do século XX, deve suportar. Com a hipervalorização desse universo, ele se sente deslocado dentro de casa.

A partir desse papel, tornam- se secretos:
• O fato de a esposa ganhar mais;
• A falta de prazer no trabalho;
• A inveja que sente pelo desempenho dela no trabalho;
• A inveja que sente por uma suposta “despreocupação” dela;
• A frustração pela falta de contato com os filhos;
• A sensação de ser um estranho em casa.

viril

VIRIL SOB CONTROLE

Para ele, o hábito masculino de autoafirmação enquanto dominante por meio da violência e do sexo persiste. Ele, contudo, não pode se mostrar demasiadamente viril.

A partir desse papel, tornam- se secretos:
• O envolvimento em brigas;
• A incapacidade de brigar;
• A covardia em geral;
• A violência doméstica;
• A impotência sexual;
• A falta de prazer no sexo;
• A infidelidade conjugal.

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BOM COMPANHEIRO

Para ele, o bando de homens, de amigos com quem convive, é uma antítese do lar, universo feminino. Entre homens, exclusivamente, exacerba-se a dureza dos jogos de força e coragem, dos desafios e da autoafirmação. É nesse espaço que reina o provérbio americano “bros before hoes” (“amigos primeiro, depois as mulheres”, em tradução livre).

A partir desse papel, tornam-se secretos:
• O machismo compartilhado;
• Todas as falhas morais/éticas dos amigos;
• A ausência de hobbies.

espartano

ESPARTANO

Além de terem a força como valor, para eles, aguentar tudo em silêncio, sem reclamar, é a regra. “Homem que é homem aguenta!”, diz o ditado popular. Quantas vezes não se repetiu a cena de um menino jogando bola e tendo que suportar a derrota, os xingamentos e as entradas violentas calado, pois como lhe diz o técnico, “futebol é esporte de homem”?

A partir desse papel, tornam-se secretos:
• A protelação da ida ao médico;
• O choro e o descontrole;
• O medo de ficar sozinho;
• O sofrimento intenso pela perda de um ente querido.

racional

RACIONAL

Pela tradição, seu papel como homem é ligado ao planejamento da vida pública, sendo associado ao universo da razão, enquanto as mulheres são vistas e retratadas como seres em que a emoção tem maior peso. Ele deve ser responsável por controlar as suas emoções e manter a família informada quanto aos fatos do cotidiano. Deve ter uma interpretação das notícias e manter a temperança em momentos de crise.

A partir desse papel, tornam- se secretos:
• A ignorância em relação a algo;
• A menor preparação em relação à mulher para lidar com questões práticas. Os segredos, portanto, possuem um tempo social e histórico, que é condicionado por regras morais e de civilidade, que regulam a sociedade; mas também um tempo individual, dentro do qual determinadas regras são submetidas a juízo pessoal, da subjetividade. De acordo com cada contexto, segredos podem surgir ou ser revelados e torna-se possível, assim, que a masculinidade seja reinventada.

Referência bibliográfica
HAROCHE, Claudine. “Antropologias da virilidade: o medo da impotência”. A virilidade em crise? Séculos XX-XXI. CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. v.3 de História da virilidade. COURTINE, Jean-Jacques (org.). Tradução Noéli Correia de Mello Sobrinho e Thiago de Abreu e Lima Florêncio. Rio de Janeiro: Vozes, 2013.

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O MUNDO SECRETO DAS MULHERES

A maneira como as mulheres têm lidado com seu mundo interior traz à tona questões sobre construção de identidade nas esferas pública e privada

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