Apropriar-se dos esportes coletivos como forma de integração, bem-estar e desafio contra preconceitos externos e aqueles construídos internamente ao longo da vida. É dessa forma que membros da comunidade LGBT estão se (re)aproximando de diversas modalidades esportivas e demonstrando que é possível ocupar novos espaços e expandir a inclusão propiciada pelo esporte.

São recorrentes as situações em que o interesse de uma pessoa LGBT pelo esporte esbarra no preconceito e na exclusão. Seja pelo bullying sofrido na escola ainda na infância ou adolescência ou ainda pela exposição a ofensas e gritos de torcida homofóbicos nos estádios, as portas de entrada para o esporte frequentemente são bloqueadas pelo medo e pela sensação de inadequação.

Para muitas pessoas, a cultura esportiva, especialmente aquela dos esportes em grupo, é mais um espaço da sociedade em que a homofobia e a discriminação se fazem sentir com maior intensidade por atletas e fãs de esportes em geral. De acordo com dados da pesquisa Out on the Fields, pioneira na investigação da homofobia contra gays, lésbicas e bissexuais no esporte em países de língua inglesa, apenas 1% dos participantes, incluindo heterossexuais, declararam sentir que pessoas LGB são “completamente aceitas” no contexto dos esportes coletivos. Por outro lado, 46% dos respondentes, de todas as sexualidades inclusas na pesquisa, escolheram as formas mais baixas de aceitação ao afirmar que as pessoas LGB não são “de forma alguma aceitas” ou, no máximo, “um pouco aceitas” em seus países. Pelo recorte observado nos Estados Unidos, o medo de se engajar em esportes coletivos é evidente:

Embora os dados acima se refiram ao contexto observado em outro país, pondera-se que o cenário no Brasil seja ainda pior pelos índices recordes de violência contra minorias sexuais: segundo dados do Grupo Gay Bahia (GGB), em 2017 ocorreram 445 mortes no Brasil motivadas por homotransfobia, um aumento de 30% em relação ao anterior. Tal cenário de ódio e preconceito se espalha por diferentes espectros da sociedade, incluindo o esportivo.

(RE)APROXIMAÇÃO DOS ESPORTES

Buscando reverter este quadro, nos últimos anos começaram a surgir iniciativas de organização de times de diversas modalidades esportivas que visam à inclusão e à retomada da participação no esporte como caminho de visibilidade e promoção de bem-estar. Das partidas de queimada ao futebol, diferentes grupos têm chamado atenção não somente pela descontração e pelo humor, mas também pela articulação, sem apoio ou patrocínio, de competições independentes em todo o país. Dessa forma, os times LGBTs surgem como espaços nos quais homossexuais, bissexuais, trans e travestis reafirmam suas identidades e lutas comuns.

QUEIMADA

A Gaymada é a versão inclusiva da queimada, jogo esportivo muito popular na recreação escolar. Embora haja ocorrências em outras partes do Brasil, em São Paulo o evento ganhou destaque pela ocupação do espaço público (com edições no Largo da Batata, em Pinheiros) e associação a outras iniciativas em prol da comunidade LGBT. A recreação despretensiosa aliada ao ativismo consciente atrai dezenas de participantes de diversas orientações sexuais e identidades de gênero ao evento.

RUGBY

Jogar rugby, esporte originário da Inglaterra, por muito tempo foi atrelado quase exclusivamente a uma ideia pré-concebida e excludente de masculinidade. Na esteira das atividades da Gaymada em São Paulo, surgiu também o Tamanduás-Bandeira Rugby Club, o primeiro time de rugby inclusivo do país, que se reúne periodicamente para treinar e praticar o esporte à revelia das convenções que ainda o cercam.

FUTEBOL

Se as principais divisões do Campeonato Brasileiro jamais contaram com um jogador homossexual declarado em toda a sua história, no futebol amador o esporte paixão nacional não poderia ser ignorado na onda de retomada das práticas esportivas pela comunidade LGBT. Em todo o país, de forma espontânea e independente, surgiram times amadores como Bulls Football e Futeboys (São Paulo), BeesCats e Alligaytors (Rio de Janeiro) e Bharbixas (Belo Horizonte), entre outros. O movimento vem ganhando impulso inclusive pela organização do Champions Ligay, torneio de futebol society pioneiro entre equipes formadas por jogadores gays. Este ano, os times também participaram da segunda edição dos Jogos da Diversidade, em que competiram cerca de 240 jogadores gays, bissexuais e transexuais.

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