A representação verossímil do prazer feminino permanece um tabu dentro da indústria cinematográfica. A masturbação feminina, em especial, ainda é pouco retratada em filmes e séries e encontra resistências para ser incluída mesmo em roteiros mais ousados, esbarrando frequentemente na baixa representatividade das mulheres nas equipes de produção.

Motivada pelo desejo de imprimir um tom realista a uma cena de sexo, a atriz Maggie Gyllenhaal precisou insistir com os produtores da série The Deuce, do canal HBO, para que fosse incluída uma cena em que sua personagem, uma prostituta, atinge o orgasmo ao se masturbar após um encontro insatisfatório com um cliente. A intenção da atriz era expor, entre outros pontos, a misoginia e a performatividade dos orgasmos fingidos a dois – no contexto ficcional e na vida real.

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Uma questão de longa data

Esse tipo de representatividade esbarra nas diversas resistências de uma indústria majoritariamente dominada por homens. Dados de 2007 da organização Women and Hollywood, que busca promover a diversidade de gênero em Hollywood e na indústria global de cinema, mostram que, entre os 100 filmes de maior arrecadação, em geral as mulheres respondiam por apenas 16% dos diretores, escritores, produtores executivos, produtores, editores e cinematógrafos. Um dos efeitos dessa tímida presença é a visão de sexualidade feminina retratada pelos olhares masculinos, tornando cenas de masturbação feminina algo raro.

No Brasil, a série “Desnude”, do canal GNT, produzida por uma equipe composta majoritariamente por mulheres, apresenta ao público, de forma pioneira, narrativas que abordam a libido a partir de um protagonismo do desejo feminino. Com base em relatos reais compartilhados com a equipe de criação da série, assuntos velados no contexto da sexualidade e do imaginário erótico das mulheres são abordados de forma a naturalizar o autoconhecimento e o direito à livre fantasia.

Em relação ao público, a demanda foi confirmada a partir de pesquisa realizada pelo GNT com 1.077 mulheres de todo o país. Embora 76% delas assistam a produções pornográficas, entre elas, contudo, 82% não se sentem representadas nos filmes, criticados por encenações de sexo artificiais e sem contexto. “Desnude”, ao privilegiar o prazer feminino, coloca em xeque o falocentrismo característico dessas produções.

Segundo a equipe da série, os temas visam ser “gigantes, educativos e tesudos”, refletindo novos modos mais condizentes de ser mulher. Nesse esforço criativo, ao desafiar a forma e a norma pelas quais as mulheres são usualmente retratadas nas produções eróticas ou pornográficas, até as escolhas de aspectos técnicos como a fotografia influenciam a percepção dos lugares de prazer valorizados a partir de uma perspectiva feminina.

Nada de novo sob o sol

A hipocrisia em torno desse tema permeia debates de longa data na cultura pop em geral. Em 1992, a cantora Madonna incluiu em seu livro “Sex”, no qual retratava suas fantasias sexuais, uma imagem de si mesma se masturbando sobre um espelho. Em uma das entrevistas de divulgação à época, fica evidente o desconforto do olhar masculino diante da autonomia do prazer feminino pela própria reação do entrevistador:

A criatividade feminina, aliada a uma nova mentalidade em construção quanto às representações de corpo, desejo e sexualidade, aos poucos vão refletindo, nas telas, a pluralidade de desejos e o autoconhecimento das mulheres. O prazer é de todas.

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O MUNDO SECRETO DAS MULHERES

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