As crianças das Gerações Z e Alpha já nasceram imersas em um mar de tecnologia com ondas gigantes de informações prontas para acessar. Os Alphas, nascidos a partir de 2010, são mais estimulados a interagir e gerar mudanças desde o nascimento, por isso terão oportunidade de conquistar mais independência e adaptabilidade às evoluções do mundo, se comparados às gerações anteriores. Embora sejam hipóteses, ainda não existe uma resposta exata sobre o que diferencia essas gerações tão recentes. Um novo mindset em construção aponta para os estímulos como fator que possivelmente diferencia os Alphas dos Zs.

Os recortes que distinguem as divisões geracionais ajudam a entender, por oposições e comparações, o impacto sociocultural da passagem do tempo, desde o núcleo familiar até a sociedade como um todo. As análises sobre o surgimento das gerações são tentativas de compreender quem fomos ontem e quem seremos amanhã. Muito se comenta, por exemplo, sobre o perfil multitarefa da Geração Y (Millennials) e as mudanças que trouxeram às relações com o mercado de trabalho; também não faltam discussões e teses sobre os reflexos da capacidade de conectividade entre os adolescentes da Geração Z. Mas, se acabam as letras do alfabeto para distinguir as gerações, o que virá depois? A Geração Alpha, a primeira geração totalmente nascida no século XXI – crianças, bebês e fetos – começa a influenciar a sociedade do futuro e suas interações.

A Geração Alpha veio ao mundo já com as telas de dispositivos digitais posicionadas à sua frente – o mundo digital já é fluido e natural. Em 2010, quando começaram a nascer, o iPad foi introduzido ao mundo, o Instagram foi criado e “app” havia sido eleita a palavra do ano pela Sociedade Americana do Dialeto. Todo o cenário já estava montado para receber o futuro.

Se por um lado as telas são aliadas para o desenvolvimento desses pequenos, por outro, alguns especialistas alertam para a intensidade no uso e o fácil acesso a conteúdos impróprios. Os impactos deste cenário, sejam eles positivos ou negativos, ainda dividem opiniões. Mas uma coisa é certa: para os Alphas, palavras tão significantes nos dias de hoje se organizam em uma espécie de jogo de conceitos em mutação. Num mundo muito conectado, as pessoas tendem a se preocupar menos com privacidade, já nascem sendo exibidas nos grupos de WhatsApp e redes sociais por seus pais e são mais acostumadas com as câmeras, pois cada passo de seu crescimento é registrado e compartilhado.

Para entender a evolução das gerações é importante dar atenção a duas ressalvas: não há um consenso sobre os anos limítrofes de cada geração, portanto esses recortes podem variar de acordo com autores e teorias; estudos geracionais generalizam características de uma época, mas os contextos sociais, geográficos e econômicos podem apontar para outras definições possíveis.

Os Alphas já imprimem atitudes e comportamentos "mais característicos da geração", em razão da grande quantidade de estímulos que recebem. É nas brincadeiras e nas formas de se relacionar que vemos alguns indícios de mudanças – brincar com os pais e amigos, escolher o que assistir no computador ou na TV, entre outros exercícios, ajudam a dimensionar o retrato das transformações sociais em ebulição no mundo. A diferença para essas crianças é que tudo se torna oportunidade para interagir e fazer mudar, existe uma linha muito tênue entre o que é categorizado como realidade ou “não realidade”.

CONVERSAMOS COM 510 CRIANÇAS, ENTRE 6 E 9 ANOS, E SEUS PAIS, PERTENCENTES ÀS CLASSES A (20%) E B-C (80%), PARA COMPREENDER ESSAS MUDANÇAS.

MENINA PODEROSA

As meninas ampliam seu repertório: não é que elas deixam de gostar de princesas, mas o mundo já não é visto somente em cor de rosa. Diante dessas mudanças, elas se identificam com as características dos personagens que antes pertenciam apenas ao território dos meninos e passam a se interessar por temas e estilos tradicionalmente masculinos.

infografico_geracao_alpha01

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao1

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao2

MENINO VERSÁTIL

Cresce a quantidade de pais que participam das funções da casa e da criação dos filhos. Essa nova referência de paternidade também está mudando o comportamento dos meninos.

infografico_geracao_alpha04

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao4

GÊNERO FLEX

A convivência natural das crianças com esses novos contextos familiares e de interação social, em que pais e mães assumem os mesmos papéis com cada vez menos diferenciação, expande os limites das brincadeiras. Para grande parte das crianças da Geração Alpha, brincadeira não tem sexo e a identificação com os personagens, por exemplo, independe das identidades de gênero.

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao3

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao5

A NECESSIDADE DE INTERAGIR COM OS MEIOS

As opções de entretenimento infantil nunca foram tão vastas e disponibilizadas em tantos meios diferentes. Atualmente, as crianças têm acesso a uma variedade enorme de conteúdos audiovisuais: na TV paga são pelo menos 15 canais infantis além sites, aplicativos, canais on-demand, jogos e canais na TV aberta. Por um lado, esse excesso de meios gera diversidade de conteúdo; por outro, estimula a capacidade das crianças em produzir e divulgar conteúdos, seguindo um novo fluxo de informação e formação. Nesse diálogo com as crianças, os diferentes veículos aos quais a criança é exposta possuem papéis bem delimitados: a TV apresenta de forma crível a informação; a web proporciona a sensação de conhecimento aprofundado; e os amigos validam a experiência.

Layout_Scroll5_Alpha-alteracao6

infografico_geracao_alpha08
Layout_Scroll5_Alpha-alteracao1806
infografico_geracao_alpha11

Um dos meios em que todas essas formas de brincar e interagir com fantasia e seus personagens se proliferam é a internet e o universo digital, que modificaram a maneira como vivemos e expressamos individualidades no mundo. Para a Geração Alpha, computador, Google, WiFi e streaming, entre outros, formam um vocabulário comum e internalizado desde cedo.

As crianças dessa geração atuam em ritmo acelerado, na velocidade própria dos tempos atuais e das inovações tecnológicas. Esse dinamismo e a adaptabilidade às mais diversas situações e desafios fazem com que a admiração por seus personagens favoritos ocorra em função de suas atitudes e comportamentos, não somente da beleza estética ou gênero identificado.

Assim, posicionar-se, ter opiniões e usar perspicácia para viver histórias de aventura são atributos admirados e que impactam diretamente na escolha dos ídolos favoritos das crianças.

É A ATITUDE QUE IMPACTA DIRETAMENTE NA ESCOLHA DOS PERSONAGENS FAVORITOS DAS CRIANÇAS.

Os valores e as características que as crianças admiram nas histórias correspondem ao mundo que elas vivenciam e observam ao seu redor, muitas vezes assimiladas a partir dos estímulos e das experiências das próprias relações em família. Ao reconhecer os pais como seus grandes ídolos, as crianças indicam que mesmo as atividades mais corriqueiras – como brincar ou jantar juntos – são oportunidades valiosas de conexão afetiva e de exercício criativo para a vida. O tempo em família gera vínculo afetivo e dá suporte para que a criança faça sua própria leitura do mundo.

O que mais um personagem precisa ter para ser legal?

grafico-aventuras
grafico-precisa-ser-amigo
Layout_Scroll5_Alpha-alteracao8

Porém, apesar de todo o apelo do universo digital e do mundo da fantasia, é em casa que elas se espelham em seus maiores heróis. Os pais são os ídolos do agora.

idolo_mae
idolo_pai
idolo_personagem_ficticio
idolo_irmao
idolo_artista

Mesmo concorrendo com a influência de celebridades e até mesmo dos cada vez mais populares youtubers, no ranking da admiração os pais estão no topo. Isso ocorre porque os valores e as características que as crianças admiram nas histórias correspondem ao mundo que elas vivenciam e observam ao seu redor, muitas vezes assimiladas a partir dos estímulos e das experiências das próprias relações em família. Ao reconhecer os pais como seus grandes ídolos, as crianças indicam que mesmo as atividades mais corriqueiras – como brincar ou jantar juntos – são oportunidades valiosas de afetividade e de exercício criativo para a vida. O tempo junto com os pais já é um presente.

Nessa relação, destaca-se a figura do pai herói, construída com base nas conexões estabelecidas com os filhos, desde o envolvimento ainda na gestação até a participação intensa durante as brincadeiras em família. Essa é uma marca de ruptura geracional: para 77% dos pais, existe muita diferença entre o que eles gostam de fazer com seus filhos e o que os seus pais faziam com eles.

os_pais_de_antigamente

Hoje em dia, a maioria das atividades de lazer é feita tanto com o pai quanto com a mãe: assistir à TV, ir ao cinema, ao parque, viajar... Porém, jogar videogame é um momento de interação mais comum entre pai e filho(a).

pais_envolvidos_com_os_filhos

atividades_feitas_acompanhadas_pelos_pais
compras_relacionadas_com_a_mae

Tudo isso indica as mudanças ocorridas nas dinâmicas familiares: em diversas famílias as mães passaram a ocupar uma posição de provedoras financeiras para a casa, enquanto os pais assumiram uma participação mais presente como companheiros de diversão das crianças, estimulando a própria conexão com os filhos e reforçando, assim, a admiração nutrida dentro de casa.

A Geração Alpha chega com um novo olhar sobre a realidade e um grande potencial de transformação. Contudo, expectativas devem sempre andar de mãos dadas com as ponderações – gerações anteriores também herdaram uma tocha de salvação do mundo que não se manteve acesa por muito tempo. Por isso, o futuro permanece um horizonte em aberto e, no presente, o que está em nossas mãos é o privilégio de aprender com a espontaneidade das crianças e fazer jus à responsabilidade de inspirá-las e incentivá-las a se tornarem livres, empoderadas e respeitadas.