Em tempos de fake news e do apelo às emoções na moldagem da opinião pública, o conceito de verdade foi colocado em xeque. Fatos são relativizados em favor de opiniões pessoais, e percepções enviesadas passam a ser compartilhadas nas bolhas.


Onde, então, está a verdade?
A resposta pode estar no big data.

Diante de outras pessoas, seja um conhecido ou um pesquisador, é comum que as pessoas tendam a mentir. Entre os diversos motivos, a preocupação com a própria imagem e as opiniões alheias acabam pesando para que fatos e situações sejam distorcidos ou desviados da lógica – os chamados vieses cognitivos.
No entanto, a sensação de anonimato no ambiente digital é um dos principais estímulos para que as pessoas revelem muito mais sobre si mesmas do que em qualquer outro contexto. Mentir para um buscador seria o ápice do contrassenso, uma vez que a expectativa pelos resultados depende da veracidade das questões propostas pelos usuários. Como resultado, esse acúmulo de desejos e anseios se converte em milhões de informações e dados acumulados pelo big data.


“Big data é a tecnologia que permite o tratamento e a análise de dados que utilizam grande volume, rápida velocidade, enorme variedade e maior veracidade. Combinados com algoritmos, esses dados permitem transformar dados em informações relevantes, que por sua vez se convertem em resultados para tomadas de decisão em tempo real.”

Fonte: Revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios

Diariamente são gerados

4,5 quintilhões

de bytes em dados por usuários da internet em todo o mundo

Fonte: Em Movimento, Globonews


Mas além dos números estratosféricos, o big data também tem se mostrado um contraponto no contexto da pós-verdade. No livro “Todo Mundo Mente: O que a internet e os dados dizem sobre quem realmente somos”, Seth Stephens-Davidowitz, economista formado em Harvard, ex-cientista de dados do Google e escritor do New York Times, argumenta que muito do que pensávamos sobre as pessoas estava completamente errado. O motivo? As pessoas mentem para amigos, amantes, médicos, pesquisas e, sobretudo, a elas mesmas.

No entanto, os dados espalhados na internet – vestígios de informações que bilhões de pessoas deixam todos os dias no Google, nas redes sociais, em aplicativos de celular e até em sites de pornografia – escapam a essa lógica e se revelam uma nova fonte para a verdade.


Ao analisar essa mina de ouro digital, torna-se possível aprender o que as pessoas realmente pensam, o que realmente querem e o que realmente fazem.


“O próximo Foucault será um cientista de dados. O próximo Freud será um cientista de dados. O próximo Marx será um cientista de dados.”

Seth Stephens-Davidowitz, “Todo Mundo Mente”

Em sua pesquisa, a fonte primária utilizada pelo autor foi o Google Trends, que registra a frequência relativa de pesquisas específicas em diferentes locais em diferentes momentos. Esse foi o ponto de partida, pois as buscas fornecem uma maneira de avaliar a "preferência revelada" (o que as pessoas estão realmente pensando) versus a "preferência declarada" (o que alguém pode dizer a um pesquisador ou publicar em perfis nas redes sociais).

Na sequência, foram consultadas fontes como Google Adwords, Wikipedia, Facebook e o PornHub, um dos maiores sites pornográficos do mundo, além de outros sites, incluindo sites neonazistas. As informações resultantes do cruzamento de dados demonstram o poder de revelação do big data sobre hábitos e comportamentos – incluindo sobre temas considerados tabus.

Nos Estados Unidos,

30%

foi o aumento de piadas racistas no feriado de Martin Luther King.

Mais de 75%

das buscas iniciadas por “Eu quero fazer sexo com…” são incestuosas.

10% mais buscas

com a frase “meu marido é gay?” do que com “meu marido me trai?” ou “meu marido é alcoólatra?”.

Assim como

2x mais buscas

iniciadas com “minha filha está acima do peso?” do que “meu filho está acima do peso?”, ainda que

35% dos meninos

estadunidenses tenham sobrepeso, 7% a mais do que as meninas.

Fonte: “Todo Mundo Mente”, Seth Stephens-Davidowitz

O ponto central para o autor é que as pesquisas por trás de grande parte das ciências humanas estão comprometidas pelas mentiras. O big data, por outro lado, permitiria ultrapassar essa barreira, ajudando a testar hipóteses com base em dados de larga escala e possibilitar que o campo das ciências sociais se torne efetivamente mais científico.

De certo modo, a imersão no ambiente digital criou a sensação de que a vida das pessoas se tornou um livro aberto. Com o poder de edição nas mãos, projeta-se uma vida ideal para seguidores e amigos.

Ao mesmo tempo, diante das possibilidades oferecidas pelo anonimato, as pessoas acabam sendo mais honestas nos rastros que deixam na internet do que nas interações sociais com outros seres humanos fora do espaço virtual. Se mentir para assegurar uma imagem positiva não é novidade, o mesmo não se pode dizer do poder de revelação dos grandes dados.

Arte e ilustrações: Jordana Leite / Imagens: iStock for Getty Images / Texto: Renato Barreto

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