A diversidade em suas diversas expressões tem gerado debates que crescem no mundo todo e não seria diferente no Brasil. Mas, se por um lado, a diversidade só faz aumentar, por outro a resistência a ela cresce na mesma proporção. Por que, então, é importante debater o respeito às diferenças no mundo de hoje? De que forma a potência da diversidade se constrói como um traço distintivo do brasileiro? Quais são os fatores que dificultam o diálogo entre as pessoas? E o que podemos fazer para desconstruir preconceitos e promover a tolerância?

Basta estar no mundo para perceber que, não importa o assunto em questão, alguma discussão sobre diversidade se fará presente. Em diferentes países, temas como igualdade de gênero, de raça e defesa dos direitos LGBTQI+ têm aparecido cada vez com mais frequência em programas de TV, jornais e revistas e, é claro, nas redes sociais e nas conversas de bar.

Pelo menos três grandes eventos de 2018 provocaram, globalmente, discussões em torno da diversidade:

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A COPA DO MUNDO foi vencida por uma seleção europeia com 15 jogadores de origem africana. Se, por um lado, esse fato provocou elogios (o time francês representaria a união entre os povos), por outro, foi motivo de polêmica (seria a equipe europeia, na real, africana?).

HOLLYWOOD, CA - MARCH 04:  Producer J. Miles Dale (L), director Guillermo del Toro (at microphone) and cast/crew accept Best Picture for 'The Shape of Water' onstage during the 90th Annual Academy Awards at the Dolby Theatre at Hollywood & Highland Center on March 4, 2018 in Hollywood, California.  (Photo by Kevin Winter/Getty Images)

Em uma edição do OSCAR marcada por protestos feministas contra o assédio sexual (movimento conhecido pela hashtag #MeToo), 33 homens ganharam estatuetas... E apenas seis mulheres saíram vitoriosas. O desequilíbrio na distribuição dos prêmios jogou ainda mais lenha na fogueira do debate sobre a disparidade de forças entre os gêneros.

Prince Harry and Meghan Markle depart via the West Door of St George's Chapel in Windsor Castle after their wedding in Windsor, Britain, May 19, 2018. Ben Birchall/Pool via REUTERS - RC17013AFC00

O CASAMENTO do príncipe Harry como a atriz Meghan Markle teve a repercussão que todos os casamentos reais têm, com a diferença de que o aspecto mais comentado foi a ascendência africana de Meghan, que é descendente de escravos das plantações de algodão da Geórgia, no sul dos EUA. A união foi celebrada como símbolo do empoderamento das minorias, mas também foi criticada por grupos defensores da manutenção da tradição real.

A natureza já ensinou: quanto mais biodiversa uma área, mais saudável ela é. Na natureza tudo se interrelaciona e, por isso, quanto mais intensa a interação entre seres diversos, mais equilibrado e potente é o ambiente. A mesma lógica vale para as relações humanas.

A interação entre pessoas diversas pode trazer muitos ganhos para todos:

 

A DIVERSIDADE AJUDA A SOLUCIONAR PROBLEMAS COMPLEXOS

A complexidade dos desafios que o mundo enfrenta nem sempre pode ser resolvida por grupos homogêneos. Pessoas de diferentes origens culturais e sociais aportam diferentes visões e soluções, favorecendo a criatividade e a inovação. Diante da diversidade de opiniões e referências, alcançar consensos exige, obviamente, mais esforço, mas também garante que as conquistas da humanidade sejam ultrapassadas.

 

A DIVERSIDADE NOS TORNA MAIS COMPASSIVOS

Soma-se a isso o fato de que ao ultrapassar o medo do que é diferente, indo de verdade ao encontro do outro, somos capazes de reconhecer nele um semelhante, semeando o respeito mútuo e ampliando o exercício da empatia e compaixão.

 

A DIVERSIDADE PODE TORNAR AS EMPRESAS MAIS RENTÁVEIS

Dados do mercado corporativo comprovam o quanto a diversidade favorece a saúde financeira das empresas.

Mas se a diversidade é tão potente, por que agora o debate em torno dela vem ganhando tanta força?

A luta em defesa de um mundo mais diverso é um fenômeno mundial. O debate em torno da diversidade vem se fortalecendo graças à combinação de pelo menos três fatores, todos eles ligados à entrada na chamada era digital.

Estamos vivendo, na história da humanidade, um terceiro ciclo de renovação radical de ideias, ações e pensamentos (os outros dois foram as chamadas era industrial e era da agricultura). A particularidade mais marcante da nova era é, sem dúvida, a ampliação da capacidade de armazenamento e circulação de informações, dados e formas de conhecimento. A integração global é uma outra marca – graças à internet, pessoas do mundo inteiro estão interligadas, compartilhando informações, divulgando impressões e difundindo formas de cultura e saberes. A velocidade dos fluxos econômicos, sociais, culturais, linguísticos, dentre outros, amplia-se em ritmo exponencial, deflagrando uma sucessão de novas revoluções a cada instante.

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As voz das minorias ampliou o seu alcance

Com a ascensão das plataformas digitais, grupos tidos como minoritários (minoritários, obviamente, em termos de representatividade e voz) passaram a participar ativamente das iniciativas que pautam os temas que a sociedade debate no dia a dia. Pessoas que antes eram praticamente invisíveis socialmente ganharam voz e espaço fazendo ressoar questionamentos, reivindicando direitos, propondo novas estéticas, novas formas de vida, reunindo em torno de si comunidades e com isso fortalecendo a defesa da diversidade.

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O trânsito de pessoas entre países e culturas tem crescido

Estamos vivendo um momento importante de fluxo migratório mundial e a convivência entre pessoas de origens diversas coloca em choque ideias e pontos de vista variados, que passam a coexistir em um mesmo espaço e a modificar uns aos outros.

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Novas identidades: os comportamentos estão mudando com muito mais rapidez

É inegável que os comportamentos vem mudando num ritmo cada vez mais acelerado. Novas formas de viver surgem e reverberam a cada dia. A paternidade e a maternidade, por exemplo, passam a ser fortemente debatidas (grupos de homens debatem como “praticar” uma paternidade mais participativa e grupos femininos questionam a ideia de que existiria um “instinto materno” natural, por exemplo), legitimando novas maneiras de ser e estar no mundo. Além disso, o mundo caminha em direção à fluidez da identidade. O entendimento do gênero como algo não binário (o Facebook apresenta 54 opções para além dos tradicionais homem e mulher) é outro exemplo dessa mudança - e ainda vem muito mais pela frente.

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Segundo o último Censo do IBGE (2010), o Brasil possui mais de 40 grupos religiosos. E só em sua parcela indígena conta com 305 etnias que falam 274 línguas. Nossa nação é uma das mais diversas do mundo e isso tem tudo a ver com a sua história. Os portugueses que aqui chegaram encontraram uma imensa população de índios e, posteriormente, trouxeram para essas terras um grande contingente de negros. Somos, como nação, produto do encontro desses povos. Sem falar que, ao longo de nossa trajetória, recebemos grandes movimentos migratórios que ajudaram a moldar a nossa cultura (japoneses, italianos, sírio-libaneses, entre outros).

É difícil definir qual é “a cara” do brasileiro – justamente porque a diversidade é o que dá o tom. O fato de sermos um produto do encontro de várias etnias e culturas faz com que tenhamos plena consciência da nossa diversidade.

“Acredito que nosso país é uma mistura de culturas, diversidades, e sendo assim todos poderiam ser “a cara” do Brasil! Não importa se é magro, gordo, rico, pobre, branco ou preto! O nosso diferencial é essa mistura de povos, tribos e raça!!!”

Depoimento dado à pesquisa qualitativa GLOBOSAT/STUDIO IDEIAS

Na sua opinião, existe alguma personalidade brasileira que reúna todos os requisitos necessários para ser “a cara” do nosso país, ou seja, representar a nossa imagem aqui dentro e lá fora?

Base: plataforma Studio Lab - 16 participantes

UM PAÍS EM GUERRA CONSIGO MESMO

Somos um dos países campeões em diversidade – e também em violência contra ela. Segundo um levantamento realizado pelo instituto IPSOS para a BBC em 2018, dentre 27 nações estamos na sétima posição em intolerância (e, para piorar, estamos nos tornando cada vez mais intolerantes). O estudo concluiu que:

62%

dos brasileiros percebem o país mais dividido e menos tolerante do que há 10 anos

45%

dos brasileiros assumem estarem mais intolerantes hoje

 

A verdade é que a diversidade de pessoas sempre foi uma realidade brasileira. Se é assim, por que fala-se tanto sobre a importância de garantir algo... que já existe?

A resposta é que vivemos sob um regime historicamente construído que sempre privilegiou o acesso a posições sociais de destaque e de poder a um perfil específico.

Dito de forma mais simples, existe um “padrão normativo” e pessoas que fogem ao padrão são tratadas de maneira desigual. Por isso dizemos que certos grupos são marginalizados. Esses grupos vivem à margem de quê? Do padrão, oras!

A violência do Brasil em relação à sua própria população se explica em parte pelo fato de que, no país da diversidade, aqueles que fogem ao padrão normativo compõem, muitas vezes, a maioria:

“Sujeitos que fazem parte de minorias em direitos vivem todos os dias com ausência da justiça, não há leis para protegê-los das violências que sorvem, quando elas existem pouco são cumpridas.”

Depoimento dado à pesquisa qualitativa GLOBOSAT/STUDIO IDEIAS

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O BRASIL MACHISTA

• Somos o quinto país do mundo que mais mata mulheres (ONU, 2016).
• 40% das brasileiras acima de 16 anos já sofreram algum tipo de assédio (Datafolha, 2017).
• 81% já deixaram de sair de casa por medo de assédio, abuso e violência sexual (Think Olga, 2013).
• 9,7 anos é a idade média do primeiro assédio (Think Olga, 2015).
• A cada 7,2 segundos uma mulher sofre violência física (Instituto Maria da Penha, 2018).
• 13,6% é a taxa de ocupação de cargos profissionais de primeiro escalão por mulheres no Brasil (Instituto Ethos + BID, 2016).
• 22,5% é a diferença salarial entre homens e mulheres (IBGE, 2018).
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O BRASIL RACISTA

• 76% dos mais pobres no Brasil são negros (IBGE, 2014).
• 64% da população carcerária é negra (Infopen, 2017).
• A cada 13 minutos uma pessoa negra é assassinada no país (Instituto Igarapé, 2017).
• O nível da qualidade de vida da população negra está uma década atrasado em relação ao dos brancos (ONU/Pnud, 2016).
• Trabalhadores pretos e pardos recebem 55% do rendimento médio dos trabalhadores brancos no Brasil (Pnad, 2017).
• A taxa de analfabetismo entre negros e pardos é duas vezes maior do que entre brancos (Pnad, 2017).
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O BRASIL ANTI-LGBTQI+

• #1: O Brasil é o país que mais mata LGBTQI+, ao mesmo tempo em que tem a maior parada LGBTQI+ do mundo (TGEu, 2016).
• 30% foi o aumento de assassinatos de pessoas LGBTQI+ de 2016 para 2017 (GGB,2017).
• A cada 19 horas uma pessoa LGBT é assassinada ou se suicida vítima da homotransfobia (GGB,2017).
• 35 anos é a expectativa de vida de pessoas trans, metade da média nacional (ANTRA, Mapa de Assassinatos de Travestis e Transexuais, 2017).
• 73% dos alunxs adolescentes LGBTQI+ já foram agredidos verbalmente (ABGLT, 2016).
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O BRASIL ANTI-PERIFERIA

• 84% dos moradores de favelas acham que sofrem preconceito (Data Favela, com apoio do Instituto Data Popular e da CUFA - Central Única das Favelas, 2015).
• 64% dos moradores de favelas acreditam que as favelas são noticiadas de forma negativa (Data Favela, com apoio do Instituto Data Popular e da CUFA - Central Única das Favelas, 2015).
• 51% dos entrevistados do asfalto associam favela a drogas e violência (Data Favela, com apoio do Instituto Data Popular e da CUFA - Central Única das Favelas, 2015).
• 69% dos entrevistados do asfalto tem medo quando passam em frente à uma favela (Data Favela, com apoio do Instituto Data Popular e da CUFA - Central Única das Favelas, 2015).
• 71% das pessoas assassinadas no Brasil são pobres, pretos e jovens (Atlas da Violência, 2017).
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O BRASIL DO PRECONCEITO RELIGIOSO

• Brasil tem uma denúncia de preconceito religioso a cada 15 horas (MDH, 2017).
• 39% das denúncias de intolerância religiosa têm como vítima seguidores das religiões afro-brasileiras (MDH, 2017).
• 70% das agressões recebidas são verbais e incluem ofensas como “macumbeiro” e “filho do demônio” (Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, 2016).
• 8% dos brasileiros se declara sem religião (IBGE, 2010).
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O BRASIL QUE NÃO TOLERA DEFICIÊNCIAS

• 1% das pessoas com deficiência está no mercado de trabalho (Rais,2015).
• 61,1% das PCDs com 15 anos ou mais não têm instrução ou apenas fundamental incompleto (IBGE, 2010).
• Apenas 0,45% das matrículas no ensino superior foram de PCDs (Censo da Educação Superior, 2016).
• 10,3% dos casos de estupro registrados são contra PCDs (Mapa da Violência, 2018).
• 77% dos deficientes se sentem desrespeitados (DataSenado, 2010).
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O BRASIL GORDOFÓBICO

• 92% dos brasileiros ouvem comentários preconceituosos em relação a gordos na sua rotina (Skol Diálogos/Ibope, 2017).
• 21,8% das meninas brasileiras com idade entre 13 e 15 anos se acham gordas ou muito gordas (PeNSE/IBGE, 2015).
• 62% ouviram a frase “gordo só faz gordice" (Skol Diálogos/Ibope, 2017).
• 89% já ouviram alguém pronunciar a frase: “Ele(a) é bonito(a), mas é gordinho(a)” (Skol Diálogos/Ibope, 2017).
• 55% das adolescentes em São Paulo gostariam de acordar mais magras (Casa do Adolescente/Secretaria de Estado da Saúde, 2014).
• 77% das adolescentes em São Paulo apresentam propensão a ter algum distúrbio alimentar (Casa do Adolescente/Secretaria de Estado da Saúde, 2014).
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O BRASIL QUE MALTRATA SEUS VELHOS

• 90% dos brasileiros acreditam que existe preconceito contra idosos (Datafolha, 2017).
• 72% dos idosos estavam desempregados em 2017. Essa taxa era de 48% em 2012 (Vagas.com, 2017).
• A cada hora, pelo menos, dois idosos sofrem algum tipo de violência no Brasil (MDH,2015).
• Negligência responde por 77,6% das denúncias de violência contra idosos (MDH,2015).
• 31% daqueles com 61+ anos já se sentiram discriminados por causa da idade (Datafolha, 2017).
• 64 anos é a idade em que começa a velhice (Datafolha, 2017).

Somos diversos, mas ainda não conseguimos viver a potência da diversidade

“O Brasil tem uma potência de diversidade, mas não é um país diverso. Só existe diversidade de verdade se todos têm voz igual, se todos têm plataforma, lugares de saída, iguais. Não existe diversidade quando a voz do outro não é ouvida nas mesmas condições, quando continuamos a perpetuar a lógica colonialista – de alguém que chega querendo impor um jeito de ser.”Marcus Faustini, criador da Agência de Redes para Juventude, autor, diretor de teatro e documentarista

O cenário mostra que, no Brasil, vivemos em guerra uns contra os outros. Mas poucos se reconhecem como parte ativa dessa guerra. Os preconceitos (e com eles a intolerância e a violência) são perpetuados, muitas vezes, sem que as pessoas tenham consciência dos impactos dos seus atos.

83%

dos brasileiros declaram não ser preconceituosos, mas...

... 72%

assumem já terem feitos comentário ofensivos.

Fonte: Skol Diálogos/Ibope, 2017.

82%

das pessoas acham que no Brasil a maioria age querendo tirar vantagem.

Fonte: CNI, 2012.

Nossa dificuldade de viver coletivamente tem por trás de si várias razões. Mapeamos aqui as quatros principais:

1. O BRASILEIRO NA TERCEIRA PESSOA
Na década de 1950, o escritor Nelson Rodrigues cunhou o termo “síndrome de vira-lata” para designar o sentimento de inferioridade do povo brasileiro em relação aos estrangeiros. Esse estado de ânimo a que ele se referia aparecia quando o brasileiro olhava para fora e se comparava a outras nacionalidades. O que vem se intensificando agora tem a ver com olhar para dentro. Nos sentimos constrangidos em relação aos “brasileiros” e falamos assim, na terceira pessoa, como se não fizéssemos parte desse coletivo.

Essa forma de pensar revela também a percepção de que uma coisa é o BRASIL (um país com muito potencial, mas que não se realiza), outra coisa é o brasileiro (oportunista e egoísta) e outra coisa… é cada um, individualmente. Há uma desintegração entre identidade individual e coletiva. A identidade individual é bem mais positiva do que a coletiva.

Eu
(Adjetivos que descrevem você)

Determinado

Amigo

Sincero

Alegre

Honesto

Trabalhador

Trabalhador: trabalho incessantemente em busca de meus objetivos. Honesto: procuro fazer tudo dentro da lei, sem trapaças e vantagens ilícitas.

 

 

 

 

 

X

O brasileiro
(Adjetivos que descrevem o brasileiro)

Egoísta

Indiferente

Intolerante

Omisso

Agressivo

Violento

Preguiçoso

Corrupto

“A mentalidade das pessoas ainda não mudou. Temos ainda muita corrupção, muito roubo. O brasileiro só pensa nele mesmo.

Por aqui parece fazer todo o sentido aquela conhecida frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “o inferno são os outros”. Em outras palavras, não foi à toa que o termo “vergonha alheia” se tornou tão popular no país. A vergonha é sempre alheia, porque o tal do “jeitinho brasileiro” aparece sempre atribuído aos outros, nunca assumido como algo que se pratica. A vergonha é alheia, o sucesso é pessoal e o fracasso, coletivo.

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X

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2. NÃO FALAMOS A MESMA LÍNGUA
No Brasil, a maioria absoluta da população fala o mesmo idioma, mas em muitos momentos, embora as pessoas usem as mesmas palavras, não estão querendo dizer a mesma coisa.

Termos intimamente ligados à causa da diversidade (como preconceito, tolerância, intolerância, igualdade, desrespeito, respeito) podem assumir diferentes sentidos, inclusive antagônicos, dependendo de quem fala e de quem escuta.

A frase polêmica dita pela apresentadora Patricia Abravanel em um programa de TV – “não sou contra a homossexualidade, mas sou contra falar que ser gay é normal” –  é uma demonstração dessa incoerência em relação aos conceitos.

A pesquisa revelou que a compreensão desses termos pode ser bem elástica:

Os mesmos conceitos podem carregar em si interpretações completamente antagônicas

MAIOR ABERTURA AO
COLETIVO E SUAS DIFERENÇAS

Aceitar as diferenças

Descumprir as regras de convivência social

Lidar e conviver com as diferenças de forma pacífica, mesmo discordando

Pré julgamento sem base em conhecimento objetivo, ideia pré formatada

Todos devem ter acesso a oportunidades e a direitos universais

Desconhecimento, falta de informação

Tolerância

Desrespeito

Respeito

Preconceito

Igualdade

Ignorância

MENOR ABERTURA AO
COLETIVO E SUAS DIFERENÇAS

Suportar o que não é correto, aceitar as injustiças

Não seguir a moral que acredita

Impor uma determinada moral

Autoproteção, autodefesa

Priorizar os iguais

Violência

O debate se torna praticamente impossível

Não é possível estabelecer o debate quando temos um repertório de conceitos tão flexíveis e antagônicos. Afinal, os limites da intolerância se tornam completamente subjetivos e isso agrava a dificuldade de convivência entre os diferentes.

A ELASTICIDADE E ANTAGONISMO MUITAS VEZES PRESENTES NA COMPREENSÃO DOS SIGNIFICADOS DESSES CONCEITOS AJUDAM A LEGITIMAR, PARA ALGUNS, PRÁTICAS EXTREMAS DE INTOLERÂNCIA:

"Um ladrão no meu bairro foi morto a pedradas, algumas pessoas estão dizendo que foi errado, ele roubou uma moça, a população viu e deram várias pedradas. Não vejo como injustiça, se ele tivesse trabalhando ao invés de estar roubando isso seria evitado a população esta cansada."

…E SEPARANDO, CADA VEZ MAIS, QUEM É “VÍTIMA” DO DISCURSO DE ÓDIO E QUEM PREGA UMA DETERMINADA ORDEM SOCIAL

"Alguns assuntos eu considero caráter, não opinião. Já me afastei sim [de pessoas], tanto virtual, como pessoalmente. Principalmente depois que comecei a me aprofundar no feminismo e passei a não aceitar uma série de imposições do patriarcado na minha presença."

 

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"Fico irritado. Já me distanciei de pessoas por causa de discussões sobre política, feminismo, pessoas que parece que tem a mente fechada e não conseguem entender, ou apenas colocam palavras em sua boca, não tenho paciência pra gente burra."

3. SOMOS CORDIAIS… MAS NEM TANTO

A imagem do “brasileiro cordial” alegre, agregador, aberto, começa a conviver com outras representações de um povo. O uso da língua, em que o repertório de palavras de caráter bélico se torna cada vez mais frequente, evidencia que a agressividade é também um traço marcante da identidade do brasileiro.

Segundo o estudo, no imaginário coletivo, os brasileiros formam uma nação de lutadores. Termos como luta, batalha, guerreiro (ou guerreira) fazem parte do vocabulário com que as pessoas descrevem como é o seu dia a dia e também a forma como se posicionam diante dos desafios do cotidiano.

NO NOSSO IMAGINÁRIO COLETIVO,
SOMOS UMA NAÇÃO DE LUTADORES

"Essa imagem representa a luta constante que vivo para poder ser eu mesma, as lutas que travei para me construir e reconstruir."

"(...) Lutar pelas coisas do jeito certo, sem prejudicar os outros."

"Minha mãe: GUERREIRA, amiga, carinhosa... um espelho para mim."

"Admiro muito a força da minha irmã, ela é um trator. Minha mãe é uma BATALHADORA, não tem como não admirar a velha."

"Anitta é a pobre, da favela, que BATALHOU e subiu na vida, mas que não esquece suas raízes e que ajuda seu “povo”. Teve determinação e alcançou seus objetivos..."

AS PALAVRAS “GUERREIRO” (OU GUERREIRA) E “BATALHADOR” (OU BATALHADORA) APARECEM COMO PRINCIPAIS QUALIDADES DAS PESSOAS QUE MAIS ADMIRAM (ENTREVISTADOS).

Muitas vezes o afeto mascara a violência

Muitos brasileiros praticam violência e reforçam preconceitos mascarando-os por trás de afeto e humor. As respostas à pergunta “Você teve apelido de infância?”, feita no estudo, evidenciam esse comportamento:

As respostas revelam o quanto, no Brasil, os apelidos pejorativos são dados e recebidos com naturalidade. Como eles surgem em círculos de confiança (entre amigos, na família, na relação com colegas de trabalho), seu aspecto agressivo fica disfarçado. Afinal, é só uma brincadeirinha, não é mesmo?

 

A depreciação do outro é parte viva da nossa cultura.

O humor é uma marca importante da identidade brasileira, mas nossa relação com ele é ambígua. Recorremos ao riso tanto para aliviar tensões quanto para perpetuar preconceitos. A piada tem sido uma ferramenta importante de crítica e resistência no Brasil. Em plena ditadura militar, jornais e revistas usaram o humor para driblar a censura e contestar o regime vigente (a entrevista da atriz Leila Diniz ao Pasquim, em 1969, foi tão importante que provocou a criação do Decreto Lei da Censura Prévia, apelidado de Decreto Leila Diniz). O humor torna possível dizer coisas que não seriam aceitas se postas com seriedade. 

Mas ele também favorece que preconceitos e violências se perpetuem de maneira disfarçada... engraçadinha.

A boa notícia é que o humor tido como preconceituoso (e propagador velado de violência) vem perdendo a soberania, como mostram os protestos (e processos legais) contra os comentários racistas do youtuber Júlio Cocielo e contra muitas falas do humorista Danilo Gentili.

Essa clareza sobre o preconceito embutido no humor é cada vez mais evidente, inclusive entre os participantes.

Quais memes você achou desrespeitosos?

Você é a favor da diversidade? E o que faz em defesa dela? Ouvindo os participantes do estudo percebemos que existem diferentes níveis de envolvimento com essa causa:

A diversidade é um tema de todos e só pode acontecer quando todos estão implicados nela, mas os diferentes níveis de engajamento mostram que o compromisso com a diversidade ainda está mais próximo do discurso do que efetivamente da prática. E o que temos hoje como ambiente de debate e possível sensibilização, a internet, parece ter se tornado excessivamente agressiva, o que só faz afastar aqueles que ainda não se sentem pessoalmente sensibilizados.

“BOLHAS” EXCESSIVAMENTE VIOLENTAS

Os participantes já esperam mais agressividade nos debates feitos pela internet.

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AFASTAMENTO GRADUAL

Com discursos radicais e inflamados, eles mostram sinais de cansaço e angústia diante das discussões.

"No começo me importava mais, hoje só entro em debates que percebo haver algum tipo de troca real de conhecimento e tentativa de aprofundamento de temas, quando o debate fica no loop eterno preso a frases feitas e panfletos ideológicos eu me retiro ou nem participo."

CRESCIMENTO DA APATIA

O sentimento de impotência frente às mudanças necessárias, se amplia.

"Me entristeço quando a intolerância reina, mas também não me envolvo. Então não posso reclamar ou opinar."

Isso fragmenta cada vez mais a questão, favorecendo que apenas grupos identitários atuem em “suas causas”.

ESSA DINÂMICA ATUAL DE “DEBATES” CONTRIBUI PARA O AFASTAMENTO DAQUELES QUE NÃO SÃO, OU AINDA NÃO SE PERCEBEM, PESSOALMENTE AFETADOS, FRAGMENTANDO CADA VEZ MAIS A LUTA PELA DIVERSIDADE E SUA INCLUSÃO.

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O CAMINHO DA DIVERSIDADE: RECONFIGURANDO A NOSSA IDEIA DE “NÓS”

Estabelecer uma nova relação com a nossa própria diversidade passa por reconfigurar a ideia que fazemos do que significa “NÓS”. É preciso que o nosso “NÓS” seja realmente integrativo – que a identidade coletiva se fortaleça entre os brasileiros. Diversidade é a potência do encontro entre os diferentes. Para isso, é necessário criar uma nova relação entre o respeito da igualdade e o princípio do reconhecimento da diferença.

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AS TRÊS PORTAS DE ENTRADA PARA A DIVERSIDADE

Num país que tem a diversidade como base de sua identidade é fundamental uma compreensão de que garanti-la cabe a todxs. Absolutamente todxs.

Para essa nova construção, precisamos migrar, juntos, de:

INVISIBILIDADE >> REPRESENTATIVIDADE

A naturalização cultural da violência torna as injustiças menos perceptíveis, além de reforçar estereótipos. Ela acaba por deixar invisíveis situações que mereceriam reflexão, atenção e debate. Ainda que as minorias estejam ganhando cada vez mais voz, elas ainda não conseguem garantir sua presença social com toda a sua potência. Jogar luz sobre a importância e os desafios da diversidade é torná-la legítima, combater os preconceitos e permitir que os lugares sociais sejam ocupados por todxs.

 

IRRESPONSABILIDADE >> COMPROMETIMENTO

A ausência de uma identidade coletiva potente nos afasta dos nossos e favorece a ideia de que não temos responsabilidade na questão da diversidade. Se a ideia de “nós” é fraca, essa luta é do outro, não minha. Abrir espaço e dar voz para todos os grupos identitários deveria ser tarefa de todos. E principalmente, quem ocupa posições de poder e privilégio precisa reconhecer sua parte. Como diz uma frase que vem reverberando Brasil afora, “não basta não ser racista, é preciso ser anti-racista”.

 

INCOERÊNCIA >> CONSISTÊNCIA

A baixa percepção das responsabilidades individuais sobre o coletivo cria um sentimento de apatia, fazendo com que as pessoas se comprometam com as mudanças muito mais no discurso do que na prática (e às vezes nem no discurso). Diversidade não se conquista apenas com palavras, é preciso que as ações sejam coerentes e consistentes. Não adianta montar grupos em que haja diversidade de pessoas e continuar operando numa lógica de “aqui quem manda sou eu” ou “vamos abrir espaço para as minorias mas continuaremos fazendo tudo como sempre foi” – é preciso que as relações se tornem mais horizontais.

“Temos como sociedade uma tarefa que é dos anos 50, a tarefa de promover a aceitação da diversidade. Ao mesmo tempo temos também tarefas que são do novo milênio, como a tarefa de aprender a lidar com as combinações de diferenças... Gênero, raça, são estruturas politicas da luta pela diversidade lá́ dos anos 50. A gente aprendeu nos anos 50 como melhorar a sociedade a partir da diversidade, falamos em povos, em reconhecimento de culturas, foi importante. A palavra do novo milênio vai além dessas duas e é um conceito- chave do nosso tempo: diferença.” (Marcus Faustini).

Lançar luz sobre as violências que as minorias sofrem é fundamental para dar visibilidade aos problemas e corrigi-los. Mas apenas isso não é suficiente para construir a diversidade. Construí-la passa, também, por um novo olhar para a pluralidade. Ser diferente é (e será cada vez mais) normal. Estamos na era das identidades fluidas, onde o conceito de identidade vem mudando. Caminhamos para uma radicalização da diversidade, onde a singularidade de cada pessoa vem ganhando importância. Como diz o sociólogo e advogado Boaventura de Sousa Santos: “Defender a igualdade sempre que a diferença gerar inferioridade e defender a diferença sempre que a igualdade implicar descaracterização.”

A diversidade e a pluralidade são traços mundialmente reconhecidos no povo brasileiro. Nem sempre, contudo, a consciência sobre diversidade se traduz em prática. O convívio com o diferente não é fácil e muitas vezes requer uma reeducação do olhar para o respeito e a tolerância. Em uma época de valorização das individualidades, olhar para a riqueza da coletividade e o encontro dos diversos também é um desafio. O todo também pode ser tão rico quanto as partes.

FONTES:
Studio Ideias, 2018