As emoções do brasileiro estão à flor da pele. Acontecimentos recentes marcantes trouxeram à tona discussões sobre a forma como contexto e significado dialogam entre si para formarem o que entendemos por emoção. Emoções são, assim, estados de espírito nomeados que recebem uma atribuição de valor conforme o entendimento compartilhado sobre o que se sente em cada contexto social. Mas de onde elas surgem? Que expressão elas assumem? Para os brasileiros, quais foram as emoções mais sentidas e verbalizadas em 2018 e como elas movimentaram o que estava em desequilíbrio?

São muitas as teorias que explicam as emoções. Algumas delas afirmam que nós, humanos, já nascemos com as chamadas “emoções essenciais”. Elas variam de quatro (medo, raiva, alegria e tristeza) a cinco (medo, raiva, alegria, tristeza e nojo), conforme apresentado no filme “Divertidamente”, da Disney. Outras teorias, por sua vez, listam mais emoções que seriam combinações das ditas essenciais.

Por mais que essas emoções estejam presentes na vida de toda e qualquer pessoa, psicólogos e neurocientistas têm entrado em um raro consenso de que as emoções não são genéticas e nem inerentes ao ser humano.

Para Lisa Barrett Feldman, professora de Psicologia da Northeastern University, onde se concentra no estudo da emoção, e editora-chefe fundadora da revista Emotion Review junto com o psicólogo James Russell, do Boston College,

“as emoções não estão embutidas em nós. Elas são simplesmente construídas.”

Segundo ela, nós não nascemos com as emoções já pré-determinadas em nosso cérebro – nem mesmo aquelas que parecem ser mais básicas e transversais e que percebemos em outros povos, em qualquer lugar.

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Nossas emoções são aprendidas a partir de nossa experiência pessoal, cultural e contextual.

Ou seja, a gente não reage ao mundo de maneira pré-definida. Não nascemos com emoções-reações. Com repertório e experiências passadas. Pelo contrário: nós construímos a nossa experiência de mundo e damos significados aos eventos pelas emoções que aprendemos a ter.

Sentir uma emoção, portanto, é conectar uma experiência a um contexto e dar significado a ela.

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A verdade é que nos faltam palavras para nomear tudo o que sentimos. Por muitas vezes, usamos a mesma palavra para descrever paixões, emoções, sentimentos e sensações. O que muda é o entendimento de como chegamos a este estado de espírito. Nesse sentido, as paixões seriam, então, emoções?

Existem relatos de paixões desde os primeiros registros da experiência humana.  Estão presentes nas grandes histórias clássicas, universais, contadas e recontadas desde tempos longínquos. Essas paixões são estudadas, categorizadas e interpretadas há tempos como, por exemplo, no livro “Passions of the Soul”, de Descartes, de 1649. Para Descartes, são seis as paixões humanas:

Paixões são reações intensas movidas pelo desejo e pela falta. O sentimento, por sua vez, é uma resposta à emoção e diz respeito a como a pessoa se sente diante daquela emoção.

Então, se as paixões são clássicas e atemporais, as emoções são contextuais. E os sentimentos são as emoções decantadas.

Para gerar conexão verdadeira e relevante com as pessoas, torna-se necessário, portanto, ler o contexto com frescor e entender como as pessoas se comportam frente a ele: como se engajam, protegem-se ou são impulsionadas a realizar algo. E, o mais importante, como elas nomeiam seus estados de espírito.

É importante se conectar via emoção. A conexão com o outro e com o mundo cria uma memória que marca o tempo, ajuda a entender, a interpretar e a elaborar sua própria história conectada ao seu tempo.

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Sob a orientação de Tiago Corbisier Matheus, psicanalista e professor na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, buscamos entender as emoções dos brasileiros em 2018. Primeiro fomos às ruas compreender o que as pessoas falavam, como explicavam e nomeavam o que sentiam.

Foram abordagens espontâneas, estimuladas por imagens, que nos trouxeram uma construção do presente fotografada pela alma e contextualizada através de muita análise e com ajuda especializada.

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Ao final, descobrimos que hoje existe uma convergência emocional.

Esta convergência é fruto de um passado recente em que acontecimentos de fortes impactos emocionais deixaram o brasileiro de ressaca.

Para gerar conexão verdadeira e relevante com as pessoas, torna-se necessário, portanto, ler o contexto com frescor e entender como as pessoas se comportam frente a ele: como se engajam, protegem-se ou são impulsionadas a realizar algo. E, o mais importante, como elas nomeiam seus estados de espírito.

É importante se conectar via emoção. A conexão com o outro e com o mundo cria uma memória que marca o tempo, ajuda a entender, a interpretar e a elaborar sua própria história conectada ao seu tempo.

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Sob a orientação de Tiago Corbisier Matheus, psicanalista e professor na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, buscamos entender as emoções dos brasileiros em 2018. Primeiro fomos às ruas compreender o que as pessoas falavam, como explicavam e nomeavam o que sentiam.

Foram abordagens espontâneas, estimuladas por imagens, que nos trouxeram uma construção do presente fotografada pela alma e contextualizada através de muita análise e com ajuda especializada.

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Ao final, descobrimos que hoje existe uma convergência emocional.

Esta convergência é fruto de um passado recente em que acontecimentos de fortes impactos emocionais deixaram o brasileiro de ressaca.

ACONTECIMENTOS DE 2016

Impeachment

Petralhas X Coxinhas

O auge da polarização

Textão

Unfollow, unfriend

FOMO (fear of missing out)

Essa ressaca é traduzida nas seguintes emoções:

Exaustão | Melancolia | Entristecimento

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"Então, frente à dificuldade é melhor evitá-la, e não entender o que está acontecendo. A tendência é você buscar um universo mais dicotômico, mais estereotipado, com menor nuance. As coisas ficam mais cruas nessa perspectiva. É um círculo vicioso que vai se retroalimentando.”
(Tiago Corbisier Matheus)


Buscando entrar no molde, bloqueando as emoções para evitar o sofrimento que já é tão presente no contexto, perde-se vida, vivência e as possibilidades de sentir e sentir-se. É daí que nasce a exaustão, a melancolia e o entristecimento.

Um grande mar “calmo" de exaustão, melancolia e entristecimento.

e•xaus•tão|z|
(latim exaustão, - onis, esgotamento)
substantivo feminino

1. Ato ou efeito de exaurir(-se); = ACABAMENTO, ESGOTAMENTO, EXAUSTAÇÃO
2. Estado de grande cansaço físico ou mental (ex. trabalhou até à exaustão). = ESGOTAMENTO, FADIGA, PROSTRAÇÃO

melancolia
substantivo feminino

1. estado mórbido caracterizado pelo abatimento mental e físico que pode ser manifestação de vários problemas psiquiátricos, hoje considerado mais como uma das fases da psicose maníaco-depressiva
2. estado de grande tristeza e desencanto geral; depressão.
“a morte do pai mergulhou-o em profunda m.”

entristecer
verbo

1. transitivo direto e intransitivo e pronominal
tornar(-se) triste, aflito, magoado; penalizar(-se), magoar(-se), afligir(-se).

“as imprudências do filho entristecem-no”
2. transitivo direto e intransitivo e pronominal
por extensão

fazer perder ou perder o viço, o frescor, muchar(-se), emurchecer(-se), estiolar(-se)
“o forte calos entristecia as rosas”
3. intransitivo e pronominal
figurado (sentido figuradamente
escurecer-se, encher-se de nuvens; nublar(-se), obumbrar(-se), anuviar(-se)

“e.(-se) o céu”

Um ponto importante!

A exaustão está presente em todas as pessoas, de todas as classes sociais e de diferentes idades.

Um grande mar “calmo" de exaustão, melancolia e entristecimento, mas que às vezes tem ondas, picos de uma euforia-alegria quase histérica. Uma alegria-catártica. Mas logo passa... E a ressaca volta com força total e a ansiedade e a angústia vêm com tudo.

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ansiedade
substantivo feminino

1. grande ma-estar físico e psíquico; aflição, agonia.
“a demora no atendimento causava-lhe a.”
2. figurado (sentido) figuradamente
“com grande a. aguardava o seu casamento.”

angústia
substantivo feminino

1. estreiteza, redução de espaço ou de tempo; carência, falta.
2. estado de ansiedade, inquietude, sofrimento, tormento.
“a notícia aumentou-lhe a a. em que vivia”
3. FILOSOFIA
em Kierkegaard 1813-1855, sentimento de ameaça impreciso e indeterminado inerente à condição humana, pelo fato de que o homem, ao projetar incessantemente o futuro, se defronta com possibilidade de fracasso, sofrimento e, no limite, a morte.

A sensação de não sair do lugar. De patinar, patinar e não se mexer. E o pior: de não conseguir enxergar a perspectiva de um futuro melhor. Segundo Thiago Corbisier Matheus, quando existe um descrédito da realidade maior, começa-se a colocar as fichas na realidade mais tangível, deixando-a, então, sobrecarregada – espera-se mais dela, do trabalho e das relações afetivas.

Sem ver saída, sem sair do lugar, com as emoções contidas, percebemos um movimento de emoções positivas emergindo como a única saída. Esta emoção emergente é o cuidado com quem está do lado.

O cuidado com o outro evoca essa troca de emoções positivas, de vivências positivas. Porque a emoção acontece na troca. No “é dando que se recebe”.

Um cuidado que pode ser afetuoso, empoderado (cuidado com causa, sororidade) ou até prático (resolver o que se tem que resolver pelo outro).

Vimos, então, que estas são as emoções contextuais: exaustão, melancolia, entristecimento, ansiedade, angústia, zueira e cuidado.

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Dentro desse contexto, expressamos nossas emoções microrrelacionais. Emoções interpessoais que hoje são expressas intensamente no mundo digital.

Acontecem no digital, dentro da sociedade do espetáculo onde texto e imagens buscam aprovação e chuva de likes. Torna-se mais fácil dizer o que se sente pelas redes sociais do que pessoalmente. Não há silêncio constrangedor, mas sim os textões do Facebook.

A reprodução dos discursos pulverizados – causas e demandas variadas – e enquadrados – na forma em que todas buscam se encaixar – se espalha nessa imensidão da internet.

Discursos isolados em busca de “conexões”. Monólogos em busca de likes.

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"As pessoas, segregadas, estão menos dispostas a conviver. Cada uma fica mais voltada para o seu mundinho. Não é a tecnologia que transforma as relações, mas ela é um produto que vem dar conta de algumas aspirações que as pessoas possuem." (Tiago Corbisier Matheus)

Se antes esses discursos e imagens mostravam apenas mundos perfeitos que despertavam o medo de perder, a ditadura da felicidade e a necessidade de querer mais, hoje, divide espaço com uma busca por equilíbrio que evoca outras emoções, apesar de também ser glamourizada dentro da sociedade do espetáculo. Segundo Tiago Corbisier, “nesse mar da impotência, se mostrar pelo menos um pouco real já é um sinal da busca por espaços de identidade."

Mas mesmo que em plena luz ou na mais dark das sombras, a busca é SEMPRE, por aprovação, conexões e likes.

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A busca é sempre, SEMPRE, por aprovação, conexões - likes.

Por meio da combinação das metodologias qualitativas de entrevistas espontâneas nas ruas, questionário on-line anônimo, análise das redes sociais (netnografia) e grupos com consumidores, conseguimos mapear muitas das emoções descritas pelos brasileiros nos dias de hoje e chegamos na cartografia contextual.

Mas depois de mapeada essa cartografia contextual, tentamos mergulhar nas emoções verdadeiramente microrrelacionais. Aquelas que acontecem a portas fechadas e olho no olho.

Contudo, foi o momento de um grande VAZIO: de falta de respostas, de palavras, de disposição para falar e parece que até para sentir.

Ficou evidente um bloqueio, o distanciamento das próprias emoções e da própria essência. Assim como no macro, no microrrelacional tudo também vem de fora e vai para fora sem ser elaborado, processado, trabalhado dentro.

Mas as pessoas querem sentir. Precisam sentir. Querem ampliar vivência, emoções e sentimentos.

Um desejo que, hoje, se realiza muito mais em um “ambiente seguro” do que na vida real.

Talvez isso justifique a busca por narrativas externas, por conteúdos que preencham nossos vazios, nossas histórias e nossas necessidades de sentir e se emocionar.

Conteúdos audiovisuais cumprem esse papel de cobrir tantas lacunas emocionais.

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Descobrimos que as pessoas buscam ativamente conteúdos que querem assistir baseadas nas memórias emotivas que têm sobre marcas  e/ou plataformas. As histórias que contam ou sempre contaram criam essa nuvem de emoções associadas a cada um deles.

Marcas e plataformas, então, servem como anzóis na busca do conteúdo que as pessoas querem assistir para acessar as emoções que querem sentir.

Isso pode acontecer de duas formas, como confirmado na etapa quantitativa, com mais de 3.600 abordagens Brasil afora, através dos seguintes eixos:

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"Volta e meia voltamos ao funcionamento mais impulsivo via válvulas de escape às quais nos damos o direito de. Daí as alternâncias ou sínteses que fazemos. Tendemos a operar seja numa polarização entre opostos (amor/ódio) – alternância –, seja numa articulação entre ambos – complementaridade –, em arranjos provisórios capazes de conectar as partes.” (Tiago Corbisier Matheus)

O que acontece a partir daí foge ao controle e à consciência das pessoas. Elas vão atrás do que acreditam que vão encontrar e sentir, mas as emoções chegam sem avisar. Despertam, inundam e são responsáveis por prender ou expulsar as pessoas da conexão com o conteúdo. Neste sentido, a conexão também pode acontecer de duas formas: expiar ou elaborar.

"O que é elaborativo permite uma construção maior. Às vezes é só catártico, expiativo, e você não processa o conteúdo. Você precisa ver aquilo, aquela raiva que não está canalizada pra lugar nenhum e que de alguma maneira está expressa no conteúdo, ela acontece, ela está lá. Ela aconteceu, pronto, acabou, apaziguei. Mas como eu não elaborei, não tenho uma integração entre os aspectos bons e ruins, o que é ponderação, o que que é meu, o que que é do outro, não tem essa articulação. Então a coisa fica cíclica. Expiou, mas eu continuo ali naquele mesmo lugar.” (Tiago Corbisier Matheus)

Nas pesquisas qualitativa e quantitativa exploramos conteúdos variados  e chegamos a 11 núcleos de emoções despertadas por eles:

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Detalhamento dos núcleos (conteúdos e emoções despertadas):

curticao
zen
up
down
abertura
disgusting
pramim
brincadeirinha
susto
lembrancas
recalque

Descobrimos, então, que a busca é por emoções variadas, mas, como resposta ao contexto, quase tudo está mais a serviço do entretenimento simples e puro do que da elaboração.

O tempo não passa rápido ou devagar, é nossa percepção sobre ele que muda diante de uma rotina atribulada ou não. E, com tantos estímulos e ofertas de conteúdo, quem vive nas grandes cidades está sempre no registro do excesso e com a sensação de que falta tempo. Contudo, estamos sempre preenchendo esses buracos no tempo de alguma maneira. Quando optamos por filmes ou séries para preenchê-los, ao contrário do que muitos pensam, temos experiências de consumo diferentes. Enquanto o filme tira o espectador da realidade, o faz viajar e se projetar em outro cenário, trazendo reflexão, conhecimento e uma forte conexão com a história, as séries rodam em uma frequência mais frenética, gerando ansiedade, vício e uma forte ligação com os personagens. A relação com o filme é fugaz; com a série ela se prolonga. Cada um se encaixa melhor em um momento. Os filmes tendem a agregar mais e a série costuma ter um consumo mais individual. Então, se algum dia você acabar se apressando e assistir a um episódio antes do seu parceiro de séries, não se preocupe! Faça uma pipoca e veja um filme juntos para fazer as pazes.

FONTE:
Coletivo Tsuru e Quantas, 2018