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A cada quatro anos, os brasileiros interrompem suas rotinas para acompanhar fervorosamente os jogos da Copa do Mundo, atraídos pelo fascínio da seleção brasileira e a possibilidade de conquista da tão cobiçada taça, assim como pela grandiosidade do evento e as narrativas envolvidas. Desde a última Copa, tivemos tempo suficiente para analisarmos o fatídico 7 a 1 e incorporarmos uma visão mais crítica quanto ao que ocorre dentro e fora dos campos. Mas o que a Copa do Mundo representa para os brasileiros? Por que a Copa engaja tanta gente em torno das partidas disputadas? E o que podemos esperar da Copa na Rússia em 2018?

O maior evento do esporte mundial está prestes a começar. Em campo, o que entra em jogo é a excelência de cada seleção e a paixão que despertam em suas respectivas torcidas. A Copa da Rússia 2018 representará a renovação do sonho de cada país em ser considerado o melhor do mundo. Para os brasileiros, porém, há uma aura especial, porque a Copa é muito mais do que futebol.

A Copa significa uma pausa permitida na vida de todos os brasileiros – uma pausa até para quem não pode parar. O cotidiano fica suspenso e nada interrompe o interesse pelos jogos: funcionários são dispensados do trabalho, aulas são canceladas, viagens para o país-sede são marcadas. E mesmo para quem continua trabalhando, dá-se um jeitinho: qualquer televisão ligada ou celular à mão já serve para conectarmos ao evento.

O brasileiro tem um vínculo profundo com esse universo – o futebol é a sua maior paixão e por onde fluem suas emoções mais intensas. A memória pessoal é marcada por momentos do futebol. Na Copa do Mundo, o orgulho de torcer pela seleção nacional e a esperança, jogo após jogo, de conquistar o título lá na frente alimentam ainda mais essa conexão emotiva – mesmo para quem sequer gosta ou acompanha o esporte. O período de duração dos jogos, da abertura até o encerramento, cria novas memórias afetivas em função da maneira intensa e engajada com que as pessoas se envolvem com as disputas. Fato é: o Brasil para, e por uma combinação de EMOÇÕES COMPARTILHADAS:

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Cada jogo é uma grande festa e ninguém perde na hora de celebrar.

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A união começa nas famílias e amigos e se estende ao povo brasileiro, até os outros povos do mundo.

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A Copa do Mundo intensifica a paixão do brasileiro pelo futebol e as emoções ficam à flor da pele.

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MUITO MAIS DO QUE FUTEBOL.

Esse sentimento de união e confraternização é potencializado justamente pela pausa – durante o tempo do jogo cada um suspende suas preocupações diárias e, num momento de catarse coletiva, o país inteiro sente na pele e no coração as mesmas emoções: euforia, ansiedade, magia. São raros os momentos em que todos nós, brasileiros, paramos para olhar a mesma coisa e nos emocionarmos juntos.

AS RAZÕES PARA CONSIDERAR ESSA PAUSA ESPECIAL:

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Os brasileiros estão em movimento. O cotidiano está mais atarefado, as responsabilidades aumentaram de tamanho, as perspectivas se multiplicaram, os planos e sonhos se tornaram mais complexos e desafiadores. Tudo isso é potencializado pelas interações em tempo real das redes sociais.

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Em um contexto de redes e conexão, as diferentes mídias e plataformas travam uma disputa acirrada pela atenção das pessoas, que migram entre uma e outra permanentemente. O jeito de ser e estar, de acompanhar um acontecimento e de se informar tornou-se nômade: a atenção está constantemente pulverizada entre os inúmeros estímulos, recursos de comunicação e de acesso à informação.

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A última Copa foi uma grande neblina que tomou conta do país por um mês. Por ter sido no Brasil e por ter colocado em jogo a potência e a capacidade do país de sediar um evento dessas proporções, todos se conectaram aos acontecimentos. E isso ia muito além de acompanhar o futebol. Envolvia também saber sobre a preparação e o bom funcionamento da infraestrutura, observar o comportamento dos brasileiros, se aproximar do olhar e do ponto de vista dos estrangeiros, fazer análises e críticas sobre a postura da FIFA e da CBF, discutir as questões políticas, os protestos, os escândalos e as fofocas. Todo mundo tomou algum partido e isso estimulou as divisões. A despeito dessa combinação de elementos, a relação do povo brasileiro com o futebol e, especialmente, com a Copa do Mundo é de longa data e todos acabam dando um jeito de acompanhar, pelo menos em parte, tudo o que acontece ao longo da disputa. Contudo, essa relação sofreu transformações até chegar ao seu estado atual.

Ao acessar a memória, é possível que todo mundo consiga retomar alguma lembrança específica associada às edições anteriores da Copa do Mundo. Pode ser a imagem marcante do verde e amarelo pintado nas ruas ou nos tecidos das camisetas e bandeiras, ou a montagem do álbum de figurinhas da Copa, ou as festas com os amigos para juntos assistirem aos jogos. Em retrospecto, nas três últimas Copas, em função da expectativa de conquistar a taça do hexa, é possível notar diferenças na visão que se tinha sobre essa conquista e nas emoções compartilhadas pelos torcedores.

Alemanha
2006

Antecipação
DO HEXA

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O Brasil ganhou a taça na Copa de 2002 e foi o campeão da Copa das Confederações de 2005. A seleção escalada pelo técnico Parreira era feita de “heróis” – Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Kaká e Roberto Carlos – que levantaram taças pelo país. A grande protagonista da Copa foi a seleção brasileira, puxada por uma grande campanha “pró-Brasil” das grandes mídias. O país foi eliminado nas quartas de final pela França, que disputou a final com a Itália, grande vencedora da disputa.

África do Sul
2010

Expectativa
DO HEXA

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A vitória da Copa das Confederações de 2009 trouxe um novo fôlego, mas o técnico Dunga era visto como frio e foi criticado por ter escalado uma seleção "sem brasileiros" (somente três jogavam no Brasil) e sem heróis como Neymar ou Ronaldinho. A derrota do Brasil nas quartas de final pela Holanda foi decepcionante, ainda que menos impactante do que na Copa anterior. A vitoriosa Espanha entrou para a história, mas foi o apelo social e cultural da África do Sul que conquistou os brasileiros por meio de personagens que caíram na simpatia do povo: a Jabulani, a Vuvuzela e o “Vidente Polvo Paul” foram os grandes personagens da Copa.

Brasil
2014

Esperança
DO HEXA

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Em casa, o brasileiro estava mais crítico tanto em relação ao futebol nacional o quanto ao evento e não se deixou levar por falsas promessas. Embora tenha sido campeão da Copa das Confederações de 2013, a última Copa foi um momento de extremos e de fortes emoções dentro e fora de campo (hino nacional cantado à capela, escândalos da FIFA e manifestações de rua), acompanhado pela primeira vez com a presença maciça das redes sociais. A campeã Alemanha venceu a seleção brasileira de 7 a 1 nas semifinais. A derrota representou a humilhação e o fracasso do time, mas não se estendeu para a autoestima do torcedor nem do país. Apesar do resultado negativo e da decepção com a performance da seleção, o brasileiro não deixou de aproveitar a Copa de maneiras diversas, inclusive dividindo a torcida com outros países ou mesmo não se importando com o ganhar ou perder, mas sim com a qualidade do futebol apresentado em campo. Sediar a Copa do Mundo valeu a pena.

Ainda assim, a relação entre a seleção e o povo brasileiro ficou estremecida, entre outros motivos, pela sensação de que, no final, não houve esforço e dedicação suficientes e respeito ao legado do uniforme canarinho. Essa percepção, todavia, não contaminou a satisfação geral com o evento. Fomos capazes de nos preparar para algo tão importante e grandioso. Foi como se ver diante do espelho e se sentir confortável com a imagem refletida. A aprovação dos olhares estrangeiros que vieram ou acompanharam o evento de longe também foi fundamental para aumentar a autoestima nacional. Pelo sucesso com que os brasileiros recepcionaram povos do mundo todo e colocaram em pé um evento dessas proporções, de certa forma o povo saiu vitorioso da Copa no Brasil.

Onde você estava no dia do 7 a 1? A partida que marcou a eliminação do Brasil da Copa de 2014 ainda ecoa na memória do brasileiro – ainda que sempre com muito humor. Com a proximidade da Copa 2018, não somente as lembranças da última edição ganham um novo contorno, como também fazem emergir novos paradigmas que regem nossa relação com o esporte.

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O novo contexto brasileiro pode ser explicado na mudança de duas eras, tomando como ponto de partida a Copa da Alemanha em 2006:

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realidade

Com novas tecnologias as pessoas conquistaram autonomia e se tornaram protagonistas nas suas conexões com o mundo. Hoje, o poder das instituições passa a compartilhar cada vez mais espaço com a potência vinda das pessoas. Num cenário de difusão da internet e hiperconexão, a própria relação com os ídolos sofre transformações; a autenticidade passa a ser valorizada e os ídolos do esporte passam a ser vistos como pontes, não indivíduos superiores colocados num olimpo. Espera-se cada vez mais a humanização dos ídolos. Para aqueles que acompanham diariamente os jogadores nas redes sociais, os ídolos se transformaram em #parças. Nessa cultura em transição, o espectador se apropria da reconstrução de sua identidade esportiva e da sua relação com o futebol.

Diante de transformações sociais e hábitos em transição, mudam também as formas pelas quais a Copa é consumida. O público se envolve com o evento por motivações diversas e se organiza, naquela pausa autorizada, de acordo com rituais distintos.

QUANDO OS GATILHOS COM O FUTEBOL SÃO VERDADEIROS, A COPA DO MUNDO REALMENTE UNE AS PESSOAS. QUANTO AO NÍVEL DE ENVOLVIMENTO, OS TORCEDORES BRASILEIROS PODEM SER DIVIDIDOS ENTRE LIGHT E HEAVY:

LIGHT

São orientados por elementos mais emocionais e sociais dos jogos, da seleção e do evento. Também querem ficar por dentro de cada jogo que é importante na Copa do Mundo.

HEAVY

Querem saber de tudo e são puxados por elementos sociais, emocionais e principalmente racionais. O apaixonado quer conhecer tudo até os mínimos detalhes, mas também deseja compartilhar e interagir com a sua rede tanto para buscar novas informações quanto para participar das conversas que acontecem com os amigos, familiares, brasileiros e o resto do mundo.

DURANTE OS JOGOS DA COPA DO MUNDO, TAL QUAL UM TIME, É POSSÍVEL SEGUIR A SEGUINTE ESCALAÇÃO PARA OS TORCEDORES:

 

 

DO ATAQUE PARA A DEFESA:

Os torcedores lights colocam seu time focados no ataque, onde tecnologia e entretenimento são estrelas. Eles querem se emocionar e compartilhar essas emoções.

 

 

 

DA DEFESA PARA O ATAQUE:

Os torcedores heavys distribuem melhor seu time, porque não querem perder nada. Toda informação enriquece a sua experiência durante o jogo, com intermediação da tecnologia e das interações digitais no meio de campo, e não deixam de sentir as mais intensas emoções quando a bola está em campo.

São os rituais dos jogos que fazem o Brasil parar na Copa do Mundo. O torcedor organiza sua agenda antes, durante e depois dos jogos de forma a potencializar ao máximo a experiência, ultrapassando o tempo cronometrado das partidas e extravasando para outros espaços.

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É o momento de entrar no clima e se informar. Na Copa de 2006, o hábito de "zapear" foi identificado como o mais comum no pré-jogo. O brasileiro queria a liberdade de escolher conteúdo entre os canais e encontrar o que mais o interessava.

Em 2010, a internet entra no pré-jogo. Com estatísticas, curiosidades, bastidores e a escalação, a internet se alia à televisão para uma ampliação da visão do esporte.

O Pré-jogo da Copa de 2014 foi colaborativo na rede e já com fortes sinais da quebra do futebol. Nos jogos da seleção brasileira, acontece uma reunião de amigos ou familiares, a ocasião envolve a preparação da comida e de uma mesa farta, e conta com acaloradas discussões. Entre os mais velhos, o pré-jogo foi predominantemente vivido pela TV. Para os mais novos, ele aconteceu nas redes sociais.

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Com a bola em ação, concentração, esquemas táticos, empenho do grupo, profissionalismo, a força da torcida, precisão da transmissão, o gol, a explosão e o resultado atraem a atenção do público.

Em 2006, o foco do jogo era o espetáculo da transmissão com a premissa da qualidade da imagem, dos recursos e do narrador. Todos torcedores buscavam o canal para ter a melhor experiência.

Na Copa de 2010, o jogo era um combinado entre a TV com a internet do lado dando mais controle e mais personalização.

Na Copa de 2014, a rede fez parte do espetáculo e a tecnologia empoderou o torcedor para escolher e ter a melhor experiência ao acompanhar o evento.

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É o momento de celebrar e ampliar a discussão. No pós-jogo da Copa de 2006 foi preciso deixar o espetáculo durar um pouco mais com as novidades tecnológicas em campo.

Na Copa de 2010, o pós-jogo foi a hora da festa com os amigos e a família, com a televisão ligada na sala e atenção ao que acontecia na internet.

A Copa de 2014 foi de muita celebração e de zoeira na rede. Com muitos jogos e muitas emoções dentro de casa, a rede virava fácil uma válvula de escape. O pós-jogo foi marcado por dois grandes comportamentos: a resenha “multitela”, com a TV ligada e as interações nas redes sociais; e, claro, o humor e a tiração de sarro típicos do brasileiro.

E agora que passamos o bastão de país-sede para a Rússia e os torcedores já começam a aquecer os motores para acompanhar os jogos, o que será que a Copa do Mundo de 2018 reserva aos brasileiros?

A cada Copa, o torcedor brasileiro busca mais INFORMAÇÃO PERSONALIZADA, TECNOLOGIA COLABORATIVA E ENTRETENIMENTO PREZANDO PELA DIVERSIDADE.

Nesse cenário, a cobertura da Copa do Mundo de 2018 será intensa – constante e realizada por todos. Por sua vez, a linguagem dos memes e das brincadeiras impactará todos os brasileiros, independentemente de onde acompanharem a Copa. Os influenciadores digitais estarão presentes dentro e fora das plataformas, e essa será a Copa mais visual da história, com o ápice dos recursos tecnológicos de imersão. No contexto das transmissões, a pauta da inclusão também será colocada na mesa: alguns canais apostam em narradoras para a Copa de 2018 para maior integração e inclusão das mulheres durante a cobertura. E no campo político, temas de relevância nacional e internacional permearão as discussões em torno dos jogos.

Ampliação da visão de esporte

informação
+ racional

ao vivo
o tempo todo

Real Time Conversation,QGs, Streaming e Posts dos ídolos (jogadores, equipes e jornalistas).

ícones
verdadeiros

Jogadores, seleções e personalidades resgatando a emoção através das suas histórias.

PERSONALIZAÇÃO

tecnologia
+ social

Linguagem
de memes

Todas mídias incorporando uma nova linguagem: Copa da Zueira, Influencers online e offline.

Experiência
Imersiva

A Copa mais visual da história: Games, AR, VR, Câmera 360º etc.

COLABORAÇÃO

entretenimento
+ emocional

visão
feminina

Profissionais e comentaristas mulheres, de Renata Fan a Fernanda Gentil #deixaelatrabalhar.

agenda
política

Brasil x Ano de eleição, Boicote diplomático, Rússia x Guerras, Racismo, Homofobia, Refugiados.

DIVERSIDADE

Assim que soar o apito da partida de abertura da Copa do Mundo na Rússia, será o início de uma maratona de jogos e de emoções compartilhadas. A Copa já está no calendário (o cronológico e o afetivo) e nos próximos meses os brasileiros vão falar e discutir muito sobre cada detalhe do evento. Aos bons torcedores, algo que não se deve esquecer: NESSA DISPUTA DE UNIÃO, DIVERSÃO E EMOÇÃO, TODOS SÃO VENCEDORES.

FONTES:
Pós-Copa (2006), In Touch Pesquisa
Pós-Copa (2010), Umanita
Pós-Copa das Confederações (2013), Vox, we study people
Pós-Copa (2014), Vox, we study people
Projeto Esporte (2016), Box 1824
Desk Research (2018), Box 1824