As línguas faladas em todo o mundo são como um organismo vivo em constante transformação no tempo e no espaço. É por essa razão que, a depender do contexto e das características da própria cultura, novas palavras são criadas e incorporadas ao nosso vocabulário, influenciando a forma como nos comunicamos. 

A cada ano, o departamento da Universidade de Oxford, responsável pela elaboração do dicionário Oxford, elege uma palavra de língua inglesa como “palavra do ano”. Em 2017, a palavra escolhida foi “youthquake”, termo que faz referência a uma mudança cultural, política ou social significativa provocada pelas ações ou influência de pessoas jovens. Em 2018, a palavra eleita foi “tóxico”, em inglês “toxic”. Ao fazer esse anúncio anualmente, a ideia do instituto de pesquisa é indicar uma palavra que reflita o clima ou as preocupações daquele ano.

Em 2018, a palavra escolhida foi Tóxico

Homem não chora, não expressa sentimentos, homem de verdade é bruto, não pode cuidar da aparência. Essas afirmações ressoam a você quase como um tipo de spray tóxico e poluente? O termo “tóxico” foi selecionado a partir de uma lista que continha palavras de conotações políticas como “gaslighting”, que designa a prática sexista de, por meio de manipulação psicológica, levar uma mulher a acreditar que está louca; e “incel”, abreviação de “involuntariamente celibatário”.

Tanto no sentido mais literal, para se referir à poluição que afeta o meio ambiente, quanto para caracterizar discursos políticos e pelo movimento #MeToo, contra o assédio, que atribui o comportamento sexual desrespeitoso e predatório de alguns homens à “masculinidade tóxica”. Além disso, segundo a página do Oxford Dictionaries, o número de buscas pelo termo foi 45% maior em 2018.

E na língua portuguesa?

Em português, uma iniciativa similar é promovida em Portugal pela Porto Editora. Embora em 2018 a palavra do ano tenha sido “enfermeiro”, entre as concorrentes há algumas que, de alguma forma, estão relacionadas aos temas associados a “tóxico”, como “assédio” e “sexismo”. Já no Brasil, uma iniciativa da consultoria CAUSE em parceria com o Instituto IDEIA Big Data elegeu “mudança” como palavra do ano para os brasileiros. Aqui, no entanto, o enfoque é menos lexicográfico e mais motivacional, por assim dizer, e se baseou em 5 mil respostas coletadas ao longo do ano.

7 exemplos de masculinidade tóxica

1.
Homens não choram

Ideal de uma sociedade que ensinou os homens a reprimirem suas emoções e relegar o emocional às mulheres, tachadas ao mesmo tempo de fracas e frágeis.

2.
Homens precisam brigar

A agressividade como forma de resolução de conflitos entre garotos e homens, esquecendo completamente a conversa.

3.
Homens vestem azul e jogam futebol

A pressão por não destoar do grupo dá margem para que os comportamentos machistas continuem sendo reproduzidos.

4.
Homens são o contrário dos gays

O fato de um menino não falar essas ‘coisas de meninos” é considerado ofensivo. Usar o feminino e o gay como forma de desprestígio é misógino e homofóbico.

5.
Homens sempre querem e precisam de sexo

A ideia do homem como máquina sexual que sempre quer e precisa de relações sexuais e que também se sente legitimado a tê-lo. Dessa pressão surgem muitos problemas de impotência de acordo com os sexólogos.

6.
Homens são inconsequentes e dominantes

Um homem que tradicionalmente foi taxado ofensivamente como “dominado”, traduz-se em um homem responsável e parceiro que contribui 50% nas tarefas domésticas e de cuidados com sua companheira.

7.
Homens são assim, simplesmente homens

As expressões “boys will be boys” e “not all men” estão no topo da lista das respostas mais conhecidas e reativas da Internet a qualquer tipo de denúncia machista e debate feminista, também quando se fala de masculinidade tóxica.

Mas, quando se fala em mudança de valores, cultura, comportamento ou a transformação do nosso idioma e a maneira como nos expressamos por meio da escolha das palavras, para Ritxar Bacete, antropólogo especialista em igualdade de gênero, “Nós homens temos que reivindicar isso em nossas vidas pessoais, é senso comum. A igualdade não é possível sem a incorporação dos homens e nós homens precisamos nos desintoxicar”.


Arte e ilustrações Jordana Leite / Fontes El País, Wikipédia, Nexo, Nexo / Imagens Pixelfit / Texto Gabriel Prates

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