A TRANSFORMAÇÃO
DO FEMININO

Noções do que é feminino se distanciam de antigas limitações sociais e ampliam seus significados para uma fluidez que vai além do binarismo de gênero

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Antes de iniciar a leitura desse estudo, escolha 10 atributos que têm mais a ver com você e descubra como vibram suas energias.

você vibra com % de energias masculinas e % de energias femininas.

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1.
Antiguidade Feminina


2.
Princesa Moderna


3.
Multimulher Feminina + Masculina


4.
Fluidez de identidade

Ao longo da história, os sentidos atribuídos à noção de feminino foram condicionados pelos papéis e limites impostos às mulheres. Hoje em dia, sob influência do mundo digital e dos comportamentos emergentes das novas gerações, esse conceito passa a ser reinterpretado fora da normatividade, de acordo com uma fluidez cada vez mais abrangente. Mas se feminino não é mais sinônimo de “mulher”, então o que é? O que significa “universo feminino”? E como as pessoas, independentemente de sexo ou expressão de gênero, estão ressignificando essa ideia?

1. Antiguidade Feminina

Quando se pensa em uma determinada palavra, além dos significados mais imediatos encontrados no dicionário, existem as imagens e construções sociais evocadas em torno dela. Essas camadas de significado se refletem na forma como a sociedade encara determinados assuntos e sujeitos.

Até pouco tempo atrás, a ideia de “feminino” era vista como sinônimo de “mulher”. Pensar nessas duas ideias colocava em pé de igualdade conceitos não equivalentes, mas que, pelas convenções sociais, foram limitados a um mesmo universo comum. Mas nem sempre foi assim.

Ao longo do tempo, as mulheres tiveram diferentes papéis e representações na sociedade, demonstrando o quanto as interpretações do que seria “feminino” foram encaradas de maneiras diferentes dentro das variações históricas.

Na Pré-história e na Idade Antiga, as mulheres tiveram seu protagonismo socialmente reconhecido. Nessas sociedades antigas, pelo poder de “dar à vida”, elas tinham forte importância e valor percebido. O poder místico da mulher era associado à cura e à natureza.

Além disso, como existiam menos diferenças entre os papéis de gêneros, havia chances mais equitativas entre mulheres e homens de ocupar posições de destaque nas esferas públicas.

África Antiga
Por possuir o poder da vida, a mulher era comparada à expressividade do sol, que marca as estações do ano, além de ser a principal liderança política em diversas sociedades do continente.

Povos pré-colombianos
Acreditavam na relação de complementaridade e interdependência dos gêneros.

Índia antiga
As mulheres eram tidas como iguais aos homens e ocupavam lugares de honra na sociedade.

Princípios do judaísmo
As mulheres atuavam no plano econômico, político e religioso.

A posição reverencial de reconhecimento público assustava parte dessas sociedades e, com o passar do tempo, a assimetria social entre homens e mulheres aumentou, confinando aquele protagonismo a certos espaços e contextos.

2. Princesa moderna

Com o passar dos séculos, as mulheres foram progressivamente sendo excluídas das esferas públicas e restritas ao mundo privado. Limitada à esfera privada e pelo espaço físico da casa, a mulher assumia alguns atributos principais, como o cuidado, a delicadeza e a sensibilidade, em um processo crescente até o século XX, mas majoritariamente delimitado às mulheres brancas, cisgêneras e de classe alta.

Contudo, é importante apontar que a análise sobre as mulheres possui amplos recortes e diferenças. Nessa perspectiva, no que diz respeito principalmente a mulheres de classe média baixa, há outros recortes massivos no Brasil cujas narrativas precisam ser contadas, como: mulheres negras, que, por exemplo, continuavam servindo o ambiente doméstico, porém não na esfera privada ou de seus próprios lares; mulheres imigrantes, que ocupavam lugares de trabalho no campo; mulheres indígenas, que na historiografia brasileira são inviabilizadas e possuem relações de trabalho variadas; e mulheres trans, que continuavam excluídas tanto no ambiente privado, quanto no público. Questões que reverberaram durante anos e apresentam consequências até hoje.

1. cuidado

Às mulheres eram atribuídas as tarefas de cuidar da casa, da família e do marido.

2. delicadeza

A sociedade cobrava uma postura “feminina” das mulheres na forma de se vestir e se expressar. Caso essa postura não fosse adotada, elas tornavam-se alvo de rígidos julgamentos.

3. sensibilidade

As mulheres eram forçadas a acolher todas as vontades alheias e serem empáticas com todos ao seu redor. Mesmo que para isso tivessem que se colocar em último lugar.

Essas características tidas como “femininas” qualificavam a mulher para atuar no mundo privado, reforçando a assimetria entre os gêneros no mundo público. Com isso, o conjunto dessas noções fez com que a sociedade fosse construída, ao longo do tempo, com base nos limites impostos por essas duas opções:

A polarização de atributos se refletia no binarismo de gênero que operava pela lógica das mulheres sendo femininas em casa e aos homens cabendo ser masculinos no mundo público.

É esse cenário que coloca as ideias de “mulher” e “feminino” não em diálogo, mas em absoluto paralelismo.

Nesse contexto, até a metade do século passado, o arquétipo que melhor representava a aspiração das mulheres dentro desses limites impostos era a figura da princesa.

Quem é a princesa?

Ela potencializa ao máximo as características ditas “femininas”. Sua principal ambição é encontrar um príncipe, ficar dentro de casa e inquestionavelmente, servir ao homem. É interessante notar que as princesas representam um aspiracional feminino mais forte do que as próprias rainhas – estas mais relacionadas não tanto ao feminino, mas sim ao poder.

Da mesma forma que nas construções anteriores sobre o feminino, o ideal da princesa também perpassa a visão da mulher branca e cis privilegiada social e economicamente. Além disso, por anos essa ideia de feminino foi construída sob pilares como racismo e machismo, em que o ideal a ser alcançado pelas mulheres era marcado por características únicas – entre as quais cabelo liso, magreza, olhos e pele claros e nariz fino, o que contribuiu para o estabelecimento de estereótipos negativos a toda e qualquer outra mulher que não contemplasse a imagem de beleza eurocêntrica, como a mulher negra.

Havia, portanto, um feminino submisso. A mulher servia ao homem, só podia ter características femininas e não tinha voz fora de casa. O protagonismo de outrora se desloca para a esfera privada, implicando uma perda de voz social, econômica e política na sociedade.

3. multimulher feminina + masculina

A partir dos anos de 1960, uma década de importantes transformações sociais e culturais em todo o mundo, as mulheres começaram a questionar por que deveriam ficar restritas aos códigos femininos e por que não poderiam ir para a vida pública como os homens.

No mundo ocidental, elas passaram a reivindicar mais espaço nas esferas política, social e econômica, expandindo sua atuação restrita à vida doméstica, ao cuidado da família, para a vida pública e outras complexidades enquanto sujeitos no mundo.

No Brasil, alguns marcos históricos foram:

1962
estatuto da mulher casada

As brasileiras ganham autonomia para trabalhar sem autorização do marido.

1965
igualdade de voto

Novo Código Eleitoral estabelece obrigatoriedade de voto a todos os homens e mulheres.

1977
lei do divórcio

Mulheres ganham o direito de se divorciar (antes o estigma da “mulher desquitada”).

1988
lobby do batom

Deputadas federais de todos os partidos e visões ideológicas diferentes se unem para defender interesses das mulheres na Nova Constituição - e cerca de 80% de suas demandas foram aprovadas.

A contestação do binarismo de gênero já era possível de se observar em algumas narrativas nas ruas, e também, em mídias e na moda, por exemplo, mas comumente esbarrava em estruturas e lugares onde a mulher ainda era silenciada ou tinha que se valer de algumas características associadas ao universo masculino para ser aceita:

1. cuidado

2. delicadeza

3. sensibilidade

+

4. poder

No mundo do trabalho, mulheres crescem a posições de comando, adotam tom de voz firme e seguro.

5. ação

As mulheres começam a ganhar confiança para falar o que pensam, posicionar-se e fazer o que quiserem. Ganham atitude, liberdade e poder de escolha.

O binarismo de gênero é colocado, então, em xeque. Embora ainda sejam femininas em casa, as mulheres passam a atuar como masculinas na rua. Essa dinâmica faz com que a figura aspiracional no inconsciente coletivo seja a da multimulher.

Quem é a multimulher?

A multimulher está sempre equilibrando diversos pratos para dar conta dessa dupla jornada: ela mantém o feminino na vida privada e exercita o masculino na vida pública. Coexistem a dona de casa exemplar com a profissional bem-sucedida e realizada.

Nesse processo, uma nova representação da mulher começa a emergir. As mulheres passam a reivindicar características antes associadas apenas aos homens. O feminino masculino entra em cena, fazendo com que haja uma potência na atuação externa, de dia, e uma delicadeza em casa, à noite, no retorno ao lar. Entre uma coisa e outra, essa nova mulher experimenta novos limites de gênero, mesmo que ainda opere numa lógica binária, e aos poucos ganha mais voz na vida pública.

4. fluidez de identidade

O efeito colateral dessa reconquista do espaço público por meio do exercício do masculino é a exaustão do acúmulo de funções e expectativas. Ao agregar códigos do sexo oposto, a mulher passa a viver uma tensão constante e, assim, muitas começam uma jornada de questionamentos e autodescoberta sobre quem realmente são ou querem ser.

Começa a nascer a necessidade de ser aos olhos do mundo o que se é no espaço privado, abrindo novas possibilidades de comportamento, expressão pessoal e posicionamentos.

As pessoas percebem que seus desejos não cabem mais nas caixas binárias de gênero e surge a necessidade de se experimentar mais. O mundo em rede exibe uma infinidade de referências identitárias, ampliando enormemente o repertório e as possibilidades de ser de cada ser humano.

As mulheres e a sociedade começam a aprender que:

orgão sexual
Pessoas possuem características físicas sexuais determinadas no nascimento.

identidade de gênero
Pessoas podem se identificar com diferentes gêneros, questionando a lógica binária, independentemente de seus órgãos genitais.

orientação sexual
Elas podem se sentir atraídas por pessoas de diferentes gêneros.

vestimenta
Cada pessoa pode se vestir e se apresentar ao mundo da forma que representar o seu eu mais autêntico.

As combinações possíveis entre esses elementos podem representar várias coisas: o sexo biológico não corresponder à forma como o gênero é expresso, que pode não ter nenhuma correspondência aos objetos de desejo afetivo-sexual e ainda menos com a forma visual com que alguém deseja se mostrar aos olhos do mundo.

Cada vez mais, as pessoas começam a se expressar na vida pública o que são na vida privada, com menos rótulos de sexo, gênero ou orientação sexual e liberdade das limitações normativas impostas historicamente.

O FEMININO DEIXA DE SER
SINÔNIMO DE MULHER.

o feminino vai
além das pessoas.

o feminino
está na natureza.

o feminino
está nos astros.

o feminino
é uma energia

Ocorre agora uma retomada de interpretações do feminino observadas em conhecimentos milenares. Seja nas representações intrínsecas a homens e mulheres ou à onipresença do gênero em tudo o que existe:

anima vs. animus

“Anima é a representação fantasmática do feminino no homem. Animus é a representação fantasmática do masculino na mulher (…). O ser humano precisa reconhecer esses arquétipos em si e apropriar-se deles para a criação de um mundo melhor.”

Jung (psicoterapeuta, 1978)

ying vs. yang

“O gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos.”

I Ching (O Livro das Mutações)

Na contemporaneidade, as pessoas mais alinhadas ao pensamento corrente vibram nas duas energias ao mesmo tempo, disponíveis a qualquer pessoa, desconstruindo a lógica binária e construções sociais que foram concebidas até então.

Essa mistura e reapropriação de conceitos também foram potencializadas pelo mundo digital e sua irreversível influência nas nossas vidas através do acesso a outros referenciais, outras culturas e pessoas.

o feminino
está na terra

o masculino
está no ar

o feminino
está na noite

o masculino
está no dia

o feminino
está na água

o masculino
está no fogo

o feminino
é a lua

o masculino
é o sol

Se não a princesa e nem a multimulher, qual é esse novo aspiracional que se descortina?

O feminino fluido faz cair barreiras identitárias entre o mundo público e privado. Características valorizadas no espaço da intimidade do lar, como empatia, afeto e escuta, passam a ser valorizadas no mundo profissional e na atuação política, por exemplo. Paralelamente, realização, ação e empoderamento, comumente em evidência na esfera pública, fluem para a vida privada, ajudando a construir posicionamentos mais assertivos nos relacionamentos pessoais.

Agora, esse novo feminino se descortina em uma essência, observada na natureza, ultrapassando as lógicas limitantes que condicionaram por tanto tempo as lentes com que enxergamos como mulheres e homens devem ser ou agir.

A integração entre feminino e masculino é a chave em vez da oposição.

Quando se trata dos comportamentos que refletem as noções de feminino, existe uma coexistência de perfis com intensidades diferentes. Não é que uma coisa tenha substituído a outra. Mas, em um país como o Brasil, principalmente no debate de gênero, é necessário ter olhares atentos às especificidades culturais e raciais para que não haja negligenciamento sobre a realidade. Por outro lado, o feminino masculino representado pela multimulher é um código ainda dominante, porém em desconstrução, que aos poucos cede lugar ao comportamento emergente do feminino fluido. Mas todos estão presentes e não se excluem: é possível ser tudo; é possível ser o que se quiser: as mulheres não são só femininas e o feminino não é só das mulheres.


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Fonte: GNT + BOX 1824, 2018