O brasileiro está mais infeliz e uma das razões é o uso excessivo das redes sociais. A constatação foi divulgada recentemente no Relatório Mundial da Felicidade, do Instituto Gallup em parceria com as Nações Unidas. Percepções distorcidas da realidade e da felicidade alheia são um dos aspectos apontados para a queda no ranking.

De acordo com o levantamento, entre 156 nações, o Brasil ocupa a 32ª posição – uma queda de 16 posições no período entre 2015 e 2019. A nota alcançada pelo país é de 6.300, a menor média desde 2014.

A cada edição do relatório, um tema é elencado para nortear a pesquisa. Em 2019, o destaque foi para “felicidade e comunidades”. Na análise global, o Brasil não se encontra em queda isoladamente – a infelicidade é uma onda em curso em todo o  mundo. Entre as causas, aponta-se o consumo em excesso de redes sociais.

Ranking de países

Entenda a nota

Calculada a partir de índices nacionais, como renda e desigualdade, e aspectos subjetivos, como confiança na liderança nacional e sensação de segurança.

1. Finlândia
7.769
2. Dinamarca
7.600
3. Noruega
7.554
4. Islândia
7.494
5. Holanda
7.488
32. Brasil
6.300
152. Huanda
3.334
153. Tanzânia
3.231
154. Afeganistão
3.203
155. Rep. Centro-Africana
3.083
156. Sudão do Sul
2.853

Infográfico: O Globo, 2019

De acordo com o relatório, as atividades nas redes sociais podem impactar diretamente o bem-estar por meio da chamada comparação social ascendente, na qual as pessoas sentem que suas vidas são inferiores em relação aos perfis de outras pessoas. Esses sentimentos estão ligados à depressão, apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a maior causa de doenças e invalidez do mundo.

Grama sempre mais verde

Apesar do alerta, o enfoque não está nas redes sociais em si, mas no excesso de uso e tempo gasto on-line. De acordo com pesquisa realizada no Reino Unido, redes sociais provocam mais dependência do que álcool e cigarro. Entre as plataformas pesquisadas, o Instagram foi a pior avaliada no tocante à saúde mental dos jovens, especialmente na faixa etária dos 14 aos 24 anos. Entre os efeitos, aumento nas taxas de depressão e ansiedade, baixa autoestima e falta de sono.

Instacurity

Refere-se à junção de “Instagram” com “insecurity” (insegurança) para definir a preocupação excessiva com a presença, influência e simpatia de uma pessoa na rede social.

Outro estudo mais recente, realizado com 3.826 adolescentes canadenses no período entre 2012 e 2018, apontou que os sintomas de depressão tinham correlação direta com o aumento do tempo gasto nas redes sociais. Entre as causas, a idealização de felicidade e prosperidade alheias.

Segundo o psicanalista Christian Dunker, as redes sociais representam uma nova forma de linguagem que condicionam as relações sociais. Nessa nova dinâmica, a ideia de felicidade se empobrece na medida em que se torna algo extremamente individualizado e construído a partir de imagens e recortes parciais da realidade. 

Já na opinião de Marcelo Veras, psicanalista, psiquiatra e autor do livro Selfie, Logo Existo, o mal estar atual observado na sociedade também diz respeito ao espaço restrito que as pessoas dedicam ao “sofrimento subjetivo”, nunca exibindo aos olhos públicos quem se realmente é e as agruras da vida real.

Mas nem tudo está perdido. Para Renata Cabrini, relações públicas e pesquisadora de novas tecnologias da informação e comunicação (NTIC), embora não sejam as responsáveis diretas por comportamentos nocivos, as NTICs são sedutoras o bastante a ponto de inebriar a conscientização sobre o seu uso excessivo e os desdobramentos físicos e psíquicos que podem causar a seus usuários. Como saída, a constante auto-observação, aliada à concentração e à consciência, são bússolas que guiam nossa relação com as tecnologias digitais e as redes sociais.

Arte: Jordana Leite / Imagens: iStock by Getty Images / Texto: Renato Barreto

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