Vivemos num mundo cada vez mais conectado tecnologicamente, sabemos tudo que acontece aqui e no mundo, no momento que acontece, participamos e organizamos manifestações de grande alcance e nos iludimos que estamos incluídos. Mas, ao mesmo tempo estamos emocionalmente desconectado. Até mesmo a grande onda do “co” (coworking, cobuild, coliving...) que sugere conectar pessoas, não significa necessariamente “enxergar” o outro, podendo tratar-se apenas de uma conexão funcional. A vida digital vai amplificando a “epidemia de narcisismo”. A ordem é: pense em você antes!

Um dos reflexos disso sobre universo infanto-juvenil é o medo da rejeição. Essa faixa etária tem significativamente mais medo de ser discriminado, sofrer bullying, falar em público, já que estão sempre protegidos pelo contato virtual. É nesse contexto que a empatia se mostra poderosa. Imagine o impacto da empatia sobre o bullying se a criança ou o adolescente for capaz de entender como pode machucar o colega ao dizer algo sem pensar. Ao invés de “eu sou” teríamos o “você é, logo sou”.

Segundo o filósofo Roman Krznaric, é nesse contexto que a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação que vivenciamos, surge como um poderoso antídoto, capaz de promover uma revolução das relações humanas. E a boa notícia é que o ser humano está fisicamente equipado para a empatia e até mesmo crianças de três anos são capazes de sair de si mesmas e ver a partir das perspectivas de outras pessoas.

Mas, os circuitos da empatia precisam ser acionados. E estão sendo, desde a infância!

Estudo com crianças brasileiras de 6 a 9 anos, das classes ABC, com acesso digital, mostrou a partir das ações e reações a algumas situações, que apenas 0,8% não são capazes de empatizar. Ufa! Mas, há 20% que são pouco empáticas e apenas a minoria, cerca de 1/3, são crianças que tem os seus circuitos empáticos genuinamente acionados. São crianças capazes de dividir um brinquedo com alguém que está vendo pela primeira vez, de apoiar ou defender um colega e de ficar feliz pelo outro.

Não empáticos
1%
Pouco empáticos
20%
Simpáticos
49%
Empáticos
30%

Pouco empáticos = ficam feliz com a tristeza do outro (mas não só) /// Simpáticos = elogiam o outro; superam desentendimentos; mais legais do que empáticos /// Empáticos = divide (brinquedos/brincadeiras), apoia quando o outro está em dificuldade e fica feliz pelo outro; realmente se coloca no lugar do outro.
Fonte: Estudo sobre Colaboração infantil – 2018 com crianças de 6 a 9 anos, das classes ABC, em todo Brasil, com exceção da região norte

O efeito da empatia e seu potencial é claro: crianças empáticas são menos preconceituosas.

Num exercício de associação de profissões –médico, astronauta, policial, chefe de cozinha ou quem cuida do lar -- a ícones que representavam homens e mulheres e raças/cores diferentes (preta, parda ou branca), vimos que crianças empáticas são as que mais avaliam que não importa o gênero ou a raça/cor, qualquer que seja a profissão.

% de crianças que responde:

Profissão: médico.

"Tanto faz, homem ou mulher"

67 %

Crianças empáticas 

61 %

Crianças simpáticas 

49 %

Crianças não ou pouco empáticas 

"Tanto faz, raça ou cor"

53 %

Crianças empáticas 

50 %

Crianças simpáticas 

38 %

Crianças não ou pouco empáticas 

Fonte: Estudo sobre Colaboração infantil – 2018 com crianças de 6 a 9 anos, das classes ABC, em todo Brasil, com exceção da região norte

Profissão: astronauta.

"Tanto faz, homem ou mulher"

48 %

Crianças empáticas 

42 %

Crianças simpáticas 

35 %

Crianças não ou pouco empáticas 

"Tanto faz, raça ou cor"

52 %

Crianças empáticas 

50 %

Crianças simpáticas 

36 %

Crianças não ou pouco empáticas 

Cardápio mais variado de brincadeiras permite experimentar riqueza maior de vivências.

Uma característica diferenciadora das crianças empáticas foi o gosto por brincar com uma variedade maior de brinquedos, incluindo brinquedos mais lúdicos. Evidência de que expor as crianças a uma gama maior de brincadeiras, estimulando-as a gostar de um cardápio maior é um caminho. Ao brincar de desenhar, de herói, com blocos, massinhas, carrinhos ou jogos, a criança está naturalmente sendo estimulada a imaginar personagens variados, situações diversas e com isso está exercitando a capacidade de estar no lugar do outro. Afinal, o que é ser um super-herói que salva as pessoas do mal?

o que mais gosta de brincar (em %)

Desenhar, pintar:

Não ou pouco empáticos
18%
Simpáticos
22%
Empáticos
30%

Boneco tipo herói:

Não ou pouco empáticos
20%
Simpáticos
26%
Empáticos
38%

Blocos, Lego, Playmobil:

Não ou pouco empáticos
21%
Simpáticos
32%
Empáticos
31%

Massinha, argila, slime, sucata:

Não ou pouco empáticos
27%
Simpáticos
28%
Empáticos
36%

Carrinho:

Não ou pouco empáticos
29%
Simpáticos
33%
Empáticos
45%

Jogos em geral (tabuleiros, quebra-cabeça, entre outros):

Não ou pouco empáticos
34%
Simpáticos
37%
Empáticos
47%

Variar é incluir também os eletrônicos.
Crianças mais empáticas também morrem de amores pelos eletrônicos. Aliás, são as que mais gostam desse tipo de brinquedo. A mensagem é: que não seja o único, mesmo que seja o mais atraente!

O que mais gosta de brincar (em %).

Tablets / smartphones:

Não ou pouco empáticos
45%
Simpáticos
45%
Empáticos
54%

Videogames:

Não ou pouco empáticos
60%
Simpáticos
75%
Empáticos
72%

O estilo de vida dos “favorecidos” dificulta o empatizar.

A menor presença de crianças empáticas nas classes mais altas, brancas e urbanas (que moram nas capitais) pode ser explicada pelo ponto em comum entre as crianças com esse perfil: uma vida mais controlada, superprotegida, fruto de uma preocupação maior com a violência urbana. Um cotidiano mais acentuadamente dentro da bolha, que limita a exposição à diversidade de pessoas, situações, que ensinam o que é viver.

Onde a empatia está menor?
Crianças que em muitas vezes ficaram felizes com a tristeza de um amigo/colega (em %):

43% são de classes AB (contra 33% no total)
57% são brancas (contra 53% no total)
59% moradores da capital (contra 48% no total)

Os circuitos empáticos precisam ser ativados desde a infância, quando se aprende a ser cidadão, a enxergar, entender e relacionar com todas as pessoas e o mundo. Parece não há receita melhor do que deixar as crianças viverem e brincarem, estimulando a diversidade nas suas relações e atividades.

Karla Mendes, Quantas | Formada em estatística pela UFMG, mestre em estatística pela Unicamp, atua há mais de 30 anos como pesquisadora, decodificando comportamentos, hábitos, coração e a mente das pessoas para ajudar a conectar marcas e pessoas. Com passagens pela A.C. Nielsen, Datafolha, onde aprimorou seu conhecimento sobre metodologias e diferentes mercados, em 1997 foi convidada a criar a área de inteligência de mercado da Globosat complementando sua experiência como usuária de informação nas tomadas de decisão. Há 17 anos criou a Quantas, instituto especializado em pesquisas quantitativas.

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