“Uma mulher negra diz que ela é uma mulher negra.
Uma mulher branca diz que ela é uma mulher.
Um homem branco diz que ele é uma pessoa.”

 

A declaração – que muito revela sobre a necessidade de se falar em raça quando se fala em gênero é da escritora portuguesa Grada Kilomba.

Quando criança, eu amava brincar de escritório. Separava as folhas de papel em branco, meia dúzia de carimbos e um telefone de brinquedo. Passava horas assim. Atendendo ligações, “negociando contratos”, minha mãe contava. Na minha cabeça eu era uma mulher de negócios como se dizia nos filmes da sessão da tarde da época, do quais negócios exatamente não sabia, mas era uma mulher de negócios.

Hoje, 30 anos depois, as folhas de papel já não estão mais em branco, os sonhos de futuro mudaram e apesar do escritório não ser mais uma brincadeira, confesso ainda me divertir com os carimbos coloridos.

Já escrevi em outras oportunidades como os anos 80 foram cruéis com a autoestima das meninas negras. Eram mínimas as referências de sucesso possíveis e poucas ou nenhuma delas ocupava esse lugar que eu tanto sonhava. Mas hoje escrevendo essa lista, com muito carinho, vejo que avançamos. Menos do que poderíamos, mas avançamos.  São muitas as mulheres que me inspiram. E muitas são negras.

Antes de ir efetivamente para a lista das mulheres que admiro profissionalmente, uma lembrança: continua sendo fundamental não esquecermos, nós mulheres negras, que podemos e devemos ser tudo aquilo que sonharmos ser, mesmo que esses lugares nunca tenham sido ocupados, mesmo que sejamos as primeiras, mesmo que sejamos as únicas.

Afinal se “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela” como afirma Angela Davis, é passada a hora de movimentos mais justos e igualitários.

MICHELLE OBAMA

Impossível começar qualquer lista sobre mulheres em 2020 sem reverenciar Michelle Obama, advogada, ativista, escritora e oficialmente a mulher mais admirada do mundo.

Me lembro com o coração em festa a emoção em vê-la entrando pela primeira vez na Casa Branca. Ninguém antes havia vestido o mesmo traje. O de primeira-dama dos Estados Unidos estava desenhado para mulheres brancas. E nunca havia sido usado por uma mulher negra até que Michelle Obama o vestiu em janeiro de 2009.

Muito sempre se fala sobre sua posição como ex-primeira dama, mas o que mais admiro em Michelle é sua capacidade de liderança inspiradora, diante do propósito de empreender com impacto social. Acredito fielmente que essa mulher ainda fará maiores revoluções nesse tempo e estou ansiosa para colaborar com ela seja qual for a forma.

Para fechar, um trecho do seu incrível livro, dos preferidos, com qual tanto me identifico e me serve de companhia a ânimo em dias difíceis:

"Era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa. Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudantes e até de certos professores, como se quisessem dizer: “Eu sei por que você está aqui”. Esses momentos eram desanimadores, embora eu tenha certeza de que parte deles era apenas frutos da minha imaginação. Eles plantavam em mim uma semente de insegurança. Será que eu estava ali apenas como parte de um experimento social?"

BOZOMA SAINT JOHN

Bozoma Saint John é única, mesmo. Nada nela é discreto. Brilha por dentro e por fora. Usa laces maravilhosas, unhas que são obras de arte. Dona das melhores caras e bocas, parece saída de um filme americano com aquele jeito de falar enquanto mexe a cabeça.

Americana, nasceu em Connecticut e morou em Gana, país natal de seus pais na África. Começou sua carreira em marketing e relações públicas em Nova York, trabalhou na DDB, a agência de publicidade de Spike Lee. Passou pela Apple onde tem campanhas celebradíssimas antes de ser contratada pelo Uber com o desafio de recuperar a imagem da empresa, abalada depois de uma série de escândalos envolvendo relatos de discriminação e assédio sexual.

Um ano depois, a executiva está na Endeavor, como Chief Marketing Officer (CMO).

Apaixonadas por entretenimento, por campanhas com propósito, Bozoma é uma mulher grande, potente.  De uma forma pretensiosa, acho que nossas carreiras e personalidades tem pontos em comum. Não sou das mais discretas também e acho ser uma das pessoas mais careteiras do mundo corporativo.

Mulheres como Bozoma se bem que não carregam apenas a responsabilidade de ser uma profissional talentosa, como diz Nina Silva - outra mulher do mundo corporativo que admiro. Mulheres negras líderes carregam consigo a responsabilidade de criar legado para as próximas que virão.

MAFOANE ODARA

Mafoane Odara é psicóloga e mestre em Psicologia do Departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo. Gerente do Instituto Avon e lidera as iniciativas de enfrentamento às violências contra as mulheres e meninas.

Mafoane integra a Rede pela Diversidade da Avon, o Conselho de Administração do Fundo Brasil de Direitos Humanos, a Rede de Líderes Políticos da RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade) e o “Movimento Agora!”.

Pesquisadora e especialista nas áreas de direitos humanos. Tem se dedicado ao apoio e aprimoramento de iniciativas sociais e políticas públicas relacionadas ao enfrentamento das violências de gênero e das desigualdades, a consolidação de programas empresariais de diversidade e direitos humanos e ao fortalecimento das mulheres na política institucional. Além das líderes mais gentis e dedicadas com quem tive o prazer de trabalhar.

MELANIE BOULDEN

Melanie Boulden atualmente é President and General Manager da Coca-Cola President, Venturing and Emerging Brands.

Filha de um funcionário do governo federal cujo trabalho exigia muitas mudanças, Melanie Boulden cresceu em vários lugares - passeando pelo Colorado, Oklahoma, Nova York, Kentucky e Carolina do Norte o que diz justificar sua capacidade de adaptação.

Executiva experiente, sua carreira incluiu passagens pela Meredith Corp., Kraft Foods, Henkel Corp. e, mais recentemente, Reebok como chefe global de marketing e gerenciamento de marcas.

"O melhor do marketing hoje é que você sabe instantaneamente se o seu trabalho está repercutindo nos consumidores", diz ela. E eu concordo.

AZANIA ANDREWS

Azania Andrews é VP, Connections na Anheuser-Busch, empresa multinacional de bebidas e cervejas formada em 2004 pela fusão da belga Interbrew e da brasileira Ambev.

Azania não é tímida ao discutir suas ambições de carreira. "Espero ser uma CMO algum dia", diz o vice-presidente de marketing da Michelob Ultra. E deve chegar lá em breve.

Contratada pelo grupo WPP em 2013, ela começou na cervejaria como diretora de estratégia digital em 2011 e se mudou para a Ultra no final de 2016 onde supervisionou vários programas de inovação e marketing que levaram a cerveja light a novos patamares. E merece muitos aplausos por sua atuação na Anheuser-Busch InBev.

RACHEL O. MAIA

Rachel O. Maia é atualmente CEO da Lacoste S.A. (Brasil). Como CEO e mulher negra, ela representa menos de 1% dos CEOs do Brasil e serve de inspiração para muitas mulheres negras na América Latina.

Rachel é formada em contabilidade pelo Centro Universitário FMU e possui MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Rachel também concluiu cursos em Negociação e Liderança por meio do Programa de Educação Executiva da Harvard Business School e treinamento em gestão geral na Universidade de Victoria, na Colômbia Britânica, Canadá.

Rachel é mentora de inúmeras mulheres e dedica seu tempo ao impacto social, tendo se voluntariado por 8 anos para famílias carentes em muitas das regiões do Brasil.

Rachel fundou recentemente uma organização sem fins lucrativos, CAPACITA-ME, que capacita estudantes e profissionais de comunidades carentes de São Paulo.

SHEEREEN MILLER-RUSSELL

Sheereen Miller-Russell é vice-presidente do grupo OWN: The Oprah Winfrey Network responsável pela área de vendas de anúncios e parcerias para públicos multiculturais e de inclusão.

Sheereen tem um cargo bastante robusto mas no fim do dia, o seu trabalho é bem simples. Tudo o que ela tem que fazer, dia após dia, é mudar o mundo. Miller-Russell colabora com mas principais agências de publicidade e marcas que desejam encontrar sua voz com os consumidores que cada vez mais esperam que as marcas tenham algum tipo de bússola moral.

Na prática, isso significa trabalhar com, entre outros, a Procter & Gamble em sua campanha de preconceito cultural, "The Talk"; uma força-tarefa de saúde e bem-estar para WW (anteriormente Vigilantes do Peso) sob medida para mulheres negras; e a campanha "Dreaming Fearlessly" da American Family Insurance para enfrentar a fome e a falta de moradia e inspirar esperança nas comunidades desafiadas.

Sua carreira conta com 10 anos na Viacom onde chegou a Vice-Presidente de vendas. Ela também trabalhou com a Associação de anunciantes nacionais e a iniciativa #SeeHer para ajudar os profissionais de marketing a descobrir como evitar pontos cegos e suposições errôneas ao abordar mulheres negras.

OPRAH WINFREY

Oprah Winfrey é uma apresentadora de TV norte-americana, vencedora de diversos prêmios Emmy, com grande sucesso com o programa The Oprah Winfrey Show que foi ao ar por 25 anos e bateu recordes de audiência nos EUA.

Empresária de sucesso, escritora best-seller, dona de revista, dona do seu próprio canal de televisão o "The Oprah Winfrey Network”, atriz premiada, ela é a mulher mais poderosa da televisão americana.

Para se ter uma ideia, de acordo com a Forbes, Oprah é a única negra dentre as 70 mulheres mais poderosas do mundo. Ela ocupa a 20ª posição do ranking e, depois de Oprha, Shonda Rhimes é a negra mais bem posicionada, estando em 74º lugar. Já na lista das mulheres mais ricas dos EUA – dentre as que fizeram fortuna por conta própria -, Oprah é a única negra a ocupar uma das 25 primeiras posições – estando em 6º lugar atualmente. Foi também a primeira mulher negra que me fez entender que dá sim para tem uma carreira de sucesso e com propósito real, na prática.

Além disso, Oprah também é extremamente dedicada a projetos de caridade e, em 2012, ela chegou a conquistar o prêmio Jean Hersholt, um Oscar honorário dado a quem se destaca em causas humanitárias. De acordo com a Forbes, ela já doou impressionantes 425 milhões de dólares para filantropia até hoje.

Arte sobre foto: Yuanna Souza /  Imagens: iStock by Getty Images /  Texto: Samantha Almeida

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