Questões econômicas, políticas e religiosas sempre influenciaram os relacionamentos humanos. Hoje, impactados pela 4ª revolução industrial, grande parte da população mundial tem o celular como principal recurso para estar em contato com outras pessoas – seja no âmbito profissional, familiar ou afetivo. Para muitos, a busca de um parceiro para uma noite ou para a vida inteira também acontece a partir das telas, com as pessoas se apresentando ao mundo através de fotos e um texto autodescritivo.

Essa maneira de conhecer pessoas vem se consolidando com rapidez no Brasil. Já somos um dos países com o maior número usuários nos aplicativos de relacionamento.

Fonte: Pesquisa encomendada pelo Happn em 2018

Fonte: Pesquisa encomendada pelo Happn em 2018

Fonte: Pesquisa encomendada em 2018 pelo Match Group, empresa que desenvolve aplicativos de nicho (por exemplo para evangélicos e pais e mães solteiros)

Quais as influências da tecnologia nos relacionamentos contemporâneos?

Luc Ferry, renomado filósofo francês contemporâneo, afirma em seu livro "Revolução do Amor: Por Uma Espiritualidade Laica" que a globalização desencadeou no indivíduo um processo de alienação que valoriza a indiferença ao outro, a preocupação consigo, o hedonismo e o lúdico. O artigo “Teenage Mutants” do Copenhagen Institute For Future Studies reforça os pensamentos de Ferry, declarando que os jovens de hoje têm um comportamento cada vez mais individualizado, muito em função do acesso à tecnologia: "Com as mídias sociais tendo, aparentemente, deslocado a socialização da vida real, o adolescente hoje quase não sai, nem mesmo nos fins de semana.” O artigo aponta, inclusive, que isso pode ser um dos fatores que explicam a menor atividade sexual dos jovens, comparativamente com gerações anteriores.

Fonte: Pesquisa do Copenhagen Institute For Future Studies

Se o ambiente em rede tende a deixar as pessoas menos dispostas ao contato físico, o conteúdo disseminado na rede pode ainda trazer outras consequências. No livro "Manhood: The Bare Reality”, da fotógrafa Laura Dodsworth, um homem relata como se tornou viciado em pornografia e, estando refém dessa prática, teve problemas nas suas relações sexuais em decorrência dos padrões estimulados naquele conteúdo.

“Gostaria de conseguir ter orgasmo com sexo mais gentil. Ainda tem de ser um pouco mais rápido do que eu gostaria. Ainda tenho problemas em gozar quando sou eu quem estou me mexendo e não estou deitado. Acho que é porque quando estou vendo pornô fico encostado e parado.”

Anônimo, 20 anos, participante do livro "Manhood: The Bare Reality”

Esse contexto de isolamento e dificuldade de relacionamento pode desencadear alterações emocionais que, muitas vezes, são reforçadas nos próprios aplicativos de encontros. William Elder, pesquisador de trauma sexual e psicólogo, declara no artigo "A Epidemia da Solidão Gay” que os apps de relacionamento, e principalmente aqueles destinados ao público gay, são desenvolvidos para destacar pensamentos negativos sobre si mesmo. Durante sua pesquisa, Elder identificou que:

“90% dos participantes disseram buscar um parceiro alto, jovem, branco, musculoso e masculino. Para a grande maioria de nós – que mal cumprimos um único desses critérios, muito menos todos os cinco – os aplicativos são apenas uma garantia de nos sentirmos feios.”

“Tem horas que quero me sentir desejado, então entro no Grindr. Coloco uma foto minha sem camisa e começo a receber essas mensagens dizendo que sou gostoso. É bom naquele momento, mas nunca dá em nada.”

Paul, participante da pesquisa do psicólogo William Elder

O Tinder, talvez o aplicativo de relacionamentos mais utilizado no mundo, lançou em outubro de 2019 nos Estados Unidos a série Swipe Night, uma ficção interativa direcionada à GenZ (jovens de até 24 anos). Nela, os seus usuários poderão definir como a narrativa vai sendo contada, ao passo que suas escolhas poderão impactar na interação com seus matches. Para a diretora da série, Karena Evans, os jovens desejam conexões mais profundas, e ela acredita que Swipe Night é uma resposta a essa necessidade. Curiosamente, o trailer oficial da série apresenta uma sequência de pessoas sozinhas e a lógica de disseminação do conteúdo pode resultar em um afastamento entre os usuários do aplicativo.

A tecnologia nos trouxe uma grande oportunidade de ampliarmos o diálogo com outras pessoas, ao mesmo tempo em que estimula o isolamento. Ainda que existam questões comportamentais nocivas potencializadas nos meios digitais, não se pode afirmar que exista um efeito único e direto de causa-consequência. Entre relacionamentos virtuais e reais, o desafio parece ser tão humano quanto tecnológico.

Seguiremos em mutação, reconfigurando relações e, se nós humanos temos o desafio de utilizar os recursos disponíveis de maneira mais saudável, a tecnologia tem o dever de desenvolver novas ferramentas que potencializem o que temos de melhor: o poder de relacionar-se.

Arte: Gabriela Costa / Imagens: iStock by Getty Images e Flat Icon / Texto: Fábio Vieira de Oliveira

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