Os blocos de rua durante o carnaval fazem com que descubramos e redescubramos a cidade acompanhados de música, dança e alegria. É uma maneira única de experienciar o espaço público e, mais importante, ocupá-lo. O aumento ano após ano dos blocos traduz uma vontade de utilizar os espaços públicos de forma mais interativa por parte da população, ajudando a construir uma maior noção democrática de coletividade, pertencimento e comunidade local.

A partir disso fazemos dois questionamentos:

Afinal, como os brasileiros veem e sentem essa ocupação do espaço público durante o carnaval?

E o que o crescimento dessa ocupação revela sobre as mudanças recentes na nossa cultura?

Bloco Tarado Ni Você em São Paulo
Foto: Giselle Galvão

Os habitantes das grandes capitais brasileiras estão acostumados a uma automaticidade do dia a dia, com olhar genérico aos prédios e ruas que os cercam e pelos quais passam diariamente. Além disso, a configuração urbana sempre privilegia automóveis, deixando muitas vezes o pedestre desamparado. O carnaval de rua permite reverter essa realidade: deixa o ambiente urbano mais encantador e perceptível, assim como prioriza os andantes.

Em entrevista com foliões em São Paulo, a Casa Vogue obteve interessantes relatos:

"Acho que essa é coisa mais bonita que aconteceu nos últimos anos no carnaval de São Paulo: durante 4 dias, a primazia dos veículos é rompida e o ser humano volta a ser prioridade. A cidade se organiza para que ele ande com segurança e possa passar pelo meio da Avenida 23 de maio (bem no meio da rua mesmo e não espremido na calçada que às vezes é só meio-fio)"
Carolina Langbeck Osse, 28, advogada
"No dia a dia estou acostumada a passar pela cidade de forma genérica. Tudo é tão automático que não me atento a alguns detalhes. Quando vou para o bloco o contexto é totalmente outro. Vou para lugares diferentes dos habituais, vejo muita gente e muita alegria. É como conhecer uma nova cidade."
Stefani Sousa, 20 anos, estudante de jornalismo
"Antes não parecia que seria legal ficar na cidade, mas de uns anos para cá, começou a ter um movimento forte de bloquinhos e isso fez com que as pessoas se interessassem mais pelo carnaval de São Paulo e também com que a cidade se preparasse melhor para ele."
Nina França, 27 anos, headhunter

Essa presença urbana mais ativa permite um ponto crítico acerca da própria cidade, bairros e habitantes, podendo até mesmo remodelar o espaço público, conceitual e fisicamente. A força do carnaval nesse aspecto urbano se evidencia pelo grande público que atrai às ruas: em São Paulo, estão previstas 15 milhões de pessoas para este ano, já no Rio, o número de foliões esperado é de 7 milhões. Poucos eventos podem ser comparados em questão de público: a Virada Cultural e a Virada Sustentável em São Paulo e as Passeatas do Orgulho LGBT nas duas capitais são uns dos poucos exemplos.

A maior presença da população nas ruas também evidencia uma série de falhas em projetos urbanos. Esse não é um fato negativo, já que é a partir da dinâmica entre o indivíduo e o espaço público que melhorias são possíveis.

"Existe hoje uma tendência de utilização dos espaços de forma interativa. O carnaval de rua é um reflexo dessa vontade, e isso é muito bom para os cidadãos. A cidade ocupada pelas pessoas é o que a gente sempre deseja. É assim que se constrói uma convivência maior no bairro e cria-se um espírito de vizinhança. Mais do que isso, as festas de rua ainda evidenciam algumas questões básicas que precisam ser solucionadas e, às vezes, são esquecidas. Como a ausência de banheiros e bebedouros públicos, por exemplo, ou a necessidade de planejar espaços para uma multiplicidade de usos, de acordo com a hora e época do ano. Uma rua não é apenas para os carros."
Newton Massafumi, arquiteto e professor de Urbanismo da Escola da Cidade
“O carnaval quebra essa barreira tênue de pertencimento e alimenta os vínculos afetivos com os lugares. A festa lembra que a cidade não é só espaço de passagem.”
Gabriela Fávero, sócia do escritório Bloco B

Boi Tolo nos Arcos da Lapa
Foto: Márcia Foletto

Além das cobranças sobre maiores e melhores estruturas de serviços básicos nos espaços públicos e ligação afetiva com a cidade, o carnaval é moldado e ajuda a moldar a própria cultura das cidades e das dinâmicas públicas. Como afirma Ana Paula Baltazar, professora do Departamento de Arquitetura da UFMG, o carnaval é o descontrole dos espaços públicos, pois promove diversos sentimentos e vivências.

“Mais gente na rua significa mais segurança, logo, mais pertencimento. Sentir-se confortável no seu espaço. São essas ocupações e festas que contribuem para a identidade cultural de uma cidade."
Ana Paula Baltazar

Ser um fator determinante da cultura urbana – e assim também moldado por ela – explica as tantas mudanças ao passar dos anos na forma de celebrar o carnaval nas ruas. Ele é um evento vivo e que precisa se reinventar em resposta às alterações da cultura urbana.

“Ao longo desses últimos 20 anos, é visível o fato de que são os foliões que, espontaneamente, procuram saídas criativas para uma homogeneização da festa [...] Também parte espontaneamente dos foliões a proposta de repensar o caráter da festa e seus aspectos problemáticos. Um exemplo evidente é como se desenhou, nos últimos anos, uma resistência ao machismo no Carnaval.”
Organizadores do bloco Mini Seres do Mar, do Rio de Janeiro, em entrevista à Plataforma de Estudos do Carnaval da ESPM Rio

O carnaval é o movimento de conquista do espaço urbano em todos os seus âmbitos: físico; cultural; social; e conceitual. O nosso modo de celebrar esse feriado diz muito sobre a construção histórica das nossas vidas nas cidades, com seus devidos recortes geográficos e, consequentemente, dos estilos de vida presentes nestes recortes. É um complexo barômetro sociocultural e catalisador de mudanças criativas nesse mesmo ambiente.

Como afirma o professor e historiador Luiz Antonio Simas, especialista em carnaval, ao contrário do que o senso comum pensa, o carnaval de rua não é alienado. É uma festa de caráter político que vai contra a ordem de disciplinar o espaço público. Alessandro Dozena, geógrafo e professor da UFRN, também possui essa visão e também diz que a diversão do carnaval se constitui como um contraponto ao artificialismo da realidade a partir do uso dos territórios públicos.

A valorização do público em detrimento do privado se mostra uma característica cada vez mais marcante do carnaval brasileiro a partir do aumento dos blocos de rua. Pode-se afirmar que é uma resposta natural da população que, nesse feriado, permite-se redescobrir e reinventar seus dias e entornos de forma conjunta e em nome da diversão.

Porém, uma coisa é certa: o carnaval começa a ecoar o ano inteiro sobre um maior sentimento de pertencimento à cidade e do poder que a população tem de ocupá-la e moldá-la à sua vontade, exaltando seu caráter democrático.

"Ninguém participa do carnaval para assistir o bloco passar, mas para participar dele, para somar. Nesse momento, é o coletivo que importa para o samba.”
Itaercio Rocha, fundador do Garibaldis e Sacis, tradicional bloco de Curitiba

Arte e ilustrações: Jordana Leite / Imagem: FG Trade / Texto: Gustavo Kievel

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