O debate sobre diversidade e inclusão nos esportes está chegando aos bancos dos treinadores de futebol. Como um dos reflexos da reconstrução da identidade esportiva das pessoas e da luta de movimentos desejosos de participar amplamente do esporte mais popular do país, surgem no horizonte discussões a respeito da falta de diversidade racial entre os treinadores de futebol no Brasil e propostas que visam a uma possível mudança de consciência.

Dentro das quatro linhas, a presença de jogadores negros é comum. No Brasil, país do futebol, onde 53% da população se autodeclarou preto ou pardo no último censo do IBGE de 2010, essa presença em campo, contudo, não corresponde a uma representatividade equivalente nos quadros de treinadores, nos quais ainda são maioria os treinadores brancos.

No Campeonato Brasileiro, Roger Machado, do Bahia, é o único treinador negro no comando de um time de elite, entre as 20 equipes que disputam a primeira divisão. Já a seleção brasileira, com cinco títulos conquistados, só teve à frente de suas equipes homens brancos em toda a história dos Mundiais, apesar de contar, ao longo de sua trajetória, com craques como Pelé, Garrincha e Romário. Se considerarmos amistosos ou competições menores, o Brasil só teve um treinador negro em seis oportunidades.

Este cenário, porém, não se limita ao Brasil. Na Copa do Mundo 2018, quase todos os treinadores das 32 seleções que participaram do torneio eram brancos. Nesse grupo, havia apenas um treinador negro: Aliou Cissé, no comando da equipe senegalesa. À parte dessa posição solitária, Cissé também foi o técnico com o menor salário anual entre todos os treinadores que participaram da competição. No ano do torneio, enquanto Cissé recebia cerca de R$ 850 mil por ano, Tite ganhava cerca de R$ 14,5 milhões.

Em levantamento sobre as disparidades raciais no maior evento do esporte mundial, a Alma Preta, agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil, juntamente com o site Intercept Brasil fizeram um levantamento a respeito dos treinadores da Copa e da falta de pluralidade racial entre eles:

Eventos mais recentes, como a Copa América, disputada no Brasil, e a Copa do Mundo de Futebol Feminino, realizada na França, também trouxeram à tona a discussão sobre inclusão e representatividade nos quadros de treinadores e de jogadores em campo. 

A Copa América 2019, que não contou com nenhum treinador negro entre as 12 seleções participantes, apesar de celebrar o centenário do primeiro título da seleção brasileira na competição, trouxe na esteira a lembrança do veto à convocação de jogadores negros ocorrido em 1921. Esse episódio permanece como uma herança infame do racismo institucional que marcou o futebol brasileiro no século passado e que até hoje influencia a marginalização dos negros no esporte.  

Já no Mundial feminino, das 24 seleções participantes, apenas três tinham no comando treinadores negros. Além disso, em países como os Estados Unidos, cuja seleção era majoritariamente branca, o debate sobre a inclusão de jogadoras negras ganhou destaque, colocando em pauta as barreiras sociais e econômicas que impedem o equilíbrio de oportunidades com base na questão racial. Em oposição, a seleção francesa ganhou destaque ao incluir no seu quadro de jogadoras uma maior representação da pluralidade de culturas do país.

No caso da Copa de Futebol Feminino, além do desequilíbrio racial, a própria disparidade de gênero se somou ao debate sobre como tornar o futebol mais inclusivo e democrático entre homens e mulheres, independentemente da cor da pele. Essa desigualdade é observada, por exemplo, na própria premiação do torneio: o prêmio para a seleção vencedora dos Estados Unidos foi de US$ 4 milhões, ao passo que a seleção masculina francesa, vencedora do mundial de 2018, recebeu US$ 38 milhões à época.

DENTRO E FORA DO CAMPO

Mas se a noção de que o desempenho dos atletas independe de questões como etnia ou nacionalidade, por que na outra ponta, a dos treinadores, não há a mesma correspondência? Neste caso, o racismo ainda é apontado como principal razão para a ausência de negros em posições de liderança estratégica, tanto nos esportes como na sociedade em geral. Segundo dados de 2017 do Instituto Ethos e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, apenas 10% dos chefes (gerentes ou executivos do alto escalão) eram negros no quadro de funcionários e cargos das 500 maiores empresas do Brasil, ocupando a maior parte apenas das vagas para trainees e aprendizes.

Essa disparidade demonstra que, ao limitar a presença de jogadores negros como força física dentro de campo, mas excluindo-os das posições estratégicas no comando dos times, permanece o preconceito de que eles servem para jogar, mas não para pensar sobre técnicas futebolísticas. Nesse sentido, a desigualdade no esporte está intimamente ligada à desigualdade na sociedade, uma vez que certos grupos ainda são considerados mais importantes e detentores de direitos do que outros.

Embora dentro de campo não faltem jogadores negros, fora dele ainda são os homens brancos que assumem as posições de liderança.

No entanto, começam a surgir iniciativas que buscam justamente apontar e monitorar não somente a desigualdade, mas casos de racismo e intolerância no futebol, buscando estimular mudanças de conscientização do público. No Brasil, esses grupos têm criado espaços para debates sobre respeito à diversidade, fortalecendo a agenda de direitos humanos, além de questionar cânones futebolísticos. Nesse sentido, foi criado, por exemplo, o Observatório da Discriminação Racial do Futebol, que visa monitorar como os times tratam a questão racial dentro e fora de campo. Entre suas atividades, o Observatório publica relatórios anuais sobre os incidentes classificados como casos de “racismo no futebol” brasileiro, com dados e informações sobre os desdobramentos dos casos, assim como suas respectivas punições aos envolvidos.

Esse monitoramento visa, em última instância, fomentar ideias e buscar sugestões para combater a discriminação. Assim, a desigualdade racial, evidente dentro e fora de campo, impõe-se como mais um desafio na relação que as pessoas estabelecem não somente com o futebol, mas com os esportes em geral. A ampla representatividade é um gol a ser marcado.

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