Os brasileiros são reconhecidos no mundo todo como um povo hospitaleiro, alegre e que sabe se divertir. Todas essas características parecem brilhar ainda mais no período do Carnaval, quando, não somente o país recebe diversos estrangeiros que as testemunham, mas o próprio brasileiro deixa de lado as dificuldades do dia a dia em nome da celebração e divertimento.

É nesse sentido que nos perguntamos: o que de fato transforma o espírito do brasileiro nesse período, e como?

O Carnaval é um momento que vibra o coletivo, onde brincar é mais importante que tudo e a quebra de padrões é natural. Assim, ampliando o estudo Diversão Decodificada, apresentamos aqui os três principais gatilhos que influenciam o divertimento do brasileiro no Carnaval.

WITH
O espírito coletivo do Carnaval

Bloco Filhos de Gil em São Paulo
Foto: Divulgação

O Carnaval faz crescer o espírito coletivo que nos move em direção às grandes massas de foliões no intuito de nos sentirmos mais completos e compartilharmos nossa felicidade com o outro. Através dessa ampliação da empatia e do senso de comunidade, a minha diversão e a diversão do outro são complementares.

Esse sentimento de unidade com o outro é manifestado, por exemplo:
No físico, com o aumento exponencial dos blocos de rua que integram pessoas diversas enquanto protagonistas do Carnaval e com o objetivo maior de se divertirem juntas;
No digital, com o compartilhamento de fotos e vídeos com amigos, familiares e seguidores que testemunhem a diversão do feriado.

Em São Paulo, no ano de 2009, foram somente 8 os blocos que saíram às ruas. Uma década depois, a capital paulista registra um recorde de 865 blocos de rua inscritos para animar os foliões em 2020. São esperados 15 milhões de pessoas durante toda a programação do Carnaval em São Paulo. No Rio de Janeiro, capital que tem o Carnaval como característica, são esperados 7 milhões.

Esses dados mostram que cada vez mais pessoas aderem ao Carnaval como uma maneira de se conectarem a amigos e com todos à sua volta, deixando de lado qualquer formalidade do dia a dia. O aumento do público também é um indicativo de forte união dos brasileiros na mesma direção:  um momento de extravasar a imaginação, projetar fantasias e estar com quem se gosta.

O Carnaval é a oportunidade de se reunir com conhecidos e desconhecidos em prol da diversão e felicidade do coletivo. E os blocos de rua evidenciam isso: o Carnaval é democrático e inclusivo, a diversão é para todos.

No momento em que os foliões saem para as ruas para pular nos blocos, a conexão vai além: milhares de status, fotos e vídeos são compartilhados nas redes sociais. A diversão toma forma digital e viaja qualquer distância celebrando as fantasias e as músicas para todas as pessoas além dos blocos.

De acordo com o estudo sobre o Carnaval 2019 da Sprinklr, o total de menções ao Carnaval nas redes sociais foi de 6,570,522 e houveram 432 mil posts a mais – entre fotos, vídeos e tweets – que a média de postagens diárias.

As hashtags são ferramentas muito usadas para identificar assuntos que podem despertar o interesse em outros usuários. O uso das hashtags no Instagram demonstram caráter muito mais emocional, atrelado aos posts imagéticos; já no Twitter, as hashtags possuem vieses mais opinativos, inseridas em uma esfera política que é cada vez mais abordada pelos blocos de Carnaval.

Hashtags Instagram

Total de menções:
814,9K

20.9% (170.3K) - #CARNAVAL

10.9% (89K) - #CARNAVAL2019

4.5% (37K) - #RIODEJANEIRO

3.9% (31.7K) - #BRASIL

2.7% (22.2K) - #ALEGRIA

2.7% (22.1K) - #LOVE

2.6% (20.8K) - #FOLIA

2.3% (18.4K) - #AMOR

49.5% (403.3K) - OUTRAS

Hashtags Twitter

19.3% (105.6K) - #CARNAVAL2019

9.6% (52.4K) - #CARNAVAL

8.2% (45K) - #EIBOLSONAROVAITO…

7.6% (41.8K) - #GLOBELEZA

6.3% (34.7K) - #BOLSONAROTEMR…

6.2% (33.7K) - #IMPEACHMENTB…

2.7% (14.9K) - #EIBOLSONAROVAIT…

2% (11.2K) - #CARNAVALSP

38.1% (173.7K) - OUTRAS

Os emojis mais usados durante o Carnaval 2019 foram:

Fonte: MindMiners Carnaval 2019

PERMISSÃO PARA BRINCAR

“A brincadeira é a nossa revolução
Quem quiser
Que brinque agora”

Trecho da música Deixa Brincar do Bloco da Laje

Juntamente com o aumento da presença de blocos e de público no Carnaval, as fantasias para comemorar o feriado estão ficando cada vez mais robustas e detalhadas. Esse fato também é influenciado pelos blocos de rua que investem em identidades estéticas e musicais fortes, inspirando seu público.

As fantasias e adereços materializam a atmosfera lúdica do Carnaval: tudo o que os foliões vestem refletem ao máximo o divertimento. Cores vibrantes, tintas, glitters e acessórios dão a oportunidade de vibrar ainda mais a energia do público, o extravagante contribui para a brincadeira que envolve todos. E a brincadeira é a de ser quem ou o que você quer ser, do jeito que lhe fizer mais feliz. 

A permissão para brincar é ainda enfatizada pelos blocos que investem em uma personalidade forte, definindo cores, produzindo suas próprias músicas, clipes e, consequentemente, envolvendo o público em um novo e lúdico universo. É o caso do Bloco da Laje, de Porto Alegre, que em janeiro deste ano levou 20 mil pessoas às ruas que formavam um mar vermelho, azul e amarelo, as cores oficiais do bloco. As músicas originais do Bloco da Laje também deram vida a um álbum visual, chamado “4 Estações”, perpetuando o espírito da saída do bloco através das mídias digitais.


Esses desdobramentos que extrapolam o período do Carnaval revelam o carinho e a valorização que o brasileiro dá ao lúdico e à diversão, trazidos pelos blocos, que se tornaram representações máximas do Carnaval. Ao produzirem materiais fora do período em que saem às ruas, os blocos continuam evocando os sentimentos pelos quais o público prestigia tanto o Carnaval durante o ano inteiro.

PERMISSÃO PARA TRANSGREDIR

Além de do coletivo e do lúdico, o Carnaval é o melhor exemplo de período onde transgressões e quebras de padrões não são somente permitidos, mas incentivados. A desinibição encoraja a experimentação sobre gêneros, corpos e sexualidade. A repressão moral do dia a dia não tem vez durante o feriado. A grande mágica do Carnaval reside nesse fato: é tempo de liberdade, de vivenciar o proibido.

65%
dos foliões concorda que o céu é o limite, podem se vestir como quiserem sem julgamentos;
78%
acreditam que é comum sair de casa com menos roupas no período.
Fonte: MindMiners Carnaval 2019

A quebra de padrões, parte saudável e divertida da cultura do Carnaval, ao mesmo tempo pode flertar com o desrespeito contra minorias sociais. A equipe da Celina, focada em pesquisas sobre minorias da Globo, produziu um artigo sobre fantasias que propagam estereótipos negativos ou se apropriam de culturas e que não devem ser consideradas como alternativas para os carnavais.

Fantasias de índio, muçulmano, cigana, mendigo, entre outras são desrespeitosas porque caracterizam minorias sociais vítimas de preconceitos diários.

Outro fato que chama a atenção é demonstrado por um estudo da MindMiners sobre assédio e bebidas alcoólicas no Carnaval: a sensação de 95% das pessoas é que essa também é uma época que contribui para o aumento do assédio.

Por que o assédio aumenta no Carnaval?

Mulheres

“Aumenta o consumo de bebidas alcoólicas e, portanto, em meio a grandes aglomerações, as pessoas acham que podem tudo.”

“Porque as pessoas, especialmente homens, por verem pessoas com pouca roupa, mais sensuais, e por ser uma grande festa em que as pessoas bebem muito, eles acabam achando que têm liberdade pra beijar as pessoas, mesmo contra suas vontades. Eles devem ter esse mesmo comportamento em outras festas e situações, mas, pelo fato de ser na rua e ter muito mais gente, esses números devem aumentar.”

“Meninas com pouca roupa, homens mal intencionados.”

Homens

“Porque vão muitas mulheres sem roupas e são muitas bebidas e pessoas.”

“Infelizmente, devido à festa, agitação e uso imprudente de bebidas alcoólicas e drogas, se torna mais ‘fácil’ o abuso.”

“Existe muito homem idiota reunido em um só lugar cheio de bebida.”

Fonte: MindMiners Carnaval 2019

É nesse cenário que minorias também se apropriam do poder de transgressão para tentar reverter o assédio e preconceito sofridos. Um exemplo é o Vaca Profana, de Olinda, Pernambuco. O bloco, que desde 2016 sai às ruas, possui o objetivo de reforçar e relembrar a total autonomia feminina para com seu corpo. Quebrar tabus e ajudar a melhorar a autoestima das mulheres. Dandara, criadora do bloco, em entrevista à Hypeness explica que a ideia começou com uma fantasia de Carnaval que ela usou, inspirada na música de Gal e Caetano:

“Fiz uma roupa com textura de vaca, fiquei sem blusa e botei uma máscara. Mas, quando estava andando na rua, fui parada por um policial que me falou que não poderia andar na rua daquele jeito, enquanto vários homens estavam sem blusa. Aí foi o divisor de águas pra entender a falta de poder da mulher sobre o seu próprio corpo.”

Bloco Vaca Profana em Olinda

A transgressão e quebra de padrões é importante para o sentimento de liberdade e para o desejo de experimentar o novo, além de marca característica do Carnaval. Contudo, ela só é saudável e prazerosa se praticada respeitando a todos. Não há dúvida de que esse ponto está mudando na cultura do Carnaval. Comportamentos antes tolerados estão sendo questionados e o tempo de festa também está servindo para conscientização.

O Carnaval é uma festa em constante movimento. Além de apresentar grande crescimento em termos de público, trazendo luz à vontade de união e divertimento do povo brasileiro, é a data para extravasar sentimentos, seja a alegria nas fantasias ou a liberdade de brincar com os limites sociais. É a festa onde o brasileiro grita a sua essência. Que o Carnaval de 2020 reforce o espírito democrático e inclusivo, que as fantasias sejam mais coloridas e brilhantes e que o respeito reine – para a diversão de todos.

Arte: Jordana Leite / Imagem: FG Trade / Texto: Gustavo Kievel

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