O Brasil é reconhecido mundialmente pelo seu carnaval e, por consequência, a alegria dos brasileiros está muito atrelada a essa celebração criativa, popular e diversa. Seja para descanso, lazer ou para as infinitas possibilidades de diversão nos blocos de rua, uma coisa é fato: o carnaval é o período onde os brasileiros liberam a sua imaginação, deixando a seriedade e formalidades de lado. A ordem do feriado é se libertar para experimentar, uma grande festa para se divertir com todos os que querem celebrar a alegria e esquecer, mesmo que momentaneamente, dos estresses e cobranças do dia a dia.

Mas… É nesse cenário que excessos são cometidos.

A cultura machista, racista e preconceituosa do carnaval permitiu uma série de abusos contra mulheres, negros e negras, LGBTQs e outras minorias sociais ao longo do tempo. Felizmente, por iniciativa dos próprios foliões e escolas de samba, essa realidade está mudando. O carnaval está cada vez mais abraçando o empoderamento feminino e adotando um tom mais político e crítico.



Empoderamento Feminino
Não é não

Uma das campanhas mais fortes dos últimos carnavais, intitulada “Não é não”, começou modestamente com a distribuição de 4 mil tatuagens no carnaval do Rio de Janeiro de 2017. Neste ano, a campanha deve atingir 15 estados. O objetivo é a distribuição de 200 mil tatuagens para mulheres marcarem nas suas próprias peles uma mensagem clara e direta: tudo o que vem depois do não é assédio.



Ítala Martina / Divulgação

Aisha Jacob, uma das fundadoras do movimento, decidiu mobilizar suas amigas em um grupo de Whatsapp após ser vítima de assédio. No total, o grupo reuniu 40 mulheres que tomaram a iniciativa de fazer tatuagens temporárias com a mensagem “Não é não” e distribuí-las no carnaval carioca. Hoje em dia, o grupo conta com 38 embaixadoras voluntárias por todo o país para ajudar na distribuição das tatuagens e divulgação da campanha.


Corpos diversos

Na sua terceira edição, o Baile das Sereionas acontece em Belém e oferece um espaço de acolhimento para mulheres e conscientização sobre corpos femininos não padronizados. Além da festa proporcionada pelo baile, há também rodas de conversa sobre gordofobia, pressão estética e corpo livre. O foco é o compartilhamento de experiências positivas de mulheres que sentem no dia a dia a exclusão da gordofobia, mas a partir destas vivências, conseguem subverter a lógica vigente e obter sucesso no ramo plus size e criativo.



Baile das Sereionas / Divulgação

Especialmente no carnaval, o corpo da mulher sempre foi objetificado não somente pelo público masculino, mas também pelas grandes mídias publicitárias. A cerveja Skol veiculou no carnaval de 2015, em todo o país, outdoors com os dizeres “Esqueci o não em casa” e “Topo antes de saber a pergunta”. Após massiva repercussão negativa, as peças foram tiradas de circulação.

A reação do público, mobilizada principalmente via redes sociais, mostra que não são toleradas a objetificação e a falta de respeito com o corpo da mulher.

Na tentativa de se redimir com o público, a Skol veiculou nos anos seguintes mensagens que abraçam a diversidade e o respeito entre todos, como na campanha “Carnaval para todos” de 2017. Em 2018, a marca de cerveja fez uma parceria com a youtuber Jout Jout com dicas para não ser desrespeitoso em nenhuma situação do carnaval.


Como outro exemplo, as campanhas da Globeleza, clássica vinheta veiculada pela Rede Globo, eram caracterizadas pelo corpo da sambista nu, coberto minimamente por tintas e pinturas brilhosas. Em um dos episódio mais negativos da campanha, Nayara Justino, ganhadora do concurso Globeleza 2013, recebeu diversas críticas racistas na internet por ser “negra demais” e acabou por ser dispensada do posto.

Hoje, a campanha da Globeleza celebra a diversidade de corpos, cores, idades, ritmos musicais e estilos de comemorar o carnaval em todo o Brasil. Uma mensagem clara de que a diversão deve ser democrática, inclusiva e respeitosa.




Carnaval Político

O carnaval é uma das festas mais democráticas celebradas no Brasil. Como consequência, é natural que seu contexto proporcione tons políticos nas canções cantadas pelo público nas ruas e grandes sambódromos. Estamos testemunhando uma nova geração de sambistas que, responsáveis pelos samba-enredos de grandes escolas do Rio de Janeiro e São Paulo, estão se posicionando favoráveis à defesa da democracia, diversidade e das minorias sociais. Como explica Marcelo Guedes, coordenador do Observatório do Carnaval da ESPM Rio, houve a conjunção de fatores que proporcionaram esse cenário:

“O primeiro é a criação de um novo grupo de carnavalescos com o perfil totalmente diferente, inovador e altamente politizado. Além disso, outro grande motivador de todo esse processo é o atual momento que vivemos. A recessão, o não acreditar na cultura e no próprio Carnaval com a importância que eles têm em relação a diversos setores sociais e econômicos, e o próprio movimento religioso que hoje reside em nossa cidade leva a busca por enredos desse tipo.”


Desfile da Mangueira em 2019 homenageou Marielle Franco.
Fonte: Pilar Olivares, REUTERS.

O exemplo mais recente de forte tom político foi o desfile da Mangueira em 2019, no Rio de Janeiro. Com o samba-enredo “História para ninar gente grande”, a escola trouxe para o sambódromo personagens que, segundo eles, não ganharam a notoriedade devida na construção da nossa história nacional, como Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares; Luiza Mahin, escravizada que virou referência na luta dos escravos na Bahia; e Sepé Tiaraju, chefe indígena que liderou a Guerra Guaranítica, rebelião em reação à assinatura do Tratado de Madri.

Um dos pontos altos do desfile foi a homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assinada em 2018. Marielle foi, inclusive, incorporada na letra do samba-enredo da escola:

“Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”



Pôster do samba-enredo da Mangueira para 2020
O tom crítico continua em 2020, sendo ainda reforçado pelo maior número de escolas que trarão esse contexto para seus sambas-enredos.

A Salgueiro entra para a lista das escolas de samba com tom político ao cantar um samba-enredo contra o racismo. Com o título “O Rei Negro no Picadeiro”, a letra é inspirada na história de Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil.


“Aqui o negro não sai de cartaz
Se entregar, jamais!”

A realidade do dia a dia dos mais pobres no Rio de Janeiro será o tema da Paraíso do Tuiuti, que classifica a capital carioca como “a cidade das mazelas”. A União da Ilha do Governador também abordará em seu enredo a violência do Estado que recai majoritariamente sobre os mais pobres e negros: “O chumbo trocado, o lenço na mão nessa terra de Deus-dará” canta o enredo.

A lista dos contextos dos enredos deste carnaval ainda passa pela retratação de Jesus Cristo possuindo rosto negro, sangue índio e corpo de mulher, que estará na Mangueira; pela história dos índios, tecendo uma narrativa que remonta à violência dos dias atuais, presente no enredo da Portela; e a Grande Rio abordará a intolerância religiosa com a história do pai de santo Joãozinho da Gomeia.

“Acredito que será um ano extremamente interessante e talvez uma das coisas mais importantes nesse Carnaval será a questão social se sobrepondo ao dinheiro e luxo na avenida.”
Marcelo Guedes

Definitivamente, o carnaval está mudando. Seja nos blocos de rua, onde ecoam as vozes dos mais diversos foliões, ou nos sambódromos que desfilam grandes escolas, representantes de um carnaval mais institucionalizado, a mensagem é a mesma: a diversão e o respeito são para todos.

Arte Jordana Leite / Imagens Mesquita FMS / Texto Gustavo Kievel

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