“Todo mundo nasce nu e o resto é drag”. Com essa máxima, a veterana RuPaul aproxima o universo das drag queens das identidades coletivas construídas desde o berço. Entre perucas, muita maquiagem e figurinos extravagantes, a arte das drags absorve referências, questiona estereótipos de gênero e expande as noções do que significa ser “homem” e “mulher”, sempre partindo de uma minuciosa ilusão do feminino.

Mas como o olhar das mulheres enxerga essa outra forma de apresentação da feminilidade? Além de musas, como elas se relacionam com a transgressão proposta pelas drags?

Depois da estreia do reality show RuPaul’s Drag Race no final dos anos 2000, o universo das drag queens nunca mais foi  o mesmo. Figuras históricas do underground e do ativismo LGBTQIA+, elas invadiram a cultura mainstream sem pedir licença. 

Por trás da montação – o processo de transformação visual das drags – as mensagens de aceitação e empoderamento alcançaram novos públicos, inspirando pessoas de faixas etárias e perfis diversos a experimentarem um pouco do glamour e da ironia característicos desse universo.

Desmond is Amazing ficou famoso como uma das primeiras crianças drag

“Como mulher circulo por um mundo de contenções. Você tem que ser discretamente autossuficiente, discretamente racional, discretamente emotiva, discretamente competente, discretamente sábia, discretamente pau para toda a obra... Então você sente que as drags não estão nem aí para isso – na verdade, estão mais é detonando tudo isso. Você se move num espaço no qual você pode ser – ou até se espera que você seja – um vulcão prestes a entrar em erupção. Para quem vive na contenção, o território do vulcão tem seu fascínio. E a resposta das drags à contenção é um enfático “não”, com muito estrondo, terra tremendo e lava fervente respingando para tudo quanto é lado. O que poderia ser mais libertador do que isso?”

Elisabeth Priestley, jornalista, 54

No jogo entre identidades e performatividades de gênero, as multiplicidades de feminino são cuidadosamente elaboradas e constantemente reconstruídas pelas drags. Segundo Jujubee, uma das ex-participantes do Drag Race, as drags usam o feminino como uma arma, pois elas sempre tiveram o poder de criar espaços para expressar a feminilidade mesmo diante da violência e das normatividades. "As pessoas não odeiam os gays por serem gays, eles odeiam qualquer coisa que seja 'feminina'. Elas veem qualquer coisa que seja feminina ou semelhante à mulher como algo fraco. E é por isso que eu acho que nós somos drags, porque queremos fortalecer essa divindade, o foco feminino.”

Jujubee enxerga o feminino como uma divindade

Contrariando a ideia de que somente homens podem virar drag, começam a ganhar visibilidade as chamadas “lady queens” – mulheres cisgêneras ou transgêneras que se montam como drags. Mas com o aumento da exposição, especialmente via redes sociais, surgiram também as controvérsias. Críticas chegaram a apontar o movimento como apropriação cultural.

As lady queens do coletivo Riot Queens questionam o status quo do universo drag

No Brasil, coletivos como o Riot Queens reúnem mulheres do país que performam a hiperfeminilidade da arte drag. Muitas vezes após participarem de workshops com drag queens mais experientes, elas seguem aprimorando as técnicas de montação e, no processo, evoluindo na criação das próprias personagens. As inspirações também agregam referências variadas, incluindo o burlesco, o teatro e a dança. 

No entanto, as motivações para incorporarem suas lady queens ultrapassam a questão visual: nas discussões promovidas no coletivo, entram em pauta questões como invisibilidade e preconceito, autoestima, ressignificação da feminilidade e, claro, diversão.

Mas nada disso é completamente novo. As mulheres têm performado como drag queens e drag kings há muito tempo, executando identidades múltiplas e papeis tipicamente masculinos para serem aceitas, por exemplo, em ambientes de trabalho hipermasculinizados.

“O que mais me fascina nesse mundo das drags não é nem a questão de um homem se tornar mais feminino, com cílios, cabelo, peruca, salto e enchimentos, mas o quanto um homem se parecer com uma mulher torna ele automaticamente mais empoderado, mais dono de si, e faz a gente, como mulher, acreditar que existe realmente um poder ali no feminino que a gente em geral acessa muito pouco. O mundo impõe muitos entraves pra gente chegar a acessar isso.”

Samanta Alcardo, tradutora, 37

Marlene Dietrich, uma das principais inspirações para as drag kings

Elke Maravilha, uma das primeiras lady queens da TV brasileira

Nesse jogo de espelhos, as lady queens performam a hiperfeminização encarnada por homens que, por sua vez, performam como mulheres, desafiando preconceitos e misoginia inclusive dentro da comunidade LGBTQIA+. A própria RuPaul foi alvo de polêmica ao afirmar que somente homens poderiam fazer drag e representar a transgressão própria a essa expressão artística.

RuPaul dentro e fora da “besta”, como ele se refere à sua versão feminina

O sucesso de Pabllo Vittar chegou à sede das Nações Unidas em Nova York

Entre as lady queens, é consenso que ninguém detém os direitos sobre a participação nessa arte que desconhece os limites e as normatividades de gênero. Pelo contrário: ecoando as palavras de Pabllo Vittar, a brasileira que se tornou uma das drag queens mais bem-sucedidas do mundo, “Drag é arte. E é para todo o mundo!”.

Glossário drag

pessoa, homem ou mulher, que faz performance da feminilidade

pessoa, homem ou mulher, que faz performance da masculinidade

termo usado para dar destaque e força às mulheres que fazem esta performance da feminilidade

termo pejorativo, que se refere às drag queens mulheres como queens “falsas”

termo que exclui as mulheres trans, pois se fala das mulheres que fazem drag como “biologicamente alinhadas” com a performance

pessoa, homem ou mulher, cuja performance não envolve noções de masculinidade nem de feminilidade

Fonte: M de Mulher, 2017.

“Todo mundo nasce nu e o resto é drag”. Com essa máxima, a veterana RuPaul aproxima o universo das drag queens das identidades coletivas construídas desde o berço. Entre perucas, muita maquiagem e figurinos extravagantes, a arte das drags absorve referências, questiona estereótipos de gênero e expande as noções do que significa ser “homem” e “mulher”, sempre partindo de uma minuciosa ilusão do feminino.

Mas como o olhar das mulheres enxerga essa outra forma de apresentação da feminilidade? Além de musas, como elas se relacionam com a transgressão proposta pelas drags?

Depois da estreia do reality show RuPaul’s Drag Race no final dos anos 2000, o universo das drag queens nunca mais foi  o mesmo. Figuras históricas do underground e do ativismo LGBTQIA+, elas invadiram a cultura mainstream sem pedir licença. 

Por trás da montação – o processo de transformação visual das drags – as mensagens de aceitação e empoderamento alcançaram novos públicos, inspirando pessoas de faixas etárias e perfis diversos a experimentarem um pouco do glamour e da ironia característicos desse universo.

 

Desmond is Amazing ficou famoso como uma das primeiras crianças drag

“Como mulher circulo por um mundo de contenções. Você tem que ser discretamente autossuficiente, discretamente racional, discretamente emotiva, discretamente competente, discretamente sábia, discretamente pau para toda a obra... Então você sente que as drags não estão nem aí para isso – na verdade, estão mais é detonando tudo isso. Você se move num espaço no qual você pode ser – ou até se espera que você seja – um vulcão prestes a entrar em erupção. Para quem vive na contenção, o território do vulcão tem seu fascínio. E a resposta das drags à contenção é um enfático “não”, com muito estrondo, terra tremendo e lava fervente respingando para tudo quanto é lado. O que poderia ser mais libertador do que isso?”

Elisabeth Priestley, jornalista, 54

No jogo entre identidades e performatividades de gênero, as multiplicidades de feminino são cuidadosamente elaboradas e constantemente reconstruídas pelas drags. Segundo Jujubee, uma das ex-participantes do Drag Race, as drags usam o feminino como uma arma, pois elas sempre tiveram o poder de criar espaços para expressar a feminilidade mesmo diante da violência e das normatividades. "As pessoas não odeiam os gays por serem gays, eles odeiam qualquer coisa que seja 'feminina'. Elas veem qualquer coisa que seja feminina ou semelhante à mulher como algo fraco. E é por isso que eu acho que nós somos drags, porque queremos fortalecer essa divindade, o foco feminino.”

 

Jujubee enxerga o feminino como uma divindade

Contrariando a ideia de que somente homens podem virar drag, começam a ganhar visibilidade as chamadas “lady queens” – mulheres cisgêneras ou transgêneras que se montam como drags. Mas com o aumento da exposição, especialmente via redes sociais, surgiram também as controvérsias. Críticas chegaram a apontar o movimento como apropriação cultural.

 

As lady queens do coletivo Riot Queens questionam o status quo do universo drag

No Brasil, coletivos como o Riot Queens reúnem mulheres do país que performam a hiperfeminilidade da arte drag. Muitas vezes após participarem de workshops com drag queens mais experientes, elas seguem aprimorando as técnicas de montação e, no processo, evoluindo na criação das próprias personagens. As inspirações também agregam referências variadas, incluindo o burlesco, o teatro e a dança. 

No entanto, as motivações para incorporarem suas lady queens ultrapassam a questão visual: nas discussões promovidas no coletivo, entram em pauta questões como invisibilidade e preconceito, autoestima, ressignificação da feminilidade e, claro, diversão.

Mas nada disso é completamente novo. As mulheres têm performado como drag queens e drag kings há muito tempo, executando identidades múltiplas e papeis tipicamente masculinos para serem aceitas, por exemplo, em ambientes de trabalho hipermasculinizados.

“O que mais me fascina nesse mundo das drags não é nem a questão de um homem se tornar mais feminino, com cílios, cabelo, peruca, salto e enchimentos, mas o quanto um homem se parecer com uma mulher torna ele automaticamente mais empoderado, mais dono de si, e faz a gente, como mulher, acreditar que existe realmente um poder ali no feminino que a gente em geral acessa muito pouco. O mundo impõe muitos entraves pra gente chegar a acessar isso.”

Samanta Alcardo, tradutora, 37

Marlene Dietrich, uma das principais inspirações para as drag kings

 

Elke Maravilha, uma das primeiras lady queens da TV brasileira

Nesse jogo de espelhos, as lady queens performam a hiperfeminização encarnada por homens que, por sua vez, performam como mulheres, desafiando preconceitos e misoginia inclusive dentro da comunidade LGBTQIA+. A própria RuPaul foi alvo de polêmica ao afirmar que somente homens poderiam fazer drag e representar a transgressão própria a essa expressão artística.

 

RuPaul dentro e fora da “besta”, como ele se refere à sua versão feminina

O sucesso de Pabllo Vittar chegou à sede das Nações Unidas em Nova York

Entre as lady queens, é consenso que ninguém detém os direitos sobre a participação nessa arte que desconhece os limites e as normatividades de gênero. Pelo contrário: ecoando as palavras de Pabllo Vittar, a brasileira que se tornou uma das drag queens mais bem-sucedidas do mundo, “Drag é arte. E é para todo o mundo!”.

Glossário drag

pessoa, homem ou mulher, que faz performance da feminilidade

pessoa, homem ou mulher, que faz performance da masculinidade

termo usado para dar destaque e força às mulheres que fazem esta performance da feminilidade

termo pejorativo, que se refere às drag queens mulheres como queens “falsas”

termo que exclui as mulheres trans, pois se fala das mulheres que fazem drag como “biologicamente alinhadas” com a performance

pessoa, homem ou mulher, cuja performance não envolve noções de masculinidade nem de feminilidade

Fonte: M de Mulher, 2017.

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