Dezenas de estudos e pesquisas nas últimas décadas mostraram que homens de todas as idades e etnias são menos propensos do que as mulheres a procurar ajuda para todos os tipos de problemas – incluindo depressão, abuso de substâncias e eventos estressantes da vida – embora enfrentem esses problemas a taxas iguais ou maiores que as mulheres.

Em um estudo publicado na trigésima edição da revista  Psychotherapy, o psicólogo John Vessey revisou vários levantamentos epidemiológicos e descobriu que dois terços completos de consultas ambulatoriais de saúde mental foram feitas por mulheres. Essa incapacidade, relutância ou falta de vontade para obter ajuda podem prejudicar a própria saúde física e mental dos homens, e podem tornar a vida mais difícil para seus amigos e familiares, diz John.

“As pessoas estão com dificuldade para lidar com a dose de angústia que acompanha a existência humana. Há vazio e solidão. Mas não a solidão de simplesmente estar só. É uma solidão do desamparo, de um vazio desesperado e difícil de ser transformado em pensamentos apaziguadores, um vazio relacionado à ausência de vínculos e de pertencimento. Não se consegue dar um significado para a existência.”

Neury José Botega, psiquiatra da faculdade de ciências médicas da Unicamp


No Brasil, as estatísticas comprovam que o suicídio tem crescido entre as causas de mortes de jovens até 19 anos. Em 2013, 1% de todas as mortes de crianças e adolescentes do país foram por suicídio, ou 788 casos no total. O número pode parecer baixo, mas representa um aumento expressivo frente ao índice de 0,2% de 1980. Mortes por suicídio são cerca de três vezes maiores entre homens do que entre mulheres. De acordo com cartilha da Associação Brasileira de Psicologia sobre o tema do suicídio “papéis masculinos tendem a estar associados a maiores níveis de força, independência e comportamentos de risco”. O reforço desse papel pode impedir que homens procurem ajuda em momentos de sofrimento – mulheres têm redes sociais de proteção mais fortes.

O psicólogo Ronald F. Levand, da Nova Southeastern University, nos EUA, lançou o termo “alexitimia masculina normativa” para se referir à dificuldade de homens para expressar seus sentimentos. Basicamente, “sem palavras para descrever suas emoções”. Ronald construí uma analogia interessante: “Tente imaginar o homem da Marlboro em terapia. Para muitos, a imagem é simplesmente difícil de construir. O homem da Marlboro não admitiria precisar de ajuda. O homem da Marlboro não falaria sobre suas emoções. Aliás, o homem da Marlboro pode até não reconhecer que ele tem emoções.”


Para Ronald, muitos meninos aprendem com seus pais e com outras crianças que eles não devem expressar vulnerabilidade ou carinho. Eles aprendem a suprimir suas respostas emocionais como chorar ou mesmo expressões faciais tristes, tanto que, quando são adultos, estão genuinamente inconscientes de suas emoções e como descrevê-las em palavras.

É claro que nem todos os homens são iguais. E, recentemente, alguns pesquisadores começaram a investigar mais profundamente o comportamento de busca de ajuda dos homens, para tentar analisar os fatores sociais e pessoais que tornam alguns homens, em algumas situações, mais propensos a procurar um psicólogo ou outra fonte de ajuda.


Arte e ilustrações Jordana Leite / Fontes SBP, APA, Nexo, Nexo / Imagem Andy445 / Texto Gabriel Prates

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