Um novo arranjo de diferentes tecnologias relacionadas ao consumo da música – principalmente as plataformas de streaming, como Spotify, Deezer, Apple Music, entre outros – tem permitido que artistas emergentes encontrem sua própria audiência, e o mais importante, lancem suas músicas sem a necessidade de passar pela mediação de grandes gravadoras.

O chamado "auto-lançamento" de artistas nas plataformas digitais hoje é possível graças a empresas que prestam serviço de distribuição musical. O modelo é simples: músicos pagam um valor (baixo, e às vezes gratuito para lançamentos menores) para essas intermediárias entre os artistas e as plataformas de streaming, que se encarregam de colocar as faixas nas principais plataformas. Tudo é feito online, com alcance global, sem grandes burocracias, a partir de sistemas automatizados. E funciona.


Esse fenômeno traz aos músicos maior controle sobre o próprio trabalho. Eles podem escolher quando e como querem lançar – seja no formato single, EP (pacote com cerca de cinco músicas) ou álbum (cerca de dez faixas). Definem data, arte da capa, nome do trabalho; tudo com total liberdade criativa.

Para os independentes, isso pode ser uma grande vantagem. Diminui a distância entre os artistas, suas músicas, e os meios de consumo onde se encontram muitos potenciais fãs – as lojas online e, principalmente, as plataformas de streaming. 
Segundo pesquisa da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), existem hoje cerca de 255 milhões de assinantes pagos de serviços de música por streaming. Contando com serviços que exibem anúncios, essas plataformas respondem por 47% das vendas da indústria da música. Isso em um cenário em que as vendas físicas – de CDs, por exemplo – continuam caindo, assim como as vendas digitais de faixas e álbuns únicos. Ou seja, o modelo de assinatura tem se provado o caminho para toda a indústria, e nos últimos anos tem sido responsável pela recuperação do setor, que vivia uma severa crise com a queda das vendas.

Ainda segundo a pesquisa da IFPI, as vendas globais de música cresceram 9,7% em 2018, quarto ano seguido de aumento. A responsável pelos números positivos? A alta nas vendas de assinatura de serviços de streaming, que foi de 33% no ano passado. Vendas de formatos físicos caíram 10%, e os downloads pagos de arquivos ainda mais – 21%.

No Brasil, a tendência de subida do streaming e de queda dos formatos físicos foi ainda mais radical. Segundo dados dos Produtores Fonográficos Associados (Pro-Música Brasil), no mercado brasileiro o streaming subiu 38% no ano passado, passando a responder por 69,5% do total do mercado, que no geral subiu também acima da média mundial – bem acima –, 15,4%. Por outro lado, as vendas de formatos físicos no Brasil caíram muito mais que no mundo, espantosos 69%.

Esses números são reveladores não apenas de uma tendência de consumo, mas de comportamento. As pessoas, no mundo todo, e principalmente no Brasil, estão cada vez mais habituadas a ouvir música por streaming – portanto, é nelas onde músicos em busca de crescer sua base de fãs querem estar, para se conectar com novas audiências relevantes. 

Algumas das empresas que fazem o serviço de distribuição de música nas plataformas de streaming são:

Alguns desses serviços, inclusive, oferecem distribuição gratuita. É o caso da OneRPM, distribuidora americana onde músicos podem se cadastrar online, sem pagar nada, e colocar suas faixas nas principais plataformas de streaming, entre elas Spotify, Apple Music e Deezer. A OneRPM atua num modelo "freemium", e cobra por serviços especiais. 

Outro exemplo de gratuidade é o da empresa sueca Amuse, que tem como cofundador o produtor de hip-hop Will.I.Am, do Black Eyed Peas, e se promove como a "primeira gravadora mobile, digital". Assim como na OneRPM, a distribuição da Amuse é gratuita, mas com uma diferença. Por atuar também como um selo tradicional, a Amuse monitora o desempenho dos artistas para os quais ela faz a distribuição, e assim pode oferecer contratos para aqueles que estiverem se destacando nas plataformas de streaming.


São as diferentes formas que o mercado fonográfico vem tomando, graças à introdução de novas e poderosas tecnologias.

Mas é claro que todas essas inovações não eliminaram completamente os desafios. Hoje, para um músico alternativo, a facilidade no acesso aos canais de distribuição gerou um outro efeito: os ouvintes têm acesso ao trabalho de muitos artistas, e se destacar em meio a esse "oceano" de conteúdo é um grande desafio. Assim, bolar estratégias criativas e efetivas de divulgação se torna uma prioridade.

"Eu sou de uma geração que viveu a mudança das mídias analógicas para as digitais", diz o cantor, compositor e multiinstrumentista Meno Del Picchia. Meno começou a distribuir suas músicas em plataformas digitais como Deezer e Spotify a partir do seu segundo disco, "Macaco Sem Pelo", de 2013, justamente usando um desses serviços.

"É muito legal, quando você não tem assessoria, gravadora, poder fazer um cadastro gratuito e ir parar nos principais aplicativos. Essas ferramentas ajudam. Mas sozinhas não fazem verão", diz Meno. Ele cita o excesso de conteúdo como um desafio a ser superado, e compartilha algumas ideias de como fazer isso. "Você precisa ter um canal para amplificar seu alcance, por exemplo, tentar aparecer em alguma playlist legal nos serviços de streaming, ou de alguém influente, que pode bombar o seu número de plays. É quando artistas independentes começam a ganhar visibilidade."



O músico Meno Del Picchia

Para o álbum de lançamento do seu projeto Amarelo, dupla com o músico Allen Alencar, Meno também apostou em uma empresa de distribuição online, e na paralela bola eventos e outras estratégias para manter sua música circulando.

"Acho fundamental o corpo a corpo", diz Meno. "Quando falo em corpo a corpo, falo em mandar sua música pelo WhatsApp para amigos, fazer um sarau em casa, música ao vivo… Assim, os artistas que conseguem esse contato com o público nutrem suas redes sociais online. Acho que esse será o diferencial para o futuro."

Ou seja, com a soma de tecnologia e criatividade, novas portas se abrem para músicos que queiram mostrar seu trabalho para o mundo. As possibilidades de alcance aumentam, assim como a necessidade de encontrar soluções para se diferenciar, e se fazer ouvir em um mercado onde os ouvidos estão cada vez mais cheios de música.

Arte e Ilustrações Jordana Leite / Imagem Millann / Texto Marcus Couto

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