Diante do temor da violência urbana, a população das grandes cidades adota hábitos e comportamentos para se proteger e manter os perigos distantes. Da aplicação de insulfilm no carro ao investimento em condomínios fechados, a ideia de isolamento atrelada à segurança provoca uma retração na forma como as pessoas se relacionam com os espaços públicos, especialmente nas regiões centrais.

Na contramão desse ciclo do medo, iniciativas da sociedade civil em grandes capitais buscam reaproximar a população e as cidades e promover interação onde antes prevalecia a precaução.

Embora centralizem parte considerável dos empregos e da atividade econômica, os centros das cidades costumam atrair menos público e afastar as pessoas durante a noite. Como resultado, a circulação acaba se guiando pela ordem da segurança e vigilância constante, especialmente entre os pedestres. 

Brasil ocupa o

2º lugar

no ranking de lugares do mundo onde as pessoas têm mais medo de saírem sozinhas à noite

68%

dos brasileiros se sentem inseguros em andar à noite na área de moradia

Fonte: Percepções da Crise, Fundação Getúlio Vargas

Ao buscar transformar o medo em atividades positivas, indivíduos, grupos e coletivos artísticos se mobilizam para oferecer novos olhares sobre o espaço urbano de dia e até mesmo durante a noite – incluindo investigações sobre as histórias locais, contato com produções e iniciativas artísticas espalhadas pela cidade e utilização de locais abertos como espaços de fruição e aprendizagem coletiva.

Educação e esporte

Em Belo Horizonte, o Instituto Amado busca desenvolver projetos com viés sociais, artísticos e educativos que utilizam o espaço da cidade como plataforma para educação e contato com a produção artística local. 

Já o Calma é um projeto de running crew – corrida urbana em grupo, buscando unir pessoas de perfis diferentes em torno do objetivo de descortinar uma cidade invisível e promover o bem-estar. O projeto segue uma tendência observada em outras iniciativas coletivas em andamento no Brasil e em outros países.

 

Grupo explora Belo Horizonte pela corrida — Foto: Lucas Cancela/Divulgação G1

Resgate histórico

Em São Paulo, o Sampa Pé é uma organização da sociedade civil (OSC) que busca realizar passeios a pé como forma de melhorar a experiência de caminhar e redescobrir os meandros da história da capital paulista. Entre os percursos, há uma preocupação em retomar a origem de bairros tradicionais como o Bixiga e a Liberdade, debatendo a participação de comunidades diversas na construção da cidade. 

Ainda na capital paulista, o coletivo Cartografia Negra periodicamente organiza o Volta Negra, uma caminhada por locais relevantes à história da população negra na cidade que não são reconhecidos pela narrativa histórica oficial. Com base na pesquisa dos organizadores, diversos locais foram mapeados e incluídos no percurso, como o atual Largo da Memória, localizado ao lado do Metrô Anhangabaú, ponto de partida do roteiro.

Artes visuais

A reapropriação e ressignificação dos espaços públicos também é motivação para coletivos artísticos. Ao propor novas formulações sobre a própria imagem das grandes cidades, a ideia é interferir na realidade urbana ampliando as conexões entre a população, pontos turísticos, trajetos corriqueiros e história.

No campo das artes visuais, atividades coletivas têm utilizado prédios localizados em centros históricos como campo de experimentação.  Por meio do video mapping - projeção de vídeo em superfícies como fachadas de edifícios – a junção de arte, tecnologia, patrimônio e cidade oferece ao público, em horários noturnos, a possibilidade de novos olhares sobre cenários familiares. 

Edições recentes de festivais gratuitos de video mapping em cidades como Salvador e Brasília buscaram intervir na paisagem urbana e histórica de forma criativa e acolhedora. Em comum, esses projetos possibilitam outras formas de apreciar e de se relacionar com os espaços urbanos e suas edificações concretas e simbólicas. A cidade, afinal, é de todas e todos.

Arte: Gabriela Costa /  Imagens: iStock by Getty Images e G1 / Texto: Renato Barreto

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