Amamos histórias e esse está longe de ser um fato apenas da atualidade. Durante toda a evolução da espécie humana, as histórias sempre estiveram presentes nos mais variados formatos: lendas contadas ao redor da fogueira, livros, peças de teatro, filmes, folhetins, radionovelas, telenovelas, seriados. Não importa como, histórias sempre despertaram a atenção das pessoas. Mas por que será nos envolvemos tanto com as narrativas assim? A neurociência já tem algumas descobertas sobre isso.

 

REAÇÕES CEREBRAIS

Neurocientistas têm realizado diferentes estudos buscando entender como o cérebro reage quando é envolvido por uma história. O que a ciência descobriu até então é que o nosso cérebro passa por um fenômeno chamado acoplamento neural. Isso significa que nossos neurônios espelhos (células que nos fazem repetir o comportamento que observamos no outro) são ativados fazendo com que nosso cérebro deixe de interpretar a narrativa como um espectador e passe a reagir como alguém que está vivendo aqueles acontecimentos. Dessa forma, entramos no arco dramático do enredo - introdução > complicação > clímax > resolução > encerramento - e vivemos um jogo de emoções, provocados especialmente por dois hormônios produzidos pelo nosso corpo, a oxitocina e o cortisol.

Ao conhecer o personagem central da história, somos apresentados ao seu contexto de vida – origem, crenças, traumas, sonhos – e assim absorvemos toda carga emocional que esse personagem traz para história. Essa proximidade que a narrativa nos traz em relação ao personagem central faz com que nosso organismo libere oxitocina e a ative regiões cerebrais responsáveis por aquilo que conhecemos como empatia. Conforme a história evolui, o personagem atravessa um incidente que o coloca em uma situação de risco, fazendo com que nosso organismo gere cortisol, conhecido também como o hormônio do estresse, provocando em nosso corpo a sensação de angústia. O cortisol faz com que o cérebro foque na situação, é por isso que nos sentimos envolvidos e apreensivos com a história.

TODO ENTRETENIMENTO TEM O PODER DE NOS TIRAR DOS NOSSOS PROBLEMAS PESSOAIS E NOS LEVAR A UM MUNDO COMPLETAMENTE DIFERENTE DO NOSSO COTIDIANO.

MARATONAS DE SÉRIES E O NOSSO CÉREBRO

Com o surgimento dos streamings, passamos a viver uma nova cultura, a de “maratonar séries”. Em poucos anos, vimos nossas rodas de amigos serem tomadas por inúmeras histórias, retratando os mais diferentes contextos, mas todas com uma mesma característica: a longa duração que nos envolve por horas. Esse novo comportamento, despertou o interesse de pesquisadores, que encontraram algumas explicações para tamanha febre.

Uma delas afirma que o fato de todos os episódios da temporada serem liberados de uma única vez, promove uma longa experiência de escapismo da realidade. Isso porque todo entretenimento tem o poder de nos tirar dos nossos problemas pessoais e nos levar a um mundo completamente diferente do nosso cotidiano. Logo, uma opção de entretenimento com duração de 8 a 10 horas (às vezes até mais), é um prato cheio para quem quer fugir dos problemas. Interessante observar que o escapismo também é uma justificativa para muitos hábitos considerados viciantes, como o alto consumo de vídeo games, jogos online em geral, jogos de azar, álcool, drogas e até mesmo comida em excesso. Não é a toa que muitas pessoas relatam “se sentir viciado(a)” em determinada série.  Para alguns pesquisadores, séries produzidas para serem maratonadas podem mesmo se tornar um quadro de compulsão, ao ultrapassar 5 episódios consecutivos.

Séries são ferramentas de pertencimento a grupos sociais. Quando duas pessoas desconhecidas compartilham o gosto pela mesma série, surgem assuntos em comum e consequentemente, cria-se uma conexão.

Mas ainda existe outra explicação da neurociência para o alto consumo de séries: a teoria do “in group - out group”. Os cientistas explicam que o ser humano tem a necessidade de fazer parte de grupos sociais. O que nos faz pertencer a algum grupo é basicamente ter pontos em comum com os demais. Isso não apenas ajuda na construção da nossa identidade como também nos permite ser aceitos e defendidos pelos demais “participantes” desse mesmo círculo social. Pesquisas já comprovaram que as pessoas estão dispostas a pagar consideravelmente mais por um produto ou serviço para se sentir parte de um grupo (muitas marcas foram construídas através desse comportamento).  Baseados nisso, alguns pesquisadores defendem que séries são ferramentas de pertencimento a grupos sociais. Quando duas pessoas desconhecidas compartilham o gosto pela mesma série, surgem assuntos em comum e consequentemente, cria-se uma conexão. Ainda nesse mesmo estudo, foi identificado o medo das pessoas de se sentirem por fora de um contexto social (sentimento conhecido como FOMO - fear of missing out), caso optem por não acompanhar as séries do momento. Ou seja, muitas pessoas assistem a série que está em alta, mesmo que a princípio ela não lhe atraia, apenas para não ficar por fora do assunto nos seus círculos sociais. Mas se a gente pensa que séries são apenas ferramentas de socialização, estamos muito enganados. Segundo esses mesmos pesquisadores, as séries também são usadas como gatinhos de solidão e isolamento do mundo, já que através delas as pessoas podem ficar imersas em uma ficção, sem se relacionar com a sociedade. 

É interessante notar que roteiristas e diretores precisaram rever a construção das narrativas para causar esse grande envolvimento com o espectador. Por serem conteúdos com muitas horas de duração, os personagens se tornaram mais profundos. As atuais séries apresentam protagonistas com diferentes facetas alternando entre a caridade e o egoísmo, a bondade e a maldade. Essa construção resulta em personagens mais próximos às pessoas reais, fortalecendo a identificação do espectador com a história. Quanto maior a identificação, maior será a empatia por parte do espectador e consequentemente, maior será o envolvimento com a série.

Outra mudança notória é o encerramento de cada episódio deixando sempre uma ponta da história solta. A luta do personagem central é sempre contínua e necessária para que, sob o efeito do cortisol, nosso cérebro se mantenha focado em saber o que vem a seguir e motivado a assistir ao próximo episódio. Através das séries, vivemos um grande looping de emoções com durabilidade de horas e horas.

Se as plataformas de conteúdos de entretenimento querem dominar o tempo do espectador, elas precisam identificar formas de trazê-lo para o centro da experiência, tornando a narrativa também mais imersiva.

AS HISTÓRIAS PODEM IR AINDA MAIS LONGE?

A Netflix chamou a atenção da mídia quando declarou (em seu relatório de resultados de 2018) que o game Fortnite é o seu grande concorrente, já que os números de tempo de jogo superavam o tempo de conteúdo assistido da plataforma de streaming. A preocupação da Netflix tem fundamento. Como dito anteriormente o vídeo game promove o mesmo escapismo da realidade que as séries. No entanto, existe uma diferença clara entre ambos os formatos. Ao assistir as séries, as pessoas passam por uma experiência passiva, recebendo um conteúdo audiovisual. Já nos games, as pessoas interagem com o conteúdo, atuam no desempenho do personagem central, vivendo de forma ativa as ações e consequências do jogo. Com a evolução da realidade aumentada, essa experiência tende a se tornar ainda mais imersiva, e quanto mais imersiva, mais áreas do cérebro serão ativadas e maior será o envolvimento do público final. Se as plataformas de conteúdos de entretenimento querem dominar o tempo do espectador, elas precisam identificar formas de trazê-lo para o centro da experiência, tornando a narrativa também mais imersiva. O filme “Black Mirror: Bandersnatch” (2018), em que o espectador é responsável pelas decisões do personagem central, foi criado com esse intuito e demonstra um caminho de como pode ser a união do entretenimento com a tecnologia.

 

AS HISTÓRIAS A FAVOR DA SOCIEDADE

Ao entender a força e a presença que o audiovisual vem exercendo na nossa cultura, chegamos a uma importante reflexão: as histórias são grandes ferramentas para enfrentar um mundo tão polarizado quanto o que vivemos atualmente, e isso por dois motivos. O primeiro é que elas já estão na vida das pessoas, e não há hora melhor que a do entretenimento para trazer uma reflexão social. Afinal, séries, filmes e novelas, entram nas nossas casas no momento mais leve do nosso dia, quando estamos (um pouco) menos armados com as nossas crenças. O segundo motivo é a capacidade das histórias de transportar as pessoas para novos contextos sociais ao provocar empatia por personagens de realidades diferentes daquela vivida pelo público.

Quanto mais a narrativa conseguir envolver o nosso cérebro, seja através das novas tecnologias, ou das mais recentes construções de roteiro e direção, melhor será a resposta da audiência. A indústria do entretenimento possui grandes desafios pela frente, mas talvez o maior deles seja orquestrar tantas informações e transformações da melhor forma. Afinal, nunca se teve tanto conhecimento e tantas ferramentas para desenvolver um produto audiovisual de alta excelência como atualmente.

Laila Ropelli é estrategista de comunicação e especializada em neurociência.

 

Fontes

• FLAYELLE, Maéva. Assessing binge-watching behaviors: Development and validation of the “Watching TV Series Motives” and “Binge-Watching Engagement and Symptoms” questionnaires. 2018.
• CURTIS, Kelly. The Neuroscience of Stories and Why our Brains Love Them. 2016.
• ZAK, Paul J. Why Inspiring Stories Make Us React: The Neuroscience of Narrative. 2015.
• MLODINOW, Leonard. Subliminar - Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas. 2012.

Texto: Laila Ropelli /  Imagens: iStock by Getty Images / Fontes: Maéva Flayelle; Kelly Curtis; Paul J. Zak; Leonard Mlodinow

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