Muita gente. 70 mil pessoas. 160 países representados e 1.200 palestrantes. Mulheres e homens, de forma equilibrada, circulavam pelos 6 pavilhões, enormes, repletos de estandes e palcos, interligados por praças de alimentação com food trucks, que exalavam o cheiro característico das junk foods. Muitas palestras, entrevistas e conversas acontecendo ao mesmo tempo. Todas de curta duração, máximo de 20 minutos. Muitas filas. Filas para entrar no evento, nas palestras, para comer e ir ao banheiro. Mas com o passar dos dias vamos nos ambientando, conhecendo melhor o evento e aprendendo a otimizar o tempo, escolhendo palestras no mesmo lugar ou reservando pelo menos 20 minutos para conseguir circular entre o evento Central e o do Panda (lado oposto ao principal). O app do evento também ajudou na organização da agenda e na conexão com pessoas.

80% dos pavilhões foram ocupados por startups que participavam de pitches com jurados e plateia diversa, curiosa por novidades. Chamou minha atenção a quantidade de novas marcas vislumbrando a oportunidade de se mostrar ao mundo. Mas Amazon, Google, Microsoft, Wikipedia, SAP, JPMorgan, Delloit, Booking.com e outras também estavam com estandes e palestras pockets para quem conseguia se programar ou mesmo aqueles que passavam pela feira e simplesmente paravam em pé para ouvir, aprender e tentar ter algum insight. Não importa se são startups ou gigantes mundiais, todos estavam ali querendo assumir novos papéis para construir uma sociedade mais justa economicamente, mais balanceada em suas diversidades e especialmente mais engajada na melhoria do mundo ao seu redor e no qual extrai valor.

Sede por insights. Uma unanimidade. Todos que foram ao Web Summit levaram na mala a expectativa de trazer de volta novos e bons insights. Os temas das palestras são conhecidos por todos nós: empresas tradicionais tendo que se reinventar no mundo digital, startups com propósitos genuínos buscando seu espaço para crescer rápido, gigantes mundiais se posicionando como inovadoras, data driven e preocupadas com o meio ambiente. Além, claro, das pessoas ávidas por novas experiências, trocas culturais e previsões para 2025.

Prever o futuro? Nesse mundo acelerado, será que o uso de dados nos dará a clareza do que vai acontecer? Ah, os dados. Assunto presente em quase todas as palestras. Muito se falou em Inteligência Artificial, machine learning, redes neurais, algoritmos...e a privacidade de dados.

Edward Snowden, em vídeo conferência, pois está em localização secreta, nos contou sobre suas motivações para expor um sistema gigantesco de vigilância de dados privados. A tecnologia é neutra e, por isso, amplifica o poder das pessoas. O acesso aos dados tem criado instituições superpoderosas que influenciam e controlam as pessoas. A única forma de protegermos a todos, é protegendo cada um, segundo ele.
Werner Vogels, CTO da Amazon, palestrou, vestido com uma camisa com o dizer “Encrypt Everything”, sobre o crescimento acelerado da empresa que está totalmente focado em IA-machine learning para os seguintes pilares: entendimento dos consumidores, vendas de varejo, otimização da comunicação em textos e imagens.

Mas como fica a criatividade e o conteúdo nesse contexto? A resposta está na experiência. Não adianta mais só ter um bom conteúdo, inovador. Para a geração z e as que virão, o conteúdo continuará sendo o “rei”, mas não andará mais desacoplado da experiência, da usabilidade, da comodidade. Um bom storytelling, que informa, emociona e diverte, junto com uma super experiência de consumo, é o caminho para o sucesso e a garantia de um consumidor engajado. Tudo que nós queremos, não é?

E a tecnologia? Tema presente em tudo que vi e ouvi também. Sabemos e vivemos uma evolução a passos largos e o “5G” vem como a nova grande aposta, mesmo com o “4G” ainda em um caminho crescente. Foi o tema da palestra do Guo Ping (presidente da Huaiwei). A empresa Gartner demosnstrou, em seu stand, o “Tech Hype Cycle” com tendências que vêm e vão cada vez mais rápido em um gráfico de expectativas ao longo do tempo para as novas tecnologias (SaaS, Blockchain, Agile, Public Cloud, etc). Também vimos robôs que servem chocolate aos clientes, robôs que andam pelos stands com movimentos perfeitos e a casa da Samsung, em 2025. Segundo David Eun (CIO da Samsung), a casa é o lugar onde vivemos as melhores experiências das nossas vidas e, no futuro, em 2025, todos os dispositivos estarão conectados e trarão comodidade aos nossos lares, além de otimizarmos todo nosso consumo, de forma consciente, evitando o desperdício e tornando o planeta melhor.

E não podiam faltar temas sobre a consciência mundial num evento como esse. Christiana Figueres, antropóloga e diplomata que atua em questões internacionais, junto com Kate Brandt (Google) tiveram conversa franca sobre a crise climática mundial e suas visões sobre se ainda temos tempo de salvar o mundo. A resposta é otimista. Dá tempo sim. Mas cada um de nós tem que fazer a sua parte agora, para tornar o mundo mais seguro, produtivo e em paz. De forma bem objetiva, o começo tem que ser pelo consumo consciente de água, energia e produção de lixo. A tecnologia tem que ser usada a nosso favor e servir de exemplo para as próximas gerações.

Outra palestra com tema político-internacional, que por sinal estava lotada e tivemos que assistir em pé, foi a do Tony Blair, ex primeiro ministro britânico. Ele foi categórico contra o “Brexit”, afirmando ter sido o maior erro britânico no pós guerra. Num mundo com grandes potências como EUA, China e Índia, a Europa deveria se unir para ganhar força enquanto bloco.

E a opinião das pessoas sobre todos esses temas? Seguindo a nova linguagem das empresas ágeis, que utilizam boards com gestão a vista, foram expostos cartazes nos pavilhões com diversas perguntas e espaços em branco para colarmos bolinhas de adesivos nas respostas. Assim, a opinião do público presente era atualizada “real time” e ao alcance de todos. Dados, agilidade, transparência e democratização de pensamentos diversos de forma respeitosa estavam representados nesses dashboards.

Com toda experiência do evento, o grande insight foi o elo mágico da confiança. Estamos experimentando um momento em que a força das minorias e o empoderamento individual esbarra com a crise de confiança generalizada em uma sociedade que se sente manipulada e invadida pelo universo digital, ao mesmo tempo que espera customização individual do que recebe do meio ao seu redor. Precisamos refazer os laços de confiança uns com os outros e para as empresas significa deixarem de pensar como corporações, para pensarem genuinamente como pessoas que se sensibilizam com as necessidades e questões das outras ao seu entorno. Empresas tech-empáticas.

Andréa Tuttman é Diretora de Inteligência do Esporte Grupo Globo

Arte: Andréa Tuttman / Imagens: iStock by Getty Images

compartilhe

continue com gente

Internet de quem?

Gente Investiga, programa #7: os nativos digitais podem ter mais facilidade com a tecnologia, mas como é ser um imigrante neste assunto?

11 nov 2019

por Globosat

Gerações Sem Idade

Invasão de privacidade

A exposição excessiva dos filhos nas redes sociais dos pais provoca debates sobre o fenômeno do sharenting

18 nov 2019

por Gloob

Gerações Sem Idade

A Crença na Black Friday

Consumidores mais exigentes e empresas mais transparentes aumentam a confiabilidade da Black Friday

6 nov 2019

por Globosat

Expoentes Culturais

Criatividade como vantagem competitiva

Cannes Lions 2019: a aposta do Burger King e os mandamentos de Fernando Machado e Marcelo Pascoa para sobreviver ao Adpocalypse.

19 jun 2019

por B9

Expoentes Culturais

A tecnologia ajuda ou atrapalha o jornalismo?

Especial Jornalistas: para Rafael Nardini, do Hypeness, o público pode até ter mudado, mas o jornalismo é mais necessário do que nunca.

11 abr 2019

por Globosat

Expoentes Culturais

Comunicação, uma questão de acolhimento

Os meios digitais nos dão a sensação de que nunca antes tivemos tantos canais para nos comunicar, mas isso não significa que melhoramos as nossas habilidades em comunicação.

17 jan 2019

por Update or Die

Comportamentos Emergentes