Na disputa entre mocinhos e vilões, bem e mal, belo e feio, quase nunca há espaço para dúvidas: monstros são malvados e, por tabela, figuras que existem para inspirar terror em crianças e adultos. Como se já não bastassem os sustos reais do próprio processo de crescer no mundo, ainda precisamos lidar com o medo de figuras e mitos que rodeiam a imaginação desde a mais tenra idade.

Mas o que aconteceria se, no lugar de reforçar estereótipos e maniqueísmos, houvesse formas criativas de desmistificar esses medos? E se um monstro, na verdade, pudesse ser herói e, em vez de endiabrado, um conselheiro de atitudes simples e positivas? E mais: se, apesar da aparência, ele não tivesse nada de assustador?

Esse personagem já existe: é o Encostinho, criado pelo zineiro Márcio Sno e sua irmã gêmea, a auxiliar de enfermagem Mônica Konno. Confeccionado de forma artesanal, o personagem acabou conquistando fãs de diversas faixas etárias em feiras editoriais por todo o país com sua versão em boneco acompanhada de um microzine de conselhos ao estilo “Minutos de Sabedoria” e uma caixa produzida manualmente pelo próprio artista.

De acordo com o dicionário Houaiss, entre os significados possíveis da palavra “encosto”, há:

“aquilo que serve de amparo, de proteção; arrimo”

“espírito perturbado que presume estar ao lado de alguém para prejudicar”

Entre uma coisa e outra, com seu nome e imagem, o Encostinho encontrou o seu espaço e quer mesmo estar ao lado das pessoas – mas para ajudá-las a viver mais levemente, levando o público a possivelmente enxergar de outros modos histórias como as do Lobo Mau, Bicho Papão e Lobisomem, entre outras. A missão dele, segundo seu criador, é mostrar que qualquer um pode ser do bem, basta querer – até mesmo um diabinho como o Encostinho.

Entrevista com o criador do Encostinho

GENTE: Como surgiu a ideia de criar o Encostinho?

Márcio Sno: O boneco surgiu antes do personagem. No final de 2016 eu já participava de várias feiras de publicações independentes, vendendo meus zines e livros. Porém, tinha o desejo de ter um boneco para vender nesses eventos. Um dia, comprei um livro que ensinava a fazer bonecos de feltro. Falei com minha irmã gêmea, Mônica, que queria um naqueles moldes do personagem Lobo Mau, mas que fosse um diabinho. Assim que ela me mostrou o resultado, eu falei: é isso!

Então, depois de pronto, eu senti necessidade de ele ter uma identidade, mesmo porque eu queria que um microzine o acompanhasse, até para fazer sentido a venda em feiras de publicações. Um pouco antes disso, passei por uma situação em um trabalho em que me tacharam de “ter pacto com o diabo”. Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa totalmente do bem e foi muito injusto esse rótulo – no sentido que eles acreditavam. Então resolvi criar um diabinho que só dá conselhos do bem, para quebrar esse estereótipo de que “diabo é do mal” e também para dar uma beliscada na hipocrisia das pessoas que passam uma imagem de boazinhas, mas são individualistas e preconceituosas.

Quais foram os critérios para selecionar os conselhos do Encostinho?

Não foi muito difícil. São coisas que eu penso, faço, questiono. Na verdade, a ideia teve bastante influência do primeiro microzine “Coisinhas pra Alegrar”, de 2015, no qual dava dicas de pequenas atitudes que podem ser feitas para tornar seu dia feliz. E como o Encostinho é meu alterego, não precisei me esforçar muito para isso: foi só colocar no papel. Esses pensamentos já renderam três volumes e sempre vou anotando coisas que podem render assunto para outros Conselhos.

Como tem sido a reação das crianças?

Sempre tive um cuidado muito grande com esse público, uma vez que os pequenos estão muito propensos a serem influenciados e tudo o que eles adquirirem de conhecimento pode ser importantíssimo na sua formação pessoal – positiva e negativamente. Amo criança, por sua espontaneidade, sinceridade e criatividade – além de eu ser apaixonado por desenho infantil.

Então, sempre preciso tomar muito cuidado com a forma como o personagem se porta, se posiciona, se comunica, para que a linguagem não seja inadequada para as crianças. Afinal, elas que pensam sim! Questionam sim! Gostam até de diabinhos!

O público adulto também se interessou? Se sim, a que você atribui o interesse?

Sim, claro! O Encostinho tem uns fãs fervorosos que, além de adquirir os produtos relacionados, também encontram no personagem uma forma de repensar as próprias vidas com atitudes simples e positivas.

Claro que muitos, em primeiro contato, têm uma imagem equivocada do personagem, achando que é algo “anticrente”, destinado a presentear pessoas de quem não se gosta (sogras, inimigos, chefes etc.). Mas quando conhecem a personalidade dele, quebram a cara! No bom sentido, claro. É uma coisa totalmente diferente. Logo, o boneco só faz sentido se tiver o microzine junto.

No geral, há uma adesão dos adultos por ser um boneco fofo, mas também pelas mensagens, com as quais muitos se identificam, como “Ligue pra mãe pra falar que está bem”, “Vá ao show de seu amigo e pague pelo ingresso”, “Respeite seus amigos independentemente da crença e descrença”. Então, vejo que as pessoas se enxergam nos conselhos e, de quebra, ainda absorvem os demais apresentados nos microzines.

Como você acha que os pais e os educadores podem desmistificar o medo das crianças por monstros e outras figuras similares?

Falando a verdade. Simples assim. Adultos acham que criança é boba, não tem senso crítico, não pensa. Subestimam sua capacidade de entendimento do mundo. Percebo que muitas das crianças que conhecem o Encostinho se apaixonam, pois percebem que aquele “bicho feio, do mau, proibido” pode ser alguém que será seu amigo ou mesmo membro da família.

Os adultos canalizam no “feio”, no “monstruoso” e, principalmente, no diabo tudo o que há de ruim na humanidade, fomentando um grande preconceito, uma vez que julgam pela aparência e não pela personalidade. Do que adianta uma boneca ser linda, mas com personalidade fútil?

Sei que criança tem uma paixão grande por monstros e seres “proibidos” justamente por serem desse jeito. Percebo isso bastante forte principalmente nos meninos. Nisso dá pra perceber o quanto as crianças são subversivas diante da censura sem fundamento dos adultos, que, por não terem argumentos contra os pequenos, usam essas criaturas para assustar, repreender até educar de forma equivocada.

Qual é a importância de ressignificar para as crianças palavras como “encosto” e outras carregadas de sentido negativo?

A importância pra mim é total. Aprendemos a encarar o “encosto” como algo totalmente negativo: “esse menino é terrível, só pode estar com um encosto!”. Mas o Encostinho traz essa questão: por que não podemos ter um encosto do bem? No geral, as pessoas foram criadas de forma bem careta de tal forma que não podemos falar sobre certas coisas, não podemos gostar daquela “coisa feia”, “coisa ruim”.

Gosto de provocar e ressignificar as coisas, talvez seja essa a minha grande missão nessa vida! As pessoas precisam também não se levar tão a sério, ver a vida de outra forma... E o Encostinho traz isso: esculachar com o que foi cristalizado, falar “ah, você fala que isso é ruim, mas já prestou atenção no que você faz?”.

E do que você tinha medo quando era criança?

Quando criança eu ficava muito na casa da minha avó Amélia e, naquela época (década de 1980), era muito comum faltar energia elétrica e geralmente isso acontecia em noites chuvosas. Sempre que tínhamos sorte disso acontecer, eu, minhas irmãs e meus primos pedíamos para a minha avó contar histórias de lobisomem sob a luz do lampião. As histórias eram de quando ela morava em Jequeri, Minas Gerais, e ela contava com tantos detalhes e tanta convicção que acreditávamos piamente. Depois era um sufoco pra dormir!  Aí, sempre que eu me encontrava em situação de escuridão, quando faltava a energia, sempre vinham essas histórias e o pânico me tomava! Hoje, mais esclarecido sobre esses folclores, fico pensando em duas coisas: como acreditávamos nessas histórias e como minha avó foi tão mentirosa! Um dia quero fazer um microzine para falar sobre isso…

Na disputa entre mocinhos e vilões, bem e mal, belo e feio, quase nunca há espaço para dúvidas: monstros são malvados e, por tabela, figuras que existem para inspirar terror em crianças e adultos. Como se já não bastassem os sustos reais do próprio processo de crescer no mundo, ainda precisamos lidar com o medo de figuras e mitos que rodeiam a imaginação desde a mais tenra idade.

Mas o que aconteceria se, no lugar de reforçar estereótipos e maniqueísmos, houvesse formas criativas de desmistificar esses medos? E se um monstro, na verdade, pudesse ser herói e, em vez de endiabrado, um conselheiro de atitudes simples e positivas? E mais: se, apesar da aparência, ele não tivesse nada de assustador?

Esse personagem já existe: é o Encostinho, criado pelo zineiro Márcio Sno e sua irmã gêmea, a auxiliar de enfermagem Mônica Konno. Confeccionado de forma artesanal, o personagem acabou conquistando fãs de diversas faixas etárias em feiras editoriais por todo o país com sua versão em boneco acompanhada de um microzine de conselhos ao estilo “Minutos de Sabedoria” e uma caixa produzida manualmente pelo próprio artista.

De acordo com o dicionário Houaiss, entre os significados possíveis da palavra “encosto”, há:

“aquilo que serve de amparo, de proteção; arrimo”

“espírito perturbado que presume estar ao lado de alguém para prejudicar”

Entre uma coisa e outra, com seu nome e imagem, o Encostinho encontrou o seu espaço e quer mesmo estar ao lado das pessoas – mas para ajudá-las a viver mais levemente, levando o público a possivelmente enxergar de outros modos histórias como as do Lobo Mau, Bicho Papão e Lobisomem, entre outras. A missão dele, segundo seu criador, é mostrar que qualquer um pode ser do bem, basta querer – até mesmo um diabinho como o Encostinho.

Entrevista com o criador do Encostinho

GENTE: Como surgiu a ideia de criar o Encostinho?

Márcio Sno: O boneco surgiu antes do personagem. No final de 2016 eu já participava de várias feiras de publicações independentes, vendendo meus zines e livros. Porém, tinha o desejo de ter um boneco para vender nesses eventos. Um dia, comprei um livro que ensinava a fazer bonecos de feltro. Falei com minha irmã gêmea, Mônica, que queria um naqueles moldes do personagem Lobo Mau, mas que fosse um diabinho. Assim que ela me mostrou o resultado, eu falei: é isso!

Então, depois de pronto, eu senti necessidade de ele ter uma identidade, mesmo porque eu queria que um microzine o acompanhasse, até para fazer sentido a venda em feiras de publicações. Um pouco antes disso, passei por uma situação em um trabalho em que me tacharam de “ter pacto com o diabo”. Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa totalmente do bem e foi muito injusto esse rótulo – no sentido que eles acreditavam. Então resolvi criar um diabinho que só dá conselhos do bem, para quebrar esse estereótipo de que “diabo é do mal” e também para dar uma beliscada na hipocrisia das pessoas que passam uma imagem de boazinhas, mas são individualistas e preconceituosas.

Quais foram os critérios para selecionar os conselhos do Encostinho?

Não foi muito difícil. São coisas que eu penso, faço, questiono. Na verdade, a ideia teve bastante influência do primeiro microzine “Coisinhas pra Alegrar”, de 2015, no qual dava dicas de pequenas atitudes que podem ser feitas para tornar seu dia feliz. E como o Encostinho é meu alterego, não precisei me esforçar muito para isso: foi só colocar no papel. Esses pensamentos já renderam três volumes e sempre vou anotando coisas que podem render assunto para outros Conselhos.

Como tem sido a reação das crianças?

Sempre tive um cuidado muito grande com esse público, uma vez que os pequenos estão muito propensos a serem influenciados e tudo o que eles adquirirem de conhecimento pode ser importantíssimo na sua formação pessoal – positiva e negativamente. Amo criança, por sua espontaneidade, sinceridade e criatividade – além de eu ser apaixonado por desenho infantil.

Então, sempre preciso tomar muito cuidado com a forma como o personagem se porta, se posiciona, se comunica, para que a linguagem não seja inadequada para as crianças. Afinal, elas que pensam sim! Questionam sim! Gostam até de diabinhos!

O público adulto também se interessou? Se sim, a que você atribui o interesse?

Sim, claro! O Encostinho tem uns fãs fervorosos que, além de adquirir os produtos relacionados, também encontram no personagem uma forma de repensar as próprias vidas com atitudes simples e positivas.

Claro que muitos, em primeiro contato, têm uma imagem equivocada do personagem, achando que é algo “anticrente”, destinado a presentear pessoas de quem não se gosta (sogras, inimigos, chefes etc.). Mas quando conhecem a personalidade dele, quebram a cara! No bom sentido, claro. É uma coisa totalmente diferente. Logo, o boneco só faz sentido se tiver o microzine junto.

No geral, há uma adesão dos adultos por ser um boneco fofo, mas também pelas mensagens, com as quais muitos se identificam, como “Ligue pra mãe pra falar que está bem”, “Vá ao show de seu amigo e pague pelo ingresso”, “Respeite seus amigos independentemente da crença e descrença”. Então, vejo que as pessoas se enxergam nos conselhos e, de quebra, ainda absorvem os demais apresentados nos microzines.

Como você acha que os pais e os educadores podem desmistificar o medo das crianças por monstros e outras figuras similares?

Falando a verdade. Simples assim. Adultos acham que criança é boba, não tem senso crítico, não pensa. Subestimam sua capacidade de entendimento do mundo. Percebo que muitas das crianças que conhecem o Encostinho se apaixonam, pois percebem que aquele “bicho feio, do mau, proibido” pode ser alguém que será seu amigo ou mesmo membro da família.

Os adultos canalizam no “feio”, no “monstruoso” e, principalmente, no diabo tudo o que há de ruim na humanidade, fomentando um grande preconceito, uma vez que julgam pela aparência e não pela personalidade. Do que adianta uma boneca ser linda, mas com personalidade fútil?

Sei que criança tem uma paixão grande por monstros e seres “proibidos” justamente por serem desse jeito. Percebo isso bastante forte principalmente nos meninos. Nisso dá pra perceber o quanto as crianças são subversivas diante da censura sem fundamento dos adultos, que, por não terem argumentos contra os pequenos, usam essas criaturas para assustar, repreender até educar de forma equivocada.

Qual é a importância de ressignificar para as crianças palavras como “encosto” e outras carregadas de sentido negativo?

A importância pra mim é total. Aprendemos a encarar o “encosto” como algo totalmente negativo: “esse menino é terrível, só pode estar com um encosto!”. Mas o Encostinho traz essa questão: por que não podemos ter um encosto do bem? No geral, as pessoas foram criadas de forma bem careta de tal forma que não podemos falar sobre certas coisas, não podemos gostar daquela “coisa feia”, “coisa ruim”.

Gosto de provocar e ressignificar as coisas, talvez seja essa a minha grande missão nessa vida! As pessoas precisam também não se levar tão a sério, ver a vida de outra forma... E o Encostinho traz isso: esculachar com o que foi cristalizado, falar “ah, você fala que isso é ruim, mas já prestou atenção no que você faz?”.

E do que você tinha medo quando era criança?

Quando criança eu ficava muito na casa da minha avó Amélia e, naquela época (década de 1980), era muito comum faltar energia elétrica e geralmente isso acontecia em noites chuvosas. Sempre que tínhamos sorte disso acontecer, eu, minhas irmãs e meus primos pedíamos para a minha avó contar histórias de lobisomem sob a luz do lampião. As histórias eram de quando ela morava em Jequeri, Minas Gerais, e ela contava com tantos detalhes e tanta convicção que acreditávamos piamente. Depois era um sufoco pra dormir!  Aí, sempre que eu me encontrava em situação de escuridão, quando faltava a energia, sempre vinham essas histórias e o pânico me tomava! Hoje, mais esclarecido sobre esses folclores, fico pensando em duas coisas: como acreditávamos nessas histórias e como minha avó foi tão mentirosa! Um dia quero fazer um microzine para falar sobre isso…

compartilhe

continue com gente

Era uma vez

As histórias que contamos às crianças influenciam a forma como elas enxergam o mundo, vivenciam e se relacionam com a coletividade

19 mar 2019

por Gloob

Gerações Sem Idade

Medo

Novas formas e expressões do medo na contemporaneidade refletem inquietações derivadas da interação entre os mundos real e virtual

20 dez 2018

por FCB

Comportamentos Emergentes