Historicamente, a indústria musical tem estado na linha de frente quando se trata de inovar para lidar com problemas tecnológicos emergentes. Percebe-se que as últimas duas décadas produziram uma série de transformações no modo como as pessoas se relacionam com a música. A partir do desenvolvimento exponencial de novas possibilidades de interação, consumo e criação, o público passou a ter acesso à tecnologias de composição e produção, e os artistas encontraram novas possibilidades de divulgação e compensação pela comercialização do trabalho.

Nos próximos anos, quando o consumo de música será cada vez mais focado em recomendações de algoritmos, tudo indica que a composição de uma canção poderá ser feita totalmente por uma máquina. Outra previsão que não está longe de se tornar uma realidade é um modelo de produção mais justo para o artista. A inteligência artificial e a lógica do blockchain apontam para esse futuro disruptivo.

Inteligência artificial: o poder do algoritmo

A inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquinas estão modificando as plataformas de streaming de música. Os serviços de streaming usam a IA para aumentar o armazenamento, aprimorar os mecanismos de pesquisa e melhorar a experiência do usuário.

Embora os algoritmos tenham sido usados por um bom tempo para detectar o gosto musical e fazer recomendações, eles agora estão começando a ser implantados para fazer música em si. Por mais surpreendente que possa parecer, a ideia de que a inteligência artificial possa compor uma música está bem próxima.


A inteligência artificial conseguirá criar um hit de sucesso?

Os softwares de criação de música em IA estão se tornando uma ferramenta utilizada por produtores para ajudar no processo criativo. E uma vez que ela comece a criar entretenimento, rivalizando com a produção humana, um futuro interessante começa a se descortinar.

No entanto, essa não é uma novidade completa. Nos anos 90, David Bowie ajudou a desenvolver um aplicativo chamado Verbasizer, que utilizava material de fonte literária e reordenava aleatoriamente as palavras para criar novas combinações que pudessem ser usadas como letras de música.

De acordo com várias estimativas, na próxima década, entre 20% e 30% dos principais hits de sucesso serão escritos parcial ou totalmente com softwares de aprendizado de máquina. O algoritmo de IA tem a capacidade de aprender com base nos dados obtidos – semelhante à capacidade de decodificar um compositor ou intérprete humano para responder e simular seu processo criativo.

Blockchain: um novo caminho para os artistas

Graças às novas plataformas e aos serviços de distribuição de música, hoje em dia há mais maneiras de criar, distribuir e obter música do que nunca. Porém, mesmo nessa era de ouro do conteúdo, nem todos os compositores, produtores, músicos e técnicos de som são compensados de forma equilibrada ou rápida. As tecnologias emergentes, na contramão, estão fornecendo soluções inovadoras para tornar as práticas mais transparentes e justas.

O blockchain, por meio de sua estrutura descentralizada, está transformando o modo como as empresas lidam com dados, contratos, dinheiro e transações digitais. Para o negócio da música, a simplificação dessas áreas poderá transformar a relação entre artistas, gravadoras, gerentes, editoras e serviços de streaming - um relacionamento que tem sido um tanto instável nos últimos anos.


Será o blockchain o caminho para empoderar os artistas?

Um relatório de 2018 da Deloitte Private descobriu que 45% das empresas privadas consideravam o blockchain e esperavam implementá-lo em algum nível neste ano. Se isso for uma indicação de como as empresas estão se preparando para o futuro, a indústria da música poderia ver um negócio muito mais transparente que promove novos modelos avançados, sistemas de pagamento de royalties mais transparentes e novas oportunidades de monetização de artistas baseadas na tecnologia blockchain.

Uma das primeiras artistas a inovar nessa área foi a cantora e compositora britânica Imogen Heap, que em 2015 usou a plataforma Ujo, da Ethereum, para lançar uma música por US$ 0,60 para download. Atualmente ela está trabalhando em sua própria plataforma baseada em blockchain, uma empresa musical de comércio justo que dá aos artistas mais controle sobre como suas músicas e dados associados circulam entre fãs e outros músicos.

Colocar conteúdo em uma blockchain e ter a conectividade para transações peer-to-peer - por meio de uma moeda digital como o Bitcoin ou contratos inteligentes - permite total transparência e automação de execução, bem como pagamentos diretos a direitos autorais titulares. Com todos estes elementos, algumas empresas estão propondo o uso do blockchain para simplificar a gestão de direitos digitais, ignorando os intermediários habituais, permitindo assim micropagamentos de fãs que compram a música diretamente para os artistas. Uma possibilidade a mais para equilibrar a relação entre público, artistas e o mercado.

No Brasil, o debate sobre utilização do blockchain ainda está engatinhando, assim como outros tópicos referentes a tecnologias emergentes. Segundo relatório da agência Deloitte sobre as transformações digitais no país, um dos entraves é que a legislação e regulamentação vigentes não estão completamente adaptadas às mudanças provocadas pelas inovações digitais e representam uma barreira para a adoção de novas soluções tecnológicas. A disrupção ainda aguarda a sua vez.

Arte e ilustrações Jordana Leite / Imagens Jacoblund / Texto Renato Barreto

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