A atual situação de alerta desencadeada pelo Coronavírus afetou em cheio os mercados nas últimas semanas. Antes uma disseminação local na China, o vírus se espalhou pelo mundo inteiro, configurando uma questão de saúde global e, consequentemente, também econômica. Os abalos da pandemia se estendem pelos mercados de ações, empresas e governos, todos interligados entre si, produzindo alterações desde a produção até o marketing.

Para entender o panorama dos mercados globais, Peter Goodman, jornalista de economia no The New York Times, segmenta os acontecimentos em 3 espaços-tempos:

Início na China

A China é responsável por ⅓ de toda a produção global, principalmente de commodities necessárias à indústrias automobilística e de tecnologia. Mesmo que a disseminação do Coronavírus acontecesse somente em território chinês, já acarretaria um caos nas cadeias de suprimentos nas indústrias do mundo inteiro.

A Europa se contamina

A Itália foi a porta de entrada do Coronavírus na Europa. O norte do país, região do início da disseminação do vírus, se caracteriza por ser um centro econômico e industrial, ampliando ainda mais os reflexos globais. É também o momento que se reconhece as possibilidades cada vez maiores da epidemia se alastrar para outros países.

Ação de bancos centrais em todo o globo

Agora classificada como pandemia, atingindo todos os continentes, o Coronavírus força a ação de bancos centrais de todas as grandes economias a traçarem planos econômicos em resposta ao enfraquecimento da produção e do consumo. Através de cortes de juros, governos tentam encorajar atividades comerciais, como crédito, consumo e investimentos. Tais medidas se tornam inefetivas, dado o baixo crescimento que o mundo já apresentava antes do vírus e pelo choque não ser sobre a demanda, mas sim sobre a oferta de bens e serviços.

Essa sucessão de eventos faz com que todos os mercados sejam atingidos, desde empresas pequenas e locais até grandes companhias. Aqui no Brasil, segundo a coluna de Zeina Latif no Estado de S.Paulo, as consequências são:


A alta do dólar
que implica pressão de custos e dificuldade na tomada de decisões das empresas;


Falta de insumo em alguns setores;


encolhimento do comércio;


piora da confiança de investidores e perda de capital.

Um estudo do The Washington Post faz uma comparação entre quatro diferentes medidas para enfrentar a disseminação do Coronavírus. As duas medidas que apresentaram melhor performance de contenção do vírus são as chamadas distanciamento moderado, onde apenas ¼ da população permanece em movimento e o restante em isolamento, nas suas casas, e a distanciamento extensivo, onde apenas 1 em cada 8 pessoas permanece indo e vindo.

Distânciamento moderado

Distânciamento extensivo

    Pessoas curadas
    Pessoas saudáveis
    Pessoas infectadas

Fonte: The Washington Post

Através desse estudo fica claro que o isolamento social é a melhor alternativa, já que a curvas de pessoas infectadas em cenários onde não há quarentena ou conscientização sobre distanciamento social é muito maior. É inegável o impacto de tais medidas no mercado e é nesse sentido que empresas começam a se preparar, adotando o regime de home office e a se posicionar alterando sua produção e estratégias de marketing no intuito de aliviar os efeitos da pandemia.

A Ambev, gigante do mercado de bebidas, anunciou que usará suas fábricas para produzir 500 mil unidades de álcool em gel para distribuição em hospitais públicos. O álcool utilizado será retirado da produção das suas próprias cervejas e será distribuído em hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, localidades onde, até o momento desta publicação, há maior número de casos do Coronavírus.



Imagem: Ambev

Outro ponto de preocupação é que, com a taxa de informalidade em nível recorde no país, muitas pessoas não contam com salários fixos e precisam trabalhar todos os dias para garantir suas rendas. É o caso de motoristas da Uber e entregadores do iFood, por exemplo, que também poderão contar com ajuda das empresas. Qualquer motorista que testar positivo para o novo vírus terá ajuda financeira durante 14 dias da Uber, sendo o valor uma média dos rendimentos do motorista nas últimas semanas. Já o iFood anunciou um fundo de R$ 1 milhão para ajudar entregadores que possam vir a se contaminar.

Com o intuito de manter a população informada, a Globo também resolveu alterar sua programação para priorizar o jornalismo. Esse esforço além de benéfico pela difusão de dados e fatos sobre a atual situação, também visa proteger equipes de gravação de outros programas que se deslocam até os estúdios para as gravações. Atingindo 200 milhões de telespectadores na tv aberta, a Globo ampliará a presença do jornalismo para até 11h na grade da sua programação.

Um caso curioso é o impacto da pandemia nas vendas da cerveja que leva o mesmo nome do novo vírus: Corona. A cervejaria informou que no período entre janeiro e fevereiro deste ano registrou um aumento de 5% nas suas vendas. Paradoxalmente, o valor da marca está decaindo entre os consumidores que associam o nome ao novo vírus. Na última semana de fevereiro, a cervejaria fez uma ação de marketing divulgando quatro novos rótulos, mas que foi considerado de mau gosto por conter a frase “chegando em breve” nos anúncios. Em pesquisa da 5W Public Relations com consumidores norte-americanos, 38% dos entrevistados também disseram que não comprariam a cerveja Corona sob nenhuma circunstância.



Imagem: Corona Extra no Facebook

O Coronavírus ainda não permite nenhuma margem de segurança em previsões de retomada econômica. De certo apenas a alta volatilidade dos índices do mercado e a insegurança dos investidores e, por consequência, das empresas. Até o momento desta publicação, alguns impactos da pandemia se evidenciam pelos seguintes números:

Mercado de ações

Queda acumulada de (-) 38,46% na Bovespa, bolsa de São Paulo e de (-) 29% na de Dow Jones, em Nova York

Crescimento mundial

A OCDE previa crescimento do PIB mundial de 2,4% porém com a pandemia essa taxa foi revisada para 1,5%

Depreciação cambial

O dólar acumula valorização frente ao real de 25,8% somente neste ano. Parte dessa valorização é pelo pânico com o Coronavírus, quando investidores procuram maior estabilidade e confiança no dólar.

Crise aérea

As mudanças nas reservas de voos caíram drasticamente

  • voos para a Ásia: -98,1%
  • voos para a Europa: -31,9%
  • voos para as Américas: -14,5%
Fontes: BBC; New York Times; R7.

Em um horizonte ainda sem soluções a curto prazo, cabe às empresas e aos governos produzirem alianças na direção de políticas anticíclicas para evitar ainda mais a depreciação do valor das empresas, organizações e da economia de modo geral. Ainda assim, a atual situação é uma oportunidade para grandes empresas honrarem a responsabilidade social entre os seus valores. Como afirmou Peter Goodman, a crise não é primariamente econômica, mas sim de saúde. Medidas que fortalecem o combate ao Coronavírus e a sua disseminação, por mais que produzam efeitos negativos a curto prazo na economia, são a única alternativa para a volta do crescimento.

Arte e ilustração: Jordana Leite / Imagem: Capuski / Texto: Gustavo Kievel

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