O mundo atual tem incansavelmente nos colocado diante de paradoxos inquietantes sobre o potencial humano de sentir e manter estados de alegria. Se, por um lado, o século XXI viu o florescer de um indivíduo ainda mais empoderado, fruto de conquistas sociais e avanços tecnológicos, por outro, parece ter nos colocado na contramão de uma vida realizada. Nas últimas décadas, a sociedade se vê mergulhada em uma busca sem precedentes para preencher um vazio, muitas vezes não identificado.

Mas, afinal, de onde vem essa insatisfação? Como é possível encontrar mais alegria nos dias de hoje? Para além do senso comum, o que é alegria? De olho nos movimentos atuais da sociedade, este estudo se propôs a desvendar os mecanismos da filosofia da alegria para descobrir o que, de fato, é capaz de fazer brilhar os olhos das pessoas e levá-las a um estado pleno de contentamento.

A sensação é familiar: “um sentimento de grande prazer, satisfação, contentamento”. É assim que o dicionário Aulete Caldas define a famigerada alegria. Ela está nas tramas de filmes de Hollywood, nos best-sellers de autoajuda, nos enredos de escolas de samba, nas séries e novelas aos quais somos expostos todos os dias. Um conceito que se tornou tão rotineiro que pouco nos dedicamos a pensar mais profundamente a respeito. “O que é alegria?” se analisada e respondida para além do senso comum, essa (aparentemente) simples pergunta leva a caminhos profundos e complexos, capazes de transformar a forma como encaramos a vida.

Assim como boa parte dos conceitos que nos regem, a alegria teve sua origem na filosofia moderna, sendo posteriormente incorporada ao uso popular. Entender os mecanismos da alegria pouco tem a ver com desvendar os segredos de uma vida feliz; é, acima de tudo, uma forma de conexão com a essência de nossa humanidade.

Isso porque a alegria nos dá a energia necessária para continuarmos a existir, resistir e agir no mundo.

Para o filósofo Baruch de Espinoza (1632-1677), essa força que nos faz levantar, trabalhar, passear e interagir com os outros chama-se potência de agir. Imagine-se em uma manhã de inverno chuvosa: o despertador toca, o dever chama, porém, a vontade de viver essa realidade beira o zero, assim como sua potência de ação. Você se levanta, toma um café da manhã reforçado, ouve uma música animada a caminho do trabalho e, aos poucos, conecta-se com essa força vital para a nossa sobrevivência.

O tempo todo somos afetados pelo mundo ao nosso redor e podemos ganhar ou perder potência de agir a partir dos encontros com os quais nos deparamos. O corpo da pessoa amada, um agradável mergulho no mar, uma bela paisagem no caminho do trabalho podem, por exemplo, aumentar a nossa potência de ser e estar no mundo.

Já encontrar-se com uma pessoa desagradável, contrair alguma doença ou consumir uma refeição mal feita pode nos levar a um corpo menos potente. Portanto, seja de forma positiva ou negativa, #somostodosafetados. Inclusive, a filosofia chamará de afetos essa mudança que ocorre simultaneamente em nosso corpo e mente no contato com o mundo.

Pois bem. O afeto da alegria acontece justamente quando nosso corpo passa de um estado menos potente para um mais potente na relação com o mundo – a tristeza seria o movimento oposto, ou seja, a perda de potência de agir. Ambos são definidos como afetos primários, dos quais derivam todos os outros que sentimos.

Na visão de Espinoza nenhum ser, ao menos por princípio, busca a autodestruição. Portanto, ainda que de forma inconsciente, nossa busca diária será por vivências que mantenham a potência de agir em alta, ou seja, pelo afeto da alegria, e por minimizar as chances de sermos todos tomados pelo afeto da tristeza.

É claro que a tristeza não só é inevitável, como fundamental para que possamos lidar com os percalços da vida e amadurecer a partir dessas experiências. Às vezes é preciso se entregar a esse afeto e perder um pouco a potência de agir para que, então, possamos sair mais fortalecidos (como em momentos de luto ou de fim de um relacionamento).

Contudo, segundo uma visão positivista da filosofia, uma vida boa é aquela na qual a balança sempre penderá para o lado da alegria. Afinal, se acaba a potência de agir, a vida se finda também.

Da próxima vez que você se encontrar alegre ou triste, lembre-se de que o que está em jogo é a ciência dos afetos e sua influência sobre o desejo em cada um de nós de continuar a existir no mundo de forma plena.

Importante: segundo essa lógica, os afetos sempre se dão nas pessoas (não pertencem à natureza dos conteúdos)!

A busca pela alegria é o combustível que move a humanidade. Nesse sentido, somos um povo afortunado, tendo em vista a perspectiva do brasileiro em relação à felicidade e ao otimismo.

70%

dos brasileiros se consideram felizes

5º lugar

é a posição do país entre os mais otimistas do mundo

Fonte: Barômetro Global de Otimismo, realizada pelo Ibope Inteligência.

Porém, a mesma nação conhecida por seu povo caloroso é aquela com o maior índice de pessoas com depressão da América Latina e, ainda mais preocupante, a recordista mundial em prevalência de ansiedade.

11,5 milhões de pessoas

sofrem de depressão no Brasil

18,6 milhões de pessoas

sofrem de algum tipo de transtorno de ansiedade


o que representa

3x vezes +

do que a média mundial

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS), 2017.

Apesar de o Brasil ocupar posição de destaque, trata-se de um fenômeno global que chega a níveis cada vez mais alarmantes. A depressão, segundo a OMS, será o principal mal do planeta em 2030. Não é de se surpreender que movimentos que prezam por uma vida mais equilibrada – como o “mindfulness”, o “slow food”, a busca pela simplicidade e o consumo consciente, para citar apenas alguns – estejam ganhando força globalmente. A alegria e – mais amplamente – a felicidade hoje, principalmente nos moldes ocidentais, são “bens” escassos relacionados à busca em satisfazer algo que falta, suprir o desejo de algo. Não à toa essa busca movimenta uma indústria bilionária – uma busca rápida no site da Amazon mostra mais de 33.000 títulos com a palavra “happiness” estampada nas capas de livros, muitos deles entre os best-sellers.

322 milhões

de pessoas no mundo com depressão

Fonte: OMS, dados de 2015.

75,3 mil trabalhadores

foram afastados de suas atividades profissionais devido à depressão e

Fonte: OMS, dados de 2016.


Até

2020

será a doença mais incapacitante do mundo

Fonte: OMS.

Assim, se alegria é acima de tudo uma forma de conexão com nossa força vital – ao que a filosofia chama de desejo de viver –, o que será que deu errado para que chegássemos a mais de 322 milhões de pessoas (4,4% da população) com depressão no mundo? Por que o mundo, que deveria ser fonte de potência de agir, está privando as pessoas dessa energia, levando-as ao descontentamento?

Para começar a responder a esta pergunta é preciso prestar atenção a um detalhe que faz toda a diferença no jogo. Os afetos primários, a alegria e a tristeza, acontecem quando nosso corpo ganha ou perde potência de agir no contato com o mundo.

Em outras palavras: estes afetos só se dão no instante vivido. É na interação das pessoas com o tempo presente que eles acontecem. Um fato que ficou no passado, ou uma projeção de futuro, são incapazes de trazer a verdadeira e profunda alegria ou tristeza. E essa equação de temporalidade se torna fundamental para compreender algumas questões que tangem o mundo em que estamos inseridos.

Acontece que o modus operandi da sociedade atual, em vez de nos colocar no presente, está a todo o momento nos deslocando do tempo.

Como resultado, o mundo nos enche do afeto da esperança, em outras palavras, o desejo de ser, ter e estar além ou diferente do que se é ou tem.

Assim, cria-se um bug em nossa sociedade: enquanto as pessoas buscam alegria, que é o ganho de potência por conta de algo vivido no presente, o mundo oferece esperança, que gera uma falsa sensação de ganho de potência por conta de algo imaginado.

Trata-se de uma falsa sensação, pois a esperança traz consigo a instabilidade do medo. Em outras palavras: a esperança e o medo são faces da mesma moeda. Isso porque quando se espera que algo aconteça é porque também há o temor de que aquilo não se concretize: se, por exemplo, ao planejar viajar sozinho à Europa você espera fazer amigos de toda a parte do mundo, é porque também teme que acabe sem companhia. Não à toa vivemos uma vida de desarmonia, sobretudo, de desequilíbrio de afetos.

É claro que sem a esperança torna-se complicado viver.

A psicanalista Maria Rita Kehl conta que na esperança “há uma expectativa boa em relação à vida e em algumas pessoas é isso o que as faz ir além.” A capacidade de imaginar um futuro diferente é a semente das inovações que podem levar à evolução da humanidade.

Contudo, o potencial positivo da esperança vem sendo explorado de modo a servir aos interesses de uma sociedade que tem como objetivo principal a produtividade das pessoas, e não a sua alegria.

Desde a Revolução Industrial, a sociedade opera sob a lógica da produtividade. De lá para cá, nosso tempo passou a ser regulado em função do trabalho mecânico e nunca mais deixaria de ser contado em dinheiro, tal qual expressado no ditado popular norte-americano: “time is money”!

Charlie Chaplin Tempos Modernos - Legendado Portugues

Se tempo é dinheiro, ser produtivo deve ser mandatório. A diferença é que hoje, segundo o filósofo contemporâneo alemão Byung-Chul Han em seu livro “Sociedade do Cansaço” (2015), a produtividade não mais é alcançada pelo discurso do controle e da disciplina, como no passado.

A sociedade do século XXI é focada em desempenho. Han define a era atual como aquela que acredita que nada é impossível. A afirmação “Yes, we can”, popularizada pelo ex-presidente estadunidense Barack Obama, é uma boa representação deste discurso. A responsabilidade está com o indivíduo agora, e não mais com as instituições. No lugar do uso de palavras como “proibição”, “mandamento” ou “obrigação”, entram “projeto”, “iniciativa” e “motivação”. Enquanto no passado o exercício de nossa individualidade era limitado por regras claras, o mundo atual opera sob a lógica da positividade.

obama

No entanto, discursos motivacionais como o de Obama, assim como tantos outros reforçados, principalmente, pela indústria do entretenimento e da publicidade escondem também um caráter negativo.

Os ideais vendidos pela sociedade do desempenho seriam uma forma autorreguladora do sistema capitalista, na qual liberdade e coação coincidem. Somos convencidos de que o tempo de produção de capital pertence a nós mesmos, mas não é bem assim: “A sociedade do desempenho não é livre. Somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos”, afirma Han.

Nesse sentido, a sociedade do desempenho é muito mais eficaz para se obter a tão desejada produtividade. Ela não depende de regras institucionalizadas. E nem de promessas concretas. É capaz de fabricar sujeitos que acreditam piamente no discurso de liberdade individual e de que é possível chegar aonde quiser.

Diante desse discurso, somos levados a acreditar que esperança é sinônimo de alegria, que o sentimento positivo de sonhar e acreditar em alcançar uma realidade diferente da nossa é igual a se sentir alegre. Mas, por essência, a esperança não é alegria. Como a alegria só se dá na realização, passamos a maior parte do tempo em um estado frágil de contentamento.

Quem nunca se viu passando horas e dias pensando que seria mais feliz morando em outro país? Ou como seria legal morar numa casa maior ou comprar o carro que você sempre sonhou? Ou se imaginar atuando em outra profissão? Como seria trabalhar com jardinagem quando se é médico, por exemplo?

A esperança será sempre esperança enquanto ela não se realiza. Se o fato imaginado se concretiza, existem dois afetos possíveis:

alegria
(quando a realização iguala ou supera o imaginado)

ou

tristeza
(quando há a frustração)

Podemos usar como exemplo a tão planejada festa de casamento. São meses, em alguns casos até anos, de uma vivência intensa com o tema, imaginando todos os detalhes desse grandioso dia para que tudo aconteça em algumas horas. Horas estas que tanto podem ser as melhores e mais inesquecíveis da vida, quanto as mais frustrantes, caso algum detalhe não saia como o planejado.

Em uma realidade na qual 10% da população concentra 52% da renda do país, e onde há uma enorme disparidade salarial entre raças e gêneros, é difícil acreditar na ideia de que basta apenas querer e todos nós chegaremos lá.

Não à toa, a sociedade do desempenho gera pessoas com depressão e “fracassados”. Afinal, como afirma Han, “a lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível”. Desenvolvemos baixa autoestima, ao passo que fica a impressão de que algo deu errado, que se poderia ter alcançado mais.

Além disso, dotados de uma sensação exacerbada de poder em mãos, nos transformamos em “um bando de adultos mimados”, nas palavras do comediante norte-americano Louis C.K. Criam-se expectativas tão altas que somos incapazes de valorizar o que está diante de nós e encontrar momentos que nos levem à tão valiosa potência de agir.

Pois, então, como é possível encontrar mais alegria se hoje vivemos a maior parte do tempo na esperança de algo, deslocados do presente? Será que é tão difícil se deixar afetar pelo mundo tal qual ele é? Espinoza acredita que estar no mundo e agir sobre ele é aprender a existir com mais convicção e segurança.

O filósofo preza por aqueles momentos em que simplesmente se está lá, de corpo e mente, preenchidos pelo instante. Para chegar a este estado de encantamento com o presente, é preciso acima de tudo se colocar mais nele. Seguindo essa lógica, é “melhor” correr o risco de viver a tristeza, estando conectado ao presente, do que passar a vida sendo afetado apenas pela esperança.

alegria4

ALEGRIA E TRISTEZA
VS.
ESPERANÇA E TEMOR

Do lado mais sinuoso da estrada da vida, estão os afetos da alegria e da tristeza. Este rumo pode nos colocar para baixo, mas lá as experiências são mais intensas e verdadeiras, e existe a chance de sermos afetados pela alegria. Do outro lado da estrada, estão os afetos da esperança e do temor. Sua entrada é convidativa, mas à medida que se tenta chegar ao destino final, nos sentimos cada vez mais perdidos.

Qual desses caminhos você escolheria tomar? Você está dividindo seu tempo, de forma equilibrada, entre as duas rotas? Isso não significa interditar a passagem para o outro lado da estrada, apenas equilibrar as doses de afetos que cada um deles pode oferecer.

Indo além da teoria, a seguir, traçaremos alguns caminhos que, se percorridos, podem se tornar aliados na reconciliação das pessoas com o instante presente, contribuindo assim para o encontro do tão poderoso afeto da alegria.

#licençaparadesacelerar

“Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie.”

(Friedrich Nietzsche, 1844-1900)

Os discursos motivacionais são sempre pautados em dizeres como “o céu é o limite” e “você pode”. Esses incentivos realmente são capazes de trazer às pessoas uma sensação de poder. Mas, veja bem, trata-se de uma sensação, não do poder em si.

Quando um discurso como esse encontra uma pessoa que não tem consciência de sua limitação emocional ou física, esse fato pode gerar angústia e frustração. A ilusão da potência total acaba levando à impotência. Nesse sentido, dizer “prefiro não fazer” ou “não posso lidar com isso agora” são atitudes de resistência e de reconexão com a própria humanidade.

Nietzsche já em sua época chamava a atenção para o valor de momentos contemplativos e a necessidade de habituar o olho ao descanso, à paciência. Dessa forma, torna-se possível nos conectarmos à realidade vivida naquele momento, dedicar atenção integral à determinada atividade por si só. E como já sabemos: estar em sintonia com o instante presente é ter mais chances de ser afetado pela alegria.

No entanto, a sociedade do desempenho nos coloca em um estado constante de FOMO. O tão falado “fear of missing out”, ou, em bom português, o medo de ficar de fora, é como uma angústia social em dizer “não”.

Quem nunca se sentiu culpado por ficar em casa em uma sexta-feira à noite cheia de programas promissores? Ou optou por um programa legal com os amigos, mas passou a maior parte do tempo imaginando como teria sido se tivesse ficado em casa?

Acometidos pelo medo de tomar a decisão errada sobre como gastar o nosso tempo, diante de tantas opções, somos levados a acreditar no mito da multitarefa, a ideia de que é possível responder a tudo que se apresenta diante de nós.

A princípio, esse conceito foi introduzido de forma positiva em nossas vidas, enaltecendo aqueles que supostamente se mostravam capazes de multiplicar sua atenção e produtividade em tarefas concomitantes.

Contudo, pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres comprovou que pessoas multitarefas tornam-se 40% menos produtivas e, ainda, perdem cerca de 10 pontos em QI (Quociente de Inteligência). O efeito disso no cérebro equivale a uma noite inteira sem dormir e ao dobro do torpor de quem acaba de fumar maconha.

Se Nietzsche estivesse vivo hoje, ele diria:

- FOMO + JOMO

A expressão “joy of missing out”, ou “prazer em ficar de fora”, preza pelos momentos de contemplação e atenção plena para uma tarefa, sempre que possível. Saber o que é e o que não é possível de se fazer – e estar bem resolvido com isso – é uma forma de reconexão com a realidade. E se há reconexão com a realidade, há mais chances de viver alegria.

OPORTUNIDADES PARA:

Buscar formas de enaltecer nas comunicações da marca o valor do descanso, tomando eventuais cuidados para suavizar a hiperatividade em uma sociedade consumida pela lógica da produtividade.

Atuar sob o discurso de liberdade de escolha ao invés de reforçar o medo de “ficar de fora” pode ser um caminho para marcas multiplataformas seguirem. Ao planejar campanhas, principalmente aquelas voltadas às mulheres, lembre-se de que a imposição de limites é um atalho poderoso para a alegria. Que tal dizer não a pelo menos um dos inúmeros estímulos que cruzam o caminho das pessoas diariamente?

Existe um lado positivo de se ter os pés no chão, mesmo em um mundo que nos alimenta de sonhos a todo o momento. Como trabalhar isso com marcas? Retratando mais realizações e menos aspirações intangíveis. Uma pequena dose de baixas expectativas pode ser a chave para uma vida mais equilibrada.

#vidalevaeu

A lógica da produtividade em que estamos inseridos nos coloca o tempo todo no “modo roteirizado”. Na busca pela eficiência em tantas atividades às quais nos dispomos, acabamos por recorrer ao passo a passo para, assim, dar conta de tudo.

Viver em roteiros nos permite ter controle sobre o que está por vir e aumenta as chances de cumprir tudo aquilo que é proposto.

O problema é que, ao atuar desse modo em excesso, criamos barreiras para que o acaso entre em nossas vidas. O acaso é fundamental, pois é uma das formas mais ricas de nos conectar com o presente, com o que acontece no mundo naquele momento e, logo, nos levar ao afeto da alegria. Não há no acaso qualquer expectativa ou esperança.

 

Por exemplo, é muito prazeroso juntar todas as nossas músicas favoritas em uma playlist e poder escutá-la quando bem entendermos. Porém, você já parou para pensar que a sensação de quando as mesmas músicas tocam espontaneamente no rádio é totalmente diferente, ou seja, bem mais prazerosa? Pois então, esse prazer “a mais” é fruto do acaso.

A filosofia de Espinoza chama esses acasos de “bons encontros”, que nada mais são os instantes em que damos espaço ao inesperado, e também quando nos deixamos levar em ambientes e situações que favorecem a espontaneidade, como festas, viagens, o ato de cantar, dançar quando se tem vontade, brincar como uma criança. Todas essas podem ser formas de deixar os roteiros de lado por alguns instantes e apenas, deixar a vida rolar.

OPORTUNIDADES PARA:

Lembre-se de que dar espaço para o acaso nas comunicações de marca é fazer as pazes com o fato de que nem sempre ter controle sobre tudo é o que tornará o conteúdo mais interessante.

A prática do mesmo desapego pode ser feita nas interações das marcas com o público: estamos todos carentes de doses de espontaneidade. Narrativas que estimulem o dançar, brincar, cantar e festejar, por exemplo, podem ser formas de driblar as amarras do controle em nosso cotidiano.

#rirpranãochorar

“O humor é o ato de dizer a verdade. Mais especificamente, a verdade sobre as pessoas.”

(Steve Kaplan, escritor norte-americano, especialista em comédia e tutor de roteiristas em Hollywood)

A vida em sociedade é um grande sistema de expectativas e regras. Quando estamos no palco da sociedade, fazemos de tudo para atender ao que é esperado de nós. Essas regras tentam garantir ao máximo nossas chances de sermos pessoas incríveis, de sucesso garantido.

  

Assim, a convivência se torna viável entre centenas, milhares e milhões de pessoas. A questão é que todo palco tem seus bastidores, e é neste ambiente que a “vida real” acontece. No palco social, mostramos o que a sociedade espera que sejamos; já nos bastidores, somos nós mesmos.

O humorista é aquele que entende as regras que determinam o que as pessoas deveriam estar fazendo e diz o que na realidade elas fazem. Em outras palavras, o humor é uma ferramenta eficaz para ajustar, de certa forma, aquele “bug” social citado anteriormente, de que vivemos com a sensação constante de que algo deu errado e que precisamos esconder isso.

A comédia vai dizer que sim, deu errado mesmo, e que isso é normal, é ser humano. Uma boa piada nos ajuda a lidar com situações de dor, com as verdades da vida e a falta de controle que temos frente a muitos aspectos. E com a mesma eficácia, também nos ajuda a lidar com o fato de que não somos perfeitos. O universo da maternidade, por exemplo, é uma fonte infinita desse jogo das expectativas.

Por conta da romantização de ser mãe, é quase proibido falar sobre as dificuldades em torno de se ter e criar um filho. Quantas vezes não escutamos uma mãe dizendo que deu macarrão instantâneo para sua criança? Que não tem tempo nem de ir ao banheiro? Ou que o filho chorou durante o batizado inteiro, e não aconteceu o “momento mágico” esperado?

Nessas situações “tabu”, nas quais a sociedade coloca altas expectativas sobre nós (como a maternidade, o sexo, as doenças graves, entre outras), o humor se torna um poderoso aliado em revelar a verdade oculta dessas ocasiões.

Para a filosofia e para a arte, enquanto o drama engrandece o ser humano, a comédia mostra a verdade. Se a alegria é estar conectado ao presente, nada melhor do que o humor para nos reconectar com as nossas verdades.

OPORTUNIDADES PARA:

O humor pode ser usado por marcas como recurso para revelar a verdade do ser humano. Tenha em mente que a comédia não tem como fim a graça, mas sim ajudar as pessoas a lidarem com suas imperfeições.

Temas que normalmente estão confinados ao âmbito privado – tabus como o sexo, por exemplo – podem fazer bom uso do humor.

Questionar as normais sociais sob a lente da expectativa versus a realidade é um exemplo de como usar o humor com questões de rotina. É revelando a verdade, sem filtro, que serão criadas conexões reais com o público.

Se a depressão é o “mal deste século” e vivemos na era do desempenho, fica evidente uma ironia: o mesmo mundo que cobra da sociedade produtividade, alta performance e diz que podemos tudo é responsável por gerar pessoas com pouco interesse e baixa predisposição para realizar atividades tão cotidianas quanto trabalhar.

Chegamos a um ponto crítico no qual nem os interesses de produtividade da sociedade estão sendo atendidos e muito menos o desejo de viver das pessoas e sua busca pela alegria.

A relação entre a esperança e a depressão de nosso século é direta para a filosofia. Mas é preciso que o debate extrapole o campo filosófico. O mercado publicitário e o do entretenimento, erguidos sob o discurso da esperança e do sonho intangível, possuem boa parcela de responsabilidade e, portanto, têm um enorme poder em mãos para intervir neste ciclo.

A cada história contada, a cada realidade exibida, há o potencial de um convite para se abraçar o que a vida oferece no momento em que ela acontece. Como diria o escritor japonês Haruki Murakami em seu livro “Kafka à Beira-Mar” (2002), “o presente puro é o progresso contínuo do passado que morde o futuro. Na verdade, todas as sensações já são memórias”.

E se não formos capazes de nos agarrar a este instante puro, viveremos para sempre à margem de nosso tempo.

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