7 de abril celebra-se o Dia do Jornalismo. E neste mês comemorativo, Gente convida cinco jornalistas para entrevistas especiais, apresentando insights e lições que o jornalismo proporcionou ao longo da sua vida profissional. 

Para algumas pessoas, publicidade e jornalismo não se misturam. Mas há quem consiga unir esses dois mundos e se tornar um dos principais nomes na área. Claudia Penteado é mestre em fazer cobertura jornalística e da publicidade a sua profissão. Com 20 anos de carreira, já passou pelos principais veículos do mercado especializado como Ad Age (EUA), Werben & Verkaufen (Alemanha), Revista Shots (UK) e Exame, entre outras, e foi eleita três vezes o “Prêmio Comunique-se” como melhor jornalista de Propaganda & Marketing.

 

"O jornalismo sempre foi um aliado importante para contar a história do mundo, das pessoas e também das marcas e empresas. O jornalismo sério e bem feito situa e contextualiza."

 

O jornalismo já proporcionou muitas experiências em sua carreira. Claudia acompanhou de perto eventos como o Cannes Lions e o SXSW. E toda essa bagagem a faz afirmar que o bom jornalismo, seja ele de qual área for, é feito com boas histórias. E com verdade e dedicação.

Nem mesmo os desafios da profissão fazem Claudia duvidar de sua fé pelo bom jornalismo. Para ela, o olhar crítico e implacável do jornalismo é fundamental para nos manter em sintonia com a realidade, com algo palpável e sólido nesse ambiente líquido e movediço em que vivemos hoje.

Confira a entrevista completa de Claudia Penteado, atualmente colunista e repórter do Propmark, colunista da Band News FM (boletim Comunicação & Negócios) e do portal da Época Negócios (coluna Marketplace).

Entrevista com Claudia Penteado, colunista e repórter do Propmark.

GENTE: Qual é o maior aprendizado que o jornalismo te trouxe nesses anos?

Claudia Penteado: Há muitos aprendizados, claro, mas acho que o maior deles é e tem sido (porque não paramos nunca de aprender) algo que parece simples, mas o tempo e a experiência me mostraram que não é: que é preciso colocar a alma neste trabalho para fazê-lo brilhar e se destacar na paisagem. Buscar sempre a melhor abordagem possível para as histórias e tirar o melhor de cada entrevistado demanda carinho pelo que se faz, e principalmente o desejo de fazer um trabalho sério, sem misturar canais ou se deslumbrar. Para colocar a alma, é preciso amar o que se faz. O jornalismo é, para mim, uma fonte permanente de criatividade. Nele eu exerço minha curiosidade pelas pessoas e pela vida.

Quais são os desafios em coberturas de grandes eventos internacionais como o SXSW e o Festival de Publicidade de Cannes?

Foi cobrindo o Cannes Lions, desde os meus primeiros anos de profissão, que aprendi boa parte do que sei sobre propaganda e marketing. Foi lá, ano a ano, que grandes portas se abriram para mim e onde conheci as pessoas mais interessantes dessa indústria. Lá recebi o convite para ser correspondente do Advertising Age, diretamente da editora internacional Laurel Wentz, uma grande amiga até hoje. O Cannes Lions foi uma escola importante e me deu a dimensão deste negócio, me ajudou a pensar grande, a ganhar uma perspectiva amplificada e histórica, não ficar fechadinha em um mundinho particular. É curioso porque até hoje muitas pessoas sequer sabem onde eu moro - se em São Paulo, ou no Rio de Janeiro. No fundo, onde se está pouco importa, o que faz diferença é manter a lente ampliada.

Cobrir eventos como Cannes e o SXSW é um imenso desafio porque é preciso fazer um trabalho de curadoria em meio a dezenas, às vezes centenas de possibilidades. São oportunidades para aprender muito, conhecer pessoas, descobrir novidades, se reciclar, se questionar, é tudo isso junto. Para mim, é um verdadeiro parque de diversões, preciso confessar. Viro pinto no lixo.

Cobrindo tão de perto o mercado publicitário, como você acha que o jornalismo ajuda marcas e agências na construção de suas histórias?

O jornalismo sempre foi um aliado importante para contar a história do mundo, das pessoas e também das marcas e empresas. O jornalismo sério e bem feito situa e contextualiza. O olhar crítico e implacável do jornalismo é fundamental para nos manter em sintonia com a realidade, com algo de palpável e mais sólido nesse ambiente líquido, movediço em que vivemos hoje. Por isso hoje se fala tanto na força do bom jornalismo. Ele separa o joio do trigo, representa o "lado bom" da força - quando bem feito e comprometido com a ética, claro. Jornalismo e publicidade sempre foram aliados importantes, sempre se engrandeceram mutuamente ao longo do tempo. Ser uma jornalista que fala (também) de publicidade é um privilégio, porque é uma área repleta de pessoas talentosas e que, historicamente, foi fundamental para ajudar a construir as grandes empresas de jornalismo no mundo inteiro. Hoje os modelos de negócio vêm mudando, de ambos os lados, e o que vemos, ainda, é um enfraquecimento geral, infelizmente. Como há muita criatividade envolvida, tanto no jornalismo quanto na publicidade, levo fé no futuro. Só não dá mais para acreditar que tudo o que nos trouxe até aqui, é o que nos levará adiante.

Teve alguma matéria ou reportagem que te marcou muito?

Difícil escolher uma matéria em especial, e não sou de ficar olhando para trás não. Fiz muitas matérias bacanas, tive muitos encontros com pessoas especiais, e confesso que tive o meu último "aha moment" outro dia mesmo, em março passado, na cobertura do SXSW, no Texas (EUA). Um evento único, com uma diversidade de assuntos fascinante, cheio de gente interessante, uma espécie de "chão de fábrica" criativo e onde as pessoas vão dispostas a aprender e compartilhar ideias e não falar verdades. Aprendi e aprendo muito conversando com as pessoas que ajudam hoje a definir o rumo da construção de marcas, e há muitas, muitas criaturinhas pensantes neste nosso universo da comunicação que estão movendo o rumo das prosas, questionando, criando, repensando. O que me move é a próxima matéria. Gosto muito de como o Gabriel Garcia Marquez, que trabalhou como jornalista, descreve a profissão: "Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.".

As redes sociais competem com o jornalismo? Ou seriam "frenemies"?

Não podemos considerar concorrência plataformas que compartilham livremente conteúdos produzidos por pessoas e empresas, sem qualquer controle ou checagem. Jornalismo é outro "bicho" e é fundamental que a diferença vá ficando cada vez mais clara para as pessoas. Os episódios de fake news vão aos poucos abrindo os olhos das pessoas para prestarem atenção ao que realmente importa. As redes sociais poderiam e podem ser aliadas do bom jornalismo, tanto fazendo parcerias com veículos quanto procurando combater a disseminação das fake news, reconhecendo que não é fácil detectar e retirar todas de circulação, pois o volume é muito grande. É um processo educativo, mesmo e gradual: as pessoas precisam aprender a não levar a sério e/ou disseminar conteúdos que não venham de canais confiáveis.

Como combater as fake news?

Com muita educação. Não há como banir, mas há como evitar que sejam compartilhadas - e isso depende das ferramentas de checagem das plataformas e dos veículos de comunicação, dos esforços para conter sua disseminação, da educação permanente das pessoas. No SXSW, no Texas, este ano, assisti a uma palestra sobre a inteligência artificial auxiliando o jornalismo, e uma das suas aplicações (e o Google já está trabalhando nisso) é justamente na checagem de informações e na identificação de fake news, verificando IPs e a idoneidade de quem postou, por exemplo. O trabalho jornalístico sério e ético é a melhor e mais potente arma contra as fake news.

Qual conselho você daria para a Claudia no começo da carreira?

"Me aconselharia" a fazer uma faculdade de História. E ler o dobro, o triplo, muito mais de tudo e certamente muito mais sobre História. Se o diploma não fosse obrigatório na minha época, talvez tivesse feito Letras, mas nunca considerei História como formação. Não há nada mais essencial para qualquer jornalista do que conhecer muito a História do país e do mundo, para entender como chegamos até aqui.

 

Claudia Penteado é colunista e repórter do Propmark, colunista da Band News FM e do portal da Época Negócios.

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