“Sim, ele resolveu pôr fim à própria vida.” Esse ato recebe a denominação de suicídio, e até hoje muitos evitam pronunciar a palavra por estar ainda cercada de uma série de preconceitos. A divulgação de informação qualificada e conhecimento preventivo sobre esse fenômeno devastador é quase insignificante, dada a importância do tema. Isso, infelizmente, acontece devido à ignorância e aos tabus relacionados aos transtornos mentais, e especialmente ao ato suicida. 

O suicídio é hoje um assunto de saúde pública no Brasil e no mundo. Ainda assim, a maioria dos governos não possui nenhum tipo de política sistematizada com o objetivo de informar, de maneira ética e respeitosa, sobre o assunto, bem como de produzir ações efetivas de prevenção contra esse drama humano.

A mídia tem papel importante neste cenário. O exemplo típico é o suicídio cometido por pessoas públicas, ídolos e celebridades reconhecidas por seus talentos. Muitas coberturas inadequadas sobre suicídio tendem a destacá-lo como um ato de coragem ou rebeldia, ou ainda de covardia.


Há de se lamentar a perda de uma vida, e não transformar uma morte em um espetáculo exaustivamente repetido nos canais de comunicação.


Recentes estudos científicos* revelam que aproximadamente
90% dos casos de suicídio
estão associados a transtornos mentais que,
se fossem corretamente diagnosticados e adequadamente tratados,
evitariam um número significativo de perdas vitais.

* Fonte: livro publicado pela Globo Livros "Mentes depressivas - As três dimensões da doença do século", capítulo 12 “Suicídio: precisamos falar sobre isso”

Quando falamos de suicídio, o impacto nunca se restringe a um universo individual: cada pessoa que se suicida provoca impacto direto em pelo menos cinco a seis pessoas com as quais se relacionava. Essas pessoas, familiares e amigos, sofrem consequências emocionais, econômicas e sociais para sempre. Vale ressaltar que nem toda pessoa acometida por algum transtorno mental se suicidará, mas não podemos negar, nem mesmo subestimar, o fator de risco relevante que as patologias comportamentais representam no fenômeno suicida.


É igualmente importante combater o preconceito à transtornos mentais, chamado de psicofobia.

Mitos do senso comum:


“Pessoas que ameaçam se matar não o farão de fato.”

“Quem quer se matar não avisa previamente.”

“Quem quer se matar mesmo vai se matar de qualquer forma.”

“Após a superação de uma situação difícil, o risco de suicídio termina.”

“Suicídios não podem ser prevenidos.”

“Toda pessoa que pensa em se matar sempre pensará dessa forma.”

Como ajudar?

Um suicida é, antes de tudo, uma pessoa em estado de desespero. Seu corpo já vem sendo negligenciado há tempos, em repetidos descuidos relacionados à alimentação, atividades físicas e/ou sono reparador. Em sua mente, os pensamentos negativos e/ou fatalistas se apoderaram de toda a sua racionalidade existencial, especialmente aquela relacionada à sua capacidade de resiliência. Tudo é restrito ao mais puro desespero, desamparo e à necessidade imediata de finitude ante tudo e todos.

Muitas pessoas, ao serem ouvidas e acolhidas em momentos de intensa angústia e desespero, conseguem acalmar seus tenebrosos sentimentos e perceber sua vida sob novos ângulos. Esse suporte é a base do Centro de Valorização da Vida (CVV), cuja filosofia de trabalho pode ser resumida pela ação denominada de escuta amorosa. O CVV sobrevive somente pelo voluntariado para prestar atendimentos. Numa sociedade em que a grande maioria das pessoas não dispõe de tempo ou paciência para ouvir a si mesmas nem aos outros, o CVV se configura em uma ilha de acolhimento, compreensão e fraternidade rodeada de águas revoltas por todos os lados.

Convém salientar que, às vezes, a melhora física e mental proporcionada por determinados tratamentos pode ser o estopim de uma tentativa suicida mais organizada e até mesmo eficaz.

Em “A lista de Schindler” (filme de Steven Spielberg, 1993), o personagem Oskar Schindler, resume tudo isso em uma frase:

“Quem salva uma vida, salva a humanidade inteira”.

O suicídio é sim um ato ilícito, mas o que pode ser considerado crime, nesse contexto são: omissão, indução, não prestação de auxílio ao suicida e falta de investigação sobre o fato ocorrido.

Ninguém se suicida sem que haja, em sua mente, grandes doses de desespero, desesperança e sentimentos de incapacidade e nulidade.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) está disponível nas redes sociais e nas plataformas digitais como chat online e email. Além do acolhimento presencial de acordo com sua localidade.

Telefone: 188
Site: www.cvv.org.br

Numa sociedade como a nossa, ser feliz ou ter felicidade se tornou uma obrigação e necessidade. Quem não é feliz é visto como alguém fraco, fracassado ou covarde. Essa forma de pensar estabelece a “ditadura” da felicidade a que a maioria de nós se mantém subjugada.


O grande objetivo da vida não é a felicidade, e sim a nossa inexorável caminhada evolutiva.

Claro que não podemos reduzir o fenômeno suicídio à influência dos fatores socioculturais de nossos tempos. Mas a minha visão é que o suicídio deve ser evitado a qualquer custo. E não digo isso com nenhum senso de juízo moral, e sim por acreditar, que, ao evitarmos um suicida de findar de forma não natural sua vida, daremos condições para essa pessoa cumprir seu propósito existencial.
A maioria das pessoas vive sem se dar conta de suas dimensões física, mental e espiritual, mas, quando são capazes de enfrentar dores e sofrimentos advindos da depressão, são capazes de atingir um estado de paz de espírito, e é neste momento que as recaídas se tornam inexistentes ou muito raras.

Dra. Ana Beatriz – Nascida no Rio de Janeiro, a psiquiatra Dra. Ana Beatriz é referência nacional no tratamento dos transtornos mentais. Atende pacientes em consultório, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação sobre os temas do comportamento humano, além de autora de diversos livros como “Mentes Perigosas”, “Mentes Inquietas” e “Mentes Ansiosas”.

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