No ano em que a Copa do Mundo Feminina conquistou a atenção e os corações dos torcedores brasileiros, fora dos jogos as mulheres continuaram disputando espaços dentro da narrativa do futebol nacional. Para contar uma parte dessa história, a jornalista e cineasta Marcela Coelho enfrentou glórias e desafios – em campo e na ilha de edição – que resultaram no documentário “Todas as Casas do Timão – A História de um Sonho” (2019).

O filme, codirigido por Ricardo Aidar, reconstrói a trajetória do Corinthians, por meio de relatos de torcedores, jogadores, jornalistas e entusiastas, relembrando os locais que o Alvinegro já chamou de casa até deixar para trás as provocações de “time sem estádio” após a inauguração da Arena Corinthians em 2014.

Em sua estreia atrás das câmeras, Marcela, que atuou como produtora de filmes como "1976, O Ano da Invasão Corinthiana" e o documentário "Garrincha do Timão", precisou enfrentar resistências dentro e fora de campo em praticamente cinco anos de produção do filme.

Para ela, que sempre gostou muito de futebol e de ir aos estádios, estar em campo durante as filmagens era a realização de um sonho que, anteriormente, estava ligado à ideia de ser repórter esportiva, e não documentarista. Na infância, quando as únicas referências de narração futebolística eram as vozes masculinas, ela deixava a televisão no mudo e criava a própria versão.

O sonho de infância, porém, concretizou-se por outro caminho e não sem percalços: o simples caminhar dentro de campo, carregando o aparato das filmagens em companhia de poucos membros da equipe, era a deixa para Marcela se tornar alvo de assédio e agressões verbais. A sensação, segundo ela, era a de que estava ocupando um lugar indevido ou, pior, de que havia algo para se envergonhar por ter conquistado o direito de estar ali.

Por outro lado, em menor escala, também ecoavam vozes de mulheres aplaudindo e dando força diretamente das arquibancadas. 

Diante disso, a cineasta descobriu que, se quisesse continuar aquela empreitada, precisaria neutralizar o ruído externo e fazer uma escolha: trabalhar somente de longe ou encarar o ônus e bônus de dar a cara a bater para fazer o filme acontecer.

“Eu pensava: se os caras estão incomodados, eu vou virar o Zagalo de 94 e vão ter que me engolir. Se eu estou aqui é porque eu tenho capacidade e não vou aceitar menos do que isso.”

Chamar a atenção como uma diretora em campo também tinha relação com a pouca participação feminina no próprio meio cinematográfico. Segundo Marcela, raras são as oportunidades de trabalhar com mulheres em outras funções nas filmagens. 

Isso significa que os próprios parceiros de set costumavam blindá-la das agressões e do assédio – embora ela encarasse com parcimônia a necessidade de confronto direto com os agressores. Já no contexto pós-lançamento do filme, como diretora, ela se sentiu muito respeitada nas considerações dos torcedores que assistiram ao filme.

Vozes femininas

Apesar de ser um ambiente dominado pelas figuras masculinas, espaços vêm sendo conquistados e torna-se impossível contar certas histórias sem incluir as vozes femininas que as integram.

“Eu tenho uma sobrinha de 10 anos que faz muitas perguntas. E eu fico imaginando que cada mulher que passa pela minha vida, cada mulher de quem se conta, cada mulher que se banca, cada mulher de quem se fala, está falando também com a minha sobrinha, com a sobrinha de outra pessoa, com a filha de outra pessoa, e consequentemente aquela mulher pode se tornar uma referência como aquela narradora que eu nunca tive na infância, por exemplo.”

Nesse sentido, o documentário também inclui mulheres importantes para a história do Corinthians, como a Maria Isabel, conhecida como “mãe da obra”, que desenvolveu diversas ações para o bem-estar das pessoas envolvidas na construção da Arena Corinthians; a Adriana, moradora de uma casa em frente ao estádio e criadora de um canal que ficou famoso por transmitir as filmagens feitas diretamente da casa dela sobre o desenrolar da obra; e a Edna Murad, vice-presidente do Corinthians, que fala sobre a sua história, desde o período em que mal podia ir aos estádios até chegar a ocupar um dos cargos mais importantes na alta hierarquia do time.

Segundo Marcela, a própria realização do documentário representa um passo a mais nessa disputa de narrativas. Em seu discurso na noite de estreia, ela fez questão de alertar a plateia – majoritariamente formada por homens – sobre a falta de mulheres negras na indústria cinematográfica nacional e a importância do reconhecimento às famílias comandadas por mães solo, como a sua própria.

“Pra mim, foi uma alegria sem fim poder chamar a minha mãe ali, falar o nome dela, ela levantar e ser aplaudida e eu falar que ela era uma das responsáveis pelo que estava acontecendo naquela tela. E falar da representatividade negra, a minha mãe como mulher negra, eu como mulher negra, minha família, e como tudo isso é um ciclo de todas as mulheres da minha família que abriram mão de alguma coisa para que eu tivesse a oportunidade de falar, de ter aquele palanque, de ter aquele microfone na minha mão.”

E o futebol feminino? Para a diretora, a ampliação do acesso é um dos passos cruciais para a categoria conquistar ainda mais espaço e o interesse do público.

“Este ano eu entrei num clima de Copa e isso me fez pensar bastante. Comecei a me questionar, enquanto mulher e militante, não consumidora e não conhecedora do futebol feminino. Fiquei me cobrando, eu preciso ter acesso a isso porque, se eu quiser assistir ou não, eu preciso ter acesso. Pra que eu tenha familiaridade com as jogadoras, pra que eu passe a gostar, conhecê-las pelo nome, conhecer as características de jogo, tudo o que eu faço com o meu time masculino, pra que eu passe a desenvolver esse interesse pelo time feminino, eu tenho que começar a enxergar, ter a possibilidade de escolher.”

Essa mudança, segundo Marcela, é lenta e gradual, mas já está acontecendo. As resistências, como aquelas que ela mesma enfrentou, começam a ceder e o futebol passa a ser, como deveria, um esporte de todas e todos.

Arte: Gabriela Costa /  Imagens: iStock by Getty Images / Texto: Renato Barreto

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